quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Às quintas-feiras estou sempre esgotada

(porque as quartas são dias lixados)



O Diogo acorda às 6h20. A vantagem de ter um quarto-sala-cozinha que dá para a rua é que não preciso de me levantar para garantir que ele não se atrasa. De vez em quando, abro um olho e lanço: “Já fizeste as sandes?”, “Já lavaste os dentes?”, “Vê lá não te atrases…”. A desvantagem de ter um quarto-sala-cozinha é que estou sempre a ser acordada: “Esta camisola já não me serve”, “Esta também não”, “Onde é que deixaste o dinheiro para a piscina?”. Às 7h, ele sai disparado e eu durmo mais um bocadinho.

Acordo a coisa pequena às 8h, que tem muito mau acordar. Começa a ladainha: “Vá lá, Vasco, despacha-te!”. Ajudo a empurrar cereais, a lavar os dentes, a vestir roupa, a encontrar casacos e luvas e gorros misteriosamente desaparecidos, a calçar botas, a pôr a mochila às costas… 45 minutos depois, deixo-o na escola.

Passeio o Fuas e dou de comer aos bichos pequenos. Lavo a loiça. Estendo a roupa que ficou a lavar durante a noite. Varro a casa, enquanto amaldiçoo os homens das obras, que não há meio de pararem de esburacar a aldeia. Trabalho só um bocadinho, porque às quartas-feiras não há aulas à tarde.

Às 12h, vou buscar o Vasco à escola e faço-o engolir uma sopa e umas sandes a correr. A fruta come no carro. Às 13h tem aula de violino em Aywaille, a cerca de 20 km daqui. Enquanto ele está na aula, aproveito para fazer compras num hipermercado grande.

Chegamos a casa às 14h30, onde o Diogo está à minha espera já de almoço tomado. Ajudo a fazer trabalhos de casa. Lavo a loiça. Varro a casa. Mando estudar solfejo. E trompete. Lembro que é preciso passear o cão e limpar a caixa dos bichos pequenos. Verifico que as mochilas estão bem arrumadas.

Saímos às 16h00 em direcção a Barvaux. Passamos pela biblioteca para entregar livros e escolher novos. Damos um pulo à ludoteca para trazer uns jogos para o fim-de-semana. Às 17h20, o Vasco tem aula de solfejo. Entretanto, aproveito para ir às compras nas lojas discount e espreitar uma loja de roupa em segunda mão. Também podemos ficar simplesmente no carro a ler. Ou a conversar enquanto ouvimos música. Às 18h10 é a vez do Diogo. No Verão, vou com o Vasco ao parque. No inverno, enfiamo-nos numa loja de brinquedos onde já toda a gente o conhece.

Chegamos perto das 19h40. Arrumo as compras. Faço o jantar a correr. Normalmente é fast-food, tipo douradinhos no forno ou carbonara de tofu. Deixo-os ver televisão. Primeiro, um canal inglês e, depois, uma série qualquer. Vão tomar banho e deitam-se entre às 21h30, o mais tardar.

Lavo a loiça. Varro pela última vez a casa. Lavo o chão. Amaldiçoo mais uma vez os homens das obras. Apanho e dobro a roupa. Ponho mais uma máquina a fazer. Preparo roupas, mochilas e lancheiras para o dia seguinte. Deixo a mesa do pequeno-almoço posta. Passeio o cão. Estou derreada, é meia-noite. Lembro-me que ainda tenho de fazer cupcakes para a festa da escola amanhã...
 
 

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

A nossa árvore de Natal e tudo o que eu perdi

(onde se percebe que há bombas que explodem ao retardador)


Vim-me embora de Portugal apenas com o que cabia no velho Saxo. Pouca coisa, portanto. Não penso no que deixei para trás. Primeiro, porque pertence ao passado. Foi uma outra vida que terminou, uma porta que se fechou para sempre. Segundo, porque não há nada que possa fazer para recuperar os meus pertences, por isso, nem vale a pena pensar nisso.

Meses depois de aqui estar, senti falta dos dois livros aos quais volto muitas vezes: Winnie-the-Pooh de A. A. Milne e Stranger in a Strange Land de Robert A. Heinlein. A família fez-mos chegar. E sou muito mais feliz desde que os vejo diariamente. Mais tarde, recuperei as fotos que ainda não consigo ver, mas que achei importante guardar para os miúdos. A colecção de moedas do meu avô Franclim e a máquina de café de balão da minha avó Clarisse. E é tudo.

O Natal passado foi uma época muito difícil. Eu adoro o Natal, apesar de ser ateia desde que me conheço como gente. O Natal, para mim, é a festa da família. Para a família. E eu passei as festas longe de tudo e todos. Longe dos meus filhos. Decidi que não fazia árvore de Natal, não escrevia postais de Natal, não comprava prendas de Natal. Decidi que ia ignorar o Natal. Como não sou de ficar pelos cantos a chorar, decidi passar esses dias na cozinha a fazer comida para dar à minha “família belga” e vizinhos. A minha nova família de coração a quem tanto devo na construção da pessoa que hoje sou. Compota de abóbora, doce de pêra, bolonhesa de soja e carbonara de tofu em frascos para pôr no esparguete, bolinhos de figo, brigadeiros… A minha imaginação não teve limites. Passei dias a cozinhar sem conseguir comer. Só quando voltei a abraçar os meus filhos no aeroporto é que a fome e a alegria voltaram.

