segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

E o espírito natalício foi-se, juntamente com a cola, a árvore e a porcaria das agendas

(onde se percebe que afinal tenho uma confiança cega

nas minhas capacidades)

 
Andei meses a armazenar frasquinhos de compota e garrafas de vidro. Obriguei as minhas vizinhas a comerem toneladas de tangerinas, porque havia uma excelente promoção de 2,5kg por 3.99€. A verdade é que, as poucas tangerinas que não estavam podres eram uma porcaria, mas vinham numa caixinha de madeira mesmo gira. Tinha tirado novas receitas da Net. Estava a preparar-me para passar os próximos fins-de-semana à volta dos tachos a fazer os cabazes de Natal com os miúdos.

Mas, depois, os meus queridos tios de Inglaterra decidiram dar-nos uma prenda adiantada e eis-nos convidados a passar o Natal no outro lado da Mancha. Tive de mudar de planos à última da hora, pois não me estava a ver a viajar de avião com compotas, bolachinhas de gengibre e licor de limão na bagagem. Por outro lado, também não podia deixar os cabazes em casa dos meus “pais belgas” com muito tempo de antecedência. Não me parece que, nesta altura do ano, a minha “mãe belga” ache muita piada ter o frigorífico cheio de cabazes de Natal para a família… apesar de as caixas das tangerinas serem mesmo fofinhas.

A tradição de fazermos as nossas próprias prendas nas semanas que antecedem o Natal já tem alguns anos. Aos poucos, fomos aprimorando os cabazes, embora haja sempre umas inovações. Nem sequer é por uma questão de preço, que estas coisas ficam sempre mais caras. É mesmo pela piada se sermos nós a fazer, pelo carinho com que fazemos diferentes cabazes a pensar nas diferentes pessoas. Resumindo e concluindo, eu continuava decidida a manter a tradição de fazermos as nossas próprias prendas de Natal. Na impossibilidade de fazer comida, virei-me para o artesanato. E vai daí, lembrei-me de forrar agendas para 2014.

Chegada a casa com tecidos, agendas, cola e fitas, deitámos mãos ao trabalho. Quando me vi rodeada de bocados de tecido a desfiar e fitas que se desenrolavam sozinhas, mandei os miúdos embora. Tentei colar as fitas com cola branca, mas aquela porcaria ficava colada aos dedos. Comecei a enervar-me. Fui buscar a pistola de cola quente. Como o fio não chegava à tomada, tive de desligar as luzes da árvore para tirar a extensão. O estupor de cão, que não pode ver ninguém de gatas, foi ver o que se passava. Enrolou-se todo nos fios e fez cair a árvore. Percebi que, paradoxalmente, não é fácil agarrar numa árvore quando se tem os dedos cheios de cola. Mal ou bem, lá consegui equilibrar aquilo tudo, mas já estava a ver a minha vida a andar para trás. E o espírito natalício foi-se, juntamente com a cola, a árvore e a porcaria das agendas.

Mas que diabo me passou pela cabeça quando tive esta ideia peregrina?! Como é que fui capaz de pensar que conseguia forrar agendas, se nem os livros da escola dos miúdos consigo forrar sem deixar as capas cheias de bolhas?! Aquilo exige gente altamente qualificada. Anos de prática. Jeito de mãos. Precisão. Instrumentos de trabalho especiais. Além disso, afinal, quem diabo usa uma agenda em papel nos dias que correm?! Uma ideia completamente estapafúrdia, portanto.

Uma pessoa normal teria comprado uma agenda, um tubo de cola e teria aproveitado uns  restos de tecido para fazer uma primeira tentativa. Uma pessoa normal teria gasto uma quantia simbólica para ver se a coisa resultava. E teria feito isto com semanas de antecedência, para ter tempo de ir comprar outra prenda qualquer, caso não resultasse. Com esta história, descobri que tenho uma confiança cega nas minhas capacidades, porque comprei logo umas 15 agendas, 9 metros de tecido, 4 bobines de fita, 3 potes de cola. E desgracei o orçamento todo de Natal. Para ajudar à festa, lancei-me nesta quimera uns dias antes de partirmos. Por muito boa vontade que tenha, já não há volta a dar… De maneiras que é assim, malta: o amor é muito, mas o jeito é pouco. Perdoem lá qualquer coisinha e digam que é tudo muito bonito, certo?

E aviso já que, no próximo Natal, vai tudo corrido a canecas com alces da Suécia do IKEA. Deve sair consideravelmente mais barato e, pelo menos, não vou andar com os dedos colados durante dias a fio.
 
[ Entretanto, a coisa pequena decidiu perguntar meigamente o que eu queria como prenda de Natal. Disse-lhe que queria uma máquina fotográfica para lhe tirar fotografias de jeito antes que ele crescesse demasiado. Respondeu ainda mais meigamente que não tinha dinheiro para isso, mas que me podia fazer um desenho muito bonito. Eu concordei, um desenho bonito estava óptimo. Responde o Diogo lá do fundo: “Um desenho ainda se arranja, bonito é que duvido muito…”. Haja alguém realista sobre as capacidades artísticas desta família! ]

 

domingo, 15 de dezembro de 2013

Fins-de-semana...

(onde se mostra que há quem faça exercício, quem passeie, quem se repouse e quem ature esta malta toda)

 



 

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

“Ontem à noite estavas mesmo cansada”

(e estava mesmo)


Chega uma pessoa à casa e, mal entra, cheira a limpo. Casa varrida. Chão lavado. Pilha de loiça a secar no escorredor. Recebemos uma ordem seca para descalçarmos as botas à porta. Olho para o meu filho crescido e faço uma pergunta muda. Ele encolhe os ombros e diz simplesmente: “Ontem à noite estavas mesmo cansada”.

Todos os dias descubro novas nuances neste estranho que agora vive cá em casa. Percebo que já tem maturidade para perceber que os adultos, por vezes, sentem um cansaço na alma. E tenta ajudar. De forma muito prática, claro, não deixa de ser um gajo.

É certo que, às vezes, ainda tenho de lhe ralhar. De dizer as mesmas coisas vezes sem conta, numa ladainha que parece não ter fim. Ainda me zango a sério. E dou uns berros. Ainda o castigo. Mas é cada vez mais raro. E as nossas discussões também são diferentes.

Lembro que, apesar de ser mais alto, eu é que sou a mãe. Independentemente do crescente poder de decisão, quem manda aqui sou eu. Embora já saiba muita coisa, ainda não sabe tudo. A voz mais grossa não lhe dá o direito de levantar o tom de voz. Podemos brincar, mas o respeito é a fronteira. Agradeço a ajuda que dá com o irmão, mas cabe-me a mim definir a educação que lhe dou. Podemos ser amigos e até companheiros de aventuras. Sem esquecer que, em primeiro lugar, somos mãe e filho. Eu, a mãe. Ele, o filho. O meu filho grande, que eu amo de um amor espantado.