segunda-feira, 24 de abril de 2017

Nem sempre é bom

(onde o esforço compensa, mas cansa)



Nem sempre é bom, isto de ser mãe. Estamos a entrar numa fase em que sinto que os meus actos terão consequências importantes. Provavelmente, as mais importantes dos nossos quase dezasseis anos. E isso pesa. Deixá-los errar, pesa. Obrigá-los a seguir determinado caminho também pesa. Porque será que ninguém diz que o fardo é tão pesado?

Obriguei o Diogo a ir ao seu primeiro ensaio com a banda dirigida pelo professor de trompete. Até pode chumbar no exame do final de ano, é irrelevante. Ninguém estuda um instrumento durante sete anos para obter um diploma. Um pedaço de papel que ateste as suas competências. Ele não quer entrar para a escola superior de música, acredito que aquele certificado de pouco lhe irá servir na vida. Mas a atitude está errada. Baixar os braços sem lutar, está errado. Não se deve desistir à primeira contrariedade. O medo não pode ser paralisante. Mas explicar isto a um adolescente é muito complexo. Porque não é palpável, nem concreto. O mais difícil é impor decisões abstractas. É complicado justificar uma obrigação dizendo que o meio interessa mais do que o fim. Explicando que a força de vontade para se superar é infinitamente mais importante do que o resultado final escrito numa folha de papel.

Por isso, obriguei-o a ir. Desde o final de Fevereiro que andamos nesta luta. É esgotante. Tive de ser eu a andar atrás do professor para combinar as coisas. Tive de ser eu a insistir. Tive de ser eu a fixar datas, horas e locais em que a banda iria iniciar um novo repertório e o Diogo poderia entrar. Foi na sexta-feira passada. E após meses de discussão, ainda passámos o dia a trocar mensagens. Porque o Diogo não queria mesmo ir. Acabei a dizer que quem mandava era eu. Que ele não tinha escolha. Mas custou-me. Vai contra tudo o que eu acredito, no que à pedagogia diz respeito. Mas é a minha filosofia de vida, que considero ter obrigação de lhes transmitir. Quem foge de medo são os cobardes. Quem vai em frente com medo são os corajosos. E eu quero que os meus filhos aprendam a ser corajosos. Que aprendam a ter medo, que tomem consciência do medo, que consigam verbalizá-lo. E, depois, agir em consequência.

Foi difícil arrancá-lo de casa. Arrastá-lo para dentro do carro. A técnica é sempre a mesma: enrolar até já estar tão atrasado que nem vale a pena ir. E houve gritos. E ameaças. E zangas. Por fim, lá fomos. O Diogo estava tão nervoso, que o jantar lhe caiu mal. O habitual, portanto. Comigo sucedeu o mesmo, mas não lhe disse nada. Estava tão nervosa quanto ele. Parei à porta, deixei-o sair e arranquei de imediato sem olhar para trás. O professor estava à espera dele, se não aparecesse logo me havia de telefonar. Não telefonou. Duas horas depois, fui buscá-lo. Vinha feliz como há muito não o via. Que tinha sido extraordinário. Que tinha adorado. Que no início estava nervoso, mas depois passou. Que devia ter cometido muitos erros, porque não conhecia as partições, mas que não se ralou e deixou-se ir. Que se libertou. Que para a semana estava lá caído. Sem sombra de dúvida. Que aquilo era uma maravilha.

Para rematar, o já costumeiro agradecimento: “Muito obrigado, mãe, por me teres obrigado a vir. Tinhas razão”. Tentei brincar... “Como sempre. Tens de dizer: Tinhas razão como sempre, mãe.” E o Diogo disse-o, com um grande sorriso. Noutros tempos, aquilo teria bastado para me aquecer o coração. Mas hoje sinto-me cansada. Exausta de lutar contra a vontade de um adolescente de quase dezasseis anos que já é bem maior do que eu. E contra um professor que andava há anos a repetir o convite e que já tinha desistido. Estou cansada de lutar contra a minha própria cabeça, para tentar saber onde posso deixá-lo errar e onde devo impor-me. Por isso, mesmo que ninguém o diga, não tenho vergonha de admitir que nem sempre é bom, isto de ser mãe.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

E as saudades que eu tinha disto?!

(onde nos armamos em bons para salvar a situação 

e acabamos aos pinotes)



O meu amor fez anos. E eu decidi organizar um dia em grande, só para nós. Começamos por utilizar finalmente a Wonderbox que o Diogo nos tinha oferecido aqui há uns tempos. Fomos tomar um pequeno-almoço com champanhe num salão de chá muito elegante. Filho grande ainda não deve ter percebido que a mãe dele não está à altura de tanta sofisticação. Felizmente, o Belga não se fez rogado e emborcou as duas taças de champanhe com um sorriso. Ainda nem sequer era meio-dia.

