quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Porque nada nos une, escolhemos estar juntos

(…)


Porque nada nos une, escolhemos estar juntos. Assim, simplesmente. Por opção. Por amor.

Não estamos amarrados a nenhuma convenção social. Não são os filhos que nos unem. Não estamos presos a nenhum empréstimo bancário. Nem estamos juntos porque dá jeito. Ou por hábito. As nossas famílias não se juntam no almoço de Domingo. Aliás, vimos de universos completamente diferentes. Não partilhamos o local e os colegas de trabalho. Nem frequentamos o mesmo grupo de amigos. As nossas referências não são as mesmas. Bem vistas as coisas, não temos a mesma nacionalidade, não falamos a mesma língua, não moramos no mesmo país. Há um mundo que nos separa, literalmente.

Mas tomámos uma decisão. Estarmos juntos, mesmo que tudo nos separe. Estarmos juntos, apesar de tudo. Sem laços, nem amarras impostas. Exactamente porque nada nos obriga. Excepto a nossa vontade. A nossa liberdade. O nosso amor.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Descubra as diferenças

(onde se mostra que uma mesma situação

pode suscitar reacções opostas)


Ontem foi dia de exame de solfejo. Fui buscar o Diogo à escola mais cedo. Que estava muito nervoso, maldisposto, com falta de ar, afónico. Apesar da overdose de pastilhas para a garganta. Fui o caminho todo a dizer-lhe que tinha de se acalmar, que ia correr tudo bem.

Depois, fomos buscar o Vasco. Vinha na boa. Aos saltinhos e a cantarolar, como sempre. A falar pelos cotovelos. Fui o caminho todo a dizer-lhe que tinha de se acalmar, senão as coisas podiam não correr bem.

Passámos por casa para lanchar rapidamente. O Diogo aproveitou para se agarrar ao piano e estudar mais um bocado. O Vasco enfiou-se na casa de banho com um “Tio Patinhas” debaixo do braço.

Durante o trajecto, o Diogo estudava as partituras. O Vasco lia o “Tio Patinhas”.

Chegámos. O Diogo continuava a estudar. O Vasco continuava a ler.

A coisa pequena foi a primeira a entrar. Anunciou logo em alto e bom som (tão alto que se ouviu cá fora…) que tinha decorado a partitura para impressionar o Director e que não precisava de a ler. A seguir, cantou afinadinho em alto e bom som (tão alto que se ouviu cá fora…). Quando acabou, continuou a falar. Que continuava a tocar violino, mas que também gostava muito do violoncelo. Que não sabia bem porquê só gostava de instrumentos de cordas. Que tinha entrado para o coro e que estava a adorar. Etc., etc., etc... Saiu de lá aos pulinhos juntamente com um colega, que arrastava os pés. Afinal, os exames eram feitos a dois. O outro nem o ouvi, coitado.

Depois, entrou o Diogo com uma colega. A suar em bica. Branco como a cal. Ele bem tinha esperança que fosse a desafinada da turma… calhou-lhe a bonitinha, afinada. Este exame era mais complexo, mais demorado, com uma leitura improvisada e outra preparada. O Diogo teve alguma dificuldade em colocar a sua nova voz de gente grande. Mas cantou afinadinho. Saiu de lá corado, aliviado, a rir.

E, pronto, por agora estamos despachados. O resultado logo se verá... De qualquer modo, as notas parecem-me bem menos importantes do que a reacção oposta dos meus rapazes a uma situação idêntica.



segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Porque hoje é dia de Educação Física

(onde se mostra o equipamento de Educação Física do Vasco

e se vê que fazer desporto em Malempré não é bem a mesma coisa)

 
Quando chegou, no ano passado, o Diogo vinha em excelente forma física graças aos três treinos semanais de hóquei em patins (mais os jogos aos fins-de-semana, os torneios, os estágios, o dar uma perninha na equipa a seguir só para desenrascar porque o outro guarda-redes estava doente…). Farto desta vida de desportista de competição para a qual não foi talhado, federado desde os 6 anos, o Diogo decidiu tirar uma licença sabática sem fim à vista. Até ter a primeira aula de Educação Física na escola primária de Malempré. E chegar a casa completamente derreado. Morto. É que a professora não brinca em serviço. As aulas são mesmo a doer.

A escola é pequenina e não tem ginásio. Mas isso só seria um problema se não houvesse quilómetros de bosques aqui à volta. O que não falta é espaço. Faça chuva, faça sol, as aulas de Educação Física são muito simples: a professora pega na rapaziada toda e põe-na a correr durante 1 hora. Sem parar. É assim uma espécie de trekking a toque de caixa. A subir, a descer, a saltar riachos e pedregulhos, a evitar buracos e troncos caídos. No Inverno, é muito mais divertido, porque a tudo isto junta-se… a neve! Substituem-se os fatos de treino e os ténis por fatos e botas de neve, gorros, cachecóis e luvas. Quentinhos e a correr é que eles estão bem. E cansados.

O Diogo esforçava-se imenso por dar o exemplo e manter o ritmo, concentrado em liderar o pelotão, já que era o mais crescido da escola. Acabava as aulas com o sentimento do dever cumprido, mas morto de cansaço. O Vasco nem sequer tentava acompanhar a trupe, que aquilo via-se logo que era demasiado esforço e pouco divertimento. Giro, giro, era aproveitar o passeio pelos bosques para apanhar paus e lutar com os ogres que saíam subitamente detrás de uma árvore. Por vezes, também conseguia afastar monstros com uma saraivada de calhaus. A professora começou por tentar incentivar o Vasco a seguir o ritmo da turma e correr. Depois, tentou que, pelo menos, desse uma corridinha de vez em quando para não ficar muito atrás. Às tantas, já só esperava por ele em pontos estratégicos para ter a certeza que não o perdia de vez. No final do ano, o Vasco tinha autorização para defender a retaguarda de todo o tipo de inimigos imaginários, enquanto o irmão conduzia a turma.

Hoje é dia de Educação Física. E o Vasco, apesar de já não ter o irmão a marcar o ritmo da corrida, continua calmamente a caminhar atrás do grupo. Fiel ao seu desígnio de guardião dos bosques de Malempré.
 

[ Este ano, a professora pediu-me encarecidamente que comprasse um fato de neve um bocadinho mais escuro para conseguir mantê-lo debaixo de olho… ]