domingo, 19 de janeiro de 2014

Passeios de fim-de-semana – Clervaux, Luxemburgo

(onde se percebe que ir só ali beber um café

implica atravessar uma fronteira e mudar completamente de clima)


Nesta família não imperam as regras imutáveis, inquestionáveis. Contudo há uma que se sobrepõe a todas as outras. Digamos que é a nossa “Regra Número 1”. Sempre que está sol – mesmo que seja só uma nesguinha – largamos tudo o que estamos a fazer e aproveitamos. Nem sempre está mau tempo aqui, mas os dias de sol são raros. Felizmente, ontem foi um desses dias. Portanto, nada de limpezas, trabalhos de casa, consolas ou televisão. Fomos passear, um bocadinho à aventura, como de costume.

Há uns tempos atrás, estivemos em Trier, na Alemanha, e atravessámos o Luxemburgo. Uma cidadezinha ficou-me gravada na memória, porque me pareceu ter uma série de coisas portuguesas: Clervaux, a uns 40 minutos daqui. E como ontem estava capaz de matar por uma bica, decidi ir até lá. Não vi nenhum café português… mas descobri uma mercearia! Foi como entrar noutra dimensão, onde toda a gente falava português e as prateleiras só tinham produtos da nossa terra. Comemos pães com chouriço e pastéis de nata, com sumo de manga da Compal, que nos souberam pela vida. Deixámo-nos levar pela loucura e enchemos um carrinho de compras com as coisas de que temos mais saudades: Nestum, rebuçados do Dr. Bayard, enchidos e queijos, arroz carolino, conservas, broa de milho, grelos, massa de pimentão, etc. Ainda por cima, pareceu-me que os preços seriam semelhantes aos praticados em Portugal.

E, depois, passeámos. Ouve-se falar português em todo o lado, parece que estamos em casa. Clervaux é uma  cidadezinha muito bonita, vale a pena a viagem. Tem um castelo fora do vulgar e uma igreja enorme lindíssima. Imensas ruas e ruelas quase sem trânsito, com casinhas muito engraçadas. De vez em quando, vê-se uma mais garrida e desconfio logo que ali vivem portugueses. Um museu sobre a Batalha das Ardenas que merece uma espreitadela... é o terceiro que visitamos, estamos a ficar uns especialistas! E outro sobre os castelos e brasões no Luxemburgo, com muitas maquetes pequeninas que fizeram as delícias do Vasco. Já sabemos qual será o nosso próximo destino, porque nos apaixonámos por um castelo igual aos dos contos de fadas…

[ Bom, para sermos completamente, honestos… o sol radiante da Bélgica desapareceu mal entrámos no Luxemburgo. E acabei por não beber uma bica. Mas não faz mal, o imprevisto faz parte dos nossos passeios de fim-de-semana. Digamos que é a nossa “Regra Número 2”. ]










quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Uma entrevista…

(onde se percebe que não é fácil para um emigrante qualificado

arranjar emprego, embora não seja impossível)



Este ano lectivo, tive a sorte de ser colocada logo em Setembro, na mesma escola onde o Diogo anda, não muito longe de casa. Dou aulas de Espanhol I a adultos, em horário pós-laboral. E divirto-me à grande, que isto de dar aulas a quem estuda por gosto é completamente diferente. O problema é que são poucas horas semanais. Portanto, nos últimos meses, tivemos de aprender a viver com bastante menos, mesmo recebendo o escalão máximo do abono de família (que eu até tenho vergonha de dizer quanto é, tendo em conta o salário mínimo em Portugal).

Para equilibrar as contas, vou fazendo umas traduções aqui e ali. Embora cada dia se torne mais urgente arranjar outro trabalho. Qualquer trabalho. Mas deparei-me com diferentes tipos de problema…

