quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

A nossa árvore de Natal e tudo o que eu perdi

(onde se percebe que há bombas que explodem ao retardador)


Vim-me embora de Portugal apenas com o que cabia no velho Saxo. Pouca coisa, portanto. Não penso no que deixei para trás. Primeiro, porque pertence ao passado. Foi uma outra vida que terminou, uma porta que se fechou para sempre. Segundo, porque não há nada que possa fazer para recuperar os meus pertences, por isso, nem vale a pena pensar nisso.

Meses depois de aqui estar, senti falta dos dois livros aos quais volto muitas vezes: Winnie-the-Pooh de A. A. Milne e Stranger in a Strange Land de Robert A. Heinlein. A família fez-mos chegar. E sou muito mais feliz desde que os vejo diariamente. Mais tarde, recuperei as fotos que ainda não consigo ver, mas que achei importante guardar para os miúdos. A colecção de moedas do meu avô Franclim e a máquina de café de balão da minha avó Clarisse. E é tudo.

O Natal passado foi uma época muito difícil. Eu adoro o Natal, apesar de ser ateia desde que me conheço como gente. O Natal, para mim, é a festa da família. Para a família. E eu passei as festas longe de tudo e todos. Longe dos meus filhos. Decidi que não fazia árvore de Natal, não escrevia postais de Natal, não comprava prendas de Natal. Decidi que ia ignorar o Natal. Como não sou de ficar pelos cantos a chorar, decidi passar esses dias na cozinha a fazer comida para dar à minha “família belga” e vizinhos. A minha nova família de coração a quem tanto devo na construção da pessoa que hoje sou. Compota de abóbora, doce de pêra, bolonhesa de soja e carbonara de tofu em frascos para pôr no esparguete, bolinhos de figo, brigadeiros… A minha imaginação não teve limites. Passei dias a cozinhar sem conseguir comer. Só quando voltei a abraçar os meus filhos no aeroporto é que a fome e a alegria voltaram.

Este ano tudo é diferente. E decidi celebrar essa diferença. Tenho os meninos comigo, tenho tudo o que preciso. Portanto, decidi fazer árvore de Natal, escrever postais de Natal, comprar prendas de Natal. Quer dizer… comprar coisas para fazermos prendas de Natal, que é muito mais engraçado. Já andei à procura de novas ideias e receitas na Net. Está tudo a postos. Principalmente, o espírito natalício.

Os miúdos tentaram convencer-me a pegar num machado e ir à procura de um pinheiro verdadeiro nos bosques. Não fui em conversas. O espírito natalício, porém ecologista, impunha um pinheiro artificial. O espírito economicista impunha uma coisa barata. O sentido estético impunha algo minimamente bonito e não muito grande, que a casa é pequena. Depois de muita procura, lá acabámos por achar um pinheiro de metro e meio por 16 euros. Só faltavam os enfeites. O meu amor, adverso ao Natal e a tudo o que ele representa, foi comigo comprar os enfeites para a árvore. Parecia que ia para a morgue, coitado. Mas a presença dele foi preciosa. Como sempre.

Enquanto percorria os corredores dedicados ao Natal, senti um aperto do coração. Fiquei sem ar. Lembrei-me de tudo o que perdi… De repente, lembrei-me de tudo o que perdi. E foi tanto! As bolas de vidro que comprei quando estava grávida do Diogo. O pai Natal enorme que tocava músicas de Natal que o bizavô dele me deu quando eu tinha 18 anos, mostrando-me que se pode ser adulto sem perder a criança que há em nós. Os anjos de terracota que a mãe do meu amigo Rui me ofereceu quando o Vasco nasceu. A bota de feltro com marcas coloridas dos dedos pequeninos de um Diogo de 5 anos. O suporte para velas com a marca dos dentes de um Vasco comilão ainda bebé. Todos os enfeites que os meus filhos foram fazendo ao longo dos anos na escola, que davam um toque especial a esta época. Que mostravam o passar dos anos. Que contavam a nossa história.

