segunda-feira, 8 de maio de 2017

Mudar de vida

(porque, como disse Eduardo Lourenço, 

“muda-se pouco na vida, mas a vida muda por nós”)



Seria fácil mentir. Dizer que, aos 40 anos, decidi mudar de vida, porque a que tinha não me preenchia por completo. Porque sou uma insatisfeita crónica. E abomino a rotina. Ou porque queria algo mais. Porque sou corajosa e acredito que a sorte protege os audazes. Porque era agora ou nunca. Só esta última frase é verdadeira. Tudo o resto são desculpas bonitas para dar sentido a mais um tropeção da vida. Estou tão farta de mudanças e recomeços. Sinceramente, ambicionava um pouco de paz para os anos vindouros. Mas o universo voltou a conspirar. Baralhou as cartas todas e distribuiu-as outra vez. No entanto, decidi que seria uma conspiração a meu favor, não contra mim. Como não confiar? Até agora, todas as reviravoltas têm-me sempre sido benéficas. A ter de dar uma justificação a tudo isto, prefiro acreditar que foi para meu bem. Para nosso bem.

Também seria fácil ser modesta. Ou desonesta. No mínimo, acomodada. Dizer que ambicionava uma existência tranquila. Casamento morno e seguro. Casalinho de filhos. Emprego das 9 às 5. Férias anuais no Algarve. Tudo isto é mentira. Sempre pensei que a minha vida seria “algo mais”. Não sei bem o quê, mas mais. Não que achasse que ia mudar o mundo, fazer uma qualquer descoberta científica ou escrever uma obra literária grandiosa. Não que tivesse a certeza de que estava destinada a grandes feitos. Mas as coisas teriam obrigatoriamente de ter um sentido qualquer que me transcendesse. Que fosse importante. Se calhar, é um pensamento (ambição?) muito comum, não sei. Mas desde que me conheço como gente que penso que a vida não pode ser só isto. Uma vidinha. Sendo ateia, acredito que é aqui e agora que tudo tem de acontecer. E tem de acontecer bem. Benzinho só, não me basta.

O início do mês passado soube que o meu centro de documentação tinha morte anunciada. Digo “meu” com um orgulho desmedido, porque fui eu que o construí de raiz. Nunca me senti tão bem tratada e valorizada a nível profissional. Mas cortes orçamentais vão obrigar ao encerramento da secção de Verviers. Para mim, era impensável trabalhar na sede, em Bruxelas. Tal como era impossível assistir impávida ao derradeiro final. Organizei a minha saída com uma frieza que nunca pensei possuir. Não entrei em pânico, não verti uma lágrima. Primeiro, garanti a minha segurança financeira a longo prazo. Minha e dos meus. Estrangeira ou não, as regalias sociais funcionaram. O subsídio de desemprego não será uma fortuna, mas dará para vivermos (mais algumas traduções que surjam). Depois, negociei tempo. Tempo para pensar. Tempo para me organizar. Em Setembro, quando ficar oficialmente desempregada, já tenho um plano delineado que me fará saltar a etapa do centro de emprego. Porque este país assim mo permite. Vim viver para a Bélgica para mudar de vida. É agora ou nunca. Decidi que estava na altura de dar sentido a tudo isto. Quem diz que o sonho não se pode tornar realidade?

Depressa percebi que a mente é uma fonte inesgotável de surpresas. De recursos. A partir do momento em que decidi que ia realizar o meu sonho, as coisas começaram a tomar forma. A fluir. A encaixar. Pensei muito. (Talvez por isso tenha escrito tão pouco, nos últimos tempos.) E cheguei à conclusão de que, afinal, tenho vários sonhos para cumprir a curto prazo. Quatro sonhos, para ser mais exacta. E tenciono realizá-los todos no próximo ano. Mais uns quantos desvaneios que ando para aqui a adiar há demasiado tempo. Por que raio deixei que a realidade se impusesse à minha vontade de ser “algo mais”? Posso não conseguir, mas serei suficientemente honesta comigo mesma para me dar uma hipótese. Se falhar, pelo menos terei o mérito de ter tentado. Diz-se que o caminho se faz caminhando. Neste último mês, comecei a correr. Literalmente. E em sentido figurado também. Nunca pensei dizer isto, mas estou a adorar. Pelos vistos, no meu caso, o caminho faz-se correndo. Não é que sinta que já vou tarde. Penso que comecei exactamente quando estava preparada para isso. O universo teve de dar o primeiro empurrão, confesso. Mas agora estamos alinhados e vamos ligeirinhos. Estou segura de que iremos longe.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Fazemos nós #3

 (onde aproveitamos uma prenda para dar asas à imaginação)




Este Inverno, decidimos fazer um hotel para insectos. Lemos bastante sobre o assunto, pesquisámos imagens na net e fomos apanhar os materiais necessários. Foi um projecto que durou meses, porque eu estava decidida a fazer uma coisa em grande. E bonita. Para além da preocupação com a protecção da biodiversidade, interessava-me o aspecto estético. Não queria nenhum mamarracho no meio do meu quintal. Já me basta o arco de madeira que o homem construiu, de inspiração nipónica. Para ele, bem entendido. Toda a gente que por aqui passa se espanta com o nosso arco do faroeste. O senhorio, incluído. Que era muito lindo e invulgar e coiso e tal… mas gostávamos assim tanto de filmes de cowboys?! O Belga ficou algo ofendido. E eu decidi pespegar-lhe duas trepadeiras por ali acima para ver se disfarçava. Continua um belo mono. Daí ser tão importante não estragar mais a paisagem com um hotel para insectos desenxabido.

Li algures que um terço dos insectos que fazem a polinização e contribuem para o controlo biológico das pragas não encontra abrigo durante o Inverno. Necessitam de espaços ocos para abrigar as larvas até à Primavera em buracos de árvores, tijolos ou pedras. Por aqui, quase todos os jardins têm hotéis para insectos e casas para os passarinhos, com comida. Mas são umas coisinhas mixurucas. Os verdadeiros hotéis para insectos são demasiado eco-hippies para o meu gosto. Ou, então, são verdadeiras obras de arte caríssimas. Tipo… para cima de 300 euros. Daí ter decidido lançar mãos à obra. Infelizmente, o universo estava decidido a conspirar contra mim.

Um dia fomos dar um passeio num bosque aqui perto, para apanharmos pinhas e paus. Os insectos gostam de se esconder dentro da madeira. Entretanto, vi um campo de milho. E vai de tentar roubar discretamente uma maçaroca para o Peanuts. O problema é que aquilo é difícil de arrancar (percebi demasiado tarde que ainda estavam completamente verdes). O roubo acabou por não passar despercebido, porque fui esbarrar contra a protecção eléctrica e apanhei um choque que me fez dar um uivo pouco discreto. Adiante. Passados uns tempos, fomos apanhar lama. Convém pincelar as paredes com lama para atrair os insectos. Não é fácil arranjar lama de tipo argiloso. Lembrámo-nos de invadir discretamente uma reserva de borboletas que estava fechada no Inverno para obras. De facto, não nos enganámos. Conseguimos uma caixa cheiinha de lama. Para além do Vasco, claro. Coisa pequena conseguiu ficar com lama até à cabeça, porque se esbardalhou numa poça, quando o mandámos encher disfarçadamente a caixa. Deve ter sido a invasão de propriedade mais estranha a que os trabalhadores da obra já assistiram (quando somos apanhados em flagrante delito, costumamos falar português muito alto para justificar não conseguirmos ler os painéis de aviso). Também houve aquela vez em que obriguei o meu amor a ir buscar uns restos de xisto no meio do entulho. Os hotéis para insectos ficam mais protegidos das intempéries se tiverem um bom telhado. Felizmente, o Belga tem as vacinas do tétano em dia. Mas acabámos a fugir de um cão raivoso. Depois, houve aquela ocasião em que o adolescente jurou que nunca mais saía connosco, porque engracei com um tijolo de terracota cheio de buraquinhos. Diz que os materiais de recuperação são ideais para construir os hotéis para insectos, dado que o plástico e o vidro têm tendência a criar bactérias. O tijolo estava abandonado em cima de um muro, não fazia falta a ninguém. E nós fomos bastante discretos durante passeio pela aldeola, pois levamos o tijolo embrulhado num casaco debaixo do braço...

