terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Um morto na sala

(onde a metáfora se torna real)


Há uns tempos, fiquei a dever um favor a um colega de trabalho. Tinha prometido acompanhá-lo a uma feira internacional, onde a nossa associação teria um stand. Como a feira ficava para trás do sol-posto, ficou combinado que eu iria apenas no último dia para lhe dar uma folga. A combinação foi feita com meses de antecedência e, lamentavelmente, acabou por calhar no dia exacto em que os rapazes chegavam de Portugal, depois das férias. Pedi imensa desculpa, expliquei o motivo e disse que não poderia acompanhá-lo. O meu colega compreendeu, mas sei que ficou chateado. Eu também teria ficado, se tivesse de aguentar aquela estucha sozinha, quatro dias seguidos, fim-de-semana incluído. Disse-lhe com sinceridade que lhe ficava a dever um favor, que poderia cobrar quando quisesse. Que contasse comigo para o que fosse preciso. Que o próximo fecho da revista ficava por minha conta. Que podia inclusivamente chamar-me, se precisasse de ajuda para esconder o corpo que tinha ficado no meio da sala, na sequência de um homicídio. Ele lá acabou por rir. Respondeu-me a brincar que era pessoa para cobrar mesmo esse tipo de favor.


A sogra deste meu colega foi encontrada morta há uns dias, em circunstâncias misteriosas. No chão da sala. Ele e a namorada foram chamados ao local. E tiveram de limpar aquilo tudo. Felizmente, a Polícia tratou do corpo.

domingo, 22 de janeiro de 2017

Parentofagia

(onde o amor irrompe nas obrigações parentais quotidianas)



Um dos nossos maiores desafios, enquanto casal, é não nos deixarmos engolir pela função parental. Suponho que esta seja a maior dificuldade de todos os pais, numa época em que os filhos estão, mais do que nunca, no centro da preocupação das famílias. Nunca se viveu tanto em função das crianças como hoje. Do bem-estar das crianças, da felicidade das crianças, da educação das crianças, da saúde das crianças, do futuro das crianças. Vivemos atormentados de dúvidas, inseguros. Confiamos nos pediatras e nos “especialistas” como se fossem deuses. Devoramos livros que encerram em si a sabedoria universal que – sabe-se lá como – parece ter-se perdido algures na evolução da espécie parental. Livros para aprender a adormecer bebés. Para lidar melhor com a crise dos dois anos. Para evitar problemas de escolarização. Para aprender a comunicar com os pré-adolescentes. Para conseguirmos ser pais divorciados de filhos que não se divorciam. Livros sobre o mindfulness e a psicologia positiva. Livros sobre a alimentação saudável. E acumulamos workshops sobre os mais variados temas, na esperança de aprender a sermos melhores pais em apenas duas horas. Sem esquecer obviamente os ateliers para as crianças. Porque é preciso estimulá-las o mais precocemente possível. Porque é impossível crescer de forma saudável sem a psicomotricidade, a música para bebés, a introdução ao mundo aquático, a imersão linguística precoce e o despertar artístico.

Dir-me-ão que os pais fazem este esforço sobre-humano apenas durante a infância da progenitura. Mas é uma falácia. As necessidades dos filhos mudam com a idade, não desaparecem. Os nossos medos e inseguranças também não. Muitas vezes gostava de poder partilhar os nossos rapazes com a tal aldeia que o provérbio africano diz tão sensatamente ser preciso para educar uma criança. A família está longe, não há mais ninguém para dar colo. E não se pense que um pré-adolescente e um adolescente precisam de menos colo do que um bebé. Precisam é de um colo que se faça discreto. E isto é uma arte. Ensiná-los a voar exige outras competências. A parentalidade é uma aprendizagem constante. Exige tempo, presença, disponibilidade. Exige um constante questionamento. E a necessária flexibilidade. Nesta fase, os pais têm de mostrar uma capacidade de adaptação sem precedentes. No outro dia, dei por mim na mesma divisão que o Diogo, a namorada e a mãe da namorada, em amena cavaqueira. Como se nada fosse. E eu só conseguia pensar: “Como diabo chegámos aqui?!”. Uma noite destas, estávamos os dois em frente ao computador, a ver uma escola secundária para o Vasco. Esta tinha estúdio de música e duas salas de dança. E eu perguntei, com os olhos a brilhar: “É isto, não é?”. O meu amor respondeu entusiasticamente que sim, sem dúvida, aquela era a escola ideal para o Vasco. “Vamos ter de mudar tudo…”, comentou. “Temos um ano e meio”, respondi. O tempo voou. Como diabo chegámos aqui? Quanto de mim, de nós, não demos para chegar até aqui?

