quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Uma entrevista…

(onde se percebe que não é fácil para um emigrante qualificado

arranjar emprego, embora não seja impossível)



Este ano lectivo, tive a sorte de ser colocada logo em Setembro, na mesma escola onde o Diogo anda, não muito longe de casa. Dou aulas de Espanhol I a adultos, em horário pós-laboral. E divirto-me à grande, que isto de dar aulas a quem estuda por gosto é completamente diferente. O problema é que são poucas horas semanais. Portanto, nos últimos meses, tivemos de aprender a viver com bastante menos, mesmo recebendo o escalão máximo do abono de família (que eu até tenho vergonha de dizer quanto é, tendo em conta o salário mínimo em Portugal).

Para equilibrar as contas, vou fazendo umas traduções aqui e ali. Embora cada dia se torne mais urgente arranjar outro trabalho. Qualquer trabalho. Mas deparei-me com diferentes tipos de problema…

1)    Ensino – Sabe Deus porquê, este Inverno tem sido anormalmente doce. Os professores vendem saúde e ainda não começaram a meter baixa. Portanto, é difícil arranjar mais umas horas ou uma simples substituição.
2)    Tradução – Parece que, neste país, todos os tradutores têm de dominar o neerlandês, mesmo que seja para traduzir posologias em chinês. Ou, então, viver em Bruxelas.
3)    Outras áreas profissionais – O ensino obrigatório belga vai até ao 12º ano. Quem tem pouca ou nenhuma apetência para estudar é encaminhado para o ensino profissional ou técnico e, quando sai da escola, tem obrigatoriamente uma “profissão”. Para se lavar pratos ou escadas, tomar conta de velhotes ou de bebés, vender cafés ou t-shirts… é preciso um diploma específico.
4)    Salários – Os ordenados são calculados com base no número de anos de estudo e de experiência, independentemente da área profissional. Obviamente, uma pessoa com 19 anos de estudos e 14 anos de profissão, não interessa lá muito. Tem qualificações a mais e fica demasiado cara ao empregador.
5)    Localização geográfica – Os belgas demoram 3 horas a atravessar o país de uma ponta à outra, logo, quem vive a 45 minutos do trabalho está longíssimo. Ora a maior parte dos empregos prevê ajudas de custo para a deslocação, por isso, convém viver perto do trabalho.
6)    Disponibilidade – O mundo não foi feito a pensar nas mães solteiras (bah, detesto este termo!). Nestes últimos tempos, tive duas ofertas de emprego, para dar formação de línguas em empresas. Mas o que ia ganhar mal pagava a baby-sitter e a gasolina. Para além de ser incompatível com os horários das actividades dos meninos. Tive de desistir.
7)    Nacionalismo – Em tempos de crise, o proteccionismo nacionalista emerge e os emigrantes são remetidos para o fim da fila.

Apesar disso, todos os dias de manhã consulto o site do centro de emprego e de diferentes agências de trabalho temporário, na Bélgica e no Luxemburgo. Por mais descabido que seja o anúncio, se tiver remotamente a ver com línguas, respondo logo. Tenho diferentes cartas de apresentação e currículos preparados, a dar mais destaque a um ou outro aspecto, segundo o trabalho a que me candidato. Fiz da procura de emprego o meu part-time, no período da manhã. Infelizmente, em seis meses de procura intensa, ainda nunca tinha tido a oportunidade de ir a uma entrevista (excepto nas tais escolas de línguas que tive de desistir).

Há uns tempos, respondi a um anúncio para bibliotecária da Unité de Documentation et Communication de l'Association de personnes porteuses d'une trisomie 21, de leurs parents et des professionnels qui les entourent. Foi mais um daqueles anúncios a que respondi por descargo de consciência, porque não tenho curso de bibliotecária. Mas, quando estava na faculdade, trabalhei na biblioteca da Sociedade Portuguesa de Terapia Familiar, portanto, achei que até tinha qualificações para me candidatar. Começaram por dizer que tinham recebido muitos currículos, que iam demorar a tomar uma decisão. Semanas depois, avisaram-me que fazia parte das candidaturas seleccionadas que iam ser analisadas pela direcção. Decorridas mais umas semanas, convidaram-me para uma entrevista com o director da associação e o presidente do conselho científico.

