segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Métodos de poupança

(onde quase nos vemos na pele de um empresário muito bimbo)



Mal chegámos da nossa aventura em Marrocos, o Belga pôs-se a magicar as férias seguintes. Conhecendo a minha paixão pelos países escandinavos, ficou logo definido que, no Verão seguinte, rumaríamos algures a Norte. Admito que fiquei um bocadinho apreensiva. Estava perfeitamente convencida de que o custo de vida seria inacessível às nossas parcas economias. E foi assim que, em Agosto de 2015, comprei o meu primeiro mealheiro. Nunca me lembro de juntar dinheiro com tanto afinco, em 40 anos de existência. Na Bélgica, o sistema obriga-nos sempre a avançar uma bela maquia para tudo e mais alguma coisa. Achei que era uma boa ideia todos os estornos que recebesse irem directamente para o mealheiro. Nem sempre consegui, sou sincera. Houve meses mais complicados, em que não consegui juntar nada. Mas, feitas as contas por alto, estava satisfeita com o meu método de poupança.

Contudo, em meados de Abril, cheguei mais cedo do que o previsto ao trabalho e dei com uma das assistentes a chorar. Talvez por também ter criado os filhos completamente sozinha, temos bastantes afinidades. Lembro-me de uma vez ter comentado com ela que estava aflita com a roupa da cama que não secava, porque não parava de chover. No dia seguinte, em cima da minha secretária, tinha dois conjuntos de lençóis e capas de édredon para os rapazes. Tinha começado a trabalhar ali há pouco tempo e aquele gesto comoveu-me. Quando a filha acabou o secundário, deu-me a calculadora científica para o Diogo. E, às vezes, traz-me produtos da horta. Por isso, quando me explicou que não tinha como pagar os dois últimos meses do Kot da miúda (lá está, porque não havia meio de pagarem a bolsa de estudos e ela andava há meses a avançar o dinheiro do alojamento universitário…), decidi dar-lhe o meu mealheiro. Como tive receio de que recusasse, entreguei-lhe a lata ainda fechada, para ela ver que era um extra para as férias, que não iria fazer-me falta no dia-a-dia. Uma vez aberto, o mealheiro tinha pouco mais de 600 euros. O Kot custava 300 por mês, foi um alívio. A minha colega aceitou o empréstimo, mas decidiu que não ia esperar pela bolsa para começar a pagar a dívida. Volta e meia, dava-me os 30 ou 40 euros que tinha recebido no fim-de-semana a trabalhar como babysitter. Infelizmente, como faço sempre as compras da semana durante a hora do almoço, às segundas-feiras, as minhas economias foram aos poucos sendo trocadas por peixe, iogurtes e afins. Nunca mais consegui repetir o feito. Quando fomos finalmente de férias, o único que ainda tinha o mealheiro intacto era o Vasco. Gastou tudo em Legos, claro. Mas estou desconfiada de que, no caso dele, também deve ser considerado um produto de primeira necessidade.

Mal chegámos da Dinamarca, o Belga pôs-se novamente a magicar as férias seguintes. Desta vez, insisti que também tinha de ser um destino desconhecido para ele… o que reduzia consideravelmente a nossa margem de manobra. O meu amor já visitou os cinco continentes e muitos – muitíssimos! – países. Como é evidente, a nossa escolha é bastante ambiciosa e ainda estamos longe de saber se será possível concretizá-la. Mas lá me dispus a comprar um novo mealheiro para recomeçar a juntar dinheiro. Como felizmente não houve quaisquer problemas de saúde nos últimos tempos, tive de arranjar um novo método de poupança. O seguro de saúde intervém automaticamente no preço final das consultas das crianças e jovens, pelo que há muito menos estornos a receber este ano. Depois de pensar um bocado, optei por economizar menos de cada vez, mas com maior frequência. Deste modo, lembrei-me de começar a juntar todas as moedas de dois euros que me viessem parar às mãos. O que me obrigou a alguma ginástica para conseguir chegar a casa sem as gastar entretanto… o que fez com que andasse sempre a trocar dinheiro… recebendo, assim, mais moedinhas de dois euros! Bem sei que parece um método parvo, mas acreditem que acaba por ser engraçado.

