sexta-feira, 30 de maio de 2014

Da complexidade

(ou da falta dela)


Será que a complexidade linguística corresponde a conceitos mentais igualmente complexos? Ou seja, será que o facto de conseguirmos exprimir conceitos mentais mais elaborados significa que temos um desenvolvimento cognitivo mais complexo?

Não páro de pensar nisto desde que o Vasco desabafou muito desiludido, quando me viu à espera dele no portão da escola, que tinha esperança de ficar um bocadinho sozinho em casa porque “estava a precisar de solidão”. A mãe que estava ao meu lado, desatou a rir. Mas o filho dela, que está no 4º ano, não percebeu e perguntou o que queria dizer solidão. A mãe lá lhe explicou e o miúdo também se riu. “És mesmo estranho, Vasco!”, atirou.

A ideia ficou a remoer-me a mente. Será que o miúdo de 10 anos, que não sabia o que era a solidão, nunca sentiu essa necessidade e, por isso mesmo, desconhecia o conceito? Ou, tendo já sentido essa necessidade, não tinha nome para lhe dar porque desconhecia o conceito? Será possível sentir inteiramente uma coisa cuja existência desconhecemos?

E, pronto, eis a dúvida existencial que me tem atormentado o espírito.

[ Quanto ao Vasco, é evidente que a liberdade é uma cena que lhe assiste. Se me pedissem para descrever a principal característica deste meu filho, diria que é a sede de liberdade. Desde que nasceu, iniciou uma luta sem tréguas por esta necessidade básica de ser livre. De ser diferente. De exercer a sua liberdade de escolha. De fazer valer a sua liberdade de expressão. De exprimir a sua liberdade corporal e artística. A luta, neste momento, é pelo direito à liberdade de estar só. E eu, que fui uma criança independente, compreendo-o perfeitamente. O problema é que o Vasco também sai a mim na capacidade de distracção. De abstracção. E eu não lhe consigo explicar que, enquanto ele se perder em pensamentos, não lhe posso dar mais liberdade… Com muita pena minha, que gosto de incentivar a complexidade da coisa pequena. ]

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Uma teoria disparatada

(e um friozinho no estômago)


Sempre tive uma teoria muito pessoal em relação ao cancro. Pode parecer disparatada, mas é o que eu penso. Além de todas as causas de saúde que lhe estão naturalmente subjacentes, acho que o cancro é a forma que o corpo tem de dizer que não consegue continuar a lutar contra uma situação que nos ultrapassa. Ou contra algo que nos é prejudicial. Acredito que o facto de aceitarmos em silêncio uma situação que se tornou insustentável pode abrir caminho ao cancro. Porque nos vai corroendo. Moendo. Destruindo por dentro. O cancro é o limite que o corpo impõe ao cérebro.

O vírus do papiloma humano (HPV) possui mais de 180 serotipos diferentes. Os tipos 6, 11, 16 e 18 causam grande parte das doenças genitais, incluindo o cancro do colo do útero. Na maioria dos casos, a infecção pelo HPV não apresenta sintomas. Contudo, em determinadas situações, como numa fase de maior stress em que ocorre imunossupressão, o vírus pode desenvolver-se. A verdade é que o HPV pode estar presente durante alguns anos no colo do útero sem se manifestar, mas pode igualmente provocar lesões pré-malignas que tendem a evoluir para cancro se não forem tratadas. As lesões pré-cancerosas recebem várias denominações consoante as características, tradicionalmente designadas por displasias. As lesões observáveis por citologia ou biopsia são categorizadas em três estádios, que vão desde CIN-I (displasia ligeira) a CIN-III (carcinoma ‘’in situ’’). Não existe nenhum tratamento que elimine o vírus, apenas se pode reforçar o sistema imunitário da pessoa infectada. Só a remoção do tecido anormal pode efectivamente prevenir que as células pré-cancerosas e cancerosas evoluam para um cancro invasivo. Uma maior extensão da displasia acarreta um pior prognóstico, pelo que quanto mais cedo for feito o diagnóstico, melhores são as hipóteses de que as lesões sejam controladas com tratamento.

Há uns meses atrás, decidi-me finalmente a substituir a minha querida Dra. Madalena, que me acompanhou desde a adolescência e que gostava de ver as fotografias dos meninos quando eu ia à consulta. Que me chamava “minha querida” e que chorou quando tirou um Diogo quase sem batimentos cardíacos de dentro de mim. Mas hemorragias constantes forçaram-me a procurar um ginecologista na Bélgica. Descobri, então, que as duas cesarianas de urgência a que fui submetida deixaram sequelas. E das grandes. Iniciei um tratamento que, caso não dê resultado, terá um desfecho mais radical, que passará por uma cirurgia reconstrutiva. Nessa altura, fiz todos exames de rotina sem me preocupar muito. Até que recebi uma carta do médico a pedir para marcar uma consulta de urgência. E fiquei assustada. Até porque nessa altura já andava às voltas com o meu problema da tendinite e da artrose nos ombros. Que diabo se viria juntar a isto tudo?! Ehhh… uma variante cancerígena do vírus do papiloma humano, ainda num estádio de displasia ligeira.

O primeiro especialista que consultei – chamemos-lhe o Dr. Pessimista – era da opinião que, tendo em conta o outro problema, devíamos fazer já uma cirurgia para retirar o útero. Segundo ele, mesmo que o vírus desapareça, pode reactivar-se a qualquer momento e desenvolver-se depressa num terreno imunológico propício. Melhor seria não arriscar. O segundo especialista que consultei – chamemos-lhe o Dr. Optimista – pensa que o meu sistema imunitário tem 50% de hipóteses de eliminar o vírus e que vale a pena esperar três meses. Até porque ele está convencido de que o problema inicial também irá responder bem ao tratamento nesse espaço de tempo. Caso contrário, avançamos de imediato para uma cirurgia onde se tentará extrair apenas a zona do colo uterino onde a lesão se evidencia. Escolhi seguir o Dr. Optimista, obviamente. E quero acreditar que, se há 50% de hipóteses, eu estarei no grupo do copo meio cheio.

Aconteça o que acontecer, passarei a ser visita assídua do Dr. Optimista. Homem muitooooo agradável à vista, que transmite uma onda de calma e segurança. Assim como assim, sempre ajuda. O seu único defeito é ter a mania de fazer umas estranhas pausas para se pôr a falar das iguarias que comeu nas diferentes visitas que fez a Portugal. O facto de as consultas serem quase sempre na minha hora do almoço dá um empurrãozinho. Eu sou um bom garfo e adoro discussões gastronómicas. A descrição de um robalo em crosta de sal aromático é coisa para me deixar a sonhar durante horas. Claro que ficaria mais satisfeita se pudesse trocar receitas sem estar despida e deitada numa marquesa de pés ao alto. Não é por nada, mas é uma posição um bocadinho desconfortável.

Creepy!

(já não se pode estar descansadinha da vida)


São 3 horas da manhã. Estou a encaixotar 18 meses de vida. A pensar como raio consegui aglomerar tanta coisa em tão pouco tempo. A televisão está ligada, como ruído de fundo, só para fazer companhia. D. Fuas ressona com a língua de fora, de patas para o ar e a cabeça a tombar do sofá. O resto da bicharada dorme lá em cima, miúdos incluídos. Tudo na mais santa paz, portanto.

De repente, ouço os primeiros acordes das “Águas de Março” que amo de paixão. Cantada pelo David Carreira e uma francesa que nunca vi mais gorda. Igualmente tenebrosa. Juro-vos que foi um momento verdadeiramente assustador. Espero que não se repita, bolas!