Nessa altura, comecei finalmente acreditar que podia ter uma hipótese. Na verdade, tinha uma hipótese em três, pois tinham escolhido apenas três pessoas para entrevistar. Decidi arregaçar as mangas e ir à luta. Era a minha primeira oportunidade a sério em tantos meses, tinha de estar bem preparada. A primeira coisa que fiz foi bisbilhotar o site da associação para tentar perceber quais as diferentes valências. Fui parar ao blog do centro de documentação, que li de uma ponta à outra. Consultei a lista de livros disponíveis na biblioteca e descobri que também tinham uma colecção impressionante de literatura infantil. Desencantei o jornal trimestral da associação e li os últimos números. Analisei o relatório de contas de 2012 e vi quais os projectos que tinham merecido maiores subsídios. Em seguida, fiz uma pesquisa na Net para descobrir quem eram os dois entrevistadores: qual a universidade onde davam aulas, áreas de especialização, últimos artigos publicados, principais ideias defendidas. Por fim, pesquisei os últimos avanços científicos em relação à trissomia 21, em várias línguas.

Na noite anterior, não consegui dormir grande coisa. Andei às voltas, a tentar perceber por que motivo o meu currículo tinha despertado interesse e o que seria importante ressaltar durante a entrevista, com base em tudo o que tinha analisado antes. Não gosto muito de fazer este exercício, mas passei algum tempo a pensar nas qualidades que faziam com que fosse a pessoa ideal para aquele lugar e cheguei à conclusão que tenho experiência, quer como bibliotecária, quer na escrita de artigos, sou curiosa por natureza, domino as principais ferramentas informáticas (incluindo as redes sociais), posso fazer pesquisa em quatro línguas diferentes e compilar os resultados em francês, a minha especialidade é a literatura infantil, mais concretamente o desenvolvimento do leitor infantil, que poderá facilmente ser aplicado ao caso específico da trissomia 21. Portanto, pareceu-me que não estava mal de todo…

No meio de tanta pesquisa, ia esquecendo o visual! O meu filho crescido insistiu para eu comprar umas botas novas. E o pequeno para eu cortar o cabelo. Não é por nada, mas acho que estes meus rapazes vão ser um bocadinho metrossexuais… A escolha da roupa ficou a cargo da minha amiga Christine, bem como a maquilhagem. Quer dizer, não me parece que se possa propriamente falar de “escolha” no que diz respeito ao meu guarda-roupa, mas enfim.
 
Saí com muito tempo de antecedência porque estava a nevar. E fui nas calmas a ouvir música. Não ia nervosa, bem pelo contrário. Tinha aquela sensação boa, como quando ia fazer um exame que tinha preparado bem. Quando lá cheguei, as entrevistas ainda não tinham começado. O que quer dizer que, a dada altura, estávamos as três "finalistas" a olhar umas para as outras com um certo desconforto na sala de espera. Eu fui a segunda. Durante uns bons trinta minutos, falaram sem parar da associação e do trabalho na biblioteca do centro de documentação. Com esforço, lá consegui mostrar que tinha feito o trabalho de casa. Acho que conquistei um dos entrevistadores quando lhe disse que tinha ficado espantada com os avanços farmacológicos no tratamento da trissomia 21, que ele tinha descrito no último artigo publicado no jornal da associação. Conquistei o outro quando lhe falei no Dr. Miguel Palha, cujo trabalho ele conhecia perfeitamente. Havia mais um entrevistador que não estava previsto e que eu não fazia a mínima ideia de quem seria. A esse dediquei os meus sorrisos mais rasgados, à falta de melhor.

