quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Passeios de fim-de-semana – Vianden, Luxemburgo

(onde se mostra que os adultos também fazem birras)


 
O céu parece chumbo. Chove há dias sem parar. Está frio. O meu amor sorri. “Gosto de dias assim, sente-se o aconchego do lar”. Eu cá não sinto nada, nem os meus próprios pés… Estou cada vez mais portuguesa, para mal dos meus pecados. Espanto a neura a ver as fotografias do passeio que fizemos no último fim-de-semana de Setembro. O Verão ainda se estava a despedir e, depois de muita hesitação, decidimos aproveitar… apesar do clima tempestuoso que se vivia nesta casa.

É que há dias assim. Dias em que os miúdos acordam com os pés de fora e só nos apetece fugir. Explosões de mau-humor à mínima contrariedade, discussões constantes, brigas feias. Violência, mesmo. Pensámos seriamente em desistir do passeio que tínhamos programado. Mas a outra opção era amarrá-los e amordaçá-los, portanto, decidimos arriscar. No carro, mais discussões. Porque um invadia uns míseros centímetros do espaço do outro. Porque um jogava numa consola e o outro não tinha trazido nada. Porque um detestava a música que passava na rádio e tínhamos de pôr mais baixo. Porque o outro adorava a música que passava na rádio e tínhamos de pôr mais alto. Mais alto... Ainda mais alto...
 
A hora e pouco que nos separava de Viaden, no Luxemburgo, foi um verdadeiro suplício. Eu olhava de soslaio para o meu amor, à espera de uma explosão. Amo os meus filhos de paixão, mas estava capaz de os atirar pela janela. Tentei falar calmamente, chamá-los à razão. Ralhei. Castiguei. Tirei consolas e telemóveis. Gritei. Nada, o resultado era zero. Por volta das duas da tarde, capitulei. Decidi adoptar a atitude estoico-heroico-zen do meu amor. Que se matassem um ou outro, queria lá saber.

A chegada à Vianden só tirou o fôlego aos adultos. Tínhamos visto uma maquete do castelo no museu de Clervaux e andávamos há meses a sonhar com este passeio. As expectativas não eram grandes, acho que estávamos ambos demasiado exaustos. Mas, para além do enorme castelo que se vislumbrava no cimo de um monte, a cidadezinha rodeada pelo rio Our era linda. Havia imensas coisas para fazer e tão pouco tempo. Tínhamos perdido metade do dia com discussões. 




Num outro monte ao lado do castelo, havia um teleférico. Num instantinho, púnhamo-nos lá em cima. Depois, era só fazer o resto do percurso a pé pelo meio dos bosques até ao castelo. A malta começou a animar-se. O Vasco estava com nervoso miudinho, mas numa excitação doida com a ideia do teleférico. Até que o Diogo decidiu estragar a festa e decretou que não punha os seus reais pezinhos no teleférico. Nem pensar. Nem morto. Que tinha vertigens, que se sentia mal só de pensar. Que nem valia a pena tentar. Não, ponto final.

Viver com um adolescente é reviver a fase dos “terrible two”. Em looping. Anos a fio, tipo pesadelo sem fim à vista. Birras sem motivo, medir forças só porque sim, esgrimir argumentos para lá de toda a dialéctica possível, testar os limites uma e outra vez. Os limites do próprio, do irmão e dos adultos que o rodeiam. O problema é que, contrariamente à fase dos dois anos, não podemos encerrar uma discussão com um “Sim, porque eu digo e acabou-se a conversa”. Muito menos com uma palmada no rabo, quando o diálogo se esgota. Viver com um adolescente é fazer uma viagem ao passado e reencontrarmos o nosso filho birrento de dois anos, com mais 80 cm e 35 kg em cima. E uma vontade férrea contra a qual pouco ou nada podemos.