Seguimos para uma espécie de jogo de pista. Marquei um passeio a cavalo para o início da tarde. Num sítio novo, visto que a nossa vizinha de Malempré perdeu o Zorro com um vírus fulminante, ficando apenas com dois cavalos. Como há bastante tempo que não fazíamos um passeio destes pelos bosques, achei que seria uma surpresa engraçada. O problema é que desencantei um sítio na net, que não conhecia de lado nenhum. E depressa percebi que tinha entrado num daqueles programas misteriosos onde as pessoas recebem indicações para irem ter a um local desconhecido, sem saberem muito bem ao que vão. A explicação é simples. Vão mudando os cavalos de pasto consoante o tempo que faz. E nunca se sabe muito bem que tempo faz nesta terra. Quer dizer, a única garantia que temos é que estará frio. Esta terça-feira nevou, acho que ainda não vos tinha contado. Por isso, só recebi as indicações exactas da localização na noite anterior. E eram tão complicadas que fiquei seriamente desconfiada de que não conseguiríamos encontrar os ditos cavalos. Bom, também há uma justificação para tantas precauções. Os cavalos são amistosos e estão habituados às pessoas. Se os diferentes prados onde se encontram fossem conhecidos, poderiam ser facilmente roubados. Daí tanto secretismo.

Apesar de conhecermos bem a região de Aywaille, demorámos algum tempo a dar com o caminho, seguindo atentamente o papel com as intricadas explicações. Nesta altura do campeonato, o meu amor pensava que íamos fazer um percurso de trekking ou de orientação. Pouco depois de chegarmos, apareceu um velhote que nos perguntou: “Vous allez monter?” Respondi que sim, pensando que a surpresa estava estragada. Afinal, estávamos mesmo ao lado de um terreno com cavalos. E de uma zona que se via perfeitamente que servia para os selar. Mas o Belga é meio tolinho e pensou de imediato que íamos fazer escalada, dado o sentido dúbio da palavra “monter”. Menos mal, pensei. De facto, no cimo dos bosques via-se umas rochas escarpadas. Preferia morrer a subir por ali acima, mas pronto. Entretanto, chegaram os donos do clube, já com as cabeçadas na mão. Nem assim o meu amor percebeu. De onde se depreende que é muitoooo fácil surpreender este homem!

Logo para início de conversa, o dono começou a fazer-nos perguntas sobre a nossa experiência equestre. E o Belga mostrou-se humilde. Demasiado humilde, como sempre. O problema é que no site avisavam insistentemente que só faziam passeios com cavaleiros bastante experientes. O meu amor andou muito tempo num centro equestre, mas só começou a fazer passeios ao ar livre quando me conheceu. Mesmo assim, já lá vão quatro anos… e o homem continua modesto. Parece que o cavalo que lhe tinham destinado era “especial”. O meu era um pónei reguila, como sempre. Tendo em conta que era preciso descriminar a altura e o peso na ficha de inscrição, calculei que fosse esse o resultado. É sempre. Mas eu adoro os póneis. Contrariamente ao que se pensa, têm um feitio dos diabos. São teimosos e cheios de genica.

Mas, ontem, comecei a ver o caso mal parado. Os donos estavam com medo de deixar sair o Belga naquele monstro e o Belga também já estava a ficar com receio de tanto os ouvir discutir. Mas não havia mais cavalos disponíveis, naquele prado. E, bom, decidi que o melhor era enaltecer as minhas qualidades para ver se saíamos do impasse. O meu amor é um homem magro, o meu pónei aguentaria bem com ele. Só tinha de os convencer que, do alto do meu metro e meio (que agora até sabemos ser 1.48m, para sermos mais rigorosos), conseguiria montar o maior cavalo que ali estava. Eu nem sequer lhe chegava ao garrote. E vai de começar a falar dos meus anos na Sociedade Hípica Portuguesa, dos tempos tenebrosos dos saltos de obstáculos e da delícia quando finalmente comecei a fazer alta escola. Dressage, como se diz por aqui. Consegui convencê-los. Que sim, senhora, aquele cavalo vinha de uma escola e não estava habituado a movimentos demasiado bruscos. Estávamos com sorte, é assim que eu sei andar a cavalo. Costumo fazer figura de parva, quando vamos nestes passeios aventureiros, porque mantenho a posição e a discrição de movimentos que interiorizei ao longo dos anos. O resto do pessoal vai com as duas rédeas numa só mão, costas curvadas e pouco ou nada usa os pés. Às vezes, dou por mim a rir para dentro a imaginar qualquer um dos meus professores a chorar perante aquele espectáculo.