Há dois meses, soubemos que o Vasco precisaria de um tratamento bastante caro de endodontia (e escusado será dizer que o outro lado não se mostrou disponível para comparticipar com a metade que lhe era devida). Não entrei em pânico, porque me lembrei do meu novo mealheiro. Mas, depois de contar dezenas de moedas de dois euros, cheguei à conclusão de que o método “menos dinheiro, mais vezes” ficou bastante aquém das expectativas. Vá… não é brilhante. Pronto, é uma merda. A verdade é que a matemática nunca foi o meu forte. Como ainda tínhamos algum tempo antes da consulta, accionei o plano de emergência. Cortei tudo o que era supérfluo. Quando digo “tudo”, foi mesmo tudo. E, quando digo “supérfluo”, talvez esteja a exagerar… algumas coisas não eram assim tão supérfluas. Que se dane, cortei na mesma. Ficámos com o mínimo indispensável. Nada de restaurantes, saídas, passeios, cinemas, roupas… Nada de nada. O dinheiro poupado ia todo para o mealheiro. Mas, depois, o Vasco deu cabo dos sapatos. Duas vezes. Mais umas botas da neve. O Diogo também deu cabo dos sapatos. Resmunguei e fui aos saldos. A seguir, foi o mazout. Esteve tanto frio em Janeiro, que o mazout congelava na cisterna, obrigando-nos a manter o aquecimento ligado dia e noite. Fomos obrigados a encomendar mais 500 litros. Por fim, veio a conta da viagem escolar do Diogo. Não, não se trata de uma visita de estudo. É mesmo uma viagem escolar… a Oxford (e escusado será dizer que o outro lado não se mostrou disponível para comparticipar com a metade que lhe era devida). Voltei a resmungar. Arrependi-me por não o ter deixado vender as garrafas de vinho para diminuir o custo da viagem. Se, no início do ano lectivo, tivesse sabido que a situação iria ser tão crítica, teria mandado às urtigas os meus princípios. No final de Fevereiro, já não me parecia assim tão mal vender álcool antes de se ter idade legal para beber…

Com tantas entradas e saídas consecutivas, o meu pobre mealheiro ficou completamente esquizofrénico. E eu perdi-me nas contas. No dia da consulta no endodontista, o meu amor contou o dinheiro às escondidas e pôs o que faltava. O dente do Vasco não teve salvação. A mandíbula de baixo mantém o desvio, e o ortodontista preferiu usurpar o espaço para fazer avançar os restantes dentes. A parte boa é que não foi preciso pagar o tratamento a peso de ouro. A parte má é que vamos voltar à saga dos aparelhos dentários em breve. A parte mais ou menos é que já temos algum dinheiro de lado. Assim não me apareçam mais sapatos destruídos por magia. Ou mais despesas escolares absurdas. Ou… OK, prefiro não pensar.


[ Quando saímos do endodontista, suspirámos de alívio por termos escapado à vergonha de tirar um envelope da mochila cheio de notas. Na ânsia de fazer economias com métodos arcaicos, nem nos lembrámos de fazer um depósito no banco. A avaliar pelo espanto com que o médico nos aceitou o pagamento da consulta e das radiografias em dinheiro, não quero imaginar a cara que teria feito se tivéssemos de pagar a totalidade do malfadado tratamento… ]

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Fracasso

("There is a crack in everything. That's how the light gets in.”

Leonard Cohen)



No final do primeiro ano do curso de trompete, o Diogo foi obrigado a fazer um exame face a um júri. Tinha onze anos. O exame correu tão mal, tão mal, tão mal, que o professor nunca mais o obrigou a passar por uma tortura daquelas. Acho que ficou completamente traumatizado. O professor, entenda-se. O Diogo – uma vez terminado o calvário – ficou para as curvas. A malta já sabe o que a casa gasta, o pobre professor não sabia. Filho grande tem terror de estar em cima de um palco. Tem terror dos holofotes. Quando digo terror, não estou a exagerar, acreditem. Nesse primeiro exame, o Diogo teve de sair a correr, ainda a última nota ecoava no ar. Largou o trompete e fugiu dali para fora. Estava branco como a cal. Em apneia. Corri atrás dele (com o Vasco a correr atrás de mim, em pânico), com medo que desmaiasse antes de chegar à porta. E ali ficámos, comigo a fazer-lhe festinhas nas costas e a pedir-lhe que respirasse. Quando passou, ríamos os três feitos parvos, nervosos. O professor não conseguiu rir. Tinha apanhado um susto valente, à medida que o miúdo ia gastando o pouco ar que ainda conseguia inspirar, a soprar no trompete. Também ele pensou que o Diogo fosse desmaiar à frente daquela gente toda. Sabe-se lá como, conseguiu que passassem o Diogo, com base na excelente avaliação que tinha tido ao longo desse primeiro ano. E repetiu o feito nos anos seguintes. Invariavelmente, no final do ano letivo, perguntava-lhe: “Mas o Diogo, não tem de fazer um exame?”. Ao que ele me respondia sempre que deixasse estar, que não valia a pena, que as boas notas dos boletins bastavam, que não lhe íamos infligir novamente “aquele suplício”…

