sábado, 10 de janeiro de 2015

Os diplomatas

(é toda uma arte, minha gente)


Aqui há uns tempos, o Vasco chegou a casa muito aflito com um papel que tinha recebido na escola. Rezava assim:

Vasco, queres ser meu namorado? Rodeia sim ou não e, depois, entrega-mo. Se quiseres dizer-me mais alguma coisa, podes escrever também.

(a pontuação é da minha autoria, que a menina além de dar muitos erros também parece não gostar lá muito de sinais de pontuação.)

Perguntei-lhe se ele gostava da menina. Olhou para mim com ar de vómito, a revirar os olhos. “Pronto, então só tens de responder que ainda não estás interessado nessas coisas mas que, se estivesses, ela seria certamente a escolhida.” “Mas isso é mentira, mãe!”. Lá lhe expliquei que, às vezes, é preciso uma certa diplomacia para não magoar os sentimentos das raparigas.

Dias depois, ouvi-o suspirar. Que ainda tinha “aquele problema” por resolver. Aconselhei-o a despachar-se a dar uma resposta para não criar falsas expectativas à apaixonada.

Já me tinha esquecido da história, quando fui buscar o Vasco à escola e sinto alguém a puxar-me o casaco. “Olha lá, porque é que chamaste “vacheeecô” ao teu filho?!” Era a apaixonada pespineta.

Lembrei-me, então, de perguntar à coisa pequena pelos últimos desenvolvimentos. Que estava a dar um bocado de trabalho, mas que estava a correr tudo bem. Que não a tinha magoado, nem nada. Na verdade, nem sequer tinha chegado a dar-lhe uma resposta. Andava a evitá-la para ver se ela se esquecia. “Andas a evitá-la?! Mas ela não é tua colega de turma?” Pois, esse é exactamente o busílis da questão, não só a miúda é da turma dele, como está sentada mesmo na carteira do lado. Mas ele estava convicto de que andava a conseguir evitá-la muito bem.

 



Na semana passada, o Diogo contou-me que um colega tinha perguntado se podia vir dormir cá a casa este fim-de-semana. Sabendo o quanto ele detesta o miúdo em questão, ri-me. “Bem te disse que ele embirra contigo por inveja. O que ele queria mesmo era ser teu amigo.”

Lá me explicou que estava fora de questão, mas que tinha tentado ser diplomata. Disse-lhe que não era possível, porque na sexta-feira ia dormir a casa do Batiste. Mas o outro insistia. “E no sábado?” No sábado, vinha o Batiste dormir cá a casa. “E durante a semana?” Na segunda-feira, era a vez de o Sébastien vir dormir cá a casa. “Então, no próximo fim-de-semana?” Também não ia dar, infelizmente. Já estava combinado que o Théo vinha cá ficar na sexta-feira.

“Alto lá! Eu não sabia dessa! Que história é essa do Théo?! Não estarás a exagerar um bocadinho? Isto mais parece uma pousada da juventude, pá...” Largou a rir. Que era só para ver se pegava. Respondeu aquilo para se libertar do outro chato, mas que já agora estava a ver se o último arranjo pegava… diplomaticamente.


[ Entretanto, o Vasco decidiu tomar medidas mais drásticas em relação aos pedidos de namoro. Quando troquei a mochila, no início deste período – não preciso de dizer que a outra foi directamente para o lixo, pois não? – descobri vários papelinhos com corações fechados com fita-cola e envelopes coloridos por abrir. Perguntei-lhe o que raio era aquilo. “Não são meus, mãe! De certeza que são do Diogo, é melhor não abrirmos!” ]

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Tornar-se fundamentalista I

(porque é assim que começa o extremismo)


Olho para o meu filho crescido. Cada vez mais crescido. O Diogo mudou muito no último ano. Já tem tamanho de gente grande, mas a maturidade tarda. Um pé na infância, outro na adolescência. Ambos ainda longe da idade adulta, apesar de já calçar o 43.

Não é fácil crescer. É um processo feito de avanços e recuos, aos solavancos. Prego a fundo nas rectas. Curvas apertadas. Ponto morto. Terreno acidentado e obstáculos inesperados que é preciso driblar.

As borbulhas que se transformam em cadeias montanhosas intransponíveis. O mau cheiro que teima em aparecer, à prova de todos os desodorizantes. O cabelo indomável capaz de estragar o melhor despertar. Os movimentos que se tornam bruscos. A voz grossa que agride sem querer. As lágrimas que não se conseguem evitar. O riso descontrolado. E, por vezes, uma vontade enorme de fugir dali para fora. Daquele corpo que agora é dele, mas que não lhe pertence totalmente.

O meu filho já crescido começou a olhar para mim com outros olhos. A questionar o que antes era um dado adquirido. Eu e o meu modo de vida. Eu e a minha filosofia de vida. As minhas escolhas. E ainda bem, é sinal de que está a construir a sua própria personalidade. Por oposição à minha, num movimento de perpétuo desafio e conflito que é bastante saudável. Que reflecte o vínculo seguro que fomos construindo ao longo destes anos. Como um novo vértice daquela fase em que as crianças pequenas nos dizem que não gostam de nós quando são contrariadas. Um adolescente que se revolta contra o poder paterno instituído é um adolescente que está suficientemente seguro do amor que os pais lhe têm.

Mas é complicado estruturar uma identidade num país que não é o nosso. Aprender a dominar uma nova língua. Mergulhar noutra cultura. Aceitar outro povo. Uma nova geografia, clima, gastronomia. Hábitos. Uma outra forma de ser e de estar. Ser emigrante exige uma capacidade de adaptação que não se coaduna com as vistas curtas de um adolescente. Com a sua insegurança natural. O mundo é tão grande que dá medo. Os primeiros voos a solo pedem um ninho seguro no regresso. Quando esse ninho é dúplice, o processo de crescimento torna-se mais complexo.

