segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

O Grande Fogo de Malempré

(mais conhecido entre nós por “Le Grand Feu”)


 
Na sexta-feira passada, celebrou-se em Malempré o tão ansiado “Grand Feu”. Tão ansiado que foi mesmo festejado antes da data convencional, na semana do Carnaval. Mas, quando a malta é festeira, a data é de somenos importância.

Enquanto a Europa se debate com as forças da Natureza, na Bélgica tem estado um tempo anormalmente ameno para esta época. Ou seja, ainda não estamos completamente soterrados na neve, como de costume. Por isso, antes que o Inverno a sério se faça sentir, aqui em Malempré decidimos enterrá-lo já. Porque esse é o objectivo do “Grand Feu”: enterrar o Inverno.

No final do dia, Malempré em peso juntou-se num campo ao lado da sala de festas da aldeia e queimou uma bruxa num grande fogo. Obviamente a bruxa era uma boneca, mas no meio das chamas parecia estranhamente real. Depois, enquanto o fogo crepitava, celebrámos o final do Inverno. A sala de festas foi animada por um DJ muitoooo profissional. Com direito a bola de discoteca, luzes psicadélicas e fumarada. Os miúdos estavam mascarados e fez-se uma espécie de baile de máscaras. Os adultos aproveitaram para jantar (frites, pois claro!) e pôr a conversa em dia.

No ano passado, o resultado do "Grand Feu" não foi o esperado: nevou até ao final de Maio. Espero que desta vez, seja bem melhor…
 
 
[ De qualquer modo, este ano a festa estava a cargo da escola. Os miúdos encarregaram-se da decoração. Os pais dividiram as diversas tarefas entre si: organização, compras, bar, cozinha, limpezas, etc. É cansativo, mas o lucro obtido reverte todo para passeios, teatros, exposições e cinemas pelos quais só teremos de pagar uma quantia simbólica. Educação comunitária no seu melhor. ]



 



sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Alguém pare o carrossel que eu quero descer!

(porque esta porcaria vai demasiado depressa para o meu gosto)


 
Estava esta alma em pleno trabalho de parto, naquela altura em que passamos algures para o outro lado, quando decidi que afinal não queria ter um filho. E gritei em alto e bom som que me queria ir embora, que não estava preparada para ser mãe e que, portanto, o melhor mesmo era não ter bebé nenhum. Ninguém me prestou atenção, claro… mas apressaram-se a dar-me a epidural. Menos mal.

Horas mais tarde, quando me trouxeram o Diogo a meio da noite e o puseram no meu colo, tive um ataque de pânico. Sim, senti um amor imenso. Um amor maior. Mas também senti que me tinham roubado o coração para todo o sempre. Percebi que, a partir daquele momento, eu era responsável por outra vida até ao fim dos meus dias. Não havia volta a dar. Estivesse ou não preparada, agora era a valer. Tinha entrado irremediavelmente no mundo dos adultos e tinha arrastado aquele ser minúsculo atrás.

A sensação de vertigem tem-se repetido muitas vezes ao longo destes quase 13 anos. A vontade de mandar parar o carrossel e descer. Porque não me sinto capaz de acompanhar o ritmo. Estar à altura da responsabilidade. Conseguir levar este barco a bom porto, sem deixar entrar demasiada água. Porque o desafio é constante e às vezes perco momentaneamente o Norte.

Quando começou a falar aos sete meses e nunca mais se calou. E, aos dois anos, quando anunciou que “acreditava no Senhor”. Quando aos três explicou que não tinha dito que estava surdo para “não ser diferente dos outros meninos”. Quando eu andava às voltas com um bebé colérico e me gritou com raiva que, já que não tinha tempo para ele, ia aprender a ler sozinho. E aprendeu. Quando o vi assumir o lugar ingrato de guarda-redes aos 6 anos, mal se aguentava nos patins. E, aos oito, quando uma médica nas urgências percebeu que era vítima de bullying na escola. Quando me agradeceu por o ter obrigado a andar no trompete, no final do primeiro ensaio na mini-banda, porque “sentia uma emoção dentro do peito”. Quando chorou a noite toda nos meus braços, com quase 11 anos, ao descobrir que o pai tinha saído de casa. E, pouco depois, quando me pediu para me “agarrar à vida” por ele, pelo irmão. Quando no outro dia me abraçou e me disse que era tão bom ver-me feliz e apaixonada.