O tempo foi passando. O Diogo fez sempre os seus exames de solfejo sozinho numa sala, apenas com o director, a professora e o pianista. Os miúdos foram crescendo, os pais foram deixando de comparecer. Até mesmo porque as provas não eram públicas. Eu fui sempre. Alguém tinha de o empurrar para dentro da sala. E de lhe entregar depressa um chocolate à saída. As notas nunca foram excelentes, mas terminou o curso com boa nota, no ano passado.

Entretanto, o Diogo começou o curso de órgão de igreja. E, aos 14 anos, já ninguém estava com grande paciência para as suas crises de nervos face ao público. Este professor sempre obrigou o Diogo a fazer exames públicos duas vezes por ano. Claro que a coisa corre mal, mas dá para safar. Não há salas de espectáculo desconhecidas. Não há palco. Não há luz. Excepto a que provém dos vitrais e das velas da igreja. E o Diogo toca sempre de costas para o público. Bom… chamar-nos público é ser generoso. Só há três alunos de órgão de igreja. Um deles tem uma notória de jeito, apesar de estar um ano à frente do Diogo. A outra está bastante avançada, pelo que é normal que toque muitíssimo bem. Portanto, o público é constituído apenas por duas mães, uma irmã, o meu amor e eu. Nada de muito intimidante. Mas a verdade é que o Diogo é o menino querido daquele estranho professor e tem sempre excelentes notas.

Há uns meses atrás, o professor de trompete deu a má notícia. A direcção da academia mudou no verão e o Diogo teria mesmo duas sessões de exames, no início de Fevereiro e em Junho. Sinceramente, há muito tempo que não via o filho crescido tão aplicado. Após o pânico inicial, fartou-se de estudar. Fez um esforço para tocar para nós (sim, até à nossa frente ele é incapaz de tocar…), para a namorada e para um amigo. Fora as aulas e os ensaios na academia com o professor que o acompanharia ao piano, no dia do exame. De manhã, antes de sairmos, ouvi-o repetir vezes infinitas as duas músicas. Estava perfeito. Apesar de tudo, achei melhor passar pela farmácia para pedir um tranquilizante natural qualquer. Aconselharam-me três a cinco compridos de valeriana. A medo, só lhe dei dois. A medo, ele tomou os outros três às escondidas. Alimentei-o bem, antes de irmos. Despachei o irmão para casa de um amigo. Pus-me bonita, para lhe dar confiança. E comprei lasanha e gelado para o jantar, já a prever um desfecho menos bom.

O que se passou em cima naquele palco foi algo indescritível. Ele levava uma camisola de malha justa e via-se bem a taquicardia. Estava branco. Quando levantou o trompete, as mãos tremiam tanto que pensei que o deixasse cair. O professor colocou-o estrategicamente virado de lado, de frente para ele e para o pianista. Não valeu de muito. O Diogo teve a coragem de tocar as duas músicas. E tocou-as sempre no tempo certo. Mas era como se o ar não chegasse ao trompete. A música estava lá, mas não estava. O som era praticamente inaudível. E, no entanto, víamos as mãos a mexer rapidamente. Mas o som não saía. O professor desta vez já não ficou espantado. O pianista ficou. Passou o tempo todo a tentar estabelecer contacto visual com ele, como se lhe quisesse perguntar o que se passava. Não ousei olhar para o painel do júri. Duas mesas cheias de gente. O meu amor acompanhava a música com a cabeça, de olhos fechados. Pelo sorriso de satisfação, dir-se-ia que estava a ouvir uma música qualquer imaginária. Eu tentei fazer aquilo que as mães fazem, quando vêem um filho a sofrer. Fiz que conta que tinha poderes mágicos e concentrei o meu olhar nele, a enviar-lhe forças. Tentei respirar por ele. A telepatia materna não resultou, claro. Quando a primeira música terminou, desejei que ele desistisse do exame. Foi horrível vê-lo iniciar a segunda música naquele estado. Fiz um esforço enorme para não chorar. Desta vez, os 15 anos impediram-no de sair disparado. Mas não se veio sentar ao nosso lado. Ficou em frente ao palco, de cabeça baixa, a ouvir todos os outros alunos do último ano do curso de sopro. Calculo que tenham sido quase vinte. Após a deliberação, as notas foram anunciadas publicamente. Todos tiveram entre muito bom e excelente. O Diogo teve insuficiente.

