segunda-feira, 30 de novembro de 2015

A perfeição está no meu olhar

(porque podemos sempre escolher o nosso ângulo de visão)



Quando releio algumas coisas que aqui escrevi, percebo que deixo transparecer a ideia de que sou daquelas mães que pensam que os filhos são perfeitos. Não tenho qualquer pudor em confirmá-lo. É verdade… acho mesmo que os meus filhos são perfeitos. Mais, também acho que o meu amor é perfeito.

Se no meio desta perfeição toda têm defeitos? Obviamente…

O meu amor tem um feitio terrível, forjado pelos longos anos de solidão.
O Diogo é demasiado maleável, tende a moldar-se às situações e pessoas com quem está, sendo muitas vezes incapaz de impor a sua vontade.
O Vasco… bem, o Vasco é o Vasco. Vive num mundo de difícil acesso. Imune a conversas, ralhetes e castigos.

O facto de os achar perfeitos, não significa que seja cega. Ou iludida. Eles não são os melhores do mundo. Mas são os melhores do meu mundo. E isso basta-me. A questão é que a perfeição está no meu olhar, não neles. Porque cada um deles é muito mais do que a soma de todos os seus defeitos.

Digo muitas vezes ao meu amor que ele é “o meu perfeito”. Aos meus filhos digo o mesmo de outra maneira. Digo que tenho muito orgulho em ser mãe deles. Acho importante mostrarmos que amamos a pessoas tal como elas são. Fazê-las sentirem-se perfeitas aos nossos olhos. É assim uma espécie de capa de super-herói que lhes damos para enfrentarem a vida.

O Amigo Imaginário é o guardador das nossas memórias. E eu quero que essas memórias sejam tão cruas como a realidade de que se alimentam, mas também quero que tenham um travo doce. Acredito que se escolhermos ver a vida e as pessoas que nos acompanham com esse filtro de doçura, encontraremos mais perfeição.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Parabéns, amor docinho da mãe!

(“Há um ano inteiro que espero por este dia”, disse o Vasco esta manhã)

 
 
Passei nove meses angustiada, sem dizer nada a ninguém. Tinha um medo absurdo de não conseguir amar aquele filho que ali vinha como amava o outro… já crescido, saudável, lindo de morrer, com uma inteligência espantosa, um sentido de humor peculiar, assombrosamente perfeito. Parecia-me impossível conseguir amar mais alguém com a mesma intensidade. Pior, parecia-me impossível que o nosso mundo, o nosso binómio, pudesse incluir outra pessoa.

Há nove anos atrás, a minha angústia desapareceu. A minha vida ficou perfeita. O nosso mundo alargou. Transformámo-nos num trinómio. A tribo. Por incrível que pareça, o Vasco consegue ser tudo o que o irmão é… crescido, saudável, lindo de morrer, com uma inteligência espantosa, um sentido de humor peculiar, assombrosamente perfeito. Mas consegue sê-lo de maneira completamente diferente. O que torna tudo isto mais divertido. Porque, acreditem, ser mãe do Vasco é uma aventura muitíssimo divertida.

Parabéns, amor docinho da mãe!
 


 

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

A minha fada-madrinha

(porque gosto muito de si, tia)


 

Nascida numa família arreigadamente ateia, não tive direito a padrinhos. Mas a vida encarregou-se de corrigir esse erro inicial e deu-me uma fada-madrinha.

Esta fada-madrinha começou por ter uma importância enorme na minha vida porque desbravou caminho. Porque marcou posição. Porque abriu um precedente familiar. Porque “já a Maria Clarisse era assim”. E esse “assim” explicava tudo, não carecia de outras justificações. Explicava esquecer-me do tempo, do lugar, das pessoas, das coisas, da cabeça. Eu era “assim” e nem valia a pena tentarem mudar-me, porque já a minha tia era “assim” e nunca ninguém a tinha conseguido mudar.