A verdade é que consegui reunir todos os objectos de que precisava, a custo zero. Comprei muito pouca coisa. Um metro de tela de arame para galinheiro e a madeira, que o senhor acedeu a cortar à medida graças aos meus lindos olhos. Entretanto, começou a nevar e nunca mais parou. Esteve um frio desgraçado nos últimos meses. Mas estas férias da Páscoa, o calor voltou em força. E eu lembrei-me do meu projecto tão adiado. Arregacei as mangas e fui buscar o material que andámos a recolher com tanto esforço durante todo o Inverno. Estava lá tudo. Excepto a madeira cortada à medida que – espanto dos espantos – tinha exactamente o mesmo tamanho da nossa mesa de jantar que estava a abanar. O Belga decidiu fazer-me uma surpresa e arranjá-la, nestas últimas férias. Não me ocorreu perguntar onde tinha desencantado a madeira. Tal como não me lembrei de perguntar onde tinha encontrado o arame para reforçar o composto que o intrépido D. Fuas Roupinho insiste em destruir para roubar comida podre. Está visto que nunca faço as perguntas correctas. O Belga levou uma descompostura, porque usou os meus materiais sem pedir. E eu levei uma descompostura pois devia era agradecer-lhe as reparações. Seja como seja, o meu grandioso hotel para insectos ainda não viu a luz do dia. Mas hoje a minha sogra faz anos pensei que, apesar de tudo, podia tentar construir um modelo pequenino para ela pôr debaixo do telheiro onde plantou as roseiras. Não é exactamente a obra de arte que tinha em mente. Digamos que é um parente pobre, mas bastante esforçado.


sexta-feira, 28 de abril de 2017

Da seitas

(onde o pensamento nos foge de imediato para os nossos)



Sabem aquela história dos pais que não vacinam os filhos? Uma pessoa pensa sempre que são os “outros”, gente algo estranha que certamente não faz parte do nosso círculo de amigos. É um daqueles problemas algo abstractos, que discutimos sempre no plano teórico. E, depois, recebemos um SMS aflito do nosso filho. Hoje há “visite médicale” lá na escola. E ele acabou de descobrir que a namorada não é vacinada. Que não toma medicamentos e só segue medicinas alternativas, já nós sabíamos. Do alto dos seus 15 anos, não sabe explicar porquê. São coisas de família. Não se questiona. E o melhor é nem sequer ouvir argumentos contrários. Filho grande está desde as 8h30 da manhã a mandar-me SMS. Alterna entre zangado, incrédulo, furioso, desamparado, consternado, preocupado. Não consegue aceitar, nem perceber. E eu não sei que lhe diga… Só penso naquela miúda de 17 anos que morreu há pouco tempo em Portugal. Gosto muito da Marie. Mas, depois, penso no meu. É automático.

O Diogo tinha um grave problema de imunidade, quando era criança. Passou a infância toda a repetir as chamadas doenças infantis que só se apanham uma vez. Lembro-me bem da varicela. Foram cinco vezes. E da escarlatina. Foram quatro. Mais o exantema súbito. A quinta doença… Perdi-lhes a conta. Foram tantas e tantas vezes nas urgências de um hospital a discutir com os médicos. Já conhecia de cor a sintomatologia, o diagnóstico e o tratamento. Sim, já tinha tido aquilo antes. Sim, era vacinado. Não, não era impossível. Pois claro que podia dar o número da pediatra, ligue lá para confirmar… No final da infância passou, parecia milagre. E eu fiquei sempre chateada com o facto de, no meio de tanta doença diferente repetida, o miúdo nunca ter apanhado papeira. Porque já se sabe que é extremamente perigoso um adolescente apanhar papeira. Mas, pronto, nesta idade o risco é bastante menor. Já todos receberam vacinas e reforços, certo? Excepto a Marie. Que até tem uma irmã mais nova na Primária e está mais exposta às doenças infantis, visto que os recreios das crianças dos 2 anos aos 12 são partilhados. Só tenho vontade de bater naqueles pais, a sério. Ainda bem que fui beber um café com eles há pouco tempo, agora duvido que me voltem a apanhar. Gente inconsciente, pá!

quarta-feira, 26 de abril de 2017

terça-feira, 25 de abril de 2017

A liberdade de hoje

(porque este 25 de Abril foi em pleno)



Liberdade para sermos quem somos (sem esquecer o nosso outro país)
Liberdade de pensamento, porque sonhar é permitido
Liberdade de escolha para mudar de vida (porque o país onde vivemos assim o permite)
Liberdade para amar este homem um bocadinho mais todos os dias
Liberdade de mudança, sem dogmas e muito poucas certezas
Liberdade de ter uma casa que permita ver os filhos a brincar no quintal
Liberdade de movimentos (o mundo é tão grande…)
Liberdade para ser a mãe que sonhei (ir buscá-los às 16h e irmos correr juntos)
Liberdade financeira (para ver a felicidade do meu filho perante o seu novo violino)
Liberdade de horários que me permite parar e respirar (sem pausas, ninguém é livre)
Liberdade para partir à aventura, assim, de repente (só porque nos apetece)
Liberdade para pôr a nossa música a tocar (e explicar tudo, mais uma vez)

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Nem sempre é bom

(onde o esforço compensa, mas cansa)



Nem sempre é bom, isto de ser mãe. Estamos a entrar numa fase em que sinto que os meus actos terão consequências importantes. Provavelmente, as mais importantes dos nossos quase dezasseis anos. E isso pesa. Deixá-los errar, pesa. Obrigá-los a seguir determinado caminho também pesa. Porque será que ninguém diz que o fardo é tão pesado?

Obriguei o Diogo a ir ao seu primeiro ensaio com a banda dirigida pelo professor de trompete. Até pode chumbar no exame do final de ano, é irrelevante. Ninguém estuda um instrumento durante sete anos para obter um diploma. Um pedaço de papel que ateste as suas competências. Ele não quer entrar para a escola superior de música, acredito que aquele certificado de pouco lhe irá servir na vida. Mas a atitude está errada. Baixar os braços sem lutar, está errado. Não se deve desistir à primeira contrariedade. O medo não pode ser paralisante. Mas explicar isto a um adolescente é muito complexo. Porque não é palpável, nem concreto. O mais difícil é impor decisões abstractas. É complicado justificar uma obrigação dizendo que o meio interessa mais do que o fim. Explicando que a força de vontade para se superar é infinitamente mais importante do que o resultado final escrito numa folha de papel.

Por isso, obriguei-o a ir. Desde o final de Fevereiro que andamos nesta luta. É esgotante. Tive de ser eu a andar atrás do professor para combinar as coisas. Tive de ser eu a insistir. Tive de ser eu a fixar datas, horas e locais em que a banda iria iniciar um novo repertório e o Diogo poderia entrar. Foi na sexta-feira passada. E após meses de discussão, ainda passámos o dia a trocar mensagens. Porque o Diogo não queria mesmo ir. Acabei a dizer que quem mandava era eu. Que ele não tinha escolha. Mas custou-me. Vai contra tudo o que eu acredito, no que à pedagogia diz respeito. Mas é a minha filosofia de vida, que considero ter obrigação de lhes transmitir. Quem foge de medo são os cobardes. Quem vai em frente com medo são os corajosos. E eu quero que os meus filhos aprendam a ser corajosos. Que aprendam a ter medo, que tomem consciência do medo, que consigam verbalizá-lo. E, depois, agir em consequência.

Foi difícil arrancá-lo de casa. Arrastá-lo para dentro do carro. A técnica é sempre a mesma: enrolar até já estar tão atrasado que nem vale a pena ir. E houve gritos. E ameaças. E zangas. Por fim, lá fomos. O Diogo estava tão nervoso, que o jantar lhe caiu mal. O habitual, portanto. Comigo sucedeu o mesmo, mas não lhe disse nada. Estava tão nervosa quanto ele. Parei à porta, deixei-o sair e arranquei de imediato sem olhar para trás. O professor estava à espera dele, se não aparecesse logo me havia de telefonar. Não telefonou. Duas horas depois, fui buscá-lo. Vinha feliz como há muito não o via. Que tinha sido extraordinário. Que tinha adorado. Que no início estava nervoso, mas depois passou. Que devia ter cometido muitos erros, porque não conhecia as partições, mas que não se ralou e deixou-se ir. Que se libertou. Que para a semana estava lá caído. Sem sombra de dúvida. Que aquilo era uma maravilha.