Não acredito que um casal precise obrigatoriamente de ter filhos para se tornar família. A família pode assumir tantas formas! Mas duvido que consiga sobreviver se a parentalidade não for partilhada. Ou seja, caso existam crianças – comuns ao casal, de ambos os lados ou apenas de um – essa experiência tem de ser exercida a dois. Exactamente na mesma medida. Com o mesmo grau de compromisso. De amor. De responsabilidade. Aliás, acho que é por esse motivo que muitos casais com filhos pequenos acabam por se separar, quando nada o faria prever à partida. Porque não souberam dar esse passo conjunto, enquanto casal. É impossível ser pai/mãe “solteiro” morando na mesma casa. Seja o outro o pai/mãe da criança ou não. Sublinho, “na mesma casa”. Penso que é possível manter uma relação amorosa estável, com crianças pelo meio, em que os dois membros do casal não tenham o mesmo investimento parental desde que não se partilhe casa. Foi o que nós fizemos durante quase dois anos e funcionou na perfeição.

Quando viemos viver para Vielsalm, as coisas tiveram de mudar. E confesso que me custou horrores. Uma pessoa habitua-se a ser “mãe solteira” e, depois, é difícil partilhar a parentalidade. É difícil partilhar os filhos. A verdade é que, desde que eles nasceram, fui sempre eu que tomei todas as decisões, sem deixar margem de manobra a mais ninguém. Uma vez que o outro lado se contentou com um espaço subsidiário, fui crescendo numa maternidade profundamente solitária. Não me entendam mal, a solidão era voluntária e profundamente egoísta, vejo-o agora. Porque me permitiu fazer exactamente o que sempre quis. Inclusivamente vir viver para a Bélgica com os rapazes. O problema ocorreu quando me deparei com outro homem que não aceitou um papel meramente auxiliar. Que percebeu que a única forma de me ter por inteiro era tomar de assalto a minha exclusividade materna. E partilhou medos e inseguranças e tempo e disponibilidade e presença. O meu amor ensinou-me que é mais fácil dividir a responsabilidade do que carregar o mundo nos ombros. E, por isso, estar-lhe-ei sempre imensamente grata. Porque os rapazes ficaram a ganhar. Não que a nossa visão das coisas seja muito diferente. Que me lembre, nunca tivemos uma única discussão sobre os rapazes. As nossas opiniões são quase sempre convergentes. E, quando há divergências, a razão costuma estar do lado dele. Que tem uma visão da parentalidade mais livre e distanciada, logo mais isenta. Mais sã. O meu amor obriga-me a manter um pé em terra, não me deixa engolir pela maternidade. Não nos deixa engolir pela parentalidade.