Saí de lá esperançada, sinceramente. Nessa noite também pouco dormi, em ânsias para saber a resposta. O senhor dos sorrisos telefonou-me logo de manhã, bem cedinho, a dizer que tinha uma boa notícia. Quando me saiu um “Oh, não imagina como estou feliz!”, desatou a rir. Mas é mesmo verdade. Estou feliz e não tenho vergonha nenhuma. E fiquei ainda mais feliz quando liguei ao meu amor a dar a notícia e ele me disse que tinha muito orgulho em mim. Que eles é que estavam cheios de sorte por me terem escolhido. Acho que nunca ninguém me tinha dito isto.

Estes últimos meses foram complicados financeiramente. Houve momentos em que me questionei seriamente se conseguiria levar o barco para a frente. Sem a ajuda da minha família teria sido muito difícil. Sem o apoio incondicional e o optimismo contagiante do meu amor teria sido impossível. E, agora, finalmente uma luz ao fundo do túnel. Esta conquista é minha e de todos nós. Já merecíamos, caraças! Um emprego em part-time, relativamente perto de casa, tal como eu queria. Com a perspectiva de ficar logo efectiva, mal acabe o período experimental. Que me permite continuar a dar aulas à noite. Que me permite continuar a acompanhar os meus filhos nas suas actividades à tarde. A ser a mãe que sempre sonhei e que eles merecem ter. Que me permite continuar a ter tempo para mim, para escrever, para ler… para fazer o que me dá prazer, que foi algo que me esqueci de fazer nos últimos anos e que ando aos poucos a reaprender. Sou eu que vou fazer o meu horário e gerir o meu tempo. Quem sabe se daqui por uns tempos não poderei começar a pensar num doutoramento?

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

A melhor técnica de engate do mundo

(mas à prova de Vasco…)


 
Estava eu num centro comercial apinhado em dia de saldos – com o Diogo que odeia multidões a transpirar depois de uma passagem pela Primark e o Vasco no estado de sobre-excitação que se imagina – quando me lembrei que tinha mesmo de passar pelo supermercado. Não havia volta a dar, íamos jantar a casa de uma amiga e eu tinha ficado de levar a sobremesa. Assim que entrei, deparei-me com filas monumentais nas caixas e passei ao plano B. Deixei os miúdos a marcar lugar numa fila para pagar e fui a correr buscar o que precisava.

Quando voltei, o senhor que estava à nossa frente começa a tentar meter conversa. “Minha senhora, tenho de lhe dar os meus parabéns. Tem aqui uns rapazes muito bem-educados e sossegados. Principalmente este…”. E apontou para o Vasco. Ouvi um riso abafado. O casal atrás de mim ria disfarçadamente. Percebi que o Vasco devia ter feito das suas… O Diogo incrédulo dizia-me em português: “Ó Mãe, o tipo está a engatar-te! O Vasco não parou quieto um minuto!”. Não me contive e larguei à gargalhada.

E ali ficámos mais uns 10 minutos na fila, que avançava a passo de caracol. A coisa pequena estava no seu melhor. Falou, lutou contra inimigos imaginários, falou, mandou um carrinho para cima do senhor, falou, atirou coisas ao chão… O tipo acabou por admitir a derrota. Depois de pagar, deu-me uma pancadinha no braço e disse-me à laia de despedida: “Coragem!”.

Vasco, a afastar pretendentes desde 2006.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

O falso príncipe encantado

(quando a amizade se sobrepõe à vontade de dizer “Eu bem te avisei”)



Pouco depois de chegar a Malempré, bateu-me à porta uma vizinha com um prato de gnocchi na mão para nos dar as boas-vindas. Passados uns dias, retribuí com uma travessa de bacalhau com natas. E nunca mais nos largámos. Tornámo-nos amigas inseparáveis, apesar de os nossos filhos nem sempre se darem bem. A Christine fez mais por nós do que qualquer outra pessoa já tinha feito na minha vida. Tirou cobertores da cama dos filhos para dar aos meus, que não estavam habituados a estes invernos rigorosos. Sinceramente, não sei se eu seria capaz de semelhante gesto.

