sexta-feira, 25 de abril de 2014

Liberdade, simplesmente

(ou a importância da liberdade de escolha)


Liberdade é poder escolher. Seja lá que for. Escolher apenas. Em paz com a nossa consciência. Sem nos sentirmos insultados, nem humilhados. Sem nos sentirmos obrigados. Forçados. Empurrados. Como eu me senti um dia.

Liberdade é viver no país que nos viu nascer, sem que nos chamem masoquistas por termos de sofrer um quotidiano feito de dificuldades. Viver numa democracia trasvestida de austeridade. E continuar a acreditar, sempre.

Liberdade é poder emigrar para um país que nos dê melhores condições de vida, sem que nos chamem ratos por abandonarmos o navio que está a afundar. Viver numa democracia onde não votamos. Mas em que acreditamos.

Já dizia Pessoa... “Baste a quem baste o que lhe basta/O bastante de lhe bastar!”

Liberdade é poder escolher ficar ou partir. Ou partir sabendo que podemos sempre voltar. É nisto que eu acredito.








quarta-feira, 23 de abril de 2014

Maninho

(onde se vislumbra uma história com um enredo surreal e se narra outra)


Somos quatro. Três raparigas mais velhas e um rapaz. Sendo que eu sou a sandwich do meio. Entre nós, temos três mães e dois pais. Avós, perdi-lhes a conta. Parece complicado? Se vos explicasse, iria ficar ainda mais complicado, acreditem. Isto só lá vai com um desenho. E o melhor é não o deitarem fora, porque pode sempre dar jeito para consultas posteriores. O meu amor já conheceu a família toda – e honra lhe seja feita, não fugiu a correr – mas, no outro dia, perguntou a medo quem eram os pais da minha irmã mais velha. Acrescentou muito depressa que sabia, só que estava um bocadinho baralhado. E eu percebi logo que, quase um ano e meio depois, o tipo não percebeu patavina.

Tudo isto para apresentar mais uma personagem importante desta nossa história: o Pedro. O meu irmão que fez ontem mais anos do que aqueles que eu consigo acreditar que ele tenha. O meu irmão que nasceu num Domingo de Páscoa, tinha eu oito anos. Nunca tinha visto um bebé tão bonito e foi paixão à primeira vista. Dizem-me que tive alguns ciúmes, mas sinceramente não me lembro. Lembro-me apenas de o amar com o primeiro amor incondicional que senti na vida. Até hoje.

Mal começou a andar, levava-o para todo o lado. Aos sábados de manhã, o meu pai dava-me dinheiro para irmos tomar o pequeno-almoço ao café para eles poderem ficar a dormir mais um bocado. O Pedro acordava com as galinhas. E nós lá íamos. Às vezes, quando eu tinha conseguido juntar várias mesadas, percorríamos a Estrada de Benfica os dois de mão dada para irmos comprar uns “Pinypon” a uma papelaria onde eram mais baratos. Ele andava quilómetros a pé e nunca se queixava. Tinha uma energia inesgotável. Estava sempre com fome. Lembro-me que a minha avó Clarisse aflita lhe suplicava que parasse de assaltar a dispensa porque ia acabar por ficar doente. A hora dos desenhos animados era sagrada. Tal como as aldeias de “Barriguitas” que eu construía na marquise e que ele adorava destruir quando eu estava na escola. Quando o Pedro fez seis anos, realizei um sonho antigo de o levar comigo para a colónia de férias. Passou quinze dias sem tomar banho, a seguir-me como uma sombra para todo o lado. Jurei para nunca mais. Mas quando fiz um ano de intercâmbio na Bélgica, foi dele que senti mais saudades.

Era um miúdo mimado e malcriado, mas eu adorava-o. Transformou-se num adolescente irritante e eu continuei a adorá-lo. Hoje é um adulto cheio de certezas e eu adoro-o cada vez mais. É um excelente irmão e um tio fantástico. Os miúdos têm uma paixão assolapada por ele. Finalmente, o Pedro vem viver para mais perto de nós e vou poder ir visitar mais vezes o meu maninho que se fez grande sem eu dar por isso. Há uns tempos, disse-me que se os rapazes passassem umas férias sozinhos com ele, vinham de lá bem-educados e a andar na linha. Eu larguei a rir, aliviada por perceber que afinal ele não cresceu assim tanto como isso…

terça-feira, 22 de abril de 2014

A Marie

(para quem eu nunca me canso de fazer sobremesas)


O Diogo nunca teve muitos amigos. Nunca foi um miúdo popular. E sempre sofreu imenso com isso. Até virmos viver para a Bélgica e ele ter a coragem de assumir a sua verdadeira personalidade.

Agora, quando o vejo rodeado de amigos, fico de coração cheio. Passo horas a ver o mural dele no facebook. Rio-me com as fotos malucas que tira com os colegas na escola. Emociono-me quando leio as declarações públicas de amor que lhe fazem. Tantas. Tão bonitas. Vindas de raparigas e rapazes que souberam quebrar aquela velha couraça. Porque o meu filho grande é um miúdo invulgar e um bocadinho estranho. Tem conversas e gostos de gente grande. Mas faz um esforço enorme para se adaptar aos outros miúdos da sua idade. E a verdade é que os colegas parecem gostar mesmo do Diogo. Eu sei que isto pode parecer banal, mas a mim enche-me de alegria.

Há uma menina em especial que o adora. A Marie tem 16 anos e anda no 10º ano. Por coincidência vivem na mesma aldeia, mas conheceram-se na escola em Vielsalm. E nunca mais se largaram. Quando os ouço falar, vejo apenas dois amigos. Sem diferença de idades. Embora haja um mundo a separá-los.

A Marie é uma miúda faladora e curiosa, que não tem qualquer vergonha em mostrar as origens humildes. Faz imensas perguntas, desfaz-se em elogios e agradecimentos, com uma educação irrepreensível. Hoje explicou-me sem pudor que a mãe é empregada doméstica e o pai operário. Que a mãe tem imenso trabalho porque toda a gente gosta dela. E que ela tem muito orgulho neles. Lá em casa não comem coisas boas e estranhas como aqui, nem há sobremesas. Mas há sempre fruta. Nunca viajam, nem sequer pela Bélgica. Mas ela já lhes prometeu que vai levá-los a passear quando forem velhinhos. A mãe não a deixa ver o “Criminal Minds”, nem filmes policiais. Mas têm uma grande família que se reúne muitas vezes. Para cada aspecto menos positivo da sua vida, a Marie apresentou algo genuinamente bom com uma lucidez que me desarmou. Com uma honestidade rara. E um sorriso no olhar. Vê-se que é uma miúda feliz, de bem com a vida.

E eu, que admiro com espanto este meu novo filho desenvolto e popular, acho que ele não podia ter escolhido melhor amiga. E hei-de sempre fazer jantares elaborados e sobremesas deliciosas especialmente para a Marie. A miúda mais querida que eu já conheci.