terça-feira, 22 de outubro de 2013

Esperem, esperem! Voltando um bocadinho atrás…

(onde se apresenta os protagonistas desta aventura)

 
Eu sou uma espécie de amálgama entre uma prestadora de serviços e uma gestora de tarefas. Tenho uma licenciatura em economia doméstica, mestrado em gestão de conflitos e doutoramento em life coaching. Quando nada disto resulta, mando dois berros. Sou a pessoa que alimenta as feras, trata da roupa (no caso do Vasco é, sobretudo, cosê-la), limpa a barraca, conduz o imaginário-móbil, ajuda a fazer trabalhos de casa, distribui ralhetes e castigos e beijinhos (nem sempre em proporções equitativas). Nos tempos livres, sou professora de línguas e tradutora. Tem dias em que chego a falar quatro línguas e acho que vou dar em doida. Portanto, a minha maior proeza é conseguir manter a sanidade mental. Pronto, alguma sanidade mental. Vá… a necessária para isto andar para frente sem descarrilar.
 
O Diogo tem 12 anos e já calça o 43. É claramente arraçado de ogre. Consegue comer este mundo e o outro, antes mesmo de eu me sentar à mesa. E, pouco depois, diz que tem fome. É o crânio da família, tem mais ideias idiotas por nanosegundo do que nós todos juntos. É conhecido como o escravo de serviço: passeia o Fuas à tarde, limpa a gaiola dos bichos pequenos e solta-os no final do dia, limpa o quarto ao sábado. Fora isso, diz que estuda que se desalma mas não há provas concretas, toca muito pouco trompete, aplica-se desalmadamente no solfejo 5 minutos antes de a aula começar. Devora livros de ficção científica, enquanto troca sms com os amigos em duas línguas diferentes, joga no iPod, vê um filme e conversa comigo. Apesar disso, a sua maior façanha é conseguir roer as unhas dos pés. E o conhecimento enciclopédico sobre Star Wars.
 
O Vasco é o palhaço do circo. Tem bichos-carpinteiros nos pés e no corpo e na cabeça. Toca violino e está sempre a cantarolar. Come formigas, lambe lesmas, rouba a ração do cão e devora estalactites que tira debaixo dos carros no Inverno, mas vomita se o obrigar a comer uma folha de alface. Nunca esteve doente na vida, cai normalmente duas vezes por noite da cama abaixo e vem sempre da escola com as calças rasgadas. Lê BD em voz alta como se estivesse na Idade Média. Escreve emails absolutamente deliciosos. Domina três línguas na perfeição: português, francês e emigrantês. O seu maior feito é ter sido mandado para a rua na aula de solfejo com apenas 6 anos. Está visto que tem um futuro brilhante pela frente.
 
D. Fuas Roupinho é um cão de caça, que foi adoptado já adulto. E, basicamente, está tudo dito. Não pode ser solto porque foge como se o espancássemos diariamente. Consegue cheirar uma migalha de bolacha podre a quilómetros. Persegue incansavelmente tudo quanto mexe. Faz chichi no chão quando lhe ralhamos (se for um homem, basta olhar fixamente) e tenta morder os tornozelos dos miúdos quando grito com eles. Um aliado, portanto. Tem uma função de aspirador que é activada automaticamente quando o Vasco se senta à mesa. Ah… dorme de patas para o ar, com a língua de fora.
 
O Peanuts é um coelho completamente tarado. Era suposto ser anão, mas deve ser do ponto de vista do Gulliver. Pede festas à bruta como se fosse um cão e adora mimo. Descobri (depois de o adoptar, parva!) que costumava andar pela casa em liberdade. Por isso, passa a vida a dar cabeçadas na porta para ver se a abre. Já destruiu duas gaiolas com a brincadeira. E quando digo gaiolas, refiro-me a jaulas com 1mx0.8m. Deve ser familiar distante do Tambor, porque bate furiosamente com a pata no chão para nos acordar a todos de madrugada.
 
O Dó Ré Mi é um porquinho da India que deve maldizer o dia em que veio parar a esta selva. É uma criaturinha nervosa que não deixa nada a desejar a um cavalo de corridas em termos de velocidade. É tão feio que chega a ser bonito. Adora festas atrás das orelhas e exprime o seu contentamento como se fosse um porco na matança. Fizemos-lhe uma casinha de madeira este fim-de-semana e nunca mais ninguém o viu.
 
 

A nossa aldeia

(onde se explica porque adoramos viver no fim do mundo)

 
Malempré fica encaixada num vale, a 4 km da vila mais próxima. A rua principal desemboca, em cima e em baixo, numa floresta sem saída. Em pleno inverno, quando os dias são muito curtos e escuros, fica coberta de neve e estamos ligados ao mundo por uma única estrada transitável, de onde saltam veados, javalis e outros bichos estranhos. Dizem que, quem aqui chega, nunca mais se quer ir embora. Desconfio que é bem capaz de ser verdade.
 
Viemos cá parar por acaso. Alugar casa, na Bélgica, é tarefa hercúlea. E uma trabalhadora independente estrangeira, sozinha com duas crianças e um cão, não é cartão-de-visita que se apresente. Vi muitas casas, recebi muitas negas. Até que o meu “pai belga”, um apaixonado pelas Ardenas, descobriu esta casa perdida no fim do mundo. Admito que vim vê-la em desespero de causa. Mas, quando parei o carro e vi um Santo António numa cornija, soube que estava no sítio certo. O senhorio alugou-me a casa sem pedir quaisquer documentos e, ao perceber a nossa situação, disse que mais tarde tratávamos da caução… passou-se um ano e continuo à espera.
 