Este ano tudo é diferente. E decidi celebrar essa diferença. Tenho os meninos comigo, tenho tudo o que preciso. Portanto, decidi fazer árvore de Natal, escrever postais de Natal, comprar prendas de Natal. Quer dizer… comprar coisas para fazermos prendas de Natal, que é muito mais engraçado. Já andei à procura de novas ideias e receitas na Net. Está tudo a postos. Principalmente, o espírito natalício.

Os miúdos tentaram convencer-me a pegar num machado e ir à procura de um pinheiro verdadeiro nos bosques. Não fui em conversas. O espírito natalício, porém ecologista, impunha um pinheiro artificial. O espírito economicista impunha uma coisa barata. O sentido estético impunha algo minimamente bonito e não muito grande, que a casa é pequena. Depois de muita procura, lá acabámos por achar um pinheiro de metro e meio por 16 euros. Só faltavam os enfeites. O meu amor, adverso ao Natal e a tudo o que ele representa, foi comigo comprar os enfeites para a árvore. Parecia que ia para a morgue, coitado. Mas a presença dele foi preciosa. Como sempre.

Enquanto percorria os corredores dedicados ao Natal, senti um aperto do coração. Fiquei sem ar. Lembrei-me de tudo o que perdi… De repente, lembrei-me de tudo o que perdi. E foi tanto! As bolas de vidro que comprei quando estava grávida do Diogo. O pai Natal enorme que tocava músicas de Natal que o bizavô dele me deu quando eu tinha 18 anos, mostrando-me que se pode ser adulto sem perder a criança que há em nós. Os anjos de terracota que a mãe do meu amigo Rui me ofereceu quando o Vasco nasceu. A bota de feltro com marcas coloridas dos dedos pequeninos de um Diogo de 5 anos. O suporte para velas com a marca dos dentes de um Vasco comilão ainda bebé. Todos os enfeites que os meus filhos foram fazendo ao longo dos anos na escola, que davam um toque especial a esta época. Que mostravam o passar dos anos. Que contavam a nossa história.

É incrível como há tanta coisa que não me lembro dos últimos tempos passados em Portugal, mas recordo cada pequenino enfeite que saía da caixa vermelha guardada no sótão. E percebi que há bombas ao retardador. Podemos enterrar recordações no fundo da nossa memória, elas acabam sempre por vir ao de cima quando menos se espera. Senti-me sufocar com esse peso. O meu amor, que não tinha maneira de saber o que me passava pela cabeça, viu apenas o que me passava pela cara. Estendeu-me a mão e saímos dali para fora o mais depressa possível.

Passados uns dias, depois de me ter despedido mentalmente de tudo o que deixei para trás, fiz nova tentativa. O Vasco, este meu filho que tem a capacidade de fazer magia, escolheu bolas azúis (a condizer com as paredes!), pequenos mochos e renas. Um ursinho. Esperei estar sozinha para montar a árvore. E voltei a fazer contas com o passado. Arrumei definitivamente esta parte da minha vida numa gaveta da minha memória. Espero ter feito as pazes com um passado que afinal, de tão recente, às vezes ainda dói um bocadinho. Dei mais uns passinhos em frente, acho. E, pronto, enquanto forem dois passos para a frente e um para trás, está tudo bem.
 
 

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Encontros imediatos de terceiro grau...

(Ah... saudades dos tempos em que ver um pato a passear

pelo Campo Grande era uma aventura)


Um dos nossos caminhos habituais são os vinte e tal quilómetros que separam Malempré de Barvaux, onde os miúdos têm aulas de solfejo duas vezes por semana. É uma longa estrada que atravessa aldeias e bosques, com muitas curvas sinuosas. No Verão faz-se lindamente, mas no Inverno a conversa é outra, porque está fora da rota dos limpa-neves. Habitualmente, fazemos o caminho de regresso no lusco-fusco do final da tarde, quando a bicharada decide que é hora de sair para comer. Enquanto eu mantenho os olhos na estrada, o Diogo está concentrado a procurar animais e perigos potenciais. Uma espécie de copiloto, portanto. O Vasco está sempre distraído e quase nunca consegue vê-los a tempo. No ano passado, vimos veados, raposas, ouriços, uma família de javalis, coelhos, muitas aves de rapina, um animal de grande porte não identificado. Vacas e ovelhas foragidas do rebanho também são aparições habituais.

Há duas semanas, íamos a passo de caracol atrás de uma camioneta, quando a parte detrás se abriu e começaram a saltar ovelhas que nunca mais acabavam. Eu fiquei tão assarapantada, que nem sabia se havia de rir ou chorar. Decidi buzinar, mas acho que não deve ter sido a melhor opção porque desataram todas a fugir assustadas. Ontem à tardinha, um veado enorme saltou-me para a frente do carro. O Diogo, que nestes últimos tempos vive colado ao ecrã do telemóvel, também já só o viu quando estava em cima de nós. Felizmente, não havia neve e consegui travar a tempo. Não sei qual de nós ficou mais assustado. E ficámos assim, um a olhar para o outro uns momentos. Ambos a arfar. Até que o mastodonte se dignou a seguir caminho. Mas desta vez o Vasco conseguiu vê-lo mesmooooo bem!