Fomos, pois, obrigados a subir monte acima a toque de caixa. O adolescente embezerrado grunhiu um mal-amanhado agradecimento por lhe fazermos, mais uma vez, a vontade e deu corda aos sapatos. O Vasco puxado por mim. Eu puxada pelo meu amor. Os três contrariados. Até que eu explodi. Por que raio de motivo dois adultos e uma criança tinham de fazer o que um adolescente birrento decide?! Eu mato-me a trabalhar toda a santa semana em dois sítios diferentes. Às vezes, ainda faço umas traduções para equilibrar as contas. Os meus tempos livres são para os levar às mil e uma actividades. Mais os médicos. Mais os trabalhos de casa. Mais as refeições para as marabuntas. A bicharada toda. As limpezas. A montanha de roupa para lavar, estender, apanhar, coser, dobrar, arrumar. No caso do Diogo, dobrar e arrumar inúmeras vezes, porque aqueles armários são um caos. O dinheiro que é preciso desencantar às horas mais impróprias para pagar de imediato as folhas milimétricas, a flauta, o almoço, os livros, a piscina, as revistas, as visitas de estudo, as mil e uma merdices que aparecem rabiscadas em papelinhos perdidos naquelas mochilas. Tudo para ontem, pois claro. Que além de ser mãe a tempo inteiro, piloto de Fórmula 1, secretária expedita, cozinheira capaz de adivinhar desejos e multibanco aberto 24 horas por dia que dá fiado e trocado, também sou fazedora de magias várias. Ora… porra para isto. A sério. Quando é que posso fazer o que EU quero, por uma vez na vida?! Por que razão não posso, no meu fim-de-semana, experimentar uma coisa que me está mesmo a apetecer?! Às vezes, uma mãe também desaba, também faz birras. E eu fiz a minha, monte acima. O adolescente fez um sprint final, a fingir que não ouvia. A coisa pequena arregalou muito os olhos e não disse uma palavra. O meu amor continuava estoico-heroico-zen a puxar literalmente por nós.

Finalmente, chegámos ao castelo de Vianden, exaustos. Eu mais do que os outros, porque tinha vindo a praguejar o caminho todo. Mas, pronto, aquilo acalmou-me. O Diogo acabou por acusar o toque e decidiu começar a portar-se bem. O Vasco estava demasiado assustado com a visão da mãe birrenta para fazer mais disparates. O meu amor continuava na onda zen-coiso. O castelo valeu bem a subida de quase 400 metros. De estilo tipicamente românico, começou a ser construído no século X em cima das fundações de um castellum romano e de um refúgio carolíngio. A sua singularidade deve-se às diferentes modificações e ampliações que foi sofrendo até ao século XVII. Muito, muito giro. A vista era fantástica.






Depois de visitarmos o castelo e de bebermos um café, decidimos fazer o percurso pelos bosques até ao outro monte. A vista do cimo do teleférico prometia. O passeio pelo parque natural foi muito giro, com os rapazes novamente mais quezilentos e excitados. Apanha paus, sobe montes, trepa árvores, salta rochas, bate com os paus em alguém… gritos, discussão, corre, apanha, bate… Lá chegámos ao outro monte e, quando vislumbrámos o teleférico colossal, o Diogo ia desmaiando só com a visão dantesca. O Vasco deu um risinho nervoso. Eu acalmei as hostes, dizendo que, de qualquer modo, não íamos andar no teleférico. Estávamos a preparar-nos para fazer a descida a pé, quando o meu amor decidiu fazer uma birra. Normalmente é assim… No meio da tempestade, mantem-se sereno como um rochedo, quando há uma acalmia, ele desaba. Mas sem gritos, nem confusões, que o homem é profundamente nórdico. Quando faz birra, fica de cara fechada e impõe a sua vontade sem concessões. Portanto, estava decretado: ele, eu e o Vasco íamos mesmo fazer a descida no teleférico. O Diogo que se desenrascasse. Tínhamos feito o caminho todo com ele até ali, ele só tinha de refazê-lo no sentido inverso. O percurso estava balizado, cheio de gente, e o sol ainda estava alto. Marcámos encontro à frente do posto de turismo e lá fomos.