Durante a minha infância, a fada-madrinha salvou-me do arreigamento familiar. Enquanto as minhas amigas tinham Barbies, eu tinha Playmobil e Legos. Vá… lá consegui convencer os meus pais de que os Pin&Pon também requeriam grande engenharia mental. E não eram um atentado à mulher emancipada. Apesar de tudo, nunca fui ostracizada pela meninada graças às prendas trazidas periodicamente de Inglaterra pela minha fada-madrinha. Eram coisas nunca antes vistas no Portugal dos anos 80, que causavam furor no recreio: blocos e borrachas com cheiro, bolinhas de sabão gigantescas, canetas que escreviam e apagavam, um quadro negro onde apareciam por magia letras coloridas. Tudo isto compensava a ausência do cor-de-rosa na minha vida.

Quando, já adolescente, se tornou evidente que a minha estranheza só tendia a piorar, a fada-madrinha veio novamente em meu auxílio. Saída daquele Portugal ainda tão pequenino, tinha encontrado além-Mancha a explicação. Um dos porquês do “assim”. Finalmente, deu-se um nome à coisa: “Dislexia”. E isso foi importantíssimo. Não tanto pela maneira como era tratada (julgada?), mas pelo modo como passei a olhar para mim. Quando se tem consciência do problema, é mais fácil procurar soluções. Graças a ela, pude ir descobrindo estratagemas para lidar comigo própria. E isso mudou a minha vida.

A influência da minha fada-madrinha nunca diminuiu, bem pelo contrário. Irrompeu na idade adulta, numa relação de proximidade à distância. De novo, na senda de um abrir caminho. De me facilitar sempre a vida através de um modelo real. Vi nela aquilo que eu não queria ser, mas onde acabei por ir parar. Com a solidão, as noites de trabalho, o cansaço acumulado, os prazos apertados, a insegurança financeira. As línguas que se aprendem já na idade adulta com a mesma facilidade. A dislexia tem tanto que se lhe diga! Principalmente, vi nela um modelo de mãe como eu queria ser. Alguém que põe os filhos e a sua educação acima de tudo. Alguém com uma capacidade de aceitação, de empatia, de motivação pela positiva. A minha fada-madrinha é uma pessoa profundamente boa. E, às vezes, quando irrompe numa gargalhada, consigo vislumbrar aquela outra Clarisse de quem tenho tantas saudades. De quem também herdámos, entre outras coisas, o amor, o cuidado e a dedicação à nossa família. A generosidade. O gosto pelas viagens. A capacidade de fazermos uma infinidade de coisas em simultâneo com uma calma apressada.

O mais engraçado é que esta minha fada-madrinha, que tantas e tantas vezes me deitou a mão desde que a nossa vida desabou, emerge agora na personalidade tão especial do meu filho pequeno. Dizem que o Vasco é muito parecido comigo. Eu acho que o Vasco é muito parecido com a nossa fada-madrinha. É muito parecido com as Clarisses. E fico duplamente orgulhosa.

E porque hoje esta pessoa absolutamente fantástica faz anos, aqui fica o meu pequenino tributo. Porque me sinto imensamente grata por tê-la na minha vida. Porque muito do que hoje sou, devo-o a ela.
 

[ Porque além de vivermos com a cabeça e o coração entre duas línguas e dois países,
ainda temos o amor pelo espanhol em comum... ]


sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Um pé e depois o outro

(quando a sincronia da vida entra em acção

para nos mostrar o que é verdadeiramente importante)


 

Esqueci-me que a data limite para entregar o meu artigo para o número de Dezembro da revista terminava esta semana. E tinham acabado de me pedir para traduzir um texto em chinês (não é, mas é como se fosse) sobre uma nova experiência com ratos trissómicos em Espanha.

Ouço vozes animadas no corredor. Gritos. Palmas. Muitos risos. E uma bola a bater na porta do meu escritório. Uma vez. Outra vez. E mais outra.

Sinto crescer em mim uma raiva surda. Aumentei o volume da música. “As ideias estão no chão/Você tropeça e acha a solução”, cantavam os Titãs. Não… nem por isso.