Cavalos bem alimentados, escovados, selados e lá fomos nós… O dono num pónei branco terrorista que passou o passeio todo às cangochas, o meu amor no meu/seu pónei cheio de speed, eu no mostrengo bem-educado… e o tal velhote que quase tinha estragado a surpresa. Ontem foi um daqueles dias em que tivemos uma valente lição de vida. O velhote tinha 83 anos e aparentava-os bem. Mas ainda faz 20 km diários de bicicleta. E estava ali para experimentar aquela égua, pois queria comprá-la para voltar a dar passeios a cavalo. Já estava meio desabituado… há três meses que não montava. A verdade é que o passeio demorou muito mais do que o previsto. Havia umas árvores caídas a cortar o caminho e gravilha fininha onde uns dias antes era só terra batida. E também nos perdemos, quando estávamos a galope. Seja como for, o velhote aguentou-se direitinho. Já nós… às tantas, estávamos um bocado mortos. Foram quase quatro horas de muitas subidas e descidas complicadas. E paisagens lindas. Não faço ideia como o dono se orientava, as árvores pareciam-me todas iguais. Mas, quando é assim, quem nos guia são os cavalos que sabem sempre escolher o melhor caminho.

Eu ia a fechar o pelotão. O mostrengo assim o decidiu. De vez em quando ia lado a lado com o meu amor, para falarmos um bocadinho. Mas o mostrengo gostava de manter as suas distâncias. Estranhamente, portou-se muito bem. No início, o dono lançava-me uns olhares preocupados. Mas, quando me viu já sem estribos a esticar as pernas, riu-se muito e disse que quando há técnica, não é preciso mais nada. Nem tamanho, nem força. O bicho era pacífico, mas com um trote largo e um galope veloz como o vento. Fartei-me de chorar com a ventania! Cruzamos tractores, cães, muitos cavalos e uma manada de vacas demasiado amistosas. Só se assustou quando, numa descida íngreme, nos saltou um ciclista pela frente. Acho que nos assustámos os quatro, bicicleta incluída. Azar dos azares, já me doía tudo e mais alguns músculos que nem sabia existirem. E estava sem estribos a esticar as pernas. A besta deu um salto atrás e vai de desatar aos pinotes. Mas acalmou depressa, passado o susto. E desceu o monte com um salto. O meu amor agradeceu-me por todos os santinhos ter-me armado em boa para salvar o passeio, porque dizia que teria ido de cabeça ao chão pela certa. O velhote afiançou que não queria o mostrengo, nem que fosse oferecido. E o dono disse que voltasse quando quisesse.

Quando já estávamos a chegar, os cavalos começaram a ficar mais nervosos e fizemos o resto do caminho a pé. A puxar por aquele brutamontes, que estava decidido a comer a erva toda que estava na berma do caminho. Daí o ar zangado, da última fotografia… J

O final do dia foi muito… como dizer? Doloroso. É que nem o banho quente nos valeu, caraças. Os miúdos ofereceram uma edição vintage da velhinha consola Atari ao meu amor. Foi engraçado vê-los à rasca com os joysticks. Já o meu amor estava perfeitamente à vontade. Uma pessoa esquece-se que aqueles jogos antigos tinham piada, mas a musiquinha enervante dá cabo do sistema nervoso. Seja como for, foi complicado arrancar os quatro dali. O Vasco tinha duas horas de solfejo em Stavelot e decidimos aproveitar para fazer um jantar romântico enquanto esperávamos. O Diogo quis ficar em casa, com a desculpa de que tinha de estudar para um teste. Mas acho que foi só um querido e deixou-nos aproveitar o resto do dia a dois. Tinha programado um filme para o serão, mas achámos melhor rendermos-nos às evidências de que os rabos doridos precisavam de descanso…


 








quarta-feira, 19 de abril de 2017

Resumo

(onde uns vão futilmente às compras e outros apreendem conteúdos novos por osmose… ou coisa que o valha, ainda não percebi bem)



Ontem, o meu amor foi buscar um livro que eu tinha encomendado. Mentira, ele é que o encomendou numa livraria universitária. Eu cá sou mais despachada, fui directamente ao site. Antes de fazer o pagamento, reclamei em voz alta que parecia incrível um livro demorar uma semana a vir de França. A Fnac Portugal despacha livros à velocidade da luz. No máximo, 72 horas. Mas os contos da Ferrante chegaram cá um dia depois de ter feito a encomenda. Ainda hoje o carteiro se lembra da minha cara de parva a olhar para ele. Daí o meu espanto pela demora daquela editora francesa. O meu amor achou que seria muito mais rápido encomendá-lo numa livraria no centro de Liège. Argumentou que funcionava que era uma maravilha. Céleres e prestáveis. E sempre se poupava nos portes. Seja. Precisava daquele livro o mais depressa possível.