Para rematar, o já costumeiro agradecimento: “Muito obrigado, mãe, por me teres obrigado a vir. Tinhas razão”. Tentei brincar... “Como sempre. Tens de dizer: Tinhas razão como sempre, mãe.” E o Diogo disse-o, com um grande sorriso. Noutros tempos, aquilo teria bastado para me aquecer o coração. Mas hoje sinto-me cansada. Exausta de lutar contra a vontade de um adolescente de quase dezasseis anos que já é bem maior do que eu. E contra um professor que andava há anos a repetir o convite e que já tinha desistido. Estou cansada de lutar contra a minha própria cabeça, para tentar saber onde posso deixá-lo errar e onde devo impor-me. Por isso, mesmo que ninguém o diga, não tenho vergonha de admitir que nem sempre é bom, isto de ser mãe.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

E as saudades que eu tinha disto?!

(onde nos armamos em bons para salvar a situação 

e acabamos aos pinotes)



O meu amor fez anos. E eu decidi organizar um dia em grande, só para nós. Começamos por utilizar finalmente a Wonderbox que o Diogo nos tinha oferecido aqui há uns tempos. Fomos tomar um pequeno-almoço com champanhe num salão de chá muito elegante. Filho grande ainda não deve ter percebido que a mãe dele não está à altura de tanta sofisticação. Felizmente, o Belga não se fez rogado e emborcou as duas taças de champanhe com um sorriso. Ainda nem sequer era meio-dia.

Seguimos para uma espécie de jogo de pista. Marquei um passeio a cavalo para o início da tarde. Num sítio novo, visto que a nossa vizinha de Malempré perdeu o Zorro com um vírus fulminante, ficando apenas com dois cavalos. Como há bastante tempo que não fazíamos um passeio destes pelos bosques, achei que seria uma surpresa engraçada. O problema é que desencantei um sítio na net, que não conhecia de lado nenhum. E depressa percebi que tinha entrado num daqueles programas misteriosos onde as pessoas recebem indicações para irem ter a um local desconhecido, sem saberem muito bem ao que vão. A explicação é simples. Vão mudando os cavalos de pasto consoante o tempo que faz. E nunca se sabe muito bem que tempo faz nesta terra. Quer dizer, a única garantia que temos é que estará frio. Esta terça-feira nevou, acho que ainda não vos tinha contado. Por isso, só recebi as indicações exactas da localização na noite anterior. E eram tão complicadas que fiquei seriamente desconfiada de que não conseguiríamos encontrar os ditos cavalos. Bom, também há uma justificação para tantas precauções. Os cavalos são amistosos e estão habituados às pessoas. Se os diferentes prados onde se encontram fossem conhecidos, poderiam ser facilmente roubados. Daí tanto secretismo.

Apesar de conhecermos bem a região de Aywaille, demorámos algum tempo a dar com o caminho, seguindo atentamente o papel com as intricadas explicações. Nesta altura do campeonato, o meu amor pensava que íamos fazer um percurso de trekking ou de orientação. Pouco depois de chegarmos, apareceu um velhote que nos perguntou: “Vous allez monter?” Respondi que sim, pensando que a surpresa estava estragada. Afinal, estávamos mesmo ao lado de um terreno com cavalos. E de uma zona que se via perfeitamente que servia para os selar. Mas o Belga é meio tolinho e pensou de imediato que íamos fazer escalada, dado o sentido dúbio da palavra “monter”. Menos mal, pensei. De facto, no cimo dos bosques via-se umas rochas escarpadas. Preferia morrer a subir por ali acima, mas pronto. Entretanto, chegaram os donos do clube, já com as cabeçadas na mão. Nem assim o meu amor percebeu. De onde se depreende que é muitoooo fácil surpreender este homem!

Logo para início de conversa, o dono começou a fazer-nos perguntas sobre a nossa experiência equestre. E o Belga mostrou-se humilde. Demasiado humilde, como sempre. O problema é que no site avisavam insistentemente que só faziam passeios com cavaleiros bastante experientes. O meu amor andou muito tempo num centro equestre, mas só começou a fazer passeios ao ar livre quando me conheceu. Mesmo assim, já lá vão quatro anos… e o homem continua modesto. Parece que o cavalo que lhe tinham destinado era “especial”. O meu era um pónei reguila, como sempre. Tendo em conta que era preciso descriminar a altura e o peso na ficha de inscrição, calculei que fosse esse o resultado. É sempre. Mas eu adoro os póneis. Contrariamente ao que se pensa, têm um feitio dos diabos. São teimosos e cheios de genica.

Mas, ontem, comecei a ver o caso mal parado. Os donos estavam com medo de deixar sair o Belga naquele monstro e o Belga também já estava a ficar com receio de tanto os ouvir discutir. Mas não havia mais cavalos disponíveis, naquele prado. E, bom, decidi que o melhor era enaltecer as minhas qualidades para ver se saíamos do impasse. O meu amor é um homem magro, o meu pónei aguentaria bem com ele. Só tinha de os convencer que, do alto do meu metro e meio (que agora até sabemos ser 1.48m, para sermos mais rigorosos), conseguiria montar o maior cavalo que ali estava. Eu nem sequer lhe chegava ao garrote. E vai de começar a falar dos meus anos na Sociedade Hípica Portuguesa, dos tempos tenebrosos dos saltos de obstáculos e da delícia quando finalmente comecei a fazer alta escola. Dressage, como se diz por aqui. Consegui convencê-los. Que sim, senhora, aquele cavalo vinha de uma escola e não estava habituado a movimentos demasiado bruscos. Estávamos com sorte, é assim que eu sei andar a cavalo. Costumo fazer figura de parva, quando vamos nestes passeios aventureiros, porque mantenho a posição e a discrição de movimentos que interiorizei ao longo dos anos. O resto do pessoal vai com as duas rédeas numa só mão, costas curvadas e pouco ou nada usa os pés. Às vezes, dou por mim a rir para dentro a imaginar qualquer um dos meus professores a chorar perante aquele espectáculo.

Cavalos bem alimentados, escovados, selados e lá fomos nós… O dono num pónei branco terrorista que passou o passeio todo às cangochas, o meu amor no meu/seu pónei cheio de speed, eu no mostrengo bem-educado… e o tal velhote que quase tinha estragado a surpresa. Ontem foi um daqueles dias em que tivemos uma valente lição de vida. O velhote tinha 83 anos e aparentava-os bem. Mas ainda faz 20 km diários de bicicleta. E estava ali para experimentar aquela égua, pois queria comprá-la para voltar a dar passeios a cavalo. Já estava meio desabituado… há três meses que não montava. A verdade é que o passeio demorou muito mais do que o previsto. Havia umas árvores caídas a cortar o caminho e gravilha fininha onde uns dias antes era só terra batida. E também nos perdemos, quando estávamos a galope. Seja como for, o velhote aguentou-se direitinho. Já nós… às tantas, estávamos um bocado mortos. Foram quase quatro horas de muitas subidas e descidas complicadas. E paisagens lindas. Não faço ideia como o dono se orientava, as árvores pareciam-me todas iguais. Mas, quando é assim, quem nos guia são os cavalos que sabem sempre escolher o melhor caminho.

Eu ia a fechar o pelotão. O mostrengo assim o decidiu. De vez em quando ia lado a lado com o meu amor, para falarmos um bocadinho. Mas o mostrengo gostava de manter as suas distâncias. Estranhamente, portou-se muito bem. No início, o dono lançava-me uns olhares preocupados. Mas, quando me viu já sem estribos a esticar as pernas, riu-se muito e disse que quando há técnica, não é preciso mais nada. Nem tamanho, nem força. O bicho era pacífico, mas com um trote largo e um galope veloz como o vento. Fartei-me de chorar com a ventania! Cruzamos tractores, cães, muitos cavalos e uma manada de vacas demasiado amistosas. Só se assustou quando, numa descida íngreme, nos saltou um ciclista pela frente. Acho que nos assustámos os quatro, bicicleta incluída. Azar dos azares, já me doía tudo e mais alguns músculos que nem sabia existirem. E estava sem estribos a esticar as pernas. A besta deu um salto atrás e vai de desatar aos pinotes. Mas acalmou depressa, passado o susto. E desceu o monte com um salto. O meu amor agradeceu-me por todos os santinhos ter-me armado em boa para salvar o passeio, porque dizia que teria ido de cabeça ao chão pela certa. O velhote afiançou que não queria o mostrengo, nem que fosse oferecido. E o dono disse que voltasse quando quisesse.

