quarta-feira, 5 de novembro de 2014

O valor das gomas

(a vergonha ou a falta dela)


Pois que este mês a escola onde dou aulas voltou a não me pagar. A equivalência dos meus diplomas continua atravessada numa encruzilhada burocrática.

Pois que a caixa de previdência do ensino que gere os abonos de família, como me cortaram o salário, decidiu passar-me para a caixa de previdência geral. E não me pagou os abonos este mês, nem se lembrou de me avisar.

Pois que a tradução do livro que entreguei em Agosto continua sem data de pagamento à vista.

Pois que a justiça tarda, tarda, tarda. O meu processo kafkiano já se arrasta há oito meses e os meus filhos continuam sem pensão de alimentos, nem coisa nenhuma.

Pois que o Vasco além do nosso médico de família, do endocrinologista, do dentista e do ortodontista, agora também tem de ser seguido por um otorrino e um terapeuta da fala. Nunca vi uma criatura que vende saúde ser vista por tanto especialista em tão curto espaço de tempo.

Pois que o Inverno chegou em força e está quase na altura de ligar o aquecimento central. Encher a cisterna custa a módica quantia de 1600 euros. Felizmente, o fornecedor é simpático e aceita deslocar-se por 500 litros... 411 euros, mais coisa, menos coisa.

Pois que não tenho vergonha nenhuma de expor a minha situação. Acumulo vários empregos, todos eles qualificados e honestos. Faço o melhor que posso para educar os meus rapazes. Ficar na pátria-mãe exige coragem e fé, mas emigrar é o percurso do combatente. E isto é bom que se diga, que se saiba, que se comente. Para que quem o faz tenha perfeita consciência do caminho que o espera.

O que eu tenho vergonha de dizer é que, ontem, o meu filho Diogo recebeu uma generosa transferência de Portugal de 20 euros para comprar cinco pacotes de gomas, que anda a vender para patrocinar a viagem a Paris com a escola. Sendo que o benefício desta fantástica venda são 13,50 euros, o problema parece estar solucionado. Estou a pensar seriamente propor ao tribunal começar a receber a pensão de alimentos em gomas…

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Passeios de fim-de-semana – Monschau, Alemanha

(um clássico para quem nos visita)


Descobri Monschau por acaso, há uns anos atrás, quando fui dar apoio à equipa da minha “mãe" belga num trailwalker da Oxfam. Como a prova durou mais de 24 horas, aproveitámos para dormitar no carro entre os vários pontos de paragem. E foi assim que aterrámos em Monschau, meios perdidos. Na altura, não deu para visitar muito bem a cidadezinha e prometi a mim mesma que havia de voltar com os miúdos. Acabámos por ficar completamente apaixonados por esta terra, que se tornou passeio obrigatório sempre que temos visitas.
 
Monschau está encaixada entre as colinas da cadeia montanhosa de Eifel, no estreito vale do rio Rur. Contrariamente a muitas outras cidades alemãs, o centro histórico do século XVIII não foi destruído durante a Segunda Guerra Mundial. Deste modo, as casas de madeira e as ruas estreitinhas permaneceram quase inalteradas, fazendo de Monschau uma atracção turística bastante popular. Como fica perto da fronteira com a Holanda e a Bélgica, há um conjunto de turistas bastante eclético. Principalmente velhotes com cães, não me perguntem porquê. Nunca vi tanta concentração de cães por metro quadrado como em Monschau. Para os miúdos, é toda uma atracção de per se.
 
A nossa velhota parece ter trazido o sol com ela, pelo que foi um passeio duplamente bom. Os miúdos estavam especialmente bem-dispostos, felizes por lhe poderem mostrar uma terra que conhecem como a palma da mão. O Vasco tem andado a “aproveitar-se ao máximo da avó”, como ele diz. Até de política já falaram. E o Diogo passa horas com ela à volta da tablet, demonstrando que o conflito de gerações é coisa de outros tempos. Andam sempre os dois agarrados à avó, a lambuzarem-se de mimos e doces. De tudo o que os meus filhos deixaram para trás com a nossa vinda para a Bélgica, acredito que os avós tenham sido a maior perda. Nada substitui a presença das gerações mais velhas na vida de uma criança. E o contrário também me parece válido. Tem sido delicioso vê-los todos juntos. Foi delicioso fazer este passeio com a nossa velhota querida e os netos barulhentos atrás, apesar de termos de andar todos muito mais devagar...
 