De repente, batem à porta. “Rita, anda cá ver isto!”. Nem tive tempo de me levantar, a porta escancara-se. Vejo um menino com um sorriso enorme estampado na cara. Devia ter uns três anos. Olha para mim e diz: “Un piedpuis, l’autre pied! Un piedpuis, l’autre pied!”. E avança, meio titubeante, ao som desta ladainha. Vê-se que é uma atitude consciente, que exige um esforço concertado entre a cabeça, o tronco e os membros. Atrás dele, a mãe ria. As técnicas riam. “O Nathan aprendeu a andar!”, anunciam-me.

Ri-me. Afinal, os Titãs tinham razão.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Cada um dos convidados

(onde as coisas se complicam)


 

A energia destrambelhada da nossa coisa pequena é amplamente compensada pela meiguice de carácter. Nunca conheci ninguém que se importasse tanto com os outros. Que se preocupasse tanto em agradar, em ser amável. Que prestasse tanta atenção às pessoas que o rodeiam. Que tivesse tanto medo de magoar ou de desiludir alguém. É de uma delicadeza e cuidado comoventes. De todos os membros da família, o Vasco é sem dúvida o mais parecido com a avó Clarisse, de quem herdou o tamanho, o nervo, a diplomacia e a dedicação. Sinto uma tristeza imensa por estes dois nunca se terem chegado a conhecer, acredito que teriam uma ligação especial. Muito embora a minha avó tivesse certamente ficado aflita com o lado mais destravado deste seu bisneto-furacão.

Este ano, o Vasco decidiu que queria fazer uma festa de anos. Apesar de, na Bélgica, não haver esse hábito. As festas de anos são encaradas com despreendimento (como, aliás, tudo o resto) e restritas à esfera familiar. A única festa de aniversário para a qual foi convidado, nestes últimos três anos, foi a de um colega imigrante, como nós, da Europa de leste. Mas, pronto, filho pequeno decidiu que os seus nove anos mereciam uma festa com toda a pompa e circunstância. Como faz anos numa quarta-feira, dia em que não há aulas à tarde, propus que convidasse cinco amigos para virem almoçar cá a casa, quando saíssem da escola. Uma coisinha simples.

A lista dos convidados foi feita rapidamente. Os dois melhores amigos, claro está. E mais outros três com quem costuma brincar no recreio. Os convites foram feitos e entregues, com a discrição que tal acto requeria para não ferir susceptibilidades na turma. Quando o fui buscar à escola, vi logo que alguma coisa não estava bem. O Vasco estava triste. Garantiu-me que tinha sido mesmo cuidadoso a distribuir os convites, tipo agente-secreto, mas que houve quem visse. E que havia um menino que lhe veio dizer que nunca tinha ido a uma festa de anos. E havia aquele outro que tinha pedido para ser seu amigo, logo no primeiro dia na nova escola, quando ele ainda estava a chorar. E a amiga que era mesmo maria-rapaz, que pensou que não tinha sido convidada porque era rapariga. E… e… e…

Perguntei, então, quantos colegas mais seria preciso convidar para aplacar este ataque infame à diplomacia. Só mais cinco, respondeu-me. E lá fui eu comprar mais cinco convites e desencantar mais cinco envelopes e escrever mais cinco textos à mão a explicar a cinco pais surpresos o programa das festas, tão pouco habitual por estas paragens.

Combinei com o Vasco que seria uma festa tipicamente belga, ou seja, a dar para o desenrascado. Nada de temas da moda, decorações temáticas, mousses cromáticas, bolachinhas empilhadas em pratos de loiça, talheres de madeira a condizer com o tom das paredes e o raio que o parta. O filho pequeno, que não lê blogs matchy-matchy, pediu apenas pizzas, cachorros-quentes, batatas-fritas, sumos e o bolo de aniversário. Pareceu-me excelente, estávamos no mesmo comprimento de onda. O meu amor prometeu voltar a correr da faculdade para me dar uma ajuda. Fez-se a requisição pública dos serviços do adolescente resmungão (que, apesar de tudo, exigiu um suborno exorbitante). O tio Rui prometeu vir da Alemanha para controlar os estragos. Entre mortos e feridos, alguém há-de escapar. Tanto mais que é quase certo que os pais não os deixem vir todos, dada a estranheza da coisa.