Quando já estávamos a chegar, os cavalos começaram a ficar mais nervosos e fizemos o resto do caminho a pé. A puxar por aquele brutamontes, que estava decidido a comer a erva toda que estava na berma do caminho. Daí o ar zangado, da última fotografia… J

O final do dia foi muito… como dizer? Doloroso. É que nem o banho quente nos valeu, caraças. Os miúdos ofereceram uma edição vintage da velhinha consola Atari ao meu amor. Foi engraçado vê-los à rasca com os joysticks. Já o meu amor estava perfeitamente à vontade. Uma pessoa esquece-se que aqueles jogos antigos tinham piada, mas a musiquinha enervante dá cabo do sistema nervoso. Seja como for, foi complicado arrancar os quatro dali. O Vasco tinha duas horas de solfejo em Stavelot e decidimos aproveitar para fazer um jantar romântico enquanto esperávamos. O Diogo quis ficar em casa, com a desculpa de que tinha de estudar para um teste. Mas acho que foi só um querido e deixou-nos aproveitar o resto do dia a dois. Tinha programado um filme para o serão, mas achámos melhor rendermos-nos às evidências de que os rabos doridos precisavam de descanso…


 








quarta-feira, 19 de abril de 2017

Resumo

(onde uns vão futilmente às compras e outros apreendem conteúdos novos por osmose… ou coisa que o valha, ainda não percebi bem)



Ontem, o meu amor foi buscar um livro que eu tinha encomendado. Mentira, ele é que o encomendou numa livraria universitária. Eu cá sou mais despachada, fui directamente ao site. Antes de fazer o pagamento, reclamei em voz alta que parecia incrível um livro demorar uma semana a vir de França. A Fnac Portugal despacha livros à velocidade da luz. No máximo, 72 horas. Mas os contos da Ferrante chegaram cá um dia depois de ter feito a encomenda. Ainda hoje o carteiro se lembra da minha cara de parva a olhar para ele. Daí o meu espanto pela demora daquela editora francesa. O meu amor achou que seria muito mais rápido encomendá-lo numa livraria no centro de Liège. Argumentou que funcionava que era uma maravilha. Céleres e prestáveis. E sempre se poupava nos portes. Seja. Precisava daquele livro o mais depressa possível.

Quinze dias depois, ligaram da livraria a dizer que o livro tinha finalmente chegado. A culpa era da editora, claro. O meu amor prontificou-se logo a ir buscá-lo. Não que eu andasse há mais de uma semana a falar constantemente do assunto. Nem que tivesse amaldiçoado a sua ideia peregrina umas mil vezes. Sou pessoa de bom feito e carácter agradável, como se sabe. A razão era outra. Bastante menos altruísta, por sinal.

Decidi aproveitar a ida à cidade, para ir às compras. E o meu amor achou por bem escapar airosamente ao suplício, oferecendo-se para ir buscar o livro. Pela primeira vez na minha vida, precisei de ir comprar calças de ganga ao filho pequeno, porque as que tem deixaram de lhe servir. Não estão rasgadas. Não têm joelheiras. Não estão verdes de tanto esfregar na relva. Simplesmente, deixaram de servir. Uma vitória completamente inédita. Filho grande também estava a precisar de calças. Depois de, incrédulo, se ter apercebido que também não cabia nas que tem. Depois de muito se ter espremido. E comprimido. Mas nem quase asfixiado aquilo fechava. O problema não é o rabo gordo, herança materna que o irmão ostenta orgulhoso (porque diz que tem um rabo musculado graças ao ballet). O problema são os ossos largos (eu não disse que também são herança materna, dado que ele não parece apreciá-los por aí além). Seja como for, os filhos precisavam de calças. E a filha do vizinho de meias anti-derrapantes (sim, sim… ofereci-me para o que fosse preciso). Eis-me então às compras, em pleno centro de Liège, enquanto o meu amor se pôs ao fresco.

O problema, quando uma pessoa desce à cidade, é que a oferta é mais que muita. E já que é para a desgraça, que seja a valer. Ando há tanto tempo à procura de um distribuidor de sumos para fazer água com frutos. E também havia a questão da manete da Xbox que o Vasco partiu com os nervos e que o irmão o obrigou a pagar e que eu fui incumbida de comprar no Media Markt. E as novidades na Fnac. E andar à procura de uma máquina de pão no Cash Converters. E ainda me faltava uma prenda de anos para o meu Belga preferido. Coisas várias, portanto. O meu amor descobriu por artes mágicas a Dadá, no meio das muitas centenas de carros que estavam naquele parque de estacionamento. E mandou mensagem a dizer que não me apressasse, que ele tinha assentado arraiais no capot (eu tinha ficado com a chaves, na esperança de o obrigar a dar uma ajudinha a carregar os sacos). Apesar de tudo, fui rápida. Juro que me despachei em menos de duas horas. Tendo em conta que ele ainda teve de ir à livraria e voltar, deve ter ficado à minha espera no estacionamento cerca de uma hora e pouco.

Ora, afinal, o que tem esta história de extraordinário? Pois que o meu amor veio o caminho todo até casa a debitar o meu livro. 45 minutos de um excelente resumo de 250 páginas. Muito melhor do que os resumos da Europa-América. Ou das sebentas amarelas. Ou de uma fantástica colecção de resumos de uma editora francesa que me permitiu apenas ler o primeiro e o último volume de À la Recherche du Temps Perdu, quando já estava na faculdade (e, se bem me lembro, até tive 14 valores nessa cadeira). Não faço ideia como é que o homem (o meu, não o Proust) conseguiu tal proeza. Mas fiz bem em esperar tanto tempo. E em fazê-lo sentir-se muito ligeiramente culpado por isso. Estou desconfiada que já nem sequer preciso de ler alguns capítulos. Principalmente, tendo em conta que não percebo nada do assunto (ele também não percebia…). Às tantas, deixei de o ouvir e comecei a ver o meu amor pequenino, sobredotado e ostracizado a saltar de ano sem qualquer esforço. E amei-o ainda mais um bocadinho. Ninguém se torna sociopata por acaso. E ontem percebi a razão. É que no meio de um ímpeto de amor, tive vontade de lhe atirar com o livro à cabeça ao ver que não só tinha conseguido ler aquilo tudo a correr, como conseguia reproduzir fielmente o texto, capítulo por capítulo. Parecendo que não, uma pessoa fica a sentir-se um bocadinho estúpida com tanta inteligência.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Na última semana, quando tudo mudou

(porque se vivem tempos insólitos por aqui)



- Corri todos os dias (e ontem consegui finalmente arrastar o meu amor)
- Decidi voltar à escola (mas descobri que continuo a gostar de demasiadas coisas diferentes)
- Não comi açúcar (excepto um nadinha no café)
- Fui até Eindhoven visitar o bebé mais loirinho que conheço (de permeio vi a avódrasta e o mano… e trouxe farinheiras)
- Encerrei uma página da minha existência (sem verter uma lágrima)
- Não telefonei uma única vez aos rapazes (mas recebi um SMS que dizia: “Podemos falar hoje, mãe querida?”)
- Adoptei um novo regime alimentar, devagarinho e sem fundamentalismos (excepção feita para as farinheiras)
- Fui ao cinema várias vezes (um dos filmes, fez-nos mudar radicalmente de ideias)
- Soltei os passarinhos todos (primeiro, aprenderam a voar na estufa)
- Conversei com muitos amigos e família (e às vezes faltavam-me as palavras em português)
- Decidi arriscar, perdi o medo, dei o salto (com borboletas na barriga, claro)
- Andei a ver terrenos (e a sonhar com cavalos)
- Percebi que nos podemos apaixonar vezes sem conta pelo mesmo homem (porque nos reinventamos ambos)
- Vivi feliz (cheia de projectos)
- Mudei de vida (sem olhar para trás)

domingo, 9 de abril de 2017

O novo vizinho

(onde os preconceitos são postos à prova)


Acordo uma manhã com a voz do senhorio da casa ao lado. Ainda não deviam ser oito horas. De um Sábado. Espreito pela janela e vejo-o a mostrar o jardim a um potencial interessado. Um homem, meia-idade já passada, com um bebé ao colo. Estranho a hora matutina. E o facto de não ver mais ninguém.

À tarde, batem à porta. Vou abrir e deparo-me com o “visitante”, acompanhado por um jovem mal-amanhado. Nem bom-dia, nem boa-tarde. Muito menos uma apresentação formal. De chofre, perguntam-me se o carro que está estacionado à porta é meu. Respondo que não e olham-me com ar desconfiado. Que precisam de espaço para estacionar o camião das mudanças. Explico que o meu carro está na garagem e indico a casa do dono do carro em questão. Sem demoras, viram-me costas e vão bater à porta do vizinho. Sem um obrigado, nem adeusinho.