Desde que entrou para o secundário, o meu menino crescido começou a crescer ainda mais depressa. Demasiado depressa. Já lhe disse para ir mais devagar, que eu não estou a conseguir acompanhar a pedalada, mas ele não me liga nenhuma. Suspira. Levanta a voz. Grunhe. Fala para dentro. Questiona. Resmunga. Fala pelos cotovelos, da escola, dos amigos, dos professores, de livros, de filmes, de música, de séries, de culinária, da namorada. Da namorada, uma e outra vez.

A vida gira à volta da loirinha. Das conversas que têm. Dos poemas que lhe manda e ela estranhamente não percebe (apesar de escolher os mais simples de Shakespeare na versão original). Do que fazem nos recreios. Do que escrevem no Facebook. Da nova foto de perfil dos apaixonados a darem um beijo na boca. Da prenda que temos de lhe ir comprar para o Dia dos Namorados. De que temos de passar no banco para ele levantar dinheiro. De que está nervoso para saber se ela gosta…

Nestes últimos tempos, voltei a sentir a já conhecida sensação de vertigem. Parece-me que estamos novamente numa daquelas descidas vertiginosas. Sinto o estômago colado às costas. Não tenho muito tempo para pensar. As novidades sucedem-se. O carrossel não pára.
 
[ Não sou a única, é preciso que se diga. O Vasco, no outro dia, meteu-se na nossa cama e fartou-se de chorar. “É namorada para lá, namorada para cá… ele já não gosta de mim! Tenho a certeza de que já não sou importante na vida dele. Ela é…” ]

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Nada é garantido

(onde se expõem receios e se faz uma viagem até aos anos 60)



Vem este post a propósito do referendo "Contra a Imigração em Massa" que 50,3% dos suíços aprovou na semana passada. É de referir que a afluência às urnas superou os 50%, o que também me parece elucidativo. A partir de agora, a Suíça terá não só um numerus clausus anual para a entrada de emigrantes da União Europeia, como limitará o reagrupamento familiar e as autorizações de residência. Por outro lado, vai repor o princípio da preferência pelo trabalhador nacional face ao “estrangeiro”. E mudar as regras do jogo, claro. Ou seja, alterar os benefícios sociais.

Não sei que reacções suscitou esta notícia em Portugal. Mas por aqui tem-se falado muito nesta questão. E o assunto foi apresentado pela comunicação social mais ou menos da seguinte maneira: “Para impedir a emigração em massa dos últimos meses, nomeadamente portuguesa, a maioria dos suíços decidiu votar a favor de um controlo mais apertado…”. E eu, que sou “estrangeira” e portuguesa, tremo só de pensar no efeito dominó que esta decisão poderá ter. Em Inglaterra, na Holanda e na Áustria, os partidos de extrema-direita alinharam logo no mesmo tipo de discurso. Le Pen já defendeu que a França devia seguir este exemplo. Que se os franceses fossem chamados a decidir, tomariam a mesma decisão dos suíços. Eu acho que ela tem razão, infelizmente.

Há pouca coisa que me assuste tanto como o nacionalismo, o fundamentalismo, o tacanhismo elevado ao extremo, o medo do “estrangeiro” só porque sim. Já dizia a minha avó, gente maluca é pior que ladrões. E esta gente que nos governa, que nos desgoverna, que nos manipula, que nos usa e que nos lixa do alto dos seus poleiros por essa Europa fora é completamente louca. E eu tenho medo deles.