É incrível como há tanta coisa que não me lembro dos últimos tempos passados em Portugal, mas recordo cada pequenino enfeite que saía da caixa vermelha guardada no sótão. E percebi que há bombas ao retardador. Podemos enterrar recordações no fundo da nossa memória, elas acabam sempre por vir ao de cima quando menos se espera. Senti-me sufocar com esse peso. O meu amor, que não tinha maneira de saber o que me passava pela cabeça, viu apenas o que me passava pela cara. Estendeu-me a mão e saímos dali para fora o mais depressa possível.

Passados uns dias, depois de me ter despedido mentalmente de tudo o que deixei para trás, fiz nova tentativa. O Vasco, este meu filho que tem a capacidade de fazer magia, escolheu bolas azúis (a condizer com as paredes!), pequenos mochos e renas. Um ursinho. Esperei estar sozinha para montar a árvore. E voltei a fazer contas com o passado. Arrumei definitivamente esta parte da minha vida numa gaveta da minha memória. Espero ter feito as pazes com um passado que afinal, de tão recente, às vezes ainda dói um bocadinho. Dei mais uns passinhos em frente, acho. E, pronto, enquanto forem dois passos para a frente e um para trás, está tudo bem.
 
 

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Encontros imediatos de terceiro grau...

(Ah... saudades dos tempos em que ver um pato a passear

pelo Campo Grande era uma aventura)


Um dos nossos caminhos habituais são os vinte e tal quilómetros que separam Malempré de Barvaux, onde os miúdos têm aulas de solfejo duas vezes por semana. É uma longa estrada que atravessa aldeias e bosques, com muitas curvas sinuosas. No Verão faz-se lindamente, mas no Inverno a conversa é outra, porque está fora da rota dos limpa-neves. Habitualmente, fazemos o caminho de regresso no lusco-fusco do final da tarde, quando a bicharada decide que é hora de sair para comer. Enquanto eu mantenho os olhos na estrada, o Diogo está concentrado a procurar animais e perigos potenciais. Uma espécie de copiloto, portanto. O Vasco está sempre distraído e quase nunca consegue vê-los a tempo. No ano passado, vimos veados, raposas, ouriços, uma família de javalis, coelhos, muitas aves de rapina, um animal de grande porte não identificado. Vacas e ovelhas foragidas do rebanho também são aparições habituais.

Há duas semanas, íamos a passo de caracol atrás de uma camioneta, quando a parte detrás se abriu e começaram a saltar ovelhas que nunca mais acabavam. Eu fiquei tão assarapantada, que nem sabia se havia de rir ou chorar. Decidi buzinar, mas acho que não deve ter sido a melhor opção porque desataram todas a fugir assustadas. Ontem à tardinha, um veado enorme saltou-me para a frente do carro. O Diogo, que nestes últimos tempos vive colado ao ecrã do telemóvel, também já só o viu quando estava em cima de nós. Felizmente, não havia neve e consegui travar a tempo. Não sei qual de nós ficou mais assustado. E ficámos assim, um a olhar para o outro uns momentos. Ambos a arfar. Até que o mastodonte se dignou a seguir caminho. Mas desta vez o Vasco conseguiu vê-lo mesmooooo bem!




segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Falar ou não falar de sexo, eis a questão

(onde se explicam as razões para o súbito desaparecimento desta mãe)



Uma noite destas, cheguei derreada da escola… que isto de falar duas línguas em permanência e ensinar uma terceira tem muito que se lhe diga. Enquanto o meu amor me servia o jantar requentado, anunciou com um sorriso que havia moura na costa (usando uma expressão qualquer parecida, que esta gente nunca teve mouros na costa). Parece que o Diogo tinha ido passear o cão à chuva durante séculos de telemóvel atrás. E, depois, ainda precisou de ir “apanhar ar” mais umas quantas vezes… de telemóvel na mão, obviamente. Eu ri-me. Achei ternurento. Pensei que o meu adolescente tinha entrado numa nova etapa da sua vida.
 
Nos dias seguintes, a coisa intensificou-se. A olhos vistos. Umas vezes a saca-rolhas, outras espontaneamente, lá ficámos a saber a história desta paixão assolapada. Com muito mais detalhes do que, por vezes, gostaríamos (e estávamos preparados). Numa espécie de frenesim esquizofrénico, ora ia contando tudo, mostrando fotos e sms trocados, ora recusava-se sequer a dizer o nome da criatura que lhe tinha conquistado o coração.
 
