quarta-feira, 20 de novembro de 2013

A minha vizinha maluca e o hamster assassino

(onde se apresenta o mais novo habitante desta casa)

 

Tenho uma vizinha de quem gosto muito. É meia maluca. Muito boa pessoa, sempre disponível para ajudar… mas é meia maluca, pronto. Digamos que é uma miúda de 15 anos encarcerada num corpo de 35. Podem imaginar o conflito interior. O pior é que ela tem imenso tempo livre para fazer maluquices. Os quatro filhos adoram a loucura da mãe e o marido vive para lhe satisfazer os caprichos infantis. Ah… e mora a dois passos de nossa casa.

Na sala, tem três gatos, duas chinchilas, dois coelhos, quatro hamsters, um aquário cheio de peixes e duas gaiolas enormes com passarinhos com nomes exóticos. E um lama, que só ficou na rua porque não cabia na porta. Isto era ontem, porque hoje já não se sabe. Esta minha vizinha adora animais. Volta e meia, apaixona-se por uma nova espécie. Lê tudo o que encontra na Net, compra uns quantos exemplares e a tralha toda requerida. Passado uns tempos, farta-se. É uma espécie de tédio que se lhe dá. Nessa altura, desfaz-se da bicharada toda e arruma a tralha no sótão. Houve a fase dos furões, dos porquinhos-da-Índia, dos cães, dos ratinhos anões, dos mandarins, etc.

Já estão a ver onde raio fui desencantar o coelho selvagem que assombra as nossas noites. O tal que, só depois de já estar cá em casa, soubemos que vivia em liberdade e que, portanto, tem um ódio visceral a qualquer tipo de prisão. É que a minha vizinha gosta de oferecer os animais quando o amor acaba. Às vezes, é um bocadinho difícil impingi-los. Não é que ela minta, mas não diz logo toda a verdade aos novos proprietários. Em Malempré, já não engana ninguém. Excepto aqui a parva de serviço, claro.

No outro dia, mandou-me uma mensagem a perguntar se não queria um porquinho-da-índia porque, afinal, não achava lá muita piada ao bicho. Agradeci, mas disse que a gaiola do Peanuts e do Dó Ré Mi era demasiado pequena. Respondeu que me podia dar uma gaiola maior. Agradeci mais uma vez, mas expliquei que o quarto dos miúdos não tinha espaço para uma gaiola maior e que não podia ficar no andar de baixo por causa do Fuas. Sem mais argumentos, acabou por desistir.

Ontem, passei por casa dela para lhe dar um saco de roupa que deixou de servir aos miúdos. Enquanto bebíamos um café, pergunta-me se não quero um hamster amoroso… que estava todo mordido, que não se dava bem com os outros, que ainda acabava por morrer. Disse-lhe que não tinha gaiola e que não podia estar a fazer mais despesas este mês porque tinha os anos do Vasco. Respondeu logo que oferecia o hamster ao Vasco, juntamente com a gaiola. Agradeci muito a oferta, mas expliquei que os hamsters fazem barulho à noite e que os meninos não iam conseguir dormir com ele no quarto a roer as grades. Ela levantou-se e foi buscar uma gaiola daquelas todas modernas, tipo aquário, sem grades. Desta vez, fui eu que fiquei sem argumentos e desisti. Saí de lá com uma mesa, um aspirador, dois alhos franceses e um hamster (mais a respectiva gaiola, bebedouro, comedouro, casinha, roda para brincar e mais mil e uma porcarias que não faço ideia para que servem).

À noite, a minha vizinha meia maluca fez-nos uma visita para ver como passava o hamster. O Vasco estava nas nuvens com a prenda de anos antecipada. Decidiu chamar-lhe “Robin des Bois”. A minha vizinha olhou para o hamster, que estava todo enroladinho nas mãos do Diogo, e deixou escapar, como quem não quer a coisa: “Daqui por uns dias, se notarem que a barriga está maior, é melhor deixarem de lhe pegar porque pode estar grávida…”  “Grávida?! Mas não era um macho?”  “Não, é uma fêmea, o macho morreu. Ela arrancou-lhe a cabeça.”  “Como?!”  “Elas normalmente fazem isso quando estão grávidas, para proteger os filhos.” HEIN?!?!

Esta tarde fomos espreitá-la, preocupados. Desde ontem que a bicha só dormia. Acordámo-la meigamente. E descobrimos horrorizados que guincha. Mas é que guincha que se farta. Numa casa onde imperam os espécimes masculinos, finalmente há outra gaja… assassina, grávida e histérica. Está certinho.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Amor é... andar aos caixotes

(o que uma pessoa é capaz de fazer para poupar 125 euros)



No Verão passado, o Vasco perguntou se podia ter uma mochila da Kipling quando entrasse para o 2º ano. Eu devia estar em piloto automático porque disse que sim, embora não fizesse a mínima ideia do que isso fosse. Quando fomos aos saldos, ele lembrou-se da promessa e fomos à procura das ditas mochilas. A mim escapou-me um “F***-**!”, ao Diogo um “Porra!”. E largámos os dois a rir à gargalhada. As Kipling rondavam os 125 euros… em promoção. Houve suspiros, houve choro, houve drama, houve “Mas tu disseste que sim…”. Expliquei-lhe que me recusava a dar um balúrdio daqueles por uma simples mochila, tanto mais que no 1º ano ele tinha conseguido destruir três. E peguei numa mochila horrorosa do Pooh com reflectores e protecções, que custava a módica quantia de 2.50 euros. Dois calduços depois, até o irmão gabava o achado. Mas o Vasco estava profundamente triste. E desiludido comigo.
 
