sábado, 29 de novembro de 2014

Há quanto tempo não falo de amor?

(é que às vezes ainda me custa a acreditar)


Há muito tempo que não escrevo sobre o meu amor. E é injusto. Porque ele faz-me imensamente feliz.

Porque nos apaixonámos há quase dois anos e eu ainda coro quando ele olha fixamente para mim. E todos os dias agradeço a sorte que tive por as nossas vidas improváveis se terem cruzado.

Porque ele regressou de Itália para me ajudar a atravessar uma fase mais turbulenta da minha vida e, seis meses depois, ainda não se foi embora. Não sei como.

Porque ele partilhou muitos barcos, muitas viagens, muitas aventuras, mas nunca tinha lançado âncora. E, agora, atracou num porto onde a bonança tarda.

Porque aceita que eu não quero conhecer família, nem amigos. Compreende que a passarinho ferido, não vale a pena pedir para voar.

Porque continua a abrir os braços todas as noites para eu me aninhar. E deixei de ter pesadelos pela primeira vez na vida.

Porque ainda gostamos muito de fazer aquelas coisas que os adultos fazem em privado. E, pelo sim, pelo não, continuamos sem cama, a dormir no chão.

Porque ele é a minha armadura. O meu escudo, a minha espada. Às vezes, o meu braço, quando a força me falha. Recebe sempre o embate inicial de tudo o que de mal me acontece. Toma como seus os meus inimigos. Indigna-se mais do que eu. Procura soluções, mas primeiro dá-me muitos beijos. E chama os bois com nomes que me dão sempre vontade de rir.

Porque se levanta para dar festinhas ao D. Fuas sempre que o vê a abanar o rabo, a olhar docemente para ele.

Porque fala cada vez melhor português, com um sotaque que me derrete. Porque conhece o país, a história, a política. A triste economia. Pede para ouvir Toquinho e Vinícius. Cita Pessoa de cor. Devora bolo-rei, ovos escalfados com ervilhas, açorda de camarão e feijoada. Só é pena gostar tanto de farinheira como nós.

Porque ele roubou o coração do meu filho pequenino. E construiu um mundo só deles. Porque faz questão de assistir às aulas de ballet e de violino. Faz-lhe chocolate-quente às escondidas. Leva-o ao médico. Diz orgulhoso que a directora da escola o trata pelo nome. Porque inventa ditados palermas e ensina os números negativos. Fica horas a ver vídeos antigos no Youtube. Porque dá três nós nos atacadores. E ri quando o Vasco dá puns no colo dele.

Porque quando estou de folga, ele levanta-se sempre num ápice para levar o Vasco à escola. Enquanto eu durmo mais um bocadinho, combina roupas, faz lanches, verifica dentes lavados, sacos de ginástica e ajuda a escolher os melhores “Gogos” para combater nesse dia no recreio.

Porque é o melhor exemplo que o meu filho grande podia ter. Um porto seguro no meio da tempestade típica da adolescência. Que sabe levantar a voz e zangar-se a sério. Mas que não se importa de mostrar as suas fraquezas. Porque gosta de o ouvir tocar trompete, mesmo quando toca mal. Porque o ouve pacientemente discorrer sobre tudo o que se passou na escola, do primeiro ao último toque. Porque o defende sempre que recebe um mau resultado ou tem um ataque de preguiça e foge às tarefas diárias. Ou quando se recusa a vestir o casaco, apesar de estar um frio de rachar. Porque se lembra de lhe lavar as calças preferidas. E nunca se esquece de mentir quando o Diogo lhe pergunta se tem o cabelo espetado. Porque lhe cede sempre o último pedaço de carne. E sabe o nome de todos os seus amigos.

Porque se levanta de manhã e nos prepara pequenos-almoços de telenovela. Aqueles pequenos-almoços de hotel que ninguém come. Excepto nós. E quando vai ao pão ao fim-de-semana traz sempre um mimo para cada um: gaufre de alperce para mim, chocolate branco para o Diogo e chupa-chupa de chocolate de leite para o Vasco.

Porque adora passear sozinho comigo, de mão dada, à volta do lago ao entardecer. Ou à noite, para vermos as estrelas.

Porque faz compras, cozinha, limpa, aspira, lava, engoma e cose em perfeito pé de igualdade. Porque nunca discutimos sobre dinheiro. Ou sobre a falta dele. Sobre quem faz-mais-o-quê. Porque a rotina estabeleceu-se espontaneamente, sem nunca termos pensado muito sobre isso. E é tão natural que quase me esqueço que é uma raridade.

Porque não resmunga quando volto dos nossos passeios com paus ou pedras para fazer qualquer coisa em casa. E guarda com o maior dos carinhos tudo o que faço.

