quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

A maçã com bicho

(e o meu pomar)



Li no outro dia um comentário sobre as praxes, onde se defendia que só o espírito submisso dos portugueses poderia permitir esta alarvidade. Ora isto é não ter noção nenhuma do fenómeno geral das praxes. A praxe não é uma coisa moderna, nem é tipicamente portuguesa. A praxe não é uma coisa que meia dúzia de universitários cosmopolitas iluminados se lembraram de fazer a uns pobres caloiros acabados de chegar de Freixo de Espada à Cinta. A praxe é um fenómeno mundial que vai para lá das fronteiras da universidade.
 
A praxe é chegar ao picadeiro e, ao encontrar a box do nosso cavalo preferido vazia, ouvir dizer que é mesmo assim, que aquele bicho já não prestava, que não nos podemos afeiçoar aos animais, que bem nos avisaram. A praxe é passar meses enfiada nas catacumbas da Biblioteca Nacional a fazer pesquisa para um professor caquético e ouvir dizer que é mesmo assim, que fazer parte de um trabalho que não assinamos é uma honra, que ninguém faz uma tese de mestrado sem passar por essa experiência altamente enriquecedora. A praxe é estar a chorar de dores durante o trabalho de parto e a enfermeira dizer-nos que é mesmo assim, que não é só fazê-los, que é preciso sofrer, que aquilo é só o início de todas as dores que nos esperam. A praxe é começar a trabalhar na secção da livraria de uma grande superfície e dizerem-nos que é mesmo assim, que é normal trabalhar 14 horas de seguida, que os filhos também se criam se não estivermos presentes, que vender livros não é a mesma coisa que lê-los e que agora é que vamos ver o que é a vida.

Entrar num universo novo e iniciar um processo de pertença implica sempre uma espécie de rito iniciático. Para fazer parte do grupo é preciso sofrer. Nem que seja só um bocadinho, nem que não seja por mal, nem que seja para nosso bem, nem que seja para finalmente conseguirmos perceber o que nos andavam a dizer há tanto tempo e nós, burros, inocentes, imaturos, ainda não tínhamos compreendido.

As chamadas praxes académicas são apenas o início de todas as outras provas de endurance que nos esperam. São o expoente máximo da estupidez humana com a qual teremos de nos confrontar pela vida fora. São a prova de que uma série de ilegalidades feita em conjunto se tornam não só legais, como factor de crescimento e de integração na nossa sociedade.

Felizmente, nunca fui praxada, nem nunca praxei. Embora as praxes da Faculdade de Letras da Clássica fossem uma brincadeira de criança, quando comparadas com outras. O  ar de miúda no alto do meu metro e meio, o rabo-de-cavalo a baloiçar, a mochila pesada às costas e os All Star coloridos, permitiram-me escapar ilesa. A única vez que fui interpelada, disse que não era caloira, que vinha da escola ter com a minha mãe que trabalhava na Faculdade, mas que estava mortinha por passar por isso. “Ainda vais ter de esperar uns anos, miúda!”, foi a resposta. Confesso que durante uns segundos até fiquei ofendida.

Já o meu amor não teve a mesma sorte. A milhares de quilómetros de Portugal, mais ou menos na mesma época, as praxes do curso de Medicina Veterinária na Universidade de Liège eram uma condição sine qua non para se poder prosseguir os estudos. Ele recusou-se a entrar no jogo e declarou-se anti-praxe. E lá foi fazendo o curso, completamente ostracizado, com sebentas desviadas, salas de exames alteradas, informações boicotadas e todo o tipo de mesquinhez que lhe pudesse complicar a vida. Até que chegou ao último ano e precisou mesmo de passar pela Associação de Estudantes que atribuía as horas de consultas práticas. E não lhe foram facultadas. Era impossível tirar a licenciatura sem as práticas. A solução foi mudar de curso, mudar de universidade, mudar de cidade. E começar tudo de novo. Mantendo a dignidade.

Duas décadas depois, as coisas não mudaram. Houve um escândalo este ano na Universidade de Liège, durante o período de praxes de Medicina Veterinária em Setembro. E, tal como em Portugal, não foi durante as praxes propriamente ditas que o incidente aconteceu. Foi durante um fim-de-semana nas Ardenas, organizado pelos padrinhos/madrinhas para darem a conhecer a região aos caloiros.

Uma miúda francesa recusou-se a beber álcool e foi obrigada a ingerir litros de água em pouquíssimo tempo. Quase vinte litros. Quando disse que se sentia mal e que queria parar, foi-lhe explicado que poderia fazê-lo se renunciasse à praxe. Ou seja, se renunciasse ao curso para o qual tinha acabado de entrar. A miúda decidiu continuar. E entrou em coma com um edema cerebral. Afinal, o líquido elementar também pode ser mortal. Esta história teve um final feliz, porque a miúda acabou por acordar uns dias depois. Mas ficaram sequelas. Físicas e psicológicas. Para sempre.

