terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Uma Família Inglesa

(notas soltas sobre um Natal inusitado em terras de Sua Majestade)


 
Esperar que as aulas acabem à porta da escola dos miúdos. Descobrir mais um aeroporto – o do Luxemburgo – a pouco mais de uma hora daqui. Pequenino, com estacionamento gratuito perto, como se fossemos só ali à esquina apanhar o comboio. Rumar a Inglaterra, com as malas cheias de prendas e borboletas na barriga. Porque viajar é isso mesmo.

Matar saudades. Da família inglesa, claro. E ver o mar, ouvir o bater das ondas. Sem tempo para grandes passeios, o importante é estar com a família. Mesmo assim, revisitar Londres pela enésima vez. Ver o encanto do Vasco pelas múmias do British Museum, pelas experiências e os simuladores de voo do Science Museum, pelos dinossauros do Natural History Museum. Perceber que o Diogo já vive a viagem de outra maneira, mais adulta. A ver as vistas através da lente do iPod e a trocar impressões com os amigos no Facebook. Porque crescer é isso mesmo.

Comer… muito e bem. Um pequeno-almoço inglês, feito a rigor pelo uncle John. E fish and chips. Matar saudades de bacalhau, bolo-rei, broas, queijo da Serra e outras iguarias portuguesas, graças ao engenho da tia Clarisse e das minhas primas. Sermos mimados, tanto, tanto, tanto! Porque a família é isso mesmo.

E, de repente, uma troca de sms estranha… e descobrir que o meu amor está ali mesmo. No meio de uma noite de tempestade, naquela vila à beira-mar. Que atravessou a Europa de avião, de comboio, de autocarro, só para passar o Natal connosco. Porque o amor é isso mesmo.

Receber prendas de Natal perfeitas. Escolhidas a dedo a pensar em nós. Um violino preto para o Vasco, igualzinho ao do Darth Vader e um novo trompete para o Diogo, da prima Claire. Coisas exóticas que a prima Alison trouxe da Nova Zelândia. E uma máquina fotográfica para mim! Uma mala, linda, que vi de fugida do autocarro e que a melhor tia do mundo foi à procura na véspera de Natal. Porque o Natal é isso mesmo.
 







[ Agora, os miúdos estão em Portugal. E nós vamos à aventura, namorar. Fazer planos, sonhar alto... a condizer com este ano novinho em folha, que vamos estrear juntos. ]

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Cenas de gaja

(é dar pérolas a porcos, senhores, é dar pérolas a porcos)



Apaixonei-me pela minha “irmãzinha belga” quando a vi acabada de sair da maternidade, linda de morrer. Dei-lhe colo, mudei-lhe fraldas, aturei-lhe birras, dei beijinhos em joelhos esfolados e penteei caracóis loiros rebeldes. Sabe-se lá como, no meio de três rapazes e uma maria-rapaz mais velhos, transformou-se na coisa mais coquete do mundo. Fiel às suas convicções, escolheu uma profissão que lhe assenta como uma luva e está a estudar para ser esteticista. E está sempre a precisar de modelos, que é uma forma mais simpática de dizer cobaias. Evidentemente, é aqui que as coisas se complicam para a minha pessoa. Porque quando ela põe os imensos olhos azúis em mim e me pergunta com aquela voz docinha se posso servir de modelo, eu não consigo dizer que não. Arrependo-me sempre, mas não consigo dizer que não.

Esta semana, começou um estágio num gabinete de estética em Liège e pediu-me que passasse por lá, no primeiro dia, para mostrar à patroa todas as suas imensas qualidades numa cobaia modelo. Pediu-me com aqueles olhos azúis e a voz docinha. Não tive coragem de recusar. E arrependi-me no minuto seguinte, claro. Mas estava longe de adivinhar a extensão do meu arrependimento. Foram horas, senhores, de pura tortura!

O que queria fazer como tratamento estético, perguntou-me quando cheguei ao meio-dia. Hum… tipo… nada? Vá, qualquer coisa rápida e indolor. Um tratamento do rosto? Seja, diz que é relaxante. Não achei. Entre o vapor que me entrava pelo nariz acima e me sufocava, a exfoliação que me arrancou metade da pele e a máscara com parafina que me fez sentir uma múmia, passando pela “extraction des comédons”… maneira simpática de dizer que os meus pontos negros foram todos espremidos até à raiz dos dentes. A massagem final deve ter sido muito boa, parece que durou meia hora. Devo ter adormecido exausta nos primeiros três minutos. Pelo menos, deixei de ter vontade de fazer chichi… raios partam a música Zen com sons de água!

