domingo, 29 de junho de 2014

Sejamos sinceros, isto não é fácil

(onde se apresenta a evolução do estado do tempo)


No início, o céu começou aos poucos a mudar. O sol desaparecia por vezes. E aparecia uma chuva miudinha. Aquela chuva de Verão que deixa um cheirinho bom no ar. Que sabe tão bem. Que refresca. Eram pequenos sinais de mudança que acolhi feliz. Confiante de que os tempos que se avizinhavam não seriam fáceis, mas seriam para melhor. Com períodos mais ou menos conturbados pelo meio, é certo. 

Depois, começou mesmo a chover. Chuva forte, que em segundos ensopa tudo. Uma chuva que aparece subitamente, em bátega. Céu escuro, nuvens ameaçadoras. E eu pensei: “Pronto, são os tais períodos mais turbulentos. Calma, já passa.” E passava mesmo. O céu clareava, as nuvens desapareciam, o sol brilhava. E eu respirava de alívio. A mudança é sempre boa. 

Agora, o céu está quase sempre nublado. Os dias são sombrios. De vez em quando, há tempestade. Chuva que não pára, com grossos pingos que magoam quando nos atingem. Trovoada. Quando o sol finalmente aparece, tudo muda. Dá-se a magia. Tenho um vislumbre dos tempos calmos que passaram. Antevejo o tempo estável que está para chegar. 

Em momento algum o amor que sinto por este meu filho adolescente esmorece. Mas sejamos sinceros, isto não é fácil. Nada fácil. O Inverno promete ser longo.
 
 

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Raios partam os miúdos, pá!

(onde se mostra que viver num cochicho ou num palácio

 não muda a nossa essência)


Nos últimos tempos que passámos na casinha de paredes azuis em Malempré, eu revirava os olhos porque já não aguentava o barulho dos miúdos. Acho que tinha chegado ao meu limite de convivência a quatro (mais bicharada) num espaço tão exíguo. O meu amor dizia-me para ter calma, que estávamos quase a mudar de casa, que aquela era muito pequenina, que estávamos sempre todos uns em cima dos outros, que a culpa não era deles. Dizia-me que em Vielsalm é que era, que tudo ia mudar, uma casa nova, um palácio com quatro andares, um quintal a perder de vista…

Ele falava, falava, falava e eu nunca o interrompia. Mas nááá… Algo me dizia para não acreditar muito naquele cenário idílico: o meu amor a trabalhar em silêncio no computador na sala, o Diogo refugiado a ler no seu quarto no sótão, o Vasco a correr lá fora em busca de aventuras, D. Fuas a apanhar banhos de sol (com o coelho a saltitar também por ali) e eu a ler um livro estiraçada no banco do quintal. Parecia-me… Como explicar? Parecia-me muito “Uma casa na pradaria”. E, como se sabe, nós é mais “Família Adams”.

Um mês depois das mudanças, o que tenho eu a dizer sobre este assunto? Pois… O meu amor continua a trabalhar no computador com tampões nos ouvidos, escondido na casa de jantar. O Diogo está sempre a descer as escadas como se fosse um ogre enraivecido para vir chatear o Vasco. Se fica meia-hora trancado na sua torre de marfim já é muito. Passam o dia no sofá da sala à bulha. O Vasco quando se decide finalmente a ir lá para fora brincar, é para atirar a bola para o quintal dos vizinhos ou fazer um banzé desgraçado a lançá-la contra a parede (vulgo, jogar ténis). D. Fuas divide os seus dias entre percorrer a cerca do quintal para encontrar um ponto de fuga e abrir a porta da casinha dos outros bichos para os caçar. O coelho a única vez que saltitou no quintal meteu-se num buraco e foi o cabo dos trabalhos para o tirar de lá, porque está gordo que nem um porco. Eu… eu acho que a única vez em que me sentei no banco do quintal foi quando ia a correr atrás do estupor do cão que ia a fugir e tropecei. 

Fora isto, está tudo bem. Somos muito felizes na nova casa.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Todos os malandros têm sorte

(onde se apresenta uma jovem personagem casmurra)


Sabe-se lá porquê o meu chefe, um miúdo de 26 anos teimoso como uma mula, embirrou que eu tinha de tirar férias no Verão. Que o Carnaval já ia longe, que eu estava cansada, que tinha dois filhos, que toda a gente ia de férias menos eu… blá, blá, blá. Vai daí, saiu-se com uma ideia peregrina: já que ainda não tinha direito a gozar férias, muito menos a subsídios de férias, ele deixava-me tirar duas semanas sem receber. Uma generosidade que tive de recusar educadamente. Várias vezes. Com uma paciência infinita lá lhe expliquei que, embora agradecesse a simpatia, não me podia dar ao luxo de tirar 15 dias de férias não pagas. Ou seja, para todos os efeitos práticos, de faltar metade do mês ao trabalho. Foi difícil convencê-lo de que estou longe de ser uma workaholic, mas que não podia chegar ao final do mês de Julho com metade do meu salário na conta. Não é por mal, mas é uma coisa que não me dá mesmo jeitinho nenhum.

Mas o meu chefe não desistiu. Ligou à contabilidade. Disse que eu tinha direito a tirar dois dias pagos, segundo uma lei qualquer que me ultrapassa. Eu sei que tenho, mas também sei que a Administração decidiu há muitos anos que toda a gente metia esses dias na semana do Natal para podermos fechar a instituição. Certo, mas daqui até ao Natal fazia umas horas extras e compensava, argumentou todo contente. Aceitei, agradecida. Juntamente com as minhas folgas semanais, já dava para tirar uma semana de férias. Com um dia de trabalho não pago, vá. Se é para a loucura, sejamos loucos. 

O meu chefe ainda não estava satisfeito. Uma semana não são 15 dias, reclamou ele, com uma lógica matemática imbatível. Lembrou-se de ver se eu não teria horas suplementares por descontar.  Horas suplementares? Nááá… não me cheira. Sou uma pessoa ciosa do seu descanso. Mas ele nem me ouviu e foi ligar novamente à contabilidade. Obrigou a pobre rapariga, que está sozinha a processar os pagamentos do final do mês, a ir buscar os meus cartões de ponto desde Fevereiro para contar todos os minutos que fiz a mais. Ontem, estava de folga e recebi no meu email pessoal uma folha complicadíssima de Excel repleta de cores e de colunas. Uma coisa demasiado hermética para a minha capacidade de compreensão. Mas o meu chefe casmurro esta manhã fez questão de anunciar vitorioso que tenho 21 horas extra acumuladas. Que tenho direito (parece-me que é mais obrigação, mas pronto) de trocar por uma semaninha de férias forçadas. A modos que é assim: aproximam-se 15 dias de férias! Nem ousei dizer-lhe que tenho uma tradução para entregar na próxima semana, não fosse ele voltar à carga...