Quinze dias depois, ligaram da livraria a dizer que o livro tinha finalmente chegado. A culpa era da editora, claro. O meu amor prontificou-se logo a ir buscá-lo. Não que eu andasse há mais de uma semana a falar constantemente do assunto. Nem que tivesse amaldiçoado a sua ideia peregrina umas mil vezes. Sou pessoa de bom feito e carácter agradável, como se sabe. A razão era outra. Bastante menos altruísta, por sinal.

Decidi aproveitar a ida à cidade, para ir às compras. E o meu amor achou por bem escapar airosamente ao suplício, oferecendo-se para ir buscar o livro. Pela primeira vez na minha vida, precisei de ir comprar calças de ganga ao filho pequeno, porque as que tem deixaram de lhe servir. Não estão rasgadas. Não têm joelheiras. Não estão verdes de tanto esfregar na relva. Simplesmente, deixaram de servir. Uma vitória completamente inédita. Filho grande também estava a precisar de calças. Depois de, incrédulo, se ter apercebido que também não cabia nas que tem. Depois de muito se ter espremido. E comprimido. Mas nem quase asfixiado aquilo fechava. O problema não é o rabo gordo, herança materna que o irmão ostenta orgulhoso (porque diz que tem um rabo musculado graças ao ballet). O problema são os ossos largos (eu não disse que também são herança materna, dado que ele não parece apreciá-los por aí além). Seja como for, os filhos precisavam de calças. E a filha do vizinho de meias anti-derrapantes (sim, sim… ofereci-me para o que fosse preciso). Eis-me então às compras, em pleno centro de Liège, enquanto o meu amor se pôs ao fresco.

O problema, quando uma pessoa desce à cidade, é que a oferta é mais que muita. E já que é para a desgraça, que seja a valer. Ando há tanto tempo à procura de um distribuidor de sumos para fazer água com frutos. E também havia a questão da manete da Xbox que o Vasco partiu com os nervos e que o irmão o obrigou a pagar e que eu fui incumbida de comprar no Media Markt. E as novidades na Fnac. E andar à procura de uma máquina de pão no Cash Converters. E ainda me faltava uma prenda de anos para o meu Belga preferido. Coisas várias, portanto. O meu amor descobriu por artes mágicas a Dadá, no meio das muitas centenas de carros que estavam naquele parque de estacionamento. E mandou mensagem a dizer que não me apressasse, que ele tinha assentado arraiais no capot (eu tinha ficado com a chaves, na esperança de o obrigar a dar uma ajudinha a carregar os sacos). Apesar de tudo, fui rápida. Juro que me despachei em menos de duas horas. Tendo em conta que ele ainda teve de ir à livraria e voltar, deve ter ficado à minha espera no estacionamento cerca de uma hora e pouco.

Ora, afinal, o que tem esta história de extraordinário? Pois que o meu amor veio o caminho todo até casa a debitar o meu livro. 45 minutos de um excelente resumo de 250 páginas. Muito melhor do que os resumos da Europa-América. Ou das sebentas amarelas. Ou de uma fantástica colecção de resumos de uma editora francesa que me permitiu apenas ler o primeiro e o último volume de À la Recherche du Temps Perdu, quando já estava na faculdade (e, se bem me lembro, até tive 14 valores nessa cadeira). Não faço ideia como é que o homem (o meu, não o Proust) conseguiu tal proeza. Mas fiz bem em esperar tanto tempo. E em fazê-lo sentir-se muito ligeiramente culpado por isso. Estou desconfiada que já nem sequer preciso de ler alguns capítulos. Principalmente, tendo em conta que não percebo nada do assunto (ele também não percebia…). Às tantas, deixei de o ouvir e comecei a ver o meu amor pequenino, sobredotado e ostracizado a saltar de ano sem qualquer esforço. E amei-o ainda mais um bocadinho. Ninguém se torna sociopata por acaso. E ontem percebi a razão. É que no meio de um ímpeto de amor, tive vontade de lhe atirar com o livro à cabeça ao ver que não só tinha conseguido ler aquilo tudo a correr, como conseguia reproduzir fielmente o texto, capítulo por capítulo. Parecendo que não, uma pessoa fica a sentir-se um bocadinho estúpida com tanta inteligência.