Quando acordei, fui informada que podia escolher entre uma manicura, uma pédicure ou a depilação completa. Bolas, venha o diabo e escolha! Vá, a depilação. Pelo menos, é útil. Escolha acertada, eu parecia um Yeti. Só que os meus pés estavam em muito mau estado. E as mãos também. A minha irmãzinha estava decidida a provar que sabia fazer todo o tipo de tratamentos estéticos. De repente, percebi por que raio tinha sido eu a escolhida para inaugurar o estágio: em apenas metro e meio de gente havia trabalho que nunca mais acabava! As horas seguintes, passei-as em puro sofrimento. Fui extirpada de pêlos e postas de pele a uma velocidade estonteante. A patroa ia entrando e corrigindo. Eu tentava distanciar-me do meu corpo, concentrar-me em inspirar e expirar para controlar a dor, tipo parto. Pensava nos miúdos que estavam para chegar da escola, na fortuna que ia pagar de estacionamento, no frango que me tinha esquecido de descongelar para o jantar. Na porra da música Zen, agora com sons de passarinhos. Nos estalos que nunca dei a esta miúda e que ela estava a fazer por merecer…

Finalmente, a tortura acabou. Pensava eu. Ainda faltava aplicar o verniz permanente, que a minha irmãzinha nunca tinha feito e que a patroa tinha todo o gosto em mostrar, visto que a cliente das 4h00 estava atrasada. Nunca roguei tantas pragas a uma pessoa sem a conhecer! Que cor é que eu queria? Transparente, olha que pergunta! E aqueles olhos azúis em mim… Pronto, já que é para a desgraça, seja cor-de-rosa. Um sorriso dela e eu ganho o mundo. Põe camada atrás de camada de bases, vernizes, brilhantes e sei lá mais o quê. Pinta uma unha, põe no forno. Pinta outra unha, volta a pôr no forno. Nunca me senti tanto um papo-seco como naqueles 30 minutos. Para finalizar o processo, limpou-me as unhas com acetona. Espera lá… não percebo grande coisa do assunto, mas a acetona não serve justamente para tirar o verniz?! Não, aquilo era verniz permanente, não é assim tão simples de tirar. Hum… acho que é melhor não fazer mais perguntas.

Quase 17h e eu estou pronta. Toda dorida, mas pronta. Fico a saber que o martírio a que me sujeitei durante horas a fio os tratamentos que me fizeram custam mais do que eu ganho por mês. Mas haverá alguém são de espírito que pague para lhe fazerem aquilo?! A mim, tinham era de me pagar para voltar a pôr lá os pés. A minha irmãzinha abraça-me e agradece a simpatia (nem ela imagina quanta). Diz-me que já só falta cortar o cabelo para ficar linda para receber o meu amor que está para chegar. Cortar o cabelo, eu?! Não faço isso há séculos. Nota-se, responde-me. Depois, muito depressa, diz que não faz mal porque tudo o resto está perfeito. Até já posso usar saias. Ele não gosta de saias. E sapatos de salto alto? Também não. Mas uma boa maquilhagem, fica sempre bem. Ele odeia mulheres maquilhadas. Pronto, as mãos ficaram muito elegantes. Se há coisa que ele abomina são unhas pintadas. Ahhh… então, ainda bem que ele me encontrou, não é verdade? Parece-me que isto não era bem um elogio...

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Uma festa de final dos exames sui generis

(que implica duas moçoilas e o meu filho mais velho

trancados no quarto)


 Filho mais velho começou por perguntar, assim como quem não quer a coisa, se podia convidar uns amigos para lanchar para celebrarem o fim da sessão de exames de Natal. Quantos amigos? Vá… são só duas colegas. Duas amigas. Afinal, uma também almoçava cá em casa. Se calhar, até podiam cá dormir… Duas miúdas a dormirem cá em casa? Pensei um bocadinho… Com a idade dele dormi tantas vezes em casa de amigos! Se calhar, os pais delas é que não iam achar muita piada e podiam não deixar. Deixavam, deixavam, que elas já são crescidas. Crescidas, com 13 anos?! Hum… são um bocadinho mais velhas. Não são da turma dele. São de outro ano. Outro ano?! Assim, tipo… do 10º ano. HEIN?!?

Mas por que raio vêm duas miúdas do 10º ano passar a tarde cá a casa?! Qual é o interesse? Para elas, claro (para ele, eu sei muito bem). Que são as suas melhores amigas na escola. Que se dá com imensos colegas mais velhos. Que sempre teve bastante maturidade e um desenvolvimento intelectual muito acima da sua idade. Que prometia limpar a casa toda e ser ele a tratar do lanche. Bem, posto nestes termos…

Ei-los, então, trancados no quarto. A rir à gargalhada. A conversar há horas. A ouvir música. De facto, aos vê-los assim, a diferença de idades nem se nota. Mas como é que este gajo tem tanta saída, pá?! Começo a desconfiar que estou tramada, estou mesmo tramada...