A Bélgica não é a Suíça, o segundo país da Europa com maior fluxo de emigrantes. Contrariamente à helvética, a população belga não tem 23% de estrangeiros. O racismo não paira no ar. A desconfiança não espreita a cada esquina. Nem tudo são rosas, obviamente. Mas creio que, de uma maneira geral, posso dizer que as pessoas demonstram curiosidade e simpatia em relação à nossa vinda para a Bélgica. Empatia, diria mesmo. Sempre me senti muitíssimo bem acolhida e tratada. Os miúdos são alvo dos mais rasgados elogios.

Mas não sou parva. Sei que se usasse véu o tratamento não seria o mesmo. Se não falássemos perfeitamente francês e mais umas quantas línguas, não seríamos considerados iguais. Se não fizéssemos um esforço para nos integrarmos na sociedade, não seríamos tratados com a mesma gentileza. Se não lutássemos com tanta garra, eu por um trabalho e eles por serem excelentes alunos, as pessoas não teriam vontade de nos ajudar. Fundamentalmente, somos tratados em pé de igualdade porque nós próprios nos colocamos nessa posição.

Contudo, o caso muda de figura quando se trata do poder institucional. Não me esqueço da quantidade de papéis que tive de entregar para pedir a autorização de residência, na Commune, quando chegámos. Contrato de trabalho, diplomas, registo criminal, contrato de arrendamento, seguros… um sem fim de papelada. Demorei algum tempo a reunir toda a documentação.

Um dia, telefonaram-me da Commune a pedir para passar por lá. Precisavam de falar comigo sobre o meu pedido de residência. Quando cheguei fui levada para uma salinha, em vez de ficar na fila do guiché como sempre. Disseram-me que todas as juntas de freguesia tinham recebido ordens superiores para analisarem à lupa os processos que estivessem pendentes de espanhóis, italianos e portugueses. Que estavam a apertar a malha para não darem autorizações de residência indiscriminadas. Que já não era possível porque se previa um aumento exponencial da emigração devido à crise. A funcionária encarregue do meu caso, tinha ficado preocupada e lembrou-se de uma solução. Casar-me. Talvez eu tivesse um amigo que pudesse casar comigo só no papel… Hein?!?!? Pensei que tinha percebido mal e perguntei se estavam mesmo à espera que eu casasse com um belga qualquer só para obter o visto de residência como se estivéssemos nos anos 60?! Estavam.

Cingi-me às vias mais normais e, quase quatro meses depois, lá acabei por obter a autorização de permanência no território belga para mim e para os rapazes até 2016. Em grande parte porque tinha um mestrado e um contrato de trabalho de um ano com o Estado, como professora. E porque vivo num meio pequeno, rural, onde fui muito bem recebida e as funcionárias fizeram tudo para me ajudar. Mas tive de assinar um documento em como me comprometia, durante três anos, a não pedir nenhuma ajuda do Estado, apesar de ser uma cidadã da EU, apesar de fazer os mesmos descontos que todos os outros.

Agora, neste novo trabalho, preciso de uma equivalência dos meus diplomas para a Associação ter acesso a um subsídio para pagar o meu salário. E, mais uma vez, me deparei com gente disposta a ajudar-me, a tentar dar a volta ao texto. Mas tudo isto esbarrou com um muro institucional irredutível. Será muito difícil concederem-me equivalência porque não há nenhuma licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas com o binómio de línguas Francês/Português. Esta licenciatura existe, tem exactamente a mesma designação, os binómios de línguas também existem… só não são é os mesmos. Ah… e as cadeiras do curso também não são exactamente as mesmas. Portanto, posso esquecer a equivalência do mestrado e, quanto à licenciatura, vamos lá ver… Nada é automático. O processo é moroso (cerca de 6 meses) e bastante caro (175 Euros). E nada é garantido, repetem-me à exaustão.

E é apenas isto que eu retenho: nada é garantido. O meu país falhou-me. Falhou a tantos de nós que a Europa está aos poucos a rever a sua posição em relação à emigração. Os direitos que tomávamos por garantidos estão a desaparecer. Direitos que os nossos avôs e pais conquistaram a custo. Um a um. Mas, hoje, nada é garantido.