Obviamente, tinha de surgir alguma complicação com esta minha festa tão desenrascada. Ou não se tratasse do aniversário de Vasco, o Cuidadoso. Parece que há um menino que é alérgico aos ovos. E outro, ao glúten. Como raio é que vou fazer um bolo sem ovos, nem farinha?! Ehhh… não esquecer o melhor amigo muçulmano. Ou seja, as pizzas Havai pré-feitas têm de ter fiambre de frango e os cachorros levam salsicha de peru, coisa que estranhamente nunca vi por aqui. Há também aquele colega que tenho de ir levar e buscar ao solfejo durante a tarde, porque normalmente vai na carrinha da câmara.

OK… inspira, expira. Repetir tantas vezes quantas as necessárias.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Diz que é anão

(porque às vezes o amor faz verdadeiros milagres)


 

Não sabemos ao certo quanto anos terá. Talvez três. Provavelmente quatro. Foi-nos oferecido por aquela vizinha maluca de Malempré, no nosso primeiro Verão na Bélgica. É a prova viva de que não se deve julgar um animal adoptado pelas aparências. Ou pelo contacto inicial. É preciso uma paciência sem fim. E dar tempo ao tempo. Decidimos chamar-lhe Peanuts. Era uma espécie de coelho selvagem que mal se podia tocar. Supostamente anão. Passou dias a fio (e noites… principalmente, noites) a atirar-se contra as grades da gaiola para se libertar. Não suportava estar fechado, mas em liberdade destruía tudo à sua volta. Não gostava de colo, nem de festas. Mordia. Batia furiosamente com a pata no chão quando se enfurecia. Roía tudo o que apanhava a jeito. Só comia granulados. Escusado será dizer que não foi exactamente amor à primeira vista.

Passaram-se dois anos. O Peanuts já faz parte da família. Sobreviveu a um ataque furioso do D. Fuas e, agora, só bate com a pata no chão quando sente que ele anda por perto. Tornou-se um autêntico mimado. E um comilão. É muito asseado, faz sempre as necessidades numa caixinha com serradura. Já pensámos arranjar-lhe uma namorada, mas ainda não encontrámos nenhuma suficientemente grande. Vive numa gaiola enorme, numa casinha do quintal. No Inverno, fica coberto por um espesso manto de pêlo quentinho. Quando está bom tempo, fica no parque, lá fora. Há uns meses, decidimos começar a soltá-lo no quintal, dentro do canteiro de flores que o meu amor construiu. Raramente sai dali, gosta de ficar a mordiscar as flores e a apanhar banhos de sol.

São os rapazes que tratam da bicharada toda da casa. Excepto do Peanuts. Gosto de ser eu a tratar do meu coelho. Mas o Vasco também lhe tem um carinho especial…




sábado, 14 de novembro de 2015

Não

(porque hoje não tive resposta a todas as perguntas dos meus rapazes,

nem soube o que não lhes dizer)



Não, os ataques terroristas perpetrados em Paris ontem à noite não se devem à política externa francesa, nomeadamente na Síria. Começaram muito antes.

Não, isto não foi “mais um ataque terrorista”, igual a tantos outros. O modus operandi deles mudou e isso merece ampla reflexão.

Não, os terroristas não entraram todos na Europa de barco, com as armas escondidas nos coletes, disfarçados de refugiados. Andamos todos a fugir do mesmo.

Não, a verdade boçal “Nem todos os muçulmanos são terroristas, mas todos os terroristas são muçulmanos” que li por aí é voluntariamente falaciosa.

Não, o Corão não diz em lado nenhum que se deve dizimar populações em nome de Alá.

Não, os terroristas não falavam árabe, coisíssima nenhuma. Várias testemunhas ouviram-nos falar um francês perfeito, sem sotaque. Tal como os meus filhos, que estão neste país desde pequenos.

Não, #JenesuispasCharlie#JenesuispasParis, nem porra nenhuma. Isto não é um hashtag, isto não é uma moda, isto não é uma foto de perfil de facebook com a bandeira da França durante uma semana.

Não, não tenho medo de actos terroristas que aconteceram a três horas de minha casa. A única maneira de lutarmos contra isto é recusando-nos a entrar nessa vaga explosiva de medo+xenofobia. Disso, sim, tenho muito medo.

