quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Dos amigos

(porque a vida só faz sentido partilhada)


Tenho amigos que nunca me lembro de ter conhecido, de tão pequena que era. Tenho amigos que fiz na primária. E amigos com quem brincava na rua. Amigos que conheci na preparatória. Nas aulas de natação e nas colónias de férias. Tenho amigos de quem conheço a família como se fosse minha, com quem partilho memórias de toda uma infância. Como se fossemos irmãos. Tenho bons amigos que fiz no secundário. E amigos que começaram por ser apenas amigos de amigos. Tenho amigos que fui fazendo durante a licenciatura e o mestrado. Tantos. Tão importantes. Com quem cresci. Amigos que conheci na net e amigos que reencontrei na net. E que nunca mais larguei. Tenho amigos que vieram através dos meus filhos, mães de amigos ou professores. Tenho amigos que fui fazendo ao longo dos anos, nas diferentes profissões e trabalhos por onde passei. Colegas que se transformaram em amigos. E agora tenho novos amigos. Vizinhos que, aos poucos, se tornaram amigos. Novos e velhos amigos por esse mundo fora.

Os meus amigos não são todos iguais, heterogéneos. Nem podem ser todos alvo do mesmo rótulo. Vêm de quadrantes muito diferentes. Com percursos de vida diametralmente opostos. Uns de direita, outros de esquerda. Outros das extremidades, do centro e de coisa nenhuma. Amigos em grupo e amigos desirmanados. Tenho amigos que não têm estudos e que mal sabem escrever. Tenho amigos altamente qualificados. Tenho amigos solteiros e sem filhos. Tenho amigos com um rancho de filhos. Tenho amigos homofóbicos e homossexuais. Amigos ateus e profundamente crentes. Religiosos mesmo. Amigos que fumam ganzas e amigos-Polícia. Tenho amigos muito bem-sucedidos. E amigos a quem a vida infelizmente trocou as voltas. Tenho amigos que falam diferentes línguas. Mais próximos ou mais distantes, a distância no coração é a mesma.

Se me perguntassem qual a minha maior qualidade diria que é a capacidade de fazer amigos. Sou uma tagarela de primeira e meto conversa com facilidade. E, depois, gosto de manter as amizades que faço (para poder continuar a falar, obviamente!). Acho que cuido dos meus amigos. Não sou de escrever nem de grandes telefonemas, mas vou acompanhando de longe as vidas de uns e de outros. De vez em quando, pergunto pelos filhos, pais, avós, periquitos e empregos. As boas notícias que me chegam enchem-me de orgulho e felicidade. E fico triste quando as coisas não correm bem. Quando sou amiga, sou fiel e defendo os meus amigos como uma leoa. Apenas pelo princípio.

É óbvio que perdi amigos pelo caminho. Alguns afastaram-se. Ou a vida encarregou-se de os afastar. E eu terei certamente afastado outros. Todos deixaram saudades. Todos fazem falta. Mas, às vezes, é mesmo assim. É como os amores. Deixam de fazer sentido. Se é triste? Não, nem por isso. Ficam as memórias dos momentos vividos.

A três dias de partir para Portugal, penso nos meus amigos. Em como gostava de lhes dar um abraço sentido. De lhes dizer, sem pudores, o quanto gosto deles. De lhes agradecer por terem sido um muro de energias positivas que ficou na retaguarda e me deu confiança para avançar sozinha.
 



[ Tenho outro género de amigos que também merecem uma palavra… os meus amigos-livro. Aos quais volto muitas vezes. Onde encontro novas respostas a perguntas que nunca formulei. Que gosto de tocar, de cheirar de acarinhar. Onde me encontro sempre. Diferente. ]

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Festejar o Natal em Fevereiro

(gostámos tanto que para o ano há mais)


 
Este ano, acabámos por não festejar o Natal com a minha “família belga” porque fomos para Inglaterra. Depois, dois voltaram para a Rússia. Um mudou de emprego. Outro ficou doente. Três viajaram. Dois ficaram doentes. Outro começou um novo trabalho. E entretanto o tempo foi passando. Não é fácil reunir dez adultos e quatro crianças, que vivem em diferentes cidades (e países).

As nossas prendas continuavam no parapeito da janela, que é o local de arrumação provisória preferido dos belgas em geral (e da minha família em particular). Cada vez que íamos lá a casa, os miúdos queriam abri-las, mas nunca deixámos. Ainda faltava festejar o Natal. Mais importante do que as prendas era estarmos todos juntos, o que é raro.

Mas este sábado finalmente conseguimos! Quer dizer, conseguimos reunir a família quase toda. Um dos meus irmãos e a namorada tinham a desculpa de estarem em Moscovo a gelar feitos pinguins. E o meu irmão mais novo enganou-se e apareceu no dia seguinte.

Trocámos prendas como se fosse Natal. Mas com mais piada, porque não abríamos embrulhos há imenso tempo. Pusemos a conversa em dia. Corremos atrás dos miúdos. Os miúdos correram atrás do cão. Comemos um jantar digno de reis. E um bolo de bolacha de laranja português para sobremesa.

Acabámos a noite enroscados a ver o “Corcunda de Notre-Dame” da Disney que passava na televisão. Soube mesmo a Natal, caraças! Para o ano repetimos, que isto em Fevereiro tem muito mais piada.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Qual é o antónimo de check-in?

(resposta a. Check-out, resposta b. Filho doente)


 
Na 2ª feira, o Vasco recusou um pain au chocolat. E eu não precisei de mais nada para saber que ele estava doente.

Umas horas depois, em pleno jantar de aniversário de uma amiga, o Vasco dá um arroto tipo Shrek. Ainda estávamos todos a rir à gargalhada quando desata a vomitar em jacto. Pois… não foi um espectáculo bonito de se ver.

Quer dizer, continua a não ser um espectáculo bonito de se ver, tendo em conta que ainda não parou. Desde 2ª feira que está com febre altíssima e não aguenta nada no estômago.

Mantém o bom humor e o sorriso. Orgulhosíssimo por estar doente pela primeira vez na vida. Com direito a ida de urgência ao médico e medicamentos a sério. Cada vez que o termómetro sobe mais um bocadinho é uma festa. Passeia-se pela casa de pijama e alguidar na mão, já de boca aberta para “estar preparado”.

E eu aqui estou, em casa. Quando arranjei um novo emprego há menos de um mês. A diferença é que, na Bélgica, o chefe manda-me um e-mail a dizer para ficar descansada, que o importante é tratar do miúdo. Que fique o tempo que precisar. E a desejar-me coragem.

Decido aproveitar para ser mãe de filhos únicos.

Durante o dia (e madrugadas adentro), dedico-me ao Vasco. Com o alguidar sempre ao lado, vemos desenhos animados, fazemos pinturas, legos, jogos. Falamos muito. Trocamos mimo. Só nos zangámos uma vez esta semana, porque ele queria à força ir à aula de violino e eu não deixei. No início da noite, quando o Vasco sucumbe ao cansaço, sou só mãe do Diogo. E fazemos maratonas a ver os Jogos Olímpicos de Inverno. Percebo que o meu filho crescido ainda gosta de deitar a cabeça no meu colo.

Agora é rezar ao deus dos ateus para a bicheza passar. Sem contagiar mais ninguém. Porque o check-in está feito. Daqui por uma semana estamos em Portugal. Com o meu amor. Felicidade pura.