A mudança é feita. E, dentro de casa ao lado, muita gente. Não dá para perceber quantos são. Uma coisa é certa, há um bebé. Ouvimo-lo chorar. Nós começamos a ver a vida mal parada. Até mesmo porque tínhamos um acordo com a antiga vizinha que funcionava na perfeição. Uma pequena parte do quintal pertence à casa ao lado e não está murado. Como aquela terra não interessa a ninguém, nós tratamos dela. Cortamos a relva, aparamos a sebe, impedimos que o matagal de silvas se propague. Em contrapartida, o intrépido D. Fuas Roupinho é rei e senhor da totalidade do espaço. E nós apanhamos quilos de amoras, no Verão. A vizinha só usava o seu espaço para estender a roupa e apanhar banhos de sol, sem ter o incómodo de tratar do terreno. E assim se passaram dois anos, de boa vizinhança.

No Domingo de manhã, debatemos o assunto à mesa do pequeno-almoço. Decidimos que temos de ir falar com os novos vizinhos para discutir a questão da divisão do terreno. O tempo urge. Se por acaso houver um cão, vai haver guerra. D. Fuas não admitirá a co-propriedade. Se houver um gato, ainda pior. É morte certa. Nisto, coisa pequena começa a chorar. Grossas lágrimas caem-lhe pela cara abaixo. Depois de muito puxarmos por ele, lá começa a contar a sua história. No dia anterior, tinha ido para o quintal brincar com a carabina. Como sempre, o campo inimigo mantinha o fogo cerrado. Um problema. E ele disparava em todas as direcções para se proteger. Inclusivamente contra a janela dos novos vizinhos. Até que o tal senhor de meia-idade abriu a janela e se pôs a gritar com ele. Que não o queria voltar a ver com brincar com armas no quintal ou ia chamar a Polícia. E, para rematar, mimou uma pistola com a mão e deu-lhe um tiro. Coisa pequena ficou aterrorizada.

Lá me apresso a ir falar com o homem. Um bocado irritada, confesso. Nem deixei o Belga levantar-se. Metem-se com os meus filhos e viro leoa. Bato à porta do lado e apresento-me. O vizinho convida-me a entrar. De imediato, conta-me a mesma história que o Vasco tinha acabado de nos contar. Palavra por palavra. Explica que ficou assustado, quando viu uma criança sozinha a brincar com uma arma no quintal. E quando ele apontou a espingarda à janela, entrou em pânico. Digo que compreendo, que é certo que se trata de uma carabina verdadeira que impõe respeito. Mas que, na realidade, é uma velharia do início do século XX, que o Vasco comprou num antiquário por tuta e meia. Que obviamente não funciona. Os únicos chumbos que dispara são fruto da imaginação infantil mirabolante. O homem ri-se. E eu aproveito para lhe dizer que, na próxima vez, antes de ameaçar o meu filho, talvez seja melhor começar por vir falar connosco. Que há assuntos que se resolvem entre adultos, sem intimidar as crianças. O homem dá-me prontamente razão e desculpa-se. Tinha a filha ao colo, assustou-se. Que anda uma pilha de nervos, ultimamente. E, nisto, começa a contar-me a sua história.

É inválido e vivia na República dos Camarões, com a mulher. Entretanto, tiveram uma filha. E tudo mudou. A sua visão das coisas mudou. A casa onde viviam sem água quente, nem electricidade a todas as horas, começou a parecer-lhe uma barraca. Aquele país sem eira, nem beira, começou a parecer-lhe perigoso. Os cuidados médicos inexistentes, insuportáveis. E a família da mulher, unida como um clã de mafiosos, demasiado intrometida. Decidiu voltar para a Bélgica. A pensão por invalidez era reduzida, mas haveria outras ajudas. A mulher não conseguiu obter o visto e ele teve de vir sozinho com a filha de meses. Registou a menina, arranjou casa. Carro, não tinha. E o visto foi novamente negado. Por três vezes. Ele já está a desesperar. A mulher pede-lhe que não volte, que a menina pode ter uma vida incomparavelmente melhor na Bélgica. Que é muito bonita, a menina. Um doce de criança. De vez em quando chora, claro. Principalmente, porque teve de apanhar as vacinas todas quase de enfiada. E eles chegaram no pino do Inverno. Ele, às vezes, passa-se. Grita. Está cansado. Já não é novo. É doente. E está completamente sozinho. Só tem os padrinhos da menina, que tinham ajudado na mudança precipitada. Porque as coisas se passaram muito mal, no anterior apartamento. Os vizinhos de cima faziam muito barulho, acordavam o bebé. Gente jovem, de pouco respeito. E ele reclamou. Como retaliação, fizeram queixa dele à Polícia por maus tratos. “A senhora sabe o que dói ser acusado de mal tratar um filho? Ter de ir à Polícia prestar declarações?” Sei, por acaso sei muito bem. Pensei, mas não disse. Só disse que sabia o que era estar sozinha num país com duas crianças. Que se precisasse de qualquer coisa, podia contar connosco. Bastava gritar à janela. Se quisesse que eu ficasse com a menina para ir arejar as ideias, bastava pedir. Agradeceu, mas recusou categoricamente. A menina só ficava com ele. O clã da mulher não estava contente com a situação. Nunca tal se tinha visto, um homem já velho a cuidar sozinho de um bebé. E ele tinha medo, porque havia muitos emigrantes dos Camarões nesta região. Ele via-os pela janela. Mas ele cuidava bem da menina. Era o seu tesouro. Mas, às vezes, gritava. Era o cansaço a falar.

Passaram-se três semanas. Já o tenho ouvido ralhar aos gritos. E o bebé chora um bocadinho depois. De resto, não os ouço. Nem os vejo no quintal. É pena, a menina devia aproveitar o sol radioso deste início de Primavera. De vez em quando, vejo-o a passear com carrinho do bebé na rua. Depois da carrinha da Cruz Vermelha passar, no final do dia, para recolher os refugiados. No outro dia, a vizinha do outro lado quis saber como se passavam as coisas. Já sabia a história toda do homem, inclusivamente a queixa por maus tratos. Disse que a vizinhança estava de pré-aviso. Que não era normal um homem já velho cuidar sozinho de um bebé. Se calhar, a menina não era bem tratada. Admiti que já o tinha ouvido gritar com o bebé. Mas que ela quase não chorava. Parecia feliz e sorridente. De facto, é lindíssima. E nós não sabemos tudo o que aquele homem está a sofrer. Afinal, o preconceito num país nórdico não parece assim tão distante do preconceito africano. Talvez seja por isso que aquele homem vive quase recluso com a filha. Sinto nojo. Nojo desta Europa que não deixa que um casal se reúna, só porque a mulher teve o azar de nascer no país errado. Nojo deste mundo que prefere criticar a ajudar um pai sozinho. Nojo do preconceito, da crítica fácil, do apontar de dedo.


Aquele homem precisa de ajuda, é evidente. A única vez que nos bateu à porta foi para perguntar as horas. A hora tinha mudado e ele estava meio perdido. Também deve estar perdido em diversos outros sentidos, mas não sei como poderei ajudá-lo. Tenho-me limitado aos sorrisos e acenos amistosos. Na esperança de que a simpatia quebre algumas barreiras. Mas sinto que é pouco para o muito que ele deve estar a precisar.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Inversamente proporcional

(onde já nem sequer conseguimos disfarçar a felicidade

 na porta de embarque)




Os meus rapazes partiram. Finalmente. Quinze dias inteirinhos de férias de mãe. Um descanso merecido e muitooooo desejado. Desejado por mim, convém especificar. Porque quem nos segue sabe que nem sempre assim foi. Tempos houve em que estas ausências me custavam imenso. Agora, quero é vê-los pelas costas. Até me fica mal dizer isto, mas é a mais pura das verdades. Gosto muito da nossa vidinha e coiso e tal. E adoro os meus rapazes, como é evidente. É pá… mas isto de ser mãe non stop é extenuante. Por isso, espero ansiosamente pelos dias sem filhos, sem horários, sem obrigações. Para ser totalmente honesta, não são só os filhos que se tornam progressivamente mais independentes e autónomos. Estou seriamente desconfiada de que as mães também começam a ansiar por liberdade. Por novos voos. Quando penso que faltam apenas dois anos para o Diogo ir assentar arraiais para outra freguesia até dou pulos de alegria. Acho que estamos os dois no bom caminho. E – mais importante – estamos em perfeita sintonia. Ele a adolescer a olhos vistos e eu a desmaternar na mesmíssima proporção. O único problema é o filho pequeno, que ainda vai andar uns bons anos agarrado às minhas saias. OK… às calças de ganga. Mas vai dar ao mesmo. Filho pequeno não adolesce tão cedo. É esperto que nem um rato e já percebeu que crescer dá uma trabalheira desgraçada. Esta manhã, começou a choramingar em ainda nós estávamos em casa. Desta vez até o Belga teve direito a abraços chorosos. Noutros tempos, teria sentido uma pontada de ciúmes. Hoje, deu-me para lançar uma boa gargalhada. Filho crescido também arrastava os pés. Obviamente, o motivo é outro. O adolescente prefere a namorada à confusão familiar que o espera em Portugal. Resultado: tive de empurrá-los porta fora, já tarde e a más horas. Estava a ver que perdíamos o avião, para gáudio da rapaziada. Despedi-me deles feliz da vida. Coisa pequena limpava as lágrimas. O adolescente desfazia-se em declarações de amor e promessas de muitas saudades. Sim, sim… Adeuzinho e até daqui a duas curtíssimas semanas! J

sexta-feira, 31 de março de 2017

Uma relação mais convencional

(porque as relações não têm de ser todas iguais)