1)    Ensino – Sabe Deus porquê, este Inverno tem sido anormalmente doce. Os professores vendem saúde e ainda não começaram a meter baixa. Portanto, é difícil arranjar mais umas horas ou uma simples substituição.
2)    Tradução – Parece que, neste país, todos os tradutores têm de dominar o neerlandês, mesmo que seja para traduzir posologias em chinês. Ou, então, viver em Bruxelas.
3)    Outras áreas profissionais – O ensino obrigatório belga vai até ao 12º ano. Quem tem pouca ou nenhuma apetência para estudar é encaminhado para o ensino profissional ou técnico e, quando sai da escola, tem obrigatoriamente uma “profissão”. Para se lavar pratos ou escadas, tomar conta de velhotes ou de bebés, vender cafés ou t-shirts… é preciso um diploma específico.
4)    Salários – Os ordenados são calculados com base no número de anos de estudo e de experiência, independentemente da área profissional. Obviamente, uma pessoa com 19 anos de estudos e 14 anos de profissão, não interessa lá muito. Tem qualificações a mais e fica demasiado cara ao empregador.
5)    Localização geográfica – Os belgas demoram 3 horas a atravessar o país de uma ponta à outra, logo, quem vive a 45 minutos do trabalho está longíssimo. Ora a maior parte dos empregos prevê ajudas de custo para a deslocação, por isso, convém viver perto do trabalho.
6)    Disponibilidade – O mundo não foi feito a pensar nas mães solteiras (bah, detesto este termo!). Nestes últimos tempos, tive duas ofertas de emprego, para dar formação de línguas em empresas. Mas o que ia ganhar mal pagava a baby-sitter e a gasolina. Para além de ser incompatível com os horários das actividades dos meninos. Tive de desistir.
7)    Nacionalismo – Em tempos de crise, o proteccionismo nacionalista emerge e os emigrantes são remetidos para o fim da fila.

Apesar disso, todos os dias de manhã consulto o site do centro de emprego e de diferentes agências de trabalho temporário, na Bélgica e no Luxemburgo. Por mais descabido que seja o anúncio, se tiver remotamente a ver com línguas, respondo logo. Tenho diferentes cartas de apresentação e currículos preparados, a dar mais destaque a um ou outro aspecto, segundo o trabalho a que me candidato. Fiz da procura de emprego o meu part-time, no período da manhã. Infelizmente, em seis meses de procura intensa, ainda nunca tinha tido a oportunidade de ir a uma entrevista (excepto nas tais escolas de línguas que tive de desistir).

Há uns tempos, respondi a um anúncio para bibliotecária da Unité de Documentation et Communication de l'Association de personnes porteuses d'une trisomie 21, de leurs parents et des professionnels qui les entourent. Foi mais um daqueles anúncios a que respondi por descargo de consciência, porque não tenho curso de bibliotecária. Mas, quando estava na faculdade, trabalhei na biblioteca da Sociedade Portuguesa de Terapia Familiar, portanto, achei que até tinha qualificações para me candidatar. Começaram por dizer que tinham recebido muitos currículos, que iam demorar a tomar uma decisão. Semanas depois, avisaram-me que fazia parte das candidaturas seleccionadas que iam ser analisadas pela direcção. Decorridas mais umas semanas, convidaram-me para uma entrevista com o director da associação e o presidente do conselho científico.

Nessa altura, comecei finalmente acreditar que podia ter uma hipótese. Na verdade, tinha uma hipótese em três, pois tinham escolhido apenas três pessoas para entrevistar. Decidi arregaçar as mangas e ir à luta. Era a minha primeira oportunidade a sério em tantos meses, tinha de estar bem preparada. A primeira coisa que fiz foi bisbilhotar o site da associação para tentar perceber quais as diferentes valências. Fui parar ao blog do centro de documentação, que li de uma ponta à outra. Consultei a lista de livros disponíveis na biblioteca e descobri que também tinham uma colecção impressionante de literatura infantil. Desencantei o jornal trimestral da associação e li os últimos números. Analisei o relatório de contas de 2012 e vi quais os projectos que tinham merecido maiores subsídios. Em seguida, fiz uma pesquisa na Net para descobrir quem eram os dois entrevistadores: qual a universidade onde davam aulas, áreas de especialização, últimos artigos publicados, principais ideias defendidas. Por fim, pesquisei os últimos avanços científicos em relação à trissomia 21, em várias línguas.

Na noite anterior, não consegui dormir grande coisa. Andei às voltas, a tentar perceber por que motivo o meu currículo tinha despertado interesse e o que seria importante ressaltar durante a entrevista, com base em tudo o que tinha analisado antes. Não gosto muito de fazer este exercício, mas passei algum tempo a pensar nas qualidades que faziam com que fosse a pessoa ideal para aquele lugar e cheguei à conclusão que tenho experiência, quer como bibliotecária, quer na escrita de artigos, sou curiosa por natureza, domino as principais ferramentas informáticas (incluindo as redes sociais), posso fazer pesquisa em quatro línguas diferentes e compilar os resultados em francês, a minha especialidade é a literatura infantil, mais concretamente o desenvolvimento do leitor infantil, que poderá facilmente ser aplicado ao caso específico da trissomia 21. Portanto, pareceu-me que não estava mal de todo…

No meio de tanta pesquisa, ia esquecendo o visual! O meu filho crescido insistiu para eu comprar umas botas novas. E o pequeno para eu cortar o cabelo. Não é por nada, mas acho que estes meus rapazes vão ser um bocadinho metrossexuais… A escolha da roupa ficou a cargo da minha amiga Christine, bem como a maquilhagem. Quer dizer, não me parece que se possa propriamente falar de “escolha” no que diz respeito ao meu guarda-roupa, mas enfim.
 