Ontem, depois de irmos levar e buscar o Vasco de manhã ao ballet, levámo-lo aos anos de um amigo, onde foi convidado a passar a noite. A seguir, foi preciso levar o Diogo ao trabalho. E ir buscá-lo às 22h30. Uso um plural impessoal, mas foi o meu amor que fez de motorista em todas as deslocações dos principezinhos. Eu fiquei a traduzir furiosamente. Estava decidida a livrar-me da minha quota diária de páginas traduzidas. Consegui. O resto da tarde foi só para nós. Não consigo explicar a alegria que sentimos por sabermos que as oito horas seguintes seriam apenas nossas. Sem eles. Sem obrigações. Almoçámos a ver a nossa nova série de eleição. Fizemos aquelas coisas que os adultos gostam de fazer quando se apanham sozinhos. E dormimos uma sesta. Demos um passeio pequenino, apesar do frio. Tomámos um banho demorado. Conversámos muito. E voltamos a fazer aquelas coisas que os adultos gostam de fazer quando se apanham sozinhos. Decidimos jantar frites, enquanto víamos mais um episódio. E abusámos na maionese. Não lavámos a loiça. Preferimos ver mais um episódio. Soube tão, mas tão bem! O meu amor passou o dia com um sorriso na cara. E eu enrosquei-me nele vezes sem conta. Exprimimos em voz alta a felicidade que sentíamos. Repetimos, sem vergonha, que estes momentos a dois são tão importantes como todos os outros que dedicamos exclusivamente aos rapazes. Se não cultivarmos o amor que nos une, o resto não faz sentido. Nada faz sentido.

Somos quatro. Os rapazes estão, indubitavelmente, em primeiro lugar na nossa vida. Nós sabemos isso, eles sabem isso. As prioridades estão muito claras na nossa família. A magia está em continuar a criar bolhas espácio-temporais de amor onde nos possamos reencontrar a dois. Pode não ser socialmente correcto admiti-lo, mas a verdade é que os filhos são paisfágicos. Cabe-nos a nós não transgredir. Não deixar que a sociedade nos faça sentir culpados por nem sequer tentarmos ser pais perfeitos. Somos os pais que conseguimos ser. Mais livro, menos livro. Mais actividade, menos actividade. Mais coerência, menos coerência. Para além de advogarmos o direito à imperfeição parental, advogamos o direito a sermos um casal que se ama e que cuida ferozmente desse amor. Porque sem isso, a família que estamos a construir deixa de fazer sentido.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Só para terem uma noção

(onde o processo de congelamento ultrapassa as expectativas 
e as recompensas são surpreendentemente sofridas)


Quando estava a chegar ao trabalho, a Dadá ficou sem líquido limpa-vidros. Tendo em conta que, há pouco tempo, desmantelaram um atentado terrorista umas ruas acima, evito grandes passeatas em Verviers. Decidi improvisar. Até porque era impossível voltar para casa sem limpa-vidros. As estradas belgas estão cobertas por uma mistela nojenta de neve e sal. Quando passa um camião, é um ver se te avias. Antes de iniciar o trajecto de regresso, despejei uma garrafa de 250 ml de água no depósito. A ideia era só mesmo chegar a casa em segurança. Normalmente compro bidões de 5 litros de líquido limpa-vidros e ainda havia um resto na garagem. No Inverno, tem de ser anti-congelante. Bom, nesta terra, tudo tem de ter anti-congelante adicionado no inverno: limpa-vidros, líquido de refrigeração do motor, gás da caldeira, etc. Fiz-me ao caminho. Uns minutos mais tarde, apanhei o primeiro camião numa rotunda. Pressionei a manete do limpa-vidros. Nada. Voltei a pressionar. Nada. O líquido já tinha congelado. E assim se manteve airosamente, mesmo quando o carro já estava quente, meia hora depois. É para terem noção do frio que faz. Gela tudo em minutos.

As temperaturas rodam os -8ºC. À noite, diz que já chegou aos -20ºC. Está um sol radioso. E um frio literalmente siberiano. Na meteorologia falam de “temperatura real” e “temperatura sentida”. Esta semana ainda não consegui sentir nada. Também já devo ter congelado. Os miúdos nunca mais se esqueceram da artilharia pesada em casa. Acho que o frio – real ou sentido, sei lá! – faz desaparecer a vergonha. O Vasco tem ido todos os dias para a escola com a combinação de ski e botas de neve. Já tive de comprar outro par, porque chegam sempre ensopadas. Hoje levou o trenó. Parece que é uma recompensa por se terem portado bem nos últimos dias, na sala de aula. Vão andar de trenó à tarde. Mas, primeiro, têm de andar uns 20 minutos a pé até ao cimo do monte. Com o trambolho atrás. Não quero parecer maldizente, mas já vi castigos severos mais bonzinhos. Raio que os parta, pá!