No final, o professor veio falar connosco. Creio que, tal como eu, já estava à espera que o Diogo chumbasse. Estava triste e desiludido, mas não espantado. E eu não pude deixar de pensar que, se ele tivesse mostrado um bocadinho mais de dureza ao longo dos últimos quatro anos, talvez o resultado pudesse ser outro. Acho que, hoje em dia, à força de tanto querermos poupar as nossas crianças do fracasso, não lhes estamos a fazer favor rigorosamente nenhum. O Diogo devia ter feito tantos exames quanto os necessários para chegar ao último ano com confiança suficiente para enfrentar uma avaliação pública. Se tivesse de chumbar algum ano, também não viria mal ao mundo. Apesar de tudo, o professor mostrou-se confiante. Disse-lhe que a avaliação do 1.º período tinha sido bastante boa e que ainda tinham quatro meses pela frente para preparar o próximo exame. Que o professor de piano também tinha ficado estarrecido e que estavam ambos decididos a trabalhar no duro com ele para preparar melhor o exame de Junho.

O Diogo quis ir falar com o presidente do júri, como lhe foi aconselhado. E eu fui com ele. Acho que o senhor foi amoroso. Com uma sinceridade desarmante, explicou-lhe que era impossível cotar o que ele tinha feito em cima do palco. Que a prestação dele nem sequer tinha sido má… não tinha sido, simplesmente. Disse-lhe que nenhum músico pode ter acesso a um diploma se não souber tocar em público. E que, visto o professor e o pianista terem assegurado que o Diogo sabia tocar na perfeição as duas músicas, o único problema que ele tinha de resolver era aprender a gerir o stress. O que não deixava de ser uma aprendizagem valiosa, que lhe iria servir pela vida fora.

Quando chegámos a casa, comecei por lhe reconfortar o estômago. É o essencial para se chegar a um adolescente. E, depois, falei a sério com ele. Pouco me importa o diploma da academia. Eu sei que ele foi obrigado a escolher um instrumento de sopro de que nunca gostou muito, quando quase perdeu a audição em criança. E também sei que quer começar a aprender a tocar um terceiro instrumento, no próximo ano. Obviamente, nunca sabemos as voltas que a vida dá e talvez este diploma ainda lhe possa vir a ser útil, um dia mais tarde. Mas, o mais importante, é aprender a não desistir. Honestamente, penso que este fracasso foi excelente, por mais estranho que isto possa parecer. O Diogo tem um grave problema de gestão de stress. O medo de estar em palco é apenas a ponta do iceberg. E nunca é bom deixarmo-nos dominar pelo medo ou, pior ainda, escondermos os nossos receios debaixo do tapete. Filho crescido tem apenas 15 anos, está em muito boa idade de perceber que pode fazer algo para mudar um aspecto problemático da sua personalidade. Porque hoje foi um exame sem qualquer importância. Mas, amanhã, pode ser um exame na universidade ou uma entrevista de emprego. Penso que é importante perceber o que está subjacente a este medo. Ambos sabemos que cinco ano de desporto de competição em que ele tinha a tarefa ingrata de exercer (sem grande jeito) a função de guarda-redes, deram cabo da auto-estima do Diogo. Ambos sabemos que o Diogo ainda tem de fazer contas à vida, enfrentando uma certa figura central. A prova disso mesmo foi que, passados poucos dias, o Diogo desabafou sobre momentos dolorosos do seu passado e começou a colocar as questões certas, pela primeira vez na vida.