Ficam as fotos possíveis, porque já se viu que esta malta não é dada a grandes poses.


 












segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Ponto de situação

(onde se mostra igual satisfação nos alunos e na escola)



Os rapazes estiveram esta semana de férias. Uma pausa lectiva um bocadinho estranha… “Férias de Todos os Santos”, diz-se por aqui. Com direito a boletim de avaliações, como não podia deixar de ser. Este ano, estava curiosa para saber as notas intercalares. No caso do Vasco, como mudou para uma escola mais exigente, queria saber como se estava a sair. No caso do Diogo, a quem dei total autonomia nos estudos pela primeira vez, estava desejosa de ver o resultado.

Admito que sou daquelas mães que exige bons resultados escolares. O que não implica apenas ter boas notas. As boas notas devem ser o reflexo de toda uma atitude perante a escola e o ensino. Por isso, exijo um comportamento irrepreensível para com colegas, professores e funcionários da escola. Exijo boa educação e respeito. Civismo. Companheirismo. Exijo esforço. E estudo. Mas também espero que a escola fomente a curiosidade e o interesse dos meus filhos. Que seja capaz de se adaptar às suas personalidades. Que seja mesmo uma segunda casa, onde se sintam bem e felizes. Acompanhados. Onde aprender também possa ser um prazer. Onde acreditem neles e nas suas capacidades. Onde fazer amigos seja tão importante como ter boas notas. Acho que sou igualmente exigente com ambos os lados da barricada.

Dois meses de aulas e um boletim de avaliações depois, estou convencida de que estão os dois em escolas feitas à sua medida. Pela primeira vez na nossa vida, finalmente. O Diogo passou esta semana a contar os dias que faltavam para recomeçar as aulas, o que mostra bem o amor que tem aos bancos do Sacré-Coeur. E o Vasco diz que já tem saudades dos novos amigos de Saint-Joseph.

Ler os boletins dos meus filhos foi um verdadeiro prazer. E não teve nada a ver com as boas notas. Até porque o boletim do Diogo é meramente informativo. Mas todos os professores escreveram comentários sobre o seu desempenho que mostram que o conhecem bem, que o admiram e que acreditam nele. E isto é fundamental para se aprender o que quer que seja. Dou apenas alguns exemplos, que são um excelente espelho do ensino no Sacré-Coeur:

“Dou-te os meus parabéns pela tua participação activa na sala de aula! Bravo!”
“Excelente início de ano, Diogo. O teu trabalho é regular e sério.”
“Vais demasiado depressa, és capaz de fazer melhor.”
“A tua curiosidade intelectual em relação à matéria leccionada é de uma qualidade preciosa.”
“O teu nível actual está abaixo das tuas reais capacidades.”
“Estás sempre atento a todos os detalhes. Continua assim!”
“És interessado e não deixas nada ao acaso.”
“Cuidado com a tua letra que é cada vez mais difícil de decifrar!”

Depois de ler isto, só posso ficar descansada. Dei-lhe liberdade para estudar como quisesse, quando quisesse. Achei que, no oitavo ano, já merecia ter autonomia para gerir como achasse melhor o estudo aqui em casa. Pela primeira vez, não controlei horas de estudo, resumos para os testes, cadernos, nem o “journal de classe” (uma espécie de agenda onde escrevem os sumários, TPC’s, comentários dos profs., etc.). Pelos testes que fui vendo, as notas do Diogo baixaram ligeiramente e, sobretudo, não têm sido tão regulares como no ano passado. Mas se os professores estão contentes e acreditam que ele consegue melhorar, eu também fico satisfeita. É um miúdo respeitador, interessado, esforçado. Muitíssimo responsável. Faz tudo a despachar e tem uma letra hieroglífica, é certo. Mas o essencial está lá. Fiquei orgulhosa. No meu filho grande e na escola onde ele tem o prazer de andar. Porque a questão é mesmo essa: o Diogo adora a escola dele. Os professores gostam sinceramente do miúdo e vice-versa. Tem imensos amigos na turma, que gosta de trazer cá a casa. Dá-se muito bem com vários colegas de anos mais avançados. E tudo isto junto é meio caminho andado para o sucesso escolar.