Saí com muito tempo de antecedência porque estava a nevar. E fui nas calmas a ouvir música. Não ia nervosa, bem pelo contrário. Tinha aquela sensação boa, como quando ia fazer um exame que tinha preparado bem. Quando lá cheguei, as entrevistas ainda não tinham começado. O que quer dizer que, a dada altura, estávamos as três "finalistas" a olhar umas para as outras com um certo desconforto na sala de espera. Eu fui a segunda. Durante uns bons trinta minutos, falaram sem parar da associação e do trabalho na biblioteca do centro de documentação. Com esforço, lá consegui mostrar que tinha feito o trabalho de casa. Acho que conquistei um dos entrevistadores quando lhe disse que tinha ficado espantada com os avanços farmacológicos no tratamento da trissomia 21, que ele tinha descrito no último artigo publicado no jornal da associação. Conquistei o outro quando lhe falei no Dr. Miguel Palha, cujo trabalho ele conhecia perfeitamente. Havia mais um entrevistador que não estava previsto e que eu não fazia a mínima ideia de quem seria. A esse dediquei os meus sorrisos mais rasgados, à falta de melhor.

Saí de lá esperançada, sinceramente. Nessa noite também pouco dormi, em ânsias para saber a resposta. O senhor dos sorrisos telefonou-me logo de manhã, bem cedinho, a dizer que tinha uma boa notícia. Quando me saiu um “Oh, não imagina como estou feliz!”, desatou a rir. Mas é mesmo verdade. Estou feliz e não tenho vergonha nenhuma. E fiquei ainda mais feliz quando liguei ao meu amor a dar a notícia e ele me disse que tinha muito orgulho em mim. Que eles é que estavam cheios de sorte por me terem escolhido. Acho que nunca ninguém me tinha dito isto.

Estes últimos meses foram complicados financeiramente. Houve momentos em que me questionei seriamente se conseguiria levar o barco para a frente. Sem a ajuda da minha família teria sido muito difícil. Sem o apoio incondicional e o optimismo contagiante do meu amor teria sido impossível. E, agora, finalmente uma luz ao fundo do túnel. Esta conquista é minha e de todos nós. Já merecíamos, caraças! Um emprego em part-time, relativamente perto de casa, tal como eu queria. Com a perspectiva de ficar logo efectiva, mal acabe o período experimental. Que me permite continuar a dar aulas à noite. Que me permite continuar a acompanhar os meus filhos nas suas actividades à tarde. A ser a mãe que sempre sonhei e que eles merecem ter. Que me permite continuar a ter tempo para mim, para escrever, para ler… para fazer o que me dá prazer, que foi algo que me esqueci de fazer nos últimos anos e que ando aos poucos a reaprender. Sou eu que vou fazer o meu horário e gerir o meu tempo. Quem sabe se daqui por uns tempos não poderei começar a pensar num doutoramento?

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

A melhor técnica de engate do mundo

(mas à prova de Vasco…)


 
Estava eu num centro comercial apinhado em dia de saldos – com o Diogo que odeia multidões a transpirar depois de uma passagem pela Primark e o Vasco no estado de sobre-excitação que se imagina – quando me lembrei que tinha mesmo de passar pelo supermercado. Não havia volta a dar, íamos jantar a casa de uma amiga e eu tinha ficado de levar a sobremesa. Assim que entrei, deparei-me com filas monumentais nas caixas e passei ao plano B. Deixei os miúdos a marcar lugar numa fila para pagar e fui a correr buscar o que precisava.

Quando voltei, o senhor que estava à nossa frente começa a tentar meter conversa. “Minha senhora, tenho de lhe dar os meus parabéns. Tem aqui uns rapazes muito bem-educados e sossegados. Principalmente este…”. E apontou para o Vasco. Ouvi um riso abafado. O casal atrás de mim ria disfarçadamente. Percebi que o Vasco devia ter feito das suas… O Diogo incrédulo dizia-me em português: “Ó Mãe, o tipo está a engatar-te! O Vasco não parou quieto um minuto!”. Não me contive e larguei à gargalhada.

E ali ficámos mais uns 10 minutos na fila, que avançava a passo de caracol. A coisa pequena estava no seu melhor. Falou, lutou contra inimigos imaginários, falou, mandou um carrinho para cima do senhor, falou, atirou coisas ao chão… O tipo acabou por admitir a derrota. Depois de pagar, deu-me uma pancadinha no braço e disse-me à laia de despedida: “Coragem!”.

Vasco, a afastar pretendentes desde 2006.