Andava eu a trocar e-mails com uma amiga que se prepara para emigrar, quando fui surpreendida por um post scriptum algo despropositado, que rezava assim: Perdoa-me a curiosidade, mas pela leitura do teu blog depreendo que entre o Pascal e o Vasco há uma verdadeira história de amor… E o Diogo? Nunca falas na relação deles. Dão-se bem?

A resposta é sim. Obviamente que sim. O meu amor e o Diogo dão-se muitíssimo bem. Talvez não fale tanto neles, justamente porque não há nada de especial a dizer. Mas se calhar até há e eu é que estou errada, pois não dou o devido valor.

Apesar de em nossa casa não usarmos a palavra “padrasto”, o Diogo usa-a ostensivamente (o Vasco, não). Com imenso orgulho na voz, é preciso que se diga. Creio que esse foi o papel que o meu filho mais velho lhe decidiu atribuir, há quatro anos atrás. Por mais que nos desagrade e que tentemos contrariá-lo, pois gostamos pouco de etiquetas convencionais. Mas o Diogo impôs a sua vontade férrea. O meu filho crescido é algo conservador e obsessivo na organização dos seus afectos. Cada pessoa tem o seu lugar próprio. E não há cá desvios, nem atalhos. O meu amor não tem as funções de pai, nem de amigo. Muito menos de amigalhaço. O meu amor não é um tio. Nem sequer um companheiro. Para o Diogo, é “O padrasto”… que não teve outra solução, senão conformar-se com o papel imposto. Para ser honesta, não deve ter sido fácil. Até mesmo porque o meu amor não estava preparado para assumir de imediato um cargo de tamanha responsabilidade e era profundamente nórdico na expressão dos seus sentimentos. Mas o filho crescido é um miúdo bastante melado. No início, os abraços e declarações de amor nunca eram correspondidos. Depois, começou a retribuir, mas via-se que era uma resposta maquinal e esforçada. Agora, são uma constante. Contrariamente ao que se possa pensar, quem adoçou o nosso Belga não fui eu, nem o Vasco. Foi o Diogo.

Hoje têm uma relação que não é tão liberal, nem igualitária quanto o meu amor teria inicialmente desejado. Porque um é “padrasto”, o outro é “enteado”. Um educa, o outro é educado. É uma relação feita de amor incondicional e respeito mútuo. Aceitação sem reservas. Presença constante. Ajuda inquestionável. Quando se trata de elogiar os rapazes, o meu amor perde-se pelo Diogo. Quando se trata de pensar no futuro dos rapazes, o meu amor preocupa-se é com o Diogo. Quando se trata de engendrar surpresas e viagens mirabolantes, a prioridade do meu amor é sempre o Diogo. Quando o filho grande partiu na visita de estudo a Oxford, o meu amor levantou-se às 5h da manhã para se despedir e dar as últimas recomendações. No lusco-fusco, estendeu-lhe dinheiro. O Diogo recusou de imediato, dizendo: “Obrigado, não é preciso. A mãe já me deu.” E o meu amor continuava com as notas amarrotadas na mão (para eu não ver quanto era) e insistia: “Eu sei, eu sei… mas quero que leves mais isto, nunca se sabe. Podes sempre precisar. Se não gastares, pões na tua conta”. É um cuidado constante, sem falhas.

A principal característica da relação do meu amor com o filho mais velho é secundar-me. Neste sentido, funcionamos como uma dupla de adultos que tenta educar em conjunto um adolescente. Porque ele diz que o Diogo é o adolescente mais perfeito que algum dia lhe foi dado a conhecer. E já se sabe que todos os adolescentes são parvos por natureza. Excepto o Diogo. Este ano fizemos uma espécie de “inquéritos”, quando entrámos em 2017. Na página onde apontámos o que gostaríamos que o outro mudasse (aka página dos defeitos com uma designação construtiva…), o Diogo escreveu simplesmente: “Pascal est parfait”.

Posto isto, o binómio é único. O meu amor tem de facto uma relação especial com o Vasco. Mas, contrariamente ao irmão, não creio que possa ser qualificada como uma relação de “padrasto-enteado”. Nenhum deles precisa de etiquetas ou convenções. O que se passa é que aqueles dois não se conheceram, reconheceram-se. Se eu acreditasse em reencarnação, diria que o binómio se tinha apenas voltado a encontrar, segundo uma ordem natural qualquer que me transcende. OK… eu não acredito em reencarnação, mas tenho a certeza de que aqueles dois são uma espécie trasvestida de almas gémeas. Entre o meu amor e o Vasco não há “uma verdadeira história de amor”, para usar as palavras da minha amiga. Entre o meu amor e o Vasco há uma história de coincidência de personalidades. Em francês há uma expressão que os define na perfeição: “ils ont des atomes crochus”. Têm átomos enlaçados. Porque há algo que, efectivamente, vai para além do palpável e que invade o plano metafísico. Onde não sou tida, nem achada. Nesse sentido, a relação do meu amor com o Vasco é independente de mim, pelo que acabamos por ficar em perfeito pé de igualdade na educação do filho pequeno.


Se acho esquisito os meus dois filhos terem relações tão diferentes com o meu namorado? Não, de todo. Eles são pessoas muito diferentes, por que razão haveriam obrigatoriamente de ter uma relação idêntica? Não tenho dúvidas de que o amor é igual. E isso é a única coisa verdadeiramente importante .


terça-feira, 28 de março de 2017

A escola

(onde perco o filho grande e o filho pequeno se encontra)



À primeira vista, parece estranho. Na Bélgica, as escolas disputam os alunos. As públicas e as privadas, todas elas gratuitas. Os pais são soberanos na escolha das escolas. Nesta altura do ano, multiplicam-se as iniciativas. As famosas “journées portes ouvertes”, com as suas visitas guiadas e apresentações. Os pais dos alunos que terminam o ensino primário são invadidos por propostas e brochuras de diversos estabelecimentos. Já vivi isso com o Diogo e preparo-me para passar pelo mesmo, no próximo ano, com o Vasco. O que mais me espantou foi receber propostas de escolas bastante distantes. Talvez num raio de 50 Km. Claro que há os internatos, onde os miúdos podem ficar durante a semana, mas não são muito comuns no início do secundário, que equivale ao nosso 7.º ano. Seja como for, comecei este ano calmamente à procura de escola para o Vasco, pois julgo que o colégio onde anda o Diogo não lhe convém. Embora fique a uns 150 metros da porta do nosso quintal. E a maioria dos alunos de Saint-Joseph vá para o Sacré-Coeur. O ensino é algo elitista por aqui, quando os miúdos entram no secundário, os pais tendem a mantê-los no mesmo tipo de estabelecimento privado ou público. Não me rejo por essa óptica, procuro a escola que melhor se adapte aos meus filhos. Infelizmente, após quatro anos num colégio, o Diogo tornou-se um menino fino e parece enraizado no seu pequeno universo escolar. É verdade que o ensino privado é mais difícil e obtém melhores resultados nos exames nacionais, mas acredito que a explicação está nas origens socio-económicas dos alunos. E nas expectativas dos pais, que encaram a universidade como a única saída possível após o ensino obrigatório. O ensino superior belga é público e não exige quaisquer condições de entrada. Excepção feita para Engenharia Civil, que tem exame de acesso. Aqui, os alunos que terminam o secundário têm entrada directa na universidade, se assim o desejarem. O trigo e o joio são separados posteriormente. Ou seja, todos entram, mas só os melhores ficam.