Não, a maior comunidade estrangeira a viver em Bruxelas, contrariamente ao que se pensa, não é árabe… é francesa. Ninguém dá por eles e não param de chegar, é uma maçada. Mas não é por isso que vamos deixar de acolher refugiados.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

O ralhete do chefe

(ou literalmente a leste do paraíso)


 

Chefe: Posso saber por que razão levaste o computador para trabalhar em casa na 2ª feira? Já não te disse para não levares trabalho para casa?
Trabalhadora: Hein?!
Chefe: Mandaste-me um e-mail na 2ª feira?
Trabalhadora: Mandei. Tu nem me respondeste…
Chefe: Quer dizer que levaste o computador para trabalhar em casa na 2ª feira?
Trabalhadora: Não, mandei-te o e-mail durante as horas de trabalho, na biblioteca.
Chefe: Na 2ª feira?!
Trabalhadora: Sim… Qual é o problema?
Chefe: Então, ainda é pior do que eu pensava! Vieste trabalhar no feriado?
Trabalhadora: Feriado?! Estás maluco? 2ª feira foi dia de trabalho, os miúdos foram para a escola. O feriado foi ontem, 4ª feira.
Chefe: 2ª feira não era um feriado oficial. Mas a maioria das empresas deu o dia aos funcionários para compensar aquele feriado de Julho que calhou a um Domingo…
Trabalhadora: Como?! Mas por que diabo se vai compensar um feriado de Julho em Novembro?
Chefe: Para fazer a ponte!
Trabalhadora: Qual ponte?
Chefe: A ponte, na 3ª feira. Espera aí… não me digas que também vieste trabalhar na 3ª?!
Trabalhadora: Quer dizer…
Chefe: Não reparaste que não estava ninguém no escritório?!
Trabalhadora: Pois… De facto, achei que havia algo estranho… um bocado parado…
Chefe: É pá, tu não existes! Em Portugal, não compensam os feriados que calham aos fins-de-semana?
Trabalhadora: A bem dizer da verdade, em Portugal deixámos de celebrar uma série de feriados oficiais.
Chefe: Hein?! Estás a gozar comigo, não estás?
Trabalhadora: Não, diz que é a crise… Estás a ver, coiso… a produtividade… e assim…
Chefe: Mas ontem, no dia do Armistício não vieste trabalhar, pois não? Ao menos isso… Esse era um feriado oficial.
Trabalhadora: Não, ontem fiquei em casa. Mas também só me dei conta na noite anterior, quando ia começar a preparar as lancheiras e os miúdos gozaram comigo.
Chefe: Esquece. Vou passar a mandar-te sms a avisar-te. Só naquela…

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Surpresas

(quando o amor se estende a toda uma família)


 

Nesta casa, somos três a ser amados desmedidamente. Somos três a ser mimados. A ser surpreendidos. Meu amor cuida de cada um de nós de forma idêntica. Nunca há uma demonstração de afecto que não seja extensível aos meus filhos. Por isso, este amor é tão especial.

No outro dia, chegou com os braços carregados de flores. Saiu para ir comprar o jantar e voltou com três vasos de flores. Não flores mortas e embaladas. Flores vivas, como eu gosto.

Deixou-as em cima da mesinha da sala, sem dizer nada. Que o meu amor é um homem de gestos, não de palavras. Fingi que não vi. Às vezes, gosto de o provocar. Mas os miúdos viram-nas e reagiram de imediato, com a maior naturalidade do mundo. E foi esta espontaneidade que me emocionou. Porque eles perceberam logo, não foi preciso explicar nada.

A roseira branca era para o Vasco, o nosso Principezinho que gosta tanto de cuidar da sua rosa. A que ele tinha no parapeito do quarto deixou de dar flores, parece ter entrado em hibernação. Foi o primeiro vaso a desaparecer.

A mini-árvore das malaguetas era para o Diogo. Numa outra incarnação o meu filho grande deve ter sido indiano, porque adora sabores picantes. No dia anterior tinha acabado de inventar mais um molho capaz de fazer fumegar um morto. Eu ralho, mas o meu amor acha piada a estas incursões na cozinha que me esvaziam os frascos das especiarias. Foi o segundo vaso a desaparecer.

