(porque
se não fossem aqueles olhos escuros iguaizinhos aos meus
e o amor infinito que
lhe tenho,
duvidaria que é mesmo meu filho)
Defende
ideias de direita. Mesmo muito à direita. Tanto, tanto, tanto, que chega a
tocar ligeiramente à esquerda sem se aperceber.
Tem
valores morais inalcançáveis. Conservadores, como se pode calcular.
A
língua afiada é de crítica fácil. O decote daquela é demasiado pronunciado.
Aquele vem das barracas. O comportamento do outro é deplorável. Acolá está um
bando de bêbados.
Adora
a escola. Sabe-lhe sempre a pouco. Por ele, encurtava as férias todas pela
metade. Ainda assim, seria imenso. Defende a rigidez do regulamento interno com
a vida. A autoridade docente também é inquestionável. Relembra as datas dos
testes e nunca deixa passar os trabalhos de casa em branco. É o terror dos
colegas, excessivamente imaturos e palermas.
Abomina
a adolescência tresloucada. A que é passada em noitadas de bebedeira, deboche e
drogas. A adolescência perdida, desinteressante e ridícula. Mal-amanhada. Mal
vestida. Ignorante. Que só sabe escrever textos encriptados, numa espécie de
linguajar infantil sintetizado que aboliu as vogais.
A
música moderna devia ser erradicada do mundo. Tal como a televisão, que nos
tenta manipular sub-repticiamente. E a superficialidade da comunicação social.
Aguarda
ansiosamente o regresso dos serial
killers que lhe irão garantir um emprego no futuro. Enquanto isso vai devorando
livros de crimes. Reais ou ficcionais, tanto faz. As profundezas da maldade
humana atraem-no.
Quando
adora uma pessoa, os seus defeitos são “queridos”. Mas se alguém cai em
desgraça é incapaz de perdoar. A traição é o pior defeito do ser humano.
Tem
uma sensibilidade exacerbada ao erro ortográfico, que corrige compulsivamente.
Nada escapa ao crivo do seu lápis azul: SMS da namorada, comentários dos amigos
no Facebook, cartas de amor da namorada do irmão, artigos de jornais…
É
sobranceiro e altivo. Elitista. Arrogante. Superior.
Detesta
mudanças, transformações, reviravoltas. O mundo devia ser imutável. A ordem dos
objectos fixa. A mínima modificação consegue deixá-lo fisicamente maldisposto.
Seja uma cadeira fora do lugar, um quadro ligeiramente torto ou um bloco de
folhas desordenadas.
Ostenta
com orgulho uma certa forma de pudor. O corpo não deve ser demasiado exposto
(muito menos tocado). As manifestações de afecto querem-se discretas. As
emoções exacerbadas e demonstrativas são sintoma de fraqueza humana.
Tem
um sentido estético apuradíssimo. A indumentária é sinal de distinção. As
marcas não são importantes, a originalidade também não. A excentricidade
assusta-o. Há que ser discreto.
Gosta
muito de viajar e de conhecer novos mundos. Novas culturas. Tem imensa curiosidade
perante a diferença. Apesar disso, o melhor de tudo é voltar a casa. Ao refúgio
imutável e seguro.