Contudo, mais importante do que procurar respostas no passado, é definir uma meta para o futuro. Quando fizer 16 anos, o Diogo terá de fazer um novo exame, se quiser ter acesso ao diploma do fim de curso de trompete. E, desta vez, tem a responsabilidade acrescida de precisar de um “bom” para passar. OK… posto isto, o que podemos fazer para vencer o medo do palco? E, já agora, aprender a controlar melhor o nervosismo? O Diogo decidiu, finalmente, aceitar a proposta que o professor lhe anda a fazer há anos e vai começar a tocar com a orquestra. Por enquanto, vai apenas tocar nos ensaios. Mas, o objectivo final, será apresentar-se em público no meio dos outros músicos para diluir o nervosismo do palco. Depois, decidimos trabalhar a respiração. Não sei se será a melhor ideia a longo prazo, mas a verdade é que, a curto prazo, ele precisa de respirar e de tocar, em simultâneo. Se bem me recordo das aulas de preparação para o parto, é possível controlar a dor através de exercícios respiratórios automatizados. Comigo não deu grande resultado, mas o Diogo não precisa de saber. Já comecei à procura de cursos de sofrologia e afins, que possam ajudá-lo a relaxar e a controlar melhor a respiração. A ideia agradou-lhe, o que é meio caminho andado para resultar. Admito que sou um bocado descrente destas "ciências" alternativas mas, no estado em que nós estamos, estou disposta a tentar. E, se por acaso conseguirmos descobrir uma maneira de o Diogo finalmente aprender a lidar com o stress graças à hecatombe que foi aquele exame de trompete, acho que vou definitivamente convencer-me de que há males que vêm por bem.


[ Infelizmente, há quem esteja sempre à espera na curva para ver se nos espalhamos, só para conseguir provar uma tese. Há quem deseje o falhanço dos meus filhos apenas para me poder pôr em causa a mim. Faz parte da nossa vida, termos constantemente uma vergasta atrás. Nenhum de nós quebra, por mais que tentem. E, céus, como têm tentado! No final daquele dia, o Diogo não precisava que o deitassem ainda mais abaixo. Por mais anos que passem, nunca me conseguirei habituar à ignominia de certas criaturas ]

domingo, 12 de fevereiro de 2017

A pessoa certa no momento certo

(porque há ocasiões em que é bom ter um pateta alegre por perto)



Na 6ª feira, o Vasco não teve escola. Eu tinha de trabalhar e o meu amor tinha aulas na faculdade. Embora, na Bélgica, ninguém leve os filhos para o trabalho, já estava a preparar-me para levar a coisa pequena comigo. Não seria a primeira vez. A sessão de exames em Saint-Joseph começa na próxima semana, pelo que ele poderia perfeitamente ficar sentado numa mesa a estudar. Com um bocadinho de sorte, seria um dia calmo na biblioteca. Mas, entretanto, o meu amor disse que os pais se tinham oferecido para ficar com o Vasco. Parece que a criatura se porta excepcionalmente bem quando lá está… apesar de eu ficar sempre cheia de medo que ele parta uma das muitas antiguidades expostas pela casa.

Tinha acabado de chegar ao trabalho, quando o meu amor liga a dizer que o tio tinha morrido subitamente. Ofereci-me de imediato para ir buscar o Vasco. A última coisa que alguém quer, numa situação dessas, é ter de tomar conta de uma criança. “Uma criança como o Vasco…”, frisei. Mas o Belga tinha outra opinião. Que não, que estava enganada. Que o Vasco era exactamente a pessoa certa, no momento certo. Que não podia imaginar melhor maneira de aligeirar o ambiente. De alegrar as pessoas que o rodeavam.

O dia em casa dos meus sogros foi pesado. Havia um corpo para reconhecer. Disposições que tinham impreterivelmente de ser tomadas. Familiares que deviam ser notificados. Mas houve tempo para estudar. E fazer crepes. E ver filmes. E brincar. E ler velhas BD. O meu amor diz que foi um dia alegre, apesar dos pesares. Acabaram por lá ficar a dormir. De manhã, o meu amor acordou com as gargalhadas que vinham da cozinha. Quando desceu, deparou-se com um espectáculo inédito. Filho pequeno, com um daqueles seus pijamas-babygrow vestido, animava as hostes. Numa casa onde as crianças nunca foram autorizadas a ir para a mesa naqueles preparos.

Coisa pequena voltou toda animada. Acho que nem se deu bem conta da tristeza que o rodeou. Trazia bolachas e chocolates, como sempre. Trazia um punhal antigo, vindo sabe-se lá de onde. Da última vez, tinha sido um pequeno sarcófago da Índia. Parece que, desta vez, conseguiu não fazer estragos. Os meus sogros agradeceram muito a presença “reconfortante”. O meu amor também. E uma pessoa fica a pensar que aquilo que torna o Vasco único (não no bom sentido, como diria o Diogo), pode fazer milagres num contexto totalmente diferente.