 
 
Custou-me um bocado, admito. Que eu tenho vontade de os atirar pela janela teoricamente. Na prática, sou uma pseudo mãe-galinha. Ou seja, gosto que sejam desenrascados, mas debaixo da minha asa protectora. Mas o meu amor estava irredutível… “Também és mãe do Vasco.” Não havia discussão possível. O Diogo lá foi a correr monte abaixo e eu pude finalmente ser só mãe do Vasco. Concentrar-me na minha coisa pequena. Para imitar o irmão que idolatra, o Vasco também já diz que tem vertigens e que detesta alturas. Foi para contrariar esse medo induzido que o meu amor decidiu fazer a descida no teleférico. Haja alguém que mantém a lucidez e me defende do apetite voraz do meu adolescente. É verdade que há momentos em que o Diogo se esquece que já não é filho único, que o mundo não gira à volta do seu umbigo e que o Vasco também precisa de espaço, tempo e atenção para ser gente. Às vezes, é muito difícil ser mãe de dois. Ser mãe de dois filhos únicos, com idades e necessidades diferentes. E, no meio disso tudo, ser uma pessoa com direitos e vontades próprias. Sermos dois. Mantermo-nos apaixonados e atentos um ao outro. Às vezes, perco-me. Felizmente, o meu marinheiro nunca perde de vista a rota traçada e recusa-se a abandonar o leme para deixar o barco vogar à deriva.
 
A descida foi impressionante. O Vasco começou firmemente agarrado aos nossos braços, sem olhar para baixo. Acabou a rir, descontraído. Eu também fiquei feliz por ter feito uma coisa que queria, por ter feito a vontade ao meu amor doce. O Diogo aprendeu que os seus medos podem e devem ser respeitados, mas que têm consequências que terá de assumir sozinho. Fomos dar com ele à porta do posto de turismo, com um ar falsamente descontraído. Tenho a certeza que desceu aquele monte a correr, como se estivesse a ser perseguido por um serial killer directamente saído do “Criminal Minds” que ele adora. Olhando para trás, acho que foi um dia em cheio. Cansativo, intenso em emoções… mas feliz. “Foi um dia bom, não foi?”, perguntou-me o meu amor quando chegámos a casa já tarde. Foi…não sei como, mas foi. Se isto não é amor, não sei o que será.
 





sábado, 4 de outubro de 2014

A rua

(onde fui tão feliz em criança)


Nasci e cresci em Lisboa. No meio da cidade e, no entanto, tão perto do campo. Uma simples linha do comboio separava-nos de Monsanto. Naquele tempo, as crianças andavam em grupo à solta na rua. Era assim que nós lhe chamávamos: “A rua”. Abria a porta de casa e gritava: “Vou para a rua!”. E ia, simplesmente. A rua tanto podia ser as traseiras do meu prédio, como toda a zona que ia das portas de Benfica ao Jardim Zoológico. Ou Monsanto, lugar interdito que supostamente não podíamos explorar. A garagem do meu prédio, onde esvaziávamos os pneus dos vizinhos com quem implicávamos. Os terraços dos prédios ao lado, onde testávamos a pontaria com ovos roubados em casa à socapa. A rua era também as casas uns dos outros, onde éramos visita frequente.

Ninguém em casa sabia muito bem por onde eu andava. Sem telemóveis, nem supervisão de irmãos mais velhos. O grupo das minhas irmãs era outro e o seu território também. A minha única obrigação era voltar à hora das refeições. O papo-seco com manteiga e açúcar podia ir comê-lo para a rua, mas a hora do jantar era sagrada. Às 19h30, em ponto. Sempre fui uma exímia perdedora de relógios (e de chaves de casa e de passes e de módulos de autocarro, que substituíam o passe desaparecido até ao final do mês). Safavam-me os gritos das mães dos outros, que viviam muitos andares abaixo do nosso: “Ó não-sei-quantos, anda jantar!”.