Em Malempré, os duzentos e tal habitantes conhecem-se todos. E, mesmo que não se conheçam, dita a regra que se cumprimentam como se fossem amigos de longa data. Toda a gente se trata por tu. Os miúdos param sempre para dar um beijinho. E os velhotes dois dedos de conversa. Aqui, toda a gente se conhece há tanto tempo que não há hierarquias. A senhora que faz limpezas durante a semana é a professora de equitação ao Sábado.
 
Claro que nem todos se dão bem, há picardias e vizinhos desavindos. Numa das (muitaaas) vezes em que fiquei presa na neve, a primeira pessoa que passou foi, como não podia deixar de ser, a vizinha que não me fala. Parou com toda a naturalidade para me levar os miúdos e avisar que ia pedir para alguém me vir rebocar com um tractor. No dia seguinte, à porta da escola, já não me falava outra vez.
 
Em Malempré não há supermercado, nem mercearia… nem sequer uma simples padaria. Mas já me apareceram à porta com abóboras gigantes, ovos todos sujos, gnochis e pizzas caseiras, marmelada, alhos franceses pequeninos, cogumelos cheios de terra, figos, especiarias árabes e meio javali (por desmanchar, obviamente). Como também não há cafés, os sms habituais andam todos à volta do mesmo assunto: “Vens cá a casa beber café, depois de levares os miúdos à escola?”, “Daqui a 10 min passo por aí para beber café contigo, ok?”, “Socorroooo, não tenho filtros!” (este foi meu, claro).
 
Obviamente, não há “serviços”, por assim dizer, mas toda a gente tem uma profissão fora do seu horário de trabalho. A cabeleireira corta cabelo em casa nas folgas, o mecânico dá um jeito nos carros à noite, o reformado que ia a passar quando me debatia para tirar a máquina de lavar do carro, ajudou a trazê-la para casa e ainda me fez a instalação.
 
Em Malempré impera a lei de Lavoisier: nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. Quando nevou pela primeira vez, no ano passado, uma vizinha deu-me um fato de neve para o Vasco que já não servia ao filho, que agora vai herdar o fato do Diogo. Roupa, brinquedos e jogos correm a aldeia, passando de uns para os outros. A ideia não é só ajudar, mas principalmente reaproveitar. Em Maio, faz-se uma venda de garagem pelas ruas da aldeia para vender os mamarrachos que deixaram de ser úteis. Foi assim que o Diogo comprou uma televisão por 15 euros, depois de ter estado um dia inteiro a vender tralha.
 
Em certos aspectos, parece que a aldeia parou no tempo, não temos fibra óptica, nem novas linhas telefónicas disponíveis. Noutros, estamos na vanguarda. Em breve, graças a um grupo de habitantes empenhados, Malempré estará ligada em rede a uma caldeira comum, alimentada com dejectos da indústria madeireira local, para termos aquecimento central mais ecológico e económico.
 
Em Malempré não há chuva, frio ou neve que assuste a criançada. Vão a pé ou de bicicleta para a escola, tanto de Inverno como de Verão. Quando as estradas estão cobertas de neve, vão de trenó. E, no final da tarde, vai tudo para a rua brincar até às seis da tarde. Miúdos de todas as idades brincam juntos na rua, jogam consolas em casa, ajudam os adultos nas quintas. Apesar de terem telemóvel, preferem ir bater à porta de casa uns dos outros. Os cães da aldeia costumam acompanhá-los, o que faz uma algazarra desgraçada.
 
Na realidade, animais é coisa que não falta por aqui. Por todo o lado se vêem vacas, ovelhas, burros e cavalos. A bicharada é encarada como um meio de subsistência, excepto para os meus filhos, que param para fazer festas a tudo quanto mexe. Os animais de estimação vivem na rua e só entram em casa para comer e dormir. Os únicos que passeiam o cão com trela somos nós, mas D. Fuas Roupinho é um cão de caça estúpido que não distingue um coelho de um touro e não sabe uma palavra de francês.





domingo, 20 de outubro de 2013

A Bélgica?! Mas porquê a Bélgica?!

(ou como uma decisão aos 15 anos pode mudar a nossa vida)


Aos 15 anos decidi fazer um programa de intercâmbio da YFU, só para adiar um ano a escolha da minha área de estudos. Escolhi ir para Inglaterra, fui parar à Bélgica. Queria melhorar o meu inglês, acabei por aprender francês. A família de acolhimento perfeita, escolhida pela organização, afinal era completamente doida. Mudei-me para casa de uma família com 5 filhos para quem fazia babysitting, que vivia numa aldeia longe de tudo, a braços com o desemprego. Considero-os como a minha família, são os meus “pais” e “irmãos” belgas. Nunca perdemos contacto, passei muitas férias na Bélgica. Hoje, são “avós” e “tios” dos meus filhos. São a minha rede de apoio aqui. Para quem emigra sozinha com duas crianças é importante saber que, caso aconteça alguma coisa, há quem assegure os serviços mínimos de manutenção.

Por isso, quando decidi partir, a escolha pareceu-me lógica. A Bélgica fica apenas a 2500 km de Portugal, podia vir de carro. Fica no coração da Europa e oferece uma visão cosmopolita do mundo, como sempre sonhei dar aos miúdos. Se não arranjasse trabalho na região de Liège, em pouco mais de uma hora estava em França, na Holanda, na Alemanha ou no Luxemburgo, abrindo assim o leque de hipóteses. É um país onde quem domina quatro línguas podia facilmente arranjar emprego, com leis de protecção à família bastante boas. Para além de ser um país onde ainda se ganha bem, tendo em conta o panorama europeu, e que não tem os problemas sociais da França.

[Claro que tudo isto acabou por se revelar bem mais complicado do que inicialmente supus, mas isso é outra história…]