É daquelas pessoas que dá sem pedir nada em troca. E até se esquece. Hoje estava a fazer torradas e pus-me a jeito para apanhar o pão no ar. Diz-me ela a rir: “Olha, também tive uma torradeira dessas que mandava torradas para a lua!”. Eu respondi que aquela era a torradeira dela. Já não se lembrava. Tal como já não se deve lembrar de ter andado a bisbilhotar os meus armários a ver o que nos faltava, de mandar roupa e calçado para o Diogo, de ter desencantado um aspirador sabe Deus onde, de todas as vezes que apareceu aqui em casa de surpresa, quando eles estavam em Portugal, para me obrigar a sair da cama e comer, e das muitas horas que perdeu a tratar de burocracias comigo. Somos amigas há apenas um ano e meio, mas sinto que a conheço desde sempre. Estive ao lado dela nas dores crónicas, numa operação delicada à coluna, na recuperação, numa separação dolorosa, na procura de emprego e no início de um novo amor. Por isso, quando o príncipe encantado finalmente apareceu, mostrei-me desconfiada. E quando se revelou um pulha da pior espécie, tive vontade de matá-lo.

Tudo começou no dia do desfile de Halloween. À tarde, a Christine mandou-me uma mensagem a perguntar se a podia levar ao hospital, porque não se estava a sentir bem. Quando me estava a preparar para sair, manda-me uma nova mensagem a dizer que, afinal, o colega que andava atrás dela há semanas já estava a caminho. Levou-a ao hospital, trouxe-a de volta, ajudou os filhos dela a fazerem os trabalhos de casa, fez-lhes o jantar e nunca mais se foi embora. Aliás, foi… para ir buscar os seus parcos pertences e assentar arraiais definitivamente.

Os tempos seguintes foram de ramboia como nunca se viu naquela casa: saídas, restaurantes, festas, passeios, bailaricos, idas ao cinema e às compras. Tudo acompanhado por uma constante boa-disposição e gargalhadas. Os miúdos andavam absolutamente encantados com o “padrasto”, que os cobria de prendas. Que ia buscá-los à escola, ajudava a estudar e ainda jogava Playstation nos tempos livres. A Christine andava nas nuvens, qual princesa. Não podia pôr os olhos em cima de nada, que ele oferecia-lhe de imediato. Os seus desejos eram ordens. O mínimo suspiro era satisfeito. Além disso, o príncipe encantado também era uma verdadeira fada do lar multifacetada: trocava as pastilhas do carro, cozinhava, dava um jeito na torneira que pingava, aspirava a casa… Não era o cúmulo da sapiência – nem da beleza, diga-se em abono da verdade – mas compensava isso com uma ternura imensa na forma como a tratava, na dedicação aos miúdos, na ajuda sempre pronta e no riso fácil. E, apesar da minha desconfiança inicial nunca ter desaparecido, comecei a pensar que o homem estava mesmo apaixonado.

Dada a nossa amizade tão estreita, é evidente que esta alegre personagem me entrou pela vida adentro sem pedir licença. Tentei descrevê-lo ao meu amor por e-mail, apontado aspectos negativos e positivos. Fiz um esforço para ser simpática. Deixei antever a minha satisfação por ver a Christine tão feliz e a dúvida insidiosa de que talvez aquilo estivesse a avançar depressa demais. Pelos vistos, fui mesmo simpática na descrição. Uns tempos depois, o meu amor teve oportunidade de conhecer o príncipe encantado e ficou de boca aberta. Literalmente de boca aberta. Eu estava perdida de riso. Quando o vendaval passou – ou seja, quando o alegre casalinho se foi embora – o meu amor disse ter descoberto um aspecto escondido da minha personalidade: eu era extremamente meiga a descrever energúmenos.

A verdade é que mantive o meu cepticismo para mim até a coisa descambar completamente. Em pouco mais de um mês, já o príncipe encantado tinha pedido a minha amiga em casamento. Pior, já lhe tinha pedido para terem um filho. Para ontem. E, como se isso não fosse suficiente, eu fui convidada para madrinha. Intimada a desencantar um vestido e sapatos de salto alto até ao Verão. Confesso que a cena do vestido de cerimónia (ela frisava bem “de cerimónia”…) foi a gota de água que fez transbordar o meu copo.