Éramos muitos. Não sei quantos. Rapazes e raparigas, de idades diferentes. Vizinhos, amigos desde sempre. Muitas vezes, amigos de segunda geração, dado que os nossos pais já eram amigos ainda antes de nascermos. A esses chamávamos “primos”. Uns tinham as mesmas origens, outros vinham de meios completamente diferentes. Havia os filhos únicos e os que tinham 7 irmãos. A única coisa que nos unia era o espaço físico que partilhávamos. As coordenadas geográficas. A infância comum. As aventuras e os castigos quando éramos apanhados. Alguns apanhavam tareias de cinto. Eram os mesmos que vestiam a roupa que deixava de nos servir e que não tinham dinheiro para comprar bolos na padaria, quando a fome apertava e não tínhamos ninguém em casa. Mas os disparates que nos passavam pela cabeça eram os mesmos. Fazer telefonemas anónimos, gozar com os donos das lojas da zona, roubar pastilhas Gorila no supermercado, saltar a fogueira no Santo António mesmo no meio, descobrir grutas em Monsanto, espiar vizinhos “suspeitos”. Adoptar cães abandonados. Desde que me lembro, a nossa rua tinha sempre um cão. O cão de todos. O cão da rua.

Passei muitos meses à janela a vê-los brincar lá em baixo. Já os conhecia quase todos, claro. Uns melhor do que outros. Mas demorei mais tempo a ter autorização para ir brincar para a rua “sozinha”. Um dia, o meu pai chegou e viu-me empoleirada em cima da mala de trabalho dele a espreitar a rua. Perguntou-me se eu também queria ir brincar para a rua. Não sei porquê, nunca lhe tinha pedido. Mas, nesse dia, levou-me pela mão até lá. Dirigiu-se a uma menina mais velha e apresentou-me. “Esta é a Rita. Quando ela quiser, podes levá-la a casa?” Assim, sem mais. Eu tinha 5 anos. Nesse dia, a rua passou a ser também minha.

A Ângela só me levou a casa no primeiro dia. Depois, tive de me desenrascar sozinha. Por sorte, o meu prédio tinha uma espécie de assentos de mármore à entrada, onde eu me encavalitava para tocar à campainha da porta. O pior eram os elevadores. Sempre fui muito pequenina e só consegui chegar ao botão do 9.º andar muitos anos depois. Primeiro, comecei por subir as escadas a correr, mas morria de medo quando a luz se apagava. Eu também não conseguia chegar ao botão do patamar para voltar a acendê-la. Depois, descobri uma técnica que fui aperfeiçoando. Começava por carregar no botão do 5.º andar, o máximo onde chegava. Depois, enquanto o elevador subia, saltava o mais que podia até chegar ao botão do 9.º. Se, quando chegasse ao 5.º, ainda não tivesse conseguido tocar no botão do meu andar, tinha mesmo de continuar a subir a pé pelas escadas, porque a luz do elevador apagava-se automaticamente. Um dia, não sei porquê, esqueci-me de saltar e saí no 5.º a pensar que estava no meu andar. Distraída como era, só dei pelo erro quando uma velhota que eu nunca tinha visto me abriu a porta. Apanhei um susto tão grande, por pensar que tinha entrado noutra dimensão, que nunca mais me esqueci dos meus saltos. Sim, essa era a época em que víamos a “Quinta Dimensão” todos juntos na sala à noite.

[ Ontem fomos ao parque no final da tarde com o Vasco. Enquanto namorávamos afastados num banco, vi-o fazer dois novos amigos com aquele à-vontade que só as crianças têm. Ainda estiveram um bom bocado na brincadeira. E ao vê-los a correr livres por ali, bicicletas atiradas uma para cada lado, lembrei-me da minha infância. Lembrei-me da minha rua e dos meus amigos. Uns ainda hoje são meus amigos, outros a vida encarregou-se de nos separar. Muitos foram levados pela droga, pela Sida... Senti uma moinha de saudades no coração. ]

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Faça você mesmo para poupar

(onde se inicia uma nova rubrica do tipo Do It Yourself

em tempos de crise)


Pois que esta que vos escreve tem um talento escondido. Um talento escondido é como quem diz. Não será bem um talento. Talvez seja mais um jeito. Vá, sejamos sinceros... Esta que vos escreve tem uma paixão secreta. Ao diabo com o talento e o jeito.

