quinta-feira, 25 de setembro de 2014

As palavras dos outros

(porque tropeçamos naquilo que gostaríamos de dizer)


Por vezes, as palavras dos outros aparecem no momento certo. E fazem todo o sentido. Traduzem os nossos pensamentos, os nossos sentimentos, as nossas crenças mais profundas. Espelham o caminho que escolhemos percorrer.
Quando temos uma bússola e um porto seguro, quando temos a fé e a serenidade, quando temos as pessoas certas do lado esquerdo do peito, quando temos um amor para a vida inteira, quando temos a mão dada incondicionalmente à pessoa que somos, quando temos uma família que é o nosso equilíbrio, quando temos os amigos certos, quando temos a vontade, a energia e o optimismo, quando sabemos a importância de perdoar e agradecer, não precisamos mesmo de mais nada.
Se em cada dia renovarmos os mesmos desejos - saúde, amor, fé, trabalho, força, coragem, serenidade, humildade, gratidão e capacidade de perdoar (a nós e aos outros) - não há nada, absolutamente nada, que nos roube aquilo que na vida é  mais importante «ter»: paz.

 
 

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Sabemos que encontrámos o homem perfeito quando…

(sempre que um diz “mata”, o outro diz “esfola”)

 

Ele: Hoje, apanhei o D. Fuas no sofá.
Eu: Assim que começa a ficar frio, tenta sempre a sorte...
Ele: Pois é, coitado.
Eu: E ralhaste-lhe?
Ele: Não, tapei-o com uma mantinha.
Eu: Hein?! Havia de ser jeitoso se concordasses em ter um cachorro…
Ele: Outra vez essa história do cão? Quando é que tiras essa ideia estapafúrdia da cabeça?
Eu: Queria tanto ter um cachorrinho…
Ele: Mas nós já temos o D. Fuas! Acho mal termos outro cão. Mais trabalho, mais despesa... É uma prisão muito grande. Nunca temos onde o deixar, quando queremos ir a algum lado.
Eu: Eu sei, tens razão.
Ele: É um compromisso que se assume para os próximos 15 ou 20 anos, já pensaste?
Eu: Pois é. Pronto, esquece.
Ele: Eu acho que devíamos era ter um cavalo.
Eu: Outra vez essa história do cavalo? Quando é que tiras essa ideia estapafúrdia da cabeça?
Ele: Devíamos começar a pensar seriamente em adoptar um cavalo…
Eu: Podia dar-te exactamente os mesmo argumentos que tu me dás para não termos um cachorro. Exactamente os mesmos!
Ele: Eu sei. A diferença é que tu também queres um cavalo…




[ Não é que ele tenha mais jeito do que eu para fotografar… mas, na primeira, íamos a trote e, na segunda, a passo numa subida íngreme. ]

sábado, 20 de setembro de 2014

Passeios de fim-de-semana – Bouillon, Bélgica

(onde se mostra que vale a pena conquistar um adolescente arisco)


Não é fácil arranjar programas de fim-de-semana que agradem a todos. Programas low-cost, bem entendido.

Pronto, eu reformulo… não é fácil arranjar programas de fim-de-semana low-cost que agradem ao adolescente cá da casa. Primeiro, porque os nossos programas são uma seca. Segundo, porque é uma seca percorrer grandes distâncias de automóvel. Terceiro, porque é uma seca ter de anular os seus próprios planos, muitíssimo mais interessantes. Quarto, porque nós somos uma seca e o envergonhamos frequentemente em público. Quinto, porque o Vasco é uma seca e não se cala um minuto. Sexto, porque tem de estudar. Este último argumento só é utilizado em casos de extrema necessidade, dado ser passível de prova cabal. E toda a gente sabe que uma tarde de estudo intenso é uma seca.

O grande desafio é conseguir arrancá-lo de casa sem rosnar. Morder, o Diogo não morde. Mas rosna. Ou seja, nunca se recusa a vir passear connosco, mas protesta imenso e faz questão de mostrar que vai contrariado. Cara fechada, braços cruzados, pés de chumbo. Fones enterrados nas orelhas e respostas monossilábicas. E isso irrita-nos de sobremaneira, porque ele acaba sempre por gostar dos passeios que fazemos. Invariavelmente, terminamos o dia com um abraço efusivo e um agradecimento sentido. Parece um bocadinho esquizofrénico, mas já percebemos que não há nada a fazer. Adolescência oblige.

Embora eu esteja plenamente consciente desta particularidade adolescentezóide, custa-me sempre um bocadinho esgrimir argumentos e tentar convencê-lo. Portanto, esforço-me por desencantar programas que o façam sair de casa já de sorriso estampado na carantonha borbulhosa. É muito mais agradável para todos, porque quando o Diogo está entusiasmado é um companheiro de aventuras divertidíssimo. Embora seja absolutamente esgotante para nós… Quando gosta de uma coisa, é tudo maravilhoso. Até a merda de cão que pisa. E não se cansa de o repetir até à exaustão para quem o quiser ouvir. E mesmo para quem não quiser. Ri-se a bandeiras despregadas. Dá abraços de urso. Tem uma fome de leão. Anda a uma velocidade louca. Fala sem parar do que vê, do que quer ver, do que ainda não viu, do que se calhar não vai ter tempo para ver. É extenuante, mas delicioso. Um adolescente feliz é como uma aberta de sol num dia de tempestade. Um arco-íris perfeito, muito bem desenhado de uma ponta à outra.

E, no fim-de-semana passado, atingimos o nosso objectivo com um passeio a Bouillon. O meu amor conseguiu misturar os ingredientes todos necessários com sabedoria de alquimista: um local não muito longe de nós, um castelo medieval no cimo das nuvens, uma personagem histórica envolta em mistério, um espectáculo de aves de rapina num cenário feérico. E um jantar no chinês para finalizar, claro. Diz-se que foi desta terra pequenina que partiu Godefroy de Bouillon, um dos líderes da Primeira Cruzada, que recusou o título de primeiro soberano do Reino Latino de Jerusalém para dedicar a sua vida a proteger o Santo Sepulcro. Tantos séculos depois, o castelo está impecavelmente conservado: muralhas, caves, masmorras, torreões, passagens secretas, túneis, câmaras e antecâmaras. Passámos horas a calcorrear o castelo, a ver a paisagem de cortar a respiração, a subir e a descer escadas. Principalmente, a vê-los correr por ali felizes. Porque esta é uma das características mais engraçadas da adolescência: perante o cenário perfeito, aquela cabeça mergulha de imediato em histórias de cavaleiros e desata a brincar como um miúdo.

Acho que as imagens falam por si…