Isto explica o motivo pelo qual a minha prioridade, neste momento, é que o Diogo “aprenda a aprender”. Daqui por dois anos, até poderá entrar na universidade com média de 10 valores, se não tiver aprendido a estudar, duvido que consiga ficar. Na escola que fomos visitar na semana passada, os furos no horário dos alunos do 11.º e 12.º anos são completados com aulas de preparação ao ensino superior. Tendo em conta que há centenas de alunos, dos mais variados quadrantes, essas aulas servem para trabalhar competências gerais e métodos de estudo. De qualquer modo, é difícil ter um horário que permita grandes distracções. Contrariamente ao Sacré-Coeur, esta escola tem diversas opções. É todo um mundo novo. Duas páginas de combinações mirabolantes de disciplinas. Há de tudo um pouco. E, principalmente, há flexibilidade de escolha. Não é obrigatório ficar restrito a uma determinada área. Quem quiser, até pode combinar a área de Educação Física com línguas, por exemplo. Dá uma miscelânea pouco consistente, é certo... Mas, tal como não há exames de admissão à universidade, os diferentes cursos também não exigem a frequência prévia de disciplinas obrigatórias. Quem quiser arriscar entrar em Matemática Aplicada vindo da área artística pode fazê-lo. Depois, é o salve-se quem puder. Quer isto dizer que convém ter algum cuidado com as escolhas que se fazem no secundário, mas os miúdos mais indecisos ou mais versáteis podem perfeitamente dar vazão à sua heterogeneidade. Lá está… o essencial é que os alunos consigam “aprender a aprender”. Depois, cabe às universidades ensinar-lhes o que precisam.

O que eu gostaria mesmo que o Diogo escolhesse, nos dois anos do secundário que lhe restam, era um ensino de “imersão” em que grande parte das aulas é dada em inglês. Ou, em alternativa, que fosse para esta escola que visitámos em Liège. Nada parece agradar-lhe. Apesar de tudo, acho que o filho crescido gostou do que viu. Chegámos demasiado tarde para as apresentações, mas tivemos oportunidade de falar com alguns professores. Tenho de dizer que nunca vi um corpo docente tão motivado e bem-disposto. Perdemo-nos imensas vezes naquele labirinto e fomos sempre reorientados com um enorme sorriso. A escola é gigantesca, mesmo para os parâmetros portugueses. Tem diversos edifícios, ginásios, campos de jogos interiores, salas de dança, laboratórios, salas de informática, estúdios de música… No total, são seis andares. O Diogo e a namorada gostaram particularmente da cafetaria, que também serve refeições. Coisa nunca antes vista em terras belgas. De resto, julgo que se sentiram algo intimidados. Foram abordados por diversos alunos da mesma idade muitíssimo extrovertidos. Aliás, foi a primeira coisa que eu lhes disse: “Já viram que os miúdos aqui são completamente diferentes uns dos outros?”. No Sacré-Coeur sempre me pareceram todos iguais. As expressões, as roupas, a maneira de andar e de falar, as mochilas. Na escola de Liège, a multiculturalidade é evidente.

A minha grande aposta era a área de música. O Vasco e eu adorámos o professor… o Diogo nem por isso. Ou por outra, não gostou do facto de ser obrigado a tocar com os outros alunos. De ter de aprender forçosamente a tocar guitarra e bateria. Muito menos de fazerem apresentações na estação dos comboios de Guillemins. Eu achei piada à ideia, mas vi o filho grande arregalar os olhos e quase posso jurar que deve ter pensado que preferia morrer a passar por tal provação. Quando o professor começou a falar da ausência de partições e de estilos musicais tipo gospel e rap, percebi que tínhamos perdido definitivamente o Diogo. Seguiram-se outros encontros, mas nenhum que conseguisse cativar por completo o filho crescido. Apesar de tudo, à saída pediu-me os folhetos todos e a grelha com as diferentes opções possíveis. Disse que ia ler tudo com atenção e reflectir. Não tenho muita esperança, admito. Até mesmo porque a namorada também não ficou especialmente interessada.

Com a coisa pequena passou-se exactamente o contrário. A dada altura, puxa-me a manga e, com um ar muito sério, perguntou-me: “Mãe, posso fazer-te uma pergunta?”. Pensei que quisesse ir visitar qualquer coisa ou falar com mais alguém. Não. “Posso vir para esta escola?”, lançou-me. Nada que me surpreendesse. Aquele labirinto conseguiu despertar algo no Vasco. Os professores falaram-lhe directamente ao coração. Adorou a área de música. Os corredores enormes. As entradas e saídas complicadíssimas. Sobretudo, adorou a professora de dança. Quanto mais ela falava, mais assustada eu ficava. Os adolescentes já se tinham posto a milhas. Mas o Vasco parecia cada vez mais entusiasmado e fincou pé à porta do estúdio. A escola é conhecida por ter um programa de ensino em parceria com uma das melhores academias de dança do país. Só a partir do 9.º ano é que as aulas são dadas em exclusivo na escola… 14 horas semanais. Eu ia acenando com a cabeça e tentei explicar que a dança era só um hobby e coiso e tal… Mas Vasco concordou logo em passar uma audição no final deste ano, na tal academia. Com 10 anos, já só entram por convite. Suspirei de alívio. Certamente, ninguém há-de querer convidar o meu elefantezinho. Até que a professora lhe sorriu e disse que havia pouco rapazes da idade dele, pelo que as perspectivas eram excelentes. HUMFFF! Acho que ela fez batota, porque só disse isto depois de o ver a andar. Sim... o Vasco já anda muito direitinho, com os pés para fora, estilo pato. A professora sorriu e foi a correr buscar uma caneta para apontar o nosso contacto. Eu voltei à carga… estávamos só a fazer “prospecção de mercado”, pois ainda temos um ano pela frente para decidir. Fui ignorada. Segundo parece, nesta altura do campeonato, já o Vasco devia estar a ter 5 horas de ballet por semana. Coisa pequena concordava, numa animação parva. Comecei a tentar escapulir-me, com a desculpa de que ainda tínhamos muito que visitar. Demasiado tarde. Pouco depois, o Vasco fez-me a fatídica pergunta: “Posso vir para esta escola?”

Saímos de lá tardíssimo, já noite cerrada. Os adolescentes falavam entre eles, pouco convencidos. Coisa pequena saltava e corria à minha volta, completamente rendido. Fiquei com a sensação de ter sido ultrapassada pelos acontecimentos. Se o professor de música não tivesse falado tanto… Se a professora de dança tivesse falado menos… Sinceramente, não sei o que faça. Tenho a certeza absoluta de que aquela escola seria óptima para o filho crescido, mas fiquei com algumas reservas em relação ao pequeno. Diz que o tempo é um excelente conselheiro. Veremos...

domingo, 26 de março de 2017

Quando a única defesa possível é o ataque

(porque há coisas difíceis de engolir)



Uma pessoa pede ao outro lado para avançar a sua parte do pagamento de um tratamento bastante dispendioso do filho. Como seria de esperar, é recusado. Uma pessoa diz que não tem como pagar tal quantia. A recusa mantém-se. Que apresente orçamento. Isso mesmo, orçamento. Como se de uma empreitada se tratasse. Uma pessoa convida o outro lado a estar presente, no dia da intervenção. E manda os contactos dos dois especialistas que aconselharam o tratamento. A informação nunca é confirmada. Mas a recusa mantém-se.

Uma pessoa faz um esforço sobre-humano para reunir a verba necessária, no tempo requerido. No dia da consulta, é informada de que o procedimento, afinal, não poderá ser efectuado. Apesar de ter de pagar esta notícia a peso de ouro. Uma pessoa consulta os anteriores especialistas, que corroboram a mudança de estratégia. É efectuado outro tipo de intervenção. Paga, evidentemente.

Uma pessoa envia um e-mail ao outro lado a relatar todos estes desenvolvimentos. Explica que, posteriormente, terá de ser feito outro tipo de tratamento. Um mês volvido, continua sem resposta. E a vida avança. Como sempre.

Até que o outro lado se lembra de questionar o filho a este respeito. Argumentando que só tem acesso às informações através do discurso infantil. Porque uma pessoa se recusa a prestar esclarecimentos. Porque uma pessoa só está interessada no dinheiro. Porque obviamente o outro lado só serve para pagar.