Subitamente, a nossa vida passou a ser regida por controlo remoto. Ela vai estudar, ele vai estudar. Daqui a três horas encontram-se novamente (no chat do Facebook, claro). Ela vai às compras com a mãe, temos duas horas de liberdade. Ir ao cinema?! Hora e meia de telemóvel desligado quando ela está disponível?! Nem pensar! Será que não podemos começar a jantar mais cedo… tipo lá para as 18h, como todos os belgas?! Etc… etc… etc…
 
Os sms sucediam-se em catapulta e o rapaz começou a ficar sem imaginação para tanta conversa romântica. O meu amor ia ajudando, qual Cyrano de Bergerac. Já farta de tanto romantismo, disse-lhe para lhe perguntar o que ela queria ser quando fosse grande. “Mãe”. Como?!?! Alto lá, acabou-se a brincadeira! Num ápice, desci à terra. As fotos da miúda amorosa de biquíni na piscina, as respostas sempre prontas, muito mais maduras do que seria de esperar, o pronome possessivo seguido dos nomes carinhosos com que o trata e as declarações de amor inflamadas perderam a inocência toda em segundos. Um alarme soou dentro da minha cabeça. Muito, muito alto.
 
Enquanto tentava gerir uma omnipresente namorada, um cão de fila apaixonado e uma coisa pequena em profundo sofrimento, ao ver o irmão escapar-lhe por entre os dedos para voos mais altos, os dias seguintes foram de puro questionamento. Pensei bastante. Rebobinei o filme da minha própria adolescência. Tentei pôr-me no lugar dos adolescentes de hoje. Pela primeira vez desde que aqui estou, senti falta da minha pediatra (primeiro minha, depois deles), que à distância de um telefonema sempre me acalmou as dúvidas mais disparatadas.
 
Quando se deve passar da conversa sobre os factos da vida – que vistas bem as coisas até é muito bonita e romântica – para a conversa mais terra-a-terra? Quando se deve fazer o salto entre o “agora que já sabes a parte física toda, vamos lá falar de coisas sérias”? Quando se deve passar da teoria à prática, dando-lhe a entender que esperamos que a prática ainda esteja a anos-luz, mas nunca fiando? Como saber onde está a fronteira entre o ainda-é-cedo e o já-é-demasiado-tarde? Como saber qual é o momento certo, a maturidade certa, a pergunta certa que irá despoletar a nossa resposta? De que forma se pode apelar ao sentido da responsabilidade quando ainda se tem um pé na infância? Como raio posso confiar em dois miúdos se só eduquei um? E ainda só vou a meio do trabalho.
 
Sempre fui defensora da educação sexual na escola. Em casa, fala-se de afectos. Na escola, fala-se de sexo. Depois, desde que haja abertura entre pais e filhos, faz-se a ponte. O problema é que, neste caso, não me quero arriscar a esperar pela altura em que a escola acha apropriado introduzir estes conteúdos. A escola usa o tempo da mediania, nivela pelo meio: para uns, há-de ser precoce, para outros, o momento certo e, para uma minoria, há-de ser demasiado tarde. E se há assunto que não pode ser abordado demasiado tarde é este…
 
Portanto, pedi ao meu amor que despisse o fato de Cyrano de Bergerac, deixasse a espada e as belas palavras de lado. Pedi-lhe que se armasse de uns preservativos e de uma coragem infinita para ter uma conversa mais… hum… demonstrativa, por assim dizer. Claramente explícita, pronto. Acho que nem um, nem outro, teríamos estado muito à-vontade se eu tivesse tomado a iniciativa. E, para ter a certeza de que a mensagem passava, era preciso que o mensageiro estivesse à altura da sua missão. E esteve, claro.
 
Como bom cavaleiro, finda a sua incumbência, pegou no cavalo e partiu (que é como quem diz, apanhou o avião). Ontem à noite, estávamos de novo os três sozinhos. E diz-me o Diogo: “Estás triste, não estás, mãe? Eu agora percebo-te, dá aqui um apertozinho no coração cada vez que estamos separados…” E eu aproveitei para falar daquilo que sei. Dos afectos. Do amor. Do crescimento.
 
[Post escrito com autorização do protagonista, a quem também falo das minhas dúvidas e dores de crescimento como mãe.]