Decidida a arranjar uma Kipling, fosse como fosse, deitei de imediato mãos à obra. Comecei pelos sites de coisas em segunda mão. Só encontrei duas, mas custavam perto de 50 euros. No ebay ainda era pior. Estava fora de questão pagar mais por uma coisa usada do que sou capaz de dar por uma nova. Voltei-me para as vendas de garagem, as feiras de artigos de criança usados, as lojas em segunda mão… Passei o Verão a vasculhar quinquilharia, com um Vasco esperançoso atrás. As poucas mochilas que encontrámos, não tinham o gorila. Sim… fui rapidamente informada que a Kipling perde todo o seu valor sem a merda do peluche minúsculo pendurado, tipo porta-chaves. Mudei de estratégia: primeiro tinha de encontrar um gorila qualquer da Kipling que pudesse meter numa mochila usada. Ah… mas o gorila tinha de ser da mesma cor da mochila, senão não servia. Por esta altura, já eu tinha repetido o impropério inicial um cento de vezes…
 
No início de Setembro, arrastei um ofendido Vasco até à escola, com a lindíssima mochila do Pooh às costas. Quando chegámos, recebi um olhar fulminante: os miúdos todos tinham mochilas da Kipling. Fiquei com náuseas só de ver os malfadados gorilas a balouçar. Assim de relance, calculei que devia haver uns milhares de euros naquele recreio. Raios partam! Que diabo de mãe dá 125 euros (se for precavida e comprar o material nos saldos, como eu) por uma porcaria de uma mochila de uma só cor, sem gracinha nenhuma?!?! Sim, porque os últimos modelos coloridos da Kipling custam mais de 165 euros! Inquiri as outras mães e fiquei a saber que: a) as Kipling têm garantia, b) custam aquele preço, mas compensa porque duram uma vida, c) quando um fecho se estraga ou uma peça se parte – o que nunca acontece, de qualquer modo – a marca faz a reparação de graça (se calhar até dão uma mochila de substituição), d) podem ser lavadas as vezes que se quiser, que nunca perdem a cor, o tecido não esmiúça, continuam como novas. Resumindo, o mundo divide-se entre os pais inteligentes que compram duas Kipling que acompanham os filhos durante os 6 anos da primária e os pais burros que compram 3 mochilas rascas por ano.

Depois desta instrutiva conversa com as outras mães à porta da escola, já não se tratava apenas de cumprir uma promessa feita sem pensar para fazer o meu filho feliz… a questão tornou-se pessoal. E eu não sou pessoa de virar costas a um desafio: o Vasco havia de ter uma Kipling e havia de dar cabo dela em menos de um nada, como faz com tudo o resto onde põe a mão, os joelhos, os pés… Tinha de provar a esta gente que as abençoadas Kipling não são à prova de Vasco. Eis-me, portanto, de novo à caça de um gorila e de uma mochila em segunda mão. Sim, porque eu gosto de uma boa luta, mas continuava a recusar-me a dar 125 euros por uma simples mochila! Uma vizinha acolita da Kipling com três filhos (façam as contas…), apiedou-se de mim e ofereceu-me um gorila ranhoso que andava lá por casa desde que as mochilas da pré-primária tinham sido substituídas por outras maiores (e beeeeem mais caras). Iupi, já não faltava tudo!
 
Este sábado, aproveitámos não estar a chover para ir ao centro de reciclagem fazer a triagem do lixo. E… o Vasco descobriu uma Kipling no contentor dos encombrants! Eis o diálogo que se seguiu:
 
Eu: É mesmo uma Kipling?! Vou lá ver…
Diogo: Ó mãe, não te vais meter ali dentro para ir buscar a mochila, pois não?
Vasco: Vai, mãe, vai!
Eu: Ai não que não vou!
Diogo: É ilegal, não podes levar o lixo que as pessoas depositam aqui.
Vasco: Vai, mãe, vai!
Eu: O lixo de uns é o tesouro de outros. Uns deitam fora, outros aproveitam.
Diogo: Oh… para estar no lixo, aposto que está estragada.
Vasco: Vai, mãe, vai!
Eu: As Kipling não se estragam, são à prova de tudo… menos do Vasco.
Diogo: Mas deve estar suja…
Vasco: Vai, mãe, vai!
Eu: Lava-se! Vá lá, ajuda-me aqui a descer…
Diogo: Ó mãe, por favor, não vais andar aos caixotes que eu tenho vergonha…
Vasco: Vai, mãe, vai!
Eu: Tecnicamente não é um caixote do lixo, é um contentor. Ajuda-me a entrar, anda lá…
Diogo: Vou esperar no carro. Que vergonha! Não vos conheço…
Vasco: Vai, mãe, vai!
Eu: Vê lá se está aí alguém a ver, Vasco…
Vasco: Não está ninguém a ver, mãe, podes ir! Quer dizer, acho que há câmaras…
Eu: Já cá canta! É mesmo uma Kipling! Ih, ih, ih! Depressa, mete-te no carro!
Vasco: Espera aí, mãe, não posso correr depressa… tenho o pé partido!
Eu: Não querias uma Kipling?! Cala-te e corre, pá!