Sobrava uma planta simples. Nem bonita, nem feia. Um bocadinho fora do vulgar. Nenhum de nós sabia o nome. O Vasco quis saber o porquê daquela flor, especificamente. Os rapazes já sabem que, por trás de cada acção do meu amor, há sempre um motivo específico. Normalmente, complexo. Que requer amplas e aprofundadas explicações. Os rapazes riem-se sempre, não se cansam de dizer que ele é a pessoa mais inteligente que conhecem. Ele é a pessoa mais generosa que eu conheço. Porque além do conhecimento, nos dá tempo. O tempo que passamos a dedicar-nos aos outros será sempre o melhor presente.

O nome da minha flor não interessa. Não sabemos. Mas a minha flor é magenta. Uma cor que não existe no espectro. Raríssima na natureza. Uma espécie de ilusão de óptica. Uma cor que para existir precisa do olhar humano, subjectivo por definição. “Um olhar especial, como o teu”, disse ele.


terça-feira, 10 de novembro de 2015

Ó pá…

(onde se mostra que isto de ter um blog e ideias malucas é delicioso)


 

Já começaram a chegar os postais para o Vasco, um bocadinho de toda a parte!!!

Como sou curiosa, vou abrindo com muito cuidado os envelopes. Espreito e, depois, volto a colar. Não se nota nada, garanto. E é tão bom ler-vos, pela primeira vez!

Lembrámo-nos de ir juntando os postais que vão chegando, às escondidas. No dia de anos do Vasco, vamos pô-los todos na nossa caixa do correio. Mal posso esperar para ver a cara dele, quando lhe caírem aquelas cartas todas aos pés! A ver se não me esqueço de filmar…

Nem sei como vos agradecer o carinho, a sério. Peguem lá um abraço apertado e um beijinho...

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Dá Deus nozes


(onde se percebe que o filho grande é uma criatura estranha)


 

De repente, toca o telefone. É a mãe do Baptiste. Atendo… a medo. Diz-me que está em frente ao computador. Que tem de se despachar. Que há bilhetes de avião baratíssimos para Toulon, no Sul de França, onde têm o iate. Que gostavam muito de lá ir passar os últimos dias de férias, mas…

Por momentos, pensei que me ia pedir para lhe ficar com o miúdo. Pensei mesmo. Até me sentei com o susto. Caraças, ainda não estamos completamente refeitos do caos que o Baptiste semeou nesta casa, no fim-de-semana passado.

Mas, não. Queriam apenas convidar o Diogo para ir com eles. Que faziam questão de oferecer tudo, passagens de avião incluídas. Que tinha era de dar uma resposta depressinha.

E, pronto, lá foi o filho crescido passear para Saint-Tropez. Foi um bocadinho contrariado. O professor de órgão tinha-lhe dito onde estavam escondidas as chaves da igreja, para ele poder tocar durante as férias. E o sonho do rapaz era passar esses dias enfiado numa igreja escura e fria, não num iate de 13 metros…

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Vergonha alheia

(onde o tempo que passa e a consciência que daí advém

acaba por nos pacificar)


 

Há cerca de um ano atrás, escrevi este post. Algo mudou entretanto, o tribunal decretou que os meus filhos tinham direito a receber uma pensão de alimentos. Não tenho pudor em dizer os valores: 150 euros mensais por criança. Porém, o nome é enganador… Os “alimentos” abrangem comida, roupa, calçado, agasalhos, todas as despesas escolares e as actividades extra-curiculares. Já para não falar no aluguer da casa, electricidade, água, mazout… Tudo isto são “alimentos”, como é evidente.

Infelizmente, no nosso caso específico, na categoria altamente abrangente de “alimentos” estão ainda incluídas à força as chamadas “despesas extraordinárias”: consultas médicas, medicamentos, actividades desportivas e despesas escolares extraordinárias que extravasem o normal (as despesas relativas ao regresso às aulas ou os manuais escolares, por exemplo). Não por ordem do tribunal, obviamente, mas por falta de pagamento de quem tem um entendimento muito particular da lei.