Como diria o Sérgio Godinho, “Maçã com bicho, acho eu da praxe”.

Não se vai conseguir proibir as praxes em todos os cursos, em todas as universidades, em todo o mundo. Aliás, a proibição nunca é solução para nada. Nem se vai conseguir acabar com as praxes que, em maior ou menor grau, vamos sofrendo pela vida fora para nos conseguirmos encaixar na sociedade em que vivemos. A meu ver, a solução para este problema é a mesma de sempre. Se a praxe é a “maçã com bicho” que vai contaminar a fruta toda, a única coisa a fazer é cada um cuidar do seu pomar. Tento educar os meus rapazes para serem pessoas dignas, seguras de si. Para recusarem ser maltratados por quem está acima deles e recusarem humilhar quem está abaixo deles. Porque a praxe é tortura e submissão. E este é um dos ingredientes base para os regimes autoritários emergentes. É a “maçã com bicho”...


quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Porque nada nos une, escolhemos estar juntos

(…)


Porque nada nos une, escolhemos estar juntos. Assim, simplesmente. Por opção. Por amor.

Não estamos amarrados a nenhuma convenção social. Não são os filhos que nos unem. Não estamos presos a nenhum empréstimo bancário. Nem estamos juntos porque dá jeito. Ou por hábito. As nossas famílias não se juntam no almoço de Domingo. Aliás, vimos de universos completamente diferentes. Não partilhamos o local e os colegas de trabalho. Nem frequentamos o mesmo grupo de amigos. As nossas referências não são as mesmas. Bem vistas as coisas, não temos a mesma nacionalidade, não falamos a mesma língua, não moramos no mesmo país. Há um mundo que nos separa, literalmente.

Mas tomámos uma decisão. Estarmos juntos, mesmo que tudo nos separe. Estarmos juntos, apesar de tudo. Sem laços, nem amarras impostas. Exactamente porque nada nos obriga. Excepto a nossa vontade. A nossa liberdade. O nosso amor.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Descubra as diferenças

(onde se mostra que uma mesma situação

pode suscitar reacções opostas)


Ontem foi dia de exame de solfejo. Fui buscar o Diogo à escola mais cedo. Que estava muito nervoso, maldisposto, com falta de ar, afónico. Apesar da overdose de pastilhas para a garganta. Fui o caminho todo a dizer-lhe que tinha de se acalmar, que ia correr tudo bem.

Depois, fomos buscar o Vasco. Vinha na boa. Aos saltinhos e a cantarolar, como sempre. A falar pelos cotovelos. Fui o caminho todo a dizer-lhe que tinha de se acalmar, senão as coisas podiam não correr bem.

Passámos por casa para lanchar rapidamente. O Diogo aproveitou para se agarrar ao piano e estudar mais um bocado. O Vasco enfiou-se na casa de banho com um “Tio Patinhas” debaixo do braço.

Durante o trajecto, o Diogo estudava as partituras. O Vasco lia o “Tio Patinhas”.

Chegámos. O Diogo continuava a estudar. O Vasco continuava a ler.

A coisa pequena foi a primeira a entrar. Anunciou logo em alto e bom som (tão alto que se ouviu cá fora…) que tinha decorado a partitura para impressionar o Director e que não precisava de a ler. A seguir, cantou afinadinho em alto e bom som (tão alto que se ouviu cá fora…). Quando acabou, continuou a falar. Que continuava a tocar violino, mas que também gostava muito do violoncelo. Que não sabia bem porquê só gostava de instrumentos de cordas. Que tinha entrado para o coro e que estava a adorar. Etc., etc., etc... Saiu de lá aos pulinhos juntamente com um colega, que arrastava os pés. Afinal, os exames eram feitos a dois. O outro nem o ouvi, coitado.

Depois, entrou o Diogo com uma colega. A suar em bica. Branco como a cal. Ele bem tinha esperança que fosse a desafinada da turma… calhou-lhe a bonitinha, afinada. Este exame era mais complexo, mais demorado, com uma leitura improvisada e outra preparada. O Diogo teve alguma dificuldade em colocar a sua nova voz de gente grande. Mas cantou afinadinho. Saiu de lá corado, aliviado, a rir.

E, pronto, por agora estamos despachados. O resultado logo se verá... De qualquer modo, as notas parecem-me bem menos importantes do que a reacção oposta dos meus rapazes a uma situação idêntica.