Aos poucos, o Diogo começou a revoltar-se também contra o país que nos acolheu. Porque tudo é diferente, quando ele gostava mesmo era de conseguir ser o mais igual possível. Confundir-se com a massa. Porque a língua dele não é esta. Porque a cultura dele é diferente. Porque aqui está frio, muito frio. Lá, calor. Aos 13 anos, cinco graus de diferença é como opor a Antártida ao Sahara. Portugal ganhou uma áurea de Terra Prometida. E ele está disposto a fazer todos os sacrifícios para lá chegar. Até porque é lá que está Deus, todo-poderoso, cuja aprovação ainda precisa de conquistar.

Tudo isto seria perfeitamente normal se o discurso fosse o mesmo em ambos os lados da barricada. Se todos os adultos à sua volta tivessem uma posição coesa que servisse de rede de segurança. O mundo é imenso. A nossa nacionalidade é imutável, mas a nossa cidadania é cambiante. Aquilo que somos não se define pelo sítio onde vivemos. O racismo, a intolerância de qualquer espécie, a xenofobia, a segregação, nascem quando se semeia uma certeza absoluta no espírito de uma pessoa em formação. Uma Verdade. Tu e os teus são melhores do que todos os outros. Quem te disser o contrário está errado e precisa de ser convencido. Convertido. Pelo uso da força, se preciso for. Por todos os meios ao teu alcance. Porque os meios justificam sempre os fins em nome de um ideal inquestionável.

Por isso, quando dizem ao Diogo que ser imigrante é uma vergonha, tenho medo. Muito medo. Quando cospem um total desprezo pelo país que nos acolheu, porque fica no fim do mundo, porque é frio e cinzento, porque é pequenino e não tem História digna desse nome. Quando gozam com o facto de falarmos duas línguas em permanência. Quando lançam a dúvida sobre a minha competência parental para escolher o melhor país para vivermos. Como se houvesse um único país possível para se viver. Quando dizem que eu não trabalho onde há trabalho bem remunerado como tantos dos nossos compatriotas. Só esta última palavra já me dá arrepios. Quando tentam convencê-lo de que vivemos longe da nossa pátria porque não temos coragem nem capacidade para aproveitar as oportunidades magníficas que o nosso país está disposto a dar a quem se esforça. Transformando-nos, assim, em ratos em fuga, em cobardes, em seres inferiores. Quando lhe mostram que a roupa que vestimos espelha a vida miserável que temos. Que os gadgets que não compramos ilustram a nossa parca capacidade financeira. Confundindo atabalhoadamente ser e ter.

Tenho muito medo desta conversa de jihadista. Da Verdade. Da Luta. Desta chantagem sentimental que impinge uma filosofia de vida inquestionável e divina em troca da aprovação unânime do grupo. Como pode um adolescente opor-se a esta militância cerrada? Como pode qualquer adolescente imigrante não se deixar seduzir pelo apelo de uma causa nobre enraizada na sua cultura de origem tida como superior? O que podemos nós fazer, enquanto sociedade que assiste a actos bárbaros contra a liberdade, enquanto família que ficou na rectaguarda e que gere a imagem que a segunda geração de emigrantes tem do seu país, enquanto pais que emigraram em busca de outras oportunidades de vida? Nem melhores, nem piores. Por que raio se ficou com a ideia de que as pessoas emigram sempre em busca de melhores oportunidades? Pode-se partir apenas – ou também, ou ainda assim – à procura de experiências de vida diferentes. E isto é algo que também devemos explicar aos nossos adolescentes. Nunca se é demasiado velho para viver, para recomeçar. Nunca se é demasiado diferente do outro. Seja lá o que o “outro” for, será sempre o nosso semelhante.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Reabertura do estaminé após encerramento para balanço

  (pelos caminhos de Portugal)



  Chegar a Portugal com o nascer do dia, a Sul.


Véspera de Natal a dois na praia, antes da confusão da família.

 
 Um café em Cascais com a nossa velhota preferida.
 
 
Matar saudades de Lisboa.


Um passeio matinal pela Feira da ladra.
 
 
 
Diziam que estava frio.


Fomos pela primeira vez ao Panteão Nacional.
 
 
E adorámos a vista.
 

O meu amor também gostou muito da igreja de São Vicente de Fora.
 

Sintra, que nos deixa sempre sem fôlego.
 

No liliputiano Convento dos Capuchos senti-me em casa.
 

Parecia um quadro.
 
 
Quase perdi o meu amor nas brumas.
 
 
A lamber finalmente as crias.
 

O mais pequenino vinha cheio de saudades.
 

A família. Sempre.
Um bisavô velhote e um novo primo.
Apaixonar-me pelo menino mais querido do mundo.
 

Fugiram para casa da avó mal conseguiram.
 

O adolescente resmungou, resmungou… mas adorou o passeio à Batalha.


Finalmente conseguimos ver as Capelas Imperfeitas.


Um jantar com amigos de longa data.
A madrinha.
 
 
Às vezes esqueço-me de que sou a mãe.
 
 
No regresso de mais um passeio.


Eles pediram para ver o mar.
 
 
O meu amor adora tirar-lhe fotografias.


Nunca tinha visitado uma adega.


 
O Porto, uma paixão recente. E o emplastro.


Um passeio nocturno pelo Norte para terminar.
Eis o nosso desejo de Ano Novo: Paz.