Porque passado este tempo todo, ainda nos vamos deitar às 2 da manhã, porque estivemos a noite toda à conversa. E às vezes continuamos no escuro até adormecermos. Porque também somos amigos.

Porque trocamos mensagens e telefonemas para não dizer coisa nenhuma. E no fim ele diz “Beijinhos” e eu rio-me. Porque ele ainda me chama “Raposinha” e “Petit Coeur”.

Porque cada vez que ele está concentrado a trabalhar e eu passo por trás, não consigo deixar de lhe dar um beijo no pescoço. E um abraço.

Porque adoro mimá-lo. E ele adora surpreender-me com novos passeios.

Porque gostamos muito de fazer programas a quatro, mas também adoramos enroscar-nos no sofá a ver uma série. Ou um daqueles filmes antigos de que ele tanto gosta.

Porque as minhas colegas todas o adoram e estão sempre a dizer: “Esse homem ama-te mesmo. Olha só como ele cuida dos teus filhos…”. E eu fico toda orgulhosa, porque sei que é verdade. É isso e muito mais.

Porque ele cuida de mim. E eu cuido dele. Sem nenhuma obrigação, apenas porque queremos. Porque gostamos de cuidar um do outro. Porque nos amamos.

Afinal isto de falar de amor é uma piroseira pegada, mas de vez em quando também é preciso. Apaixonarmo-nos por uma pessoa é algo que acontece. Amá-la é uma decisão que tomamos, conscientemente. Todos os dias, uma e outra vez. Nós tivemos a sorte de nos apaixonarmos, mas depois decidimos amar-nos. Numa espécie de alinhamento perfeito de toda uma série de factores encadeados, que nos esforçamos por manter vivos. Por cuidar.
 
 

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Não sei se vá, se fique…

(diálogo assustador quando me estava a preparar para ir dar aulas)

 
- Estou deprimido.
- Porquê, filhote?
- Vais dar aulas agora?
- Vou.
- Mas vais já sair?
- Sim, daqui a um bocadinho.
- Ah…
- Estás triste porque a mãe vai dar aulas? Coitadinha da minha coisa pequena!
- Não é isso…
- Querias que a mãe te desse atenção, era?
- Hum… Onde é que está o Pascal?
- Está quase, quase a chegar.
- Ainda não tive a minha hora de Pascal.
- “A tua hora de Pascal”? Estás com saudades do Pascal, é? Ele está mesmo aí a chegar.   Estás à espera dele para fazeres os trabalhos de casa?
- Não, já fiz tudo.
- Então? Estás à espera do Pascal para fazeres alguma brincadeira?
- Não te posso contar nada.
- Ai...
- É que hoje íamos fazer umas experiências, quando estivesses a dar aulas. Tínhamos combinado, mas era segredo.
- Experiências?
- Sim, de química.
- Mas porque é que eu não posso estar em casa?
- É que as coisas podem correr mal. Muito mal…

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Quem disse que burro velho não aprende línguas?

(onde se mostra que com um bocadinho de esforço isto vai lá)


 
D. Fuas Roupinho é, como se sabe, uma criatura meio selvagem. Estranho cruzamento entre um texugo e um cão, que dorme de patas no ar e língua de fora. Persegue inimigos mesmo em sonhos, rosnando e choramingando baixinho. Vive eternamente à procura do ponto de fuga, bicho indómito que é. O instinto de caça está-lhe no sangue e pouco se pode fazer contra isso.

Ao fim de quase cinco anos de feroz convivência, capitulámos. Decidimos começar a soltá-lo, durante os nossos passeios ao Domingo pelos bosques. Por fim, aceitámos que não vale a pena tentar que ele ande calmamente ao nosso lado. Ou que corra alegremente à nossa volta, como todos os outros cães com os quais nos cruzamos. Coração ao alto (o nosso), e lá vai ele...

Quando solto em plena natureza, D. Fuas larga a correr como se não houvesse amanhã. Como se toda a caça do mundo estivesse ali escondida, entre as árvores, à espera de ser apanhada. Por isso, desaparece num ápice. Depois, volta. Por vezes, demora muito tempo. Mas, quando finalmente aparece, todo ele é felicidade.

Acho que se pode dizer que a aprendizagem foi mútua. Nós tivemos que aprender a confiar no instinto dele. De ir e voltar. Sobretudo, voltar. Ele teve de aprender a não ir longe demais, a dosear a correria desenfreada. A regressar, quando ouve o nosso chamamento preocupado ao longe. Até agora, tem corrido bem… Isto é, ele tem voltado sempre. E ainda nunca trouxe um bambi assustado na boca.