E, agora, como pode uma pessoa defender-se destas acusações sem comprometer a imagem que o filho tem do outro lado? Como pode uma pessoa que é acusada de alienação parental há tanto tempo elucidar o filho sem propositadamente “alienar” o outro lado? Como pode uma pessoa não resvalar na armadilha que lhe estenderam, sem perder a face perante o filho? Como pode uma pessoa engolir a raiva que sente e manter o sorriso? Como pode uma pessoa pedir a outra que se mantenha calada, quando, efectivamente, foi ela que esteve presente e se preocupou e deu a mão e pagou a outra metade? São anos a fio desta guerrilha, estamos exaustos. E o filho confuso.

sexta-feira, 24 de março de 2017

Limites

(porque já entrámos na recta final, 

mas não sabemos muito bem onde fica a meta)



Passamos tantos anos a impor limites aos nossos filhos que temos tendência para esquecer os nossos próprios limites. Ultimamente, tenho reflectido muito sobre esta questão. Porque quando um filho entra na adolescência é normal que comece a proteger ferozmente as fronteiras do seu mundo. Interior e exterior. O respeito total pelo universo interior do adolescente parece-me uma evidência. E, pelo menos no nosso caso, tem sido bastante fácil. Até porque é um processo que se constrói desde a mais tenra infância. Obviamente, à medida que a criança cresce, torna-se mais complexo, mais secreto, mais intrigante… mais perigoso. Mas, lá está, faz parte da sua intimidade e está-nos naturalmente vedado. Acho importante deixar livre curso aos meus filhos, nesse terreno. Não espero que sejam um livro aberto. Não quero que me contem a sua vida toda ao pormenor. O que pensam, o que sentem, o que dizem, o que ouvem, o que anseiam. Cada um dos seus passos. Cada minuto do seu dia. Confio plenamente neles e respeito-os. Penso que só assim poderei esperar que tenham confiança para recorrer a mim, quando precisam. E a verdade é que mesmo o adolescente ainda precisa muitoooo.

Sou uma mãe bastante liberal, creio eu. Pelo menos, esforço-me por isso. E repreendo-me a mim mesma, quando não consigo ser na prática aquilo que defendo na teoria. Quando educamos os nossos filhos para se tornarem autónomos o mais cedo possível, depois temos de ser coerentes e dar-lhes rédea. Mas isto não quer dizer que lhes demos rédea solta. Para nos mantermos nas metáforas equestres… quando saltamos, o cavalo tem sempre de olhar para baixo para avaliar o obstáculo que tem pela frente antes de se lançar. Precisa de rédea curta, mas suficientemente larga para baixar a cabeça à vontade. Se o cavaleiro não souber usar as pernas vai cair na certa… Nos saltos de obstáculos, a rédea serve para muito pouco. Acredito que educar um adolescente seja isso mesmo: chega um momento em que a rédea se faz discreta, o controlo quase invisível faz-se por outros meios. Sendo que o melhor meio – com cavalos e com filhos – será sempre a confiança mútua. Cada um deve saber o que tem a fazer e confiar no outro. Caso contrário, o trambolhão é iminente.

O problema diz respeito ao mundo exterior, como é evidente. Aqui, digamos que surgem alguns “conflitos de interesses” materno-filiais. Porque se torna extremamente difícil gerir o comprimento das rédeas. Quando devemos impor a nossa vontade? Quando devemos respeitar os limites que os filhos nos tentam impor? Onde está o equilíbrio saudável? É inegável que há decisões que terão repercussões irremediáveis no futuro dos nossos filhos. Tal como é incontestável que a idade nem sempre lhes permite tomar as decisões mais esclarecidas e maduras. Nesses casos, cabe-nos a nós evitar o disparate. Explicar. Argumentar. E, em último caso, até mesmo impor determinada vontade. Castigar, se preciso for. Mas não me parece que seja muito produtivo dar castigos meramente punitivos a um adolescente. Do tipo, “não fizeste o trabalho de casa, ficas sem o computador”. Nestas idades, vale mais responsabilizá-los e motivar uma mudança de atitude. Se tal não suceder, creio que é melhor retirar a rede de protecção e deixá-los arcar com as consequências. A aprendizagem faz-se sempre por tentativa e erro. Embora seja difícil deixá-los cometer erros “menores” para que, um dia mais tarde, não comentam erros mais graves. E isto não é apenas válido no caso dos adolescentes. No outro dia, o Vasco esqueceu-se do saco da Natação e eu fui levar-lho à sala de aula. Apanhei um raspanete da directora… muitíssimo justo diga-se de passagem, porque ele voltou a esquecer-se, na semana seguinte. Ou seja, eu cheguei atrasada ao trabalho e ele não aprendeu rigorosamente nada.

As relações afectivas e a sexualidade dos jovens costumam levantar uma série de problemas. Provavelmente, porque poderão ter consequências futuras mais ou menos irreparáveis. Conheço casais que não deixam que o namorado/a vá a casa deles na sua ausência. Também há aquela variante de pais que não deixam que os filhos fiquem sozinhos com o namorado/a no quarto. Ou que pensam que “essas coisas” só acontecem na calada da noite. Por aqui, temos tentado arranjar estratégias que não traiam os nossos princípios. Os amigos e namoradas são sempre bem-vindos a nossa casa, estejamos presentes ou não. Só pedimos para ser avisados, por uma questão de respeito. E achamos normalíssimo que os jovens queiram ficar restritos ao seu espaço, no último andar, onde podem estar mais à vontade. OK… à vontade não quer dizer “à vontadinha”. A regra é que a porta do quarto deve ficar aberta. Mas não vamos lá confirmar. Aliás, eu nem sequer subo as escadas. Se precisar de falar com o Diogo, mando um grito cá de baixo. Ou um SMS, que é sempre daquelas coisas que diverte as visitas (antes de perceberem que é um bocado cansativo estar a subir três andares só para dar um recado…). Ou seja, confio no meu filho. Com quase 16 anos, o Diogo tem as informações todas de que precisa. E sabe exactamente o que nós pensamos sobre esse assunto. Não sei se estaremos a fazer o mais correcto, mas tenho a certeza de que a proibição nunca será a solução. Por isso, é confiar e deixar andar...

Neste momento, a minha maior dúvida prende-se com a escolaridade. O Diogo é um excelente aluno, que tem uma paixão assolapada pelo seu colégio. O problema é que, sendo uma escola de “proximidade”, como se diz por aqui, é bastante pequena. É uma espécie de microcosmos que está muito distante da realidade que o espera na universidade, daqui por pouco tempo. No primeiro ano, começam com dez turmas. Seis anos depois, restam apenas duas. Ou seja, as opções são forçosamente bastante reduzidas. Para nosso azar, é uma escola de pendor científico. E o filho crescido é mais versado nas ciências sociais e humanas. Se fizer os dois anos que lhe restam no Sacré-Coeur, ficará com um furo no horário. Não o estou a ver a ter seis horas de Matemática, mais seis horas de Ciências… Na realidade, não vem mal ao mundo, mas penso que poderia aproveitar esse tempo para aprender mais uma língua, por exemplo. Ou para estudar música. Ou outra coisa qualquer. Por outro lado, sei que a protecção que este colégio oferecia foi muito benéfica para o Diogo, que era uma criança com alguns problemas de sociabilização. Hoje, a história é outra. Trata-se de um miúdo bastante bem enturmado e popular. Talvez esteja na altura de levantar voo e abandonar este mundo tão protegido, onde os professores têm demasiada tendência a adaptar-se aos desejos e vontades do Diogo. O assunto tem sido largamente debatido, lá em casa. Já repeti inúmeras vezes os meus argumentos. E até já arranjei novos argumentos para o convencer a ir para uma escola em Liège. O meu amor também está farto de tentar. Até agora, a recusa foi categórica.

Hoje, jogo a minha última cartada. Vamos à “journée portes ouvertes”, no final do dia. O Diogo, a namorada e eu. A coisa pequena vem atrelada, porque também gostava que viesse para esta escola no sétimo ano (e o argumentário funcionou, no caso dele). Espero que a escola em si convença o filho crescido. Ou o estúdio de música, sei lá. Os professores. As actividades. Os alunos. Estou por tudo, admito. Custa-me muito deixá-lo tomar decisões que vão completamente contra o que julgo ser o melhor para ele. Até mesmo porque o meu amor pensa que devíamos obrigá-lo a mudar de escola e ponto final. É a primeira vez que não estamos de acordo quanto à educação dos miúdos. Mas quero ser fiel a mim mesma. Trata-se da vida do Diogo, a decisão cabe-lhe exclusivamente a ele. Provavelmente, será o primeiro grande erro que vou deixá-lo cometer. Mas ser mãe também é saber quando retirar a rede de protecção.