Quanto ao Vasco, a questão era diferente. A minha coisa pequena mudou de escola. Passou da escolinha de Malempré, onde podia fazer o que queria como um selvagem porque todos lhe achavam piada, para um colégio católico bastante rígido. Aprendeu a controlar-se nas aulas, a estar concentrado. Continua a estragar material escolar a uma velocidade alucinante. Continua a rasgar as calças e a esfarrapar os ténis. E ainda bem. Quer dizer que continua a ser o meu terrorista, mas um pouco mais calmo. Mais civilizado. Ninguém o quebrou, só o vergaram um bocadinho. O que, bem vistas as coisas, era uma necessidade premente, dado que está prestes a fazer oito anos e já está no terceiro ano.

Devo dizer que tive algum receio do catolicismo daquela escola. Tal como na escola do Diogo, disseram-me que não eram “muito fixados em Jesus”. Avisei-os de que eramos todos ateus há várias gerações e que assim tencionávamos continuar, graças a Deus. No início, o Vasco dizia que, afinal, era fácil rezar. Bastava dizer muito depressa: “Qualquer coisa, qualquer coisa. Qualquer coisa, qualquer coisa. Ámen.” Perguntei o que era a “qualquer coisa”. Explicou-me que não era importante. O importante era benzer-se no fim sem trocar as voltas. E que isso, ele já sabia fazer. Atar os sapatos é que ainda não. Passadas umas semanas, também já sabia o que eram os Testamentos. O velho, o novo e o assim-a-assim. Foi pela primeira vez rezar à igreja e achou-a fria. Mas gostou. Descobriu que uma das professoras é cristã e a outra ateia. Tal como nós. Continua a adorar a mitologia grega. E a achar que todas as histórias são igualmente bonitas. Quer queiramos, quer não, vivemos numa sociedade judaico-cristã, pelo que este conjunto eclético de conhecimentos de pendor religioso só poderá contribuir para uma boa cultura geral.

Para além da Matemática e do Francês, o Vasco também foi avaliado a Ciências, História, Geografia, Inglês, Religião, Ginástica e Natação. Mas o mais curioso, na minha opinião, são as notas atribuídas em pé de igualdade à Escrita/Cuidado na apresentação, ao Comportamento face ao trabalho e ao Comportamento face aos outros. O resultado de todas estas avaliações deu origem a uma média global de 85,6%. Como não podia deixar de ser, fiquei orgulhosa na minha coisa pequena, que se fartou de trabalhar para acompanhar o ritmo da nova escola. E fiquei absolutamente deliciada com este colégio, que põe o estudo da Matemática ao mesmo nível do Comportamento face aos outros. Um justo equilíbrio, parece-me.

O próprio boletim tem uma curiosa introdução dirigida ao aluno, que penso ser interessante traduzir:

Acabaste de receber o teu boletim. Tem bastante cuidado com ele, pois de certo modo é o teu diário de bordo durante este ano escolar. Será testemunha dos teus esforços, progressos e sucessos, mas talvez também das tuas dificuldades.

Neste dossier, encontrarás igualmente diferentes documentos:
- Uma página reservada às notas que obtiveste nas diversas avaliações
- Uma página onde poderás ler os comentários e apreciações que faço sobre o teu trabalho
- A página seguinte, onde deverás avaliar o teu próprio comportamento face ao trabalho e à tua atitude perante os outros: os teus colegas e os adultos. Vais ter de fazer um esforço de reflexão para analisar as situações propostas e eu sei que isso não será propriamente fácil. Nesta mesma página, eu também vou escrever o que penso do teu comportamento face a estas proposições.

O meu desejo é ajudar-te graças aos meus encorajamentos e opiniões. Quero que saibas que podes contar comigo se sentires dificuldades, tentarei estar disponível para ti. Em contrapartida, espero que estejas atento, que faças o melhor que és capaz, quaisquer que sejam os resultados que obtenhas. Não te esqueças de que a tua profissão actual é: estudante. Portanto, dá o teu melhor, trabalha regularmente, não te contentes com o mínimo, de modo a que este boletim de avaliação seja uma enorme fonte de satisfação pessoal.

Acho que está tudo aqui. Ou quase, quase. Tudo o que eu espero da escola. O respeito pelo aluno, a sua responsabilização, a difícil mas necessária auto-avaliação, o encorajamento, a exigência de que cada um dê o máximo de si e a ideia de que o resultado escolar, em todas as suas vertentes académicas e sociais, deve ser uma fonte de satisfação para o próprio (não para os pais).

Às vezes é difícil levar o barco a bom porto. A minha vida tem momentos muito complicados. Mas, caramba, quando leio estas coisas sinto que estou no sítio certo. Este é o ensino com que sonhei para os meus filhos. A 100 e a 900 metros de minha casa. A custo zero. I rest my case.