Sabem aquela coisa do DIY, mais conhecida entre nós por “Faça Você Mesmo”? E aquela outra do “No poupar é que está o ganho”? Pois eu cá consegui juntar as duas numa só e ainda elevar a cena a passatempo. Hobby, para ser mais fino. Toda uma inovação, portanto.

E que raio de hobby é esse, perguntam vocês? E eu respondo, honestamente. Até podia mentir que ninguém ia perceber, mas prefiro ser honesta. É tipo “Faça Você Mesmo Para Poupar Dinheiro”, onde a poupança está longe de ser o mais importante. O meu hobby preferido consiste em ter uma desculpa perfeitamente válida para me pôr a fazer as coisas mais estapafúrdias cá em casa com as minhas próprias manitas. Que eu sou pessoa que até tem um certo jeito de mãos. Ou, pelo menos, que está convencida que tem. Pronto, não é bem convencida… Bom, na verdade, o jeito também não interessa por aí além, como já devem ter percebido.

Na prática, por vezes até acabo por gastar mais dinheiro do que se comprasse o objecto já feito numa loja qualquer. A soma das partes é frequentemente mais cara do que o resultado final. Mas tento. E isso é suficiente para me deixar de consciência tranquila. Porque posso dedicar-me ao meu hobby sossegadinha, sabendo que um dos objectivos é tentar poupar dinheiro. Não estou apenas a divertir-me… estou a divertir-me sem gastar muito dinheiro com isso. O que, bem vistas as coisas, é bastante nobre. Nobre talvez não seja a melhor palavra. É apaziguador para o eterno sentimento de culpa tipicamente materno.

Mas, afinal, estamos a falar exactamente do quê? De tudo e mais um par de botas, basicamente. Porque desde que seja exequível e sirva para poupar, já é positivo. A utilidade também é importante. Quanto mais não seja, a utilidade decorativa. Ah… e o facto de ser um desafio para as minhas supostas competências manuais. Ou para a minha imaginação.

Neste caso concreto, iniciamos esta nova rubrica com algo que é útil e que, de facto, me permitiu poupar imenso dinheiro. É pá… parece que a desculpa da poupança não é assim tão esfarrapada quanto isso, bem vistas as coisas.

Findo o preâmbulo para introduzir a nova rubrica, passamos à apresentação propriamente dita. Quem nos segue, conhece a nossa paixão por animais. Bem… a paixão de três dos quatro humanos que habitam nesta casa. O adolescente, entretanto, cresceu e deixou de achar piada à bicharada. Se me permitem um aparte, devo admitir que estou convencida de que a paixão pelos animais é uma fase típica da infância que acaba sempre por passar, mais cedo ou mais tarde. O meu amor e eu ainda estamos à espera que passe. Felizmente, parece que não está para breve.

Ora a questão é que a bicharada é uma fonte inesgotável de despesa. Há que comprar os bichos, as gaiolas, os diferentes objectos que as compõem, a alimentação das feras… Podem argumentar que, normalmente, a maior despesa é feita no início. Depois, é só comprar a comida. E pagar uma ida ao veterinário, de vez em quando. Sim, sim… mas o problema aqui reside precisamente no facto de que o adjectivo “feras” não é uma hipérbole. Se quisermos ser rigorosos, será mesmo um eufemismo. Todos os nossos roedores são armas de destruição massiva. O coelho e o porquinho já destruíram três gaiolas. O hamster já vai em quatro. Portanto, há que ser inventivo no que toca a estas bestas. Invenção essa que esteve logo na base da compra do aquário das tartarugas. Vai daí, comecei a pensar numa maneira de melhorar as condições dos bichos e de poupar dinheiro. Eis, então, as minhas novas três invenções: uma gaiola exterior para o Peanuts e o Dó Ré Mi, uma nova gaiola “insonorizante” para a Belle e um aquário transportável para as tartarugas.

Na Bélgica, todos os coelhos domésticos têm uma espécie de casinhas exteriores onde vivem no Verão. Só que custam uma verdadeira fortuna… assim, qualquer coisa entre os 150 e os 200 euros. Eu resolvi o assunto por 15 euros, com um parque para bebés que comprei numa loja em segunda-mão da Cruz Vermelha e que vedei com rede. Esta minha invenção permite-me deixar os bichos no quintal durante o dia, evitando que o Peaunuts tenha os seus ataques de animal enraivecido que destroem gaiola atrás de gaiola. Por outro lado, como posso ir deslocando o parque todos os dias, eles vão comendo ervas diferentes, permitindo-me economizar na comida e fazendo de “cortador de relva ecológico”.







A Belle também vivia na casinha do quintal, juntamente com os outros bichos. O problema é que começou a fazer demasiado frio para ela e tivemos mesmo que a trazer para dentro de casa… a salvo dos avanços caçadores do D. Fuas, evidentemente. O Vasco ficou todo feliz por tê-la no quarto, mas o barulho à noite era ensurdecedor. Mal as luzes se apagavam, a bicha parecia possuída pelo diabo e começava a roer furiosamente as grades. Experimentámos tirar as grades de cima e pôr um livro pesado a tapar a entrada. Nunca percebemos muito como, mas de manhã íamos sempre dar com ela enroscada no meio dos brinquedos. Foi, então, que me lembrei de adaptar uma simples caixa de plástico transparente que me custou 12 euros. Uma caixa alta, muito alta… que enchi de coisas para ela brincar, porque os hamsters são animais espertos como tudo e precisam de desafios constantes. A ponte que construí é, sem dúvida, o preferido. Há que dizer que a Belle é o animal mais asseado que conheço. Preferiu fazer o ninho cá fora e usar a casinha para fazer as necessidades.





As tartarugas fomentaram toda uma discussão nesta casa. O meu amor tinha prometido ao Vasco um piriquito como prenda de passagem de ano. Mas eu tive medo que o bicho acabasse esfrangalhado pelo D. Fuas. A minha ideia de substituir o passarinho por duas tartarugas foi bastante mal acolhida. Porque as tartarugas não têm piada nenhuma, porque as tartarugas precisam de uma lâmpada de aquecimento senão morrem de frio, porque as tartarugas são um bicho hiper sensível… A verdade é que as bichas já cá andam há umas boas semanas e até já cresceram. Não me perguntem é os nomes, que eu não sei. O Vasco vai mudando os nomes e já desisti de os fixar. O aquário também é uma caixa transparente de plástico comprida que custou 8 euros, que decorámos com umas pedras do quintal e uns peixes de brincar. A vantagem é que podemos passar o dia atrás do sol com a caixa. E elas lá andam, com a cabecita toda esticada a apanharem banhos de sol. Quando ficar frio, espeto com elas ao lado do aquecedor e pronto. E não pensem que são uns bichos inertes sem piada nenhuma. Já se habituaram a nós e adoram festinhas na cabeça e massagens na carapaça com uma escova de dentes.





Pronto, não é exactamente o “Faça Você Mesmo” mais artístico do mundo. Mas diverti-me à brava a fazer estas coisas, a magicá-las. Foram baratas e garanto que são mesmoooo úteis. Prometo que, mal estiver pronta, vos mostro a cama de casal que comecei a construir. Não que sejamos umas bestas, até somos uns seres com hábitos noctívagos bastante discretos. Mas devo admitir que a cama que veio de Malempré já estava imprópria para consumo… :)