Um dia, depois de termos estado a ver 196 vestidos de noiva na Net, comecei a expor as minhas dúvidas. Docemente. Como quem não quer a coisa. Com muitooo tacto. Tentando não dizer algo que ela não estava preparada para ouvir, sob risco de comprometer todo o meu discurso. Nunca pus em causa a veracidade dos sentimentos ou um possível compromisso futuro. Pus a tónica na rapidez com que a relação estava a evoluir. Na precipitação. Explicando que, uma vez passada aquela paixão toda inicial, talvez ela descobrisse outro homem. Que não se conhece uma pessoa em meia dúzia de meses. Que aquele período de paixão não ligava lá muito bem com um novo bebé. Que voltar às fraldas e às noites mal dormidas exigia uma relação de aço e não um amor de adolescente. Enfim… falei, falei, falei. A Christine percebeu de imediato onde eu queria chegar e virou a questão ao contrário: Ao fim de 18 anos ao lado do meu namorado do liceu, eu tinha ou não tinha descoberto um perfeito estranho? Fui obrigada a calar-me. E a engolir as minhas dúvidas. O amor é um acto de fé. Se a Christine tinha essa fé para se lançar, não seria eu que lhe ia cortar as asas. Na secreta esperança de que ela não fosse como Ícaro...

E estávamos neste ponto, com data do casamento marcada e a viver um verdadeiro idílio amoroso, quando fui passar o Natal a Inglaterra. Felizmente, os filhos da Christine passaram o Natal com o pai e ela estava sozinha quando o mundo desabou. Gaja que é gaja tem um sexto sentido apurado (só comigo é que a coisa não funcionou, mas isso é outra história). A Christine andava desconfiada com o facto de o príncipe encantado deixar sempre o telemóvel no carro. Até que decidiu ir bisbilhotar. E descobriu o que não queria. Ligou para o número da flausina que lhe enchia o telemóvel com mensagens inflamadas e ficou a saber a extensão da sacanice. Parece que o príncipe encantado tinha conseguido fazer as pazes com a antiga companheira e engravidá-la…durante as primeiras semanas de namoro com a Christine. Como se não bastasse, decidiu manter as duas relações. E ter mais um filho.

Passou uns dias a negar a verdade a ambas… a mandar as mesmas mensagens de desculpas a ambas… a oferecer as mesmas prendas a ambas… até que foi apanhado com a boca na botija e teve mesmo de admitir a paixão a duplicar. A ambas, pois claro. Ficou por explicar como raio pretendia manter esta situação de vida dupla quando as duas crianças nascessem… A estupidez era tanta que acabou por sair de casa da Christine na véspera de Natal, para bater com o nariz na porta da outra. Agora, nem uma nem outra o querem. Nem os pais, velhotes, que ficaram a saber da filha da putice. Um dos bebés não chegou a ser feito, o outro não era viável. As coisas também correram mal no trabalho. O príncipe encantado caído em desgraça acabou por perder o emprego. Neste momento, vive no carro, numa praça em Bastogne. Continua a mandar mensagens várias vezes por dia a ambas. Não, esperem… continua a mandar exactamente as mesmas mensagens a uma e a outra. Um perfeito anormal, é o que é.

Hoje, apesar do frio, decidimos aproveitar o sol que é tão raro por estas bandas. Pegámos nos miúdos todos e no cão, enfiámos umas galochas e fomos dar um longo passeio pelos bosques de Malempré. Passámos horas a dizer disparates e a rir. Falámos de coisas sérias e de parvoíces. Comentámos a roupa que eu devia usar na entrevista que tenho na 3ª feira e combinámos a que horas íamos pôr o carro dela no mecânico. Os príncipes encantados vão e vêm. E um dia tudo há-de ficar bem. Mas enquanto a minha amiga estiver a sofrer, eu rezo para aquele idiota não ter o azar de passar à frente do meu carro. Ou por trás. Que eu sou pessoa para me enganar sem querer nos pedais...