Bom… infelizmente, o Diogo tinha razão num aspecto. A mochila não estava estragada, mas estava toda manchada de tinta na bolsa da frente. Caraças, tinha finalmente o gorila e a mochila, alguma coisa se havia de arranjar! Duas máquinas a 60º graus depois, percebi que isto ia exigir medidas mais duras. A parte boa é que tanto a mochila como o gorila tinham ficado com uma cor de burro quando foge muito semelhante. Cortei o forro de uma das 1001 bolsas interiores e cosi a abertura para não poder voltar a ser utilizada. Descosi o símbolo e forrei a bolsa da frente. Voltei a coser o símbolo. Passei o Domingo a cortar, a descoser, a coser… Tenho os dedos cheios de feridas porque, verdade seja dita, a porcaria da mochila é sólida e o tecido resistente. Mas fiquei orgulhosa do meu trabalho de costura, ninguém diria que a mochila não acabou de sair da loja (excepto pela cor um bocadinho estranha). Pendurámos o gorila. Trocámos as coisas da belíssima mochila do Pooh (que já estava rasgada, de qualquer modo). E eis um Vasco feliz, finalmente.
 
Agora… let the games begin! Veremos quanto tempo vai durar a caríssima mochila maravilha nas mãos do Vasco!

 

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

E a coisa pequena, perguntam vocês?

(mãe e professores à beira de um ataque de nervos)

 
Acusação:

·         O Vasco não consegue estar quieto um minuto. Não tem bichos-carpinteiros… todo ele é um bicho-carpinteiro. Mesmo engessado até ao joelho continua a correr, a saltar, a jogar à bola.
 
·         Está constantemente a falar. Quer a professora e os colegas estejam a ouvir ou não. Quando isolado de todos, num canto, o Vasco continua a falar consigo próprio. Em voz alta. Diz que às vezes também canta.
 
·         Está sempre a cair (da cama, do sofá, da cadeira da escola, etc.).
 
·         As coisas que o Vasco tem na mão estão sempre a cair (os lápis, as canetas, os cadernos, etc.). Também pode acontecer saltarem-lhe das mãos, normalmente para cima de algum desgraçado.
 
·         Não tem qualquer destreza manual. Quando pega na tesoura, todos se afastam. Gasta um tubo de cola inteiro para colar um simples recorte. Quando começa a pintar, não pára nas linhas e continua pela secretária a fora, mãos, folha do colega do lado…
 
·         É desleixado e badalhoco. Não lhe faz confusão nenhuma entregar um trabalho de casa amachucado, pisado, rasgado, escrito-apagado-reescrito-apagado-re-reescrito. O conteúdo é mais importante que a forma.
 
·         É preguiçoso. Demora tanto tempo a escrever um A maiúsculo como uma criança chinesa a escrever 25 caracteres.
 
·         Não tem qualquer noção do tempo, do stress, da pressa.
 
·         Por sistema, é contra a lei, a ordem, as obrigações, as regras.
 
·         É completamente imune a ralhetes, ameaças e castigos. O medo é coisa que não lhe assiste.
 

Contraditório:

·         O Vasco tem 6 anos, é o menino mais novo no 2º ano. E na aula de solfejo. E na aula de violino.
 
·         É muito bom aluno. Detesta ter más notas. Um 6/10 é coisa para o deixar a chorar uma tarde inteira.
 
·         Tem uma memória de elefante. E uma esperteza de rato.
 
·         Salta do português para o francês e vice-versa a uma velocidade estonteante. E fala igualmente bem as duas línguas. Tem um excelente ouvido e já diz alguma frases em inglês, muito úteis: "May the force be with you", "You shall not pass!"... 
 
·         É uma criança naturalmente feliz, de riso fácil.
 
·         É muito meiguinho.
 
·         Tem sempre uma última palavra a dizer, uma resposta pronta, uma tirada que não lembra ao diabo. Consegue arrancar gargalhadas a um mimo. E, para mal dos nossos pecados, este último ponto tem o poder de anular todos os outros.
 


 
 
[Quando cheguei da reunião na escola, perguntou se podia comer um doce. O irmão respondeu por mim: "Achas que é a melhor altura para pedires doces?! A mãe acabou de falar com a tua professora, Vasco...". Virou-se para mim todo dengoso, abraçou-me e pôs-me as mãos na testa: "Estás tão quentinha, mãe! Acho que tens febre. Coitadinha!" Hum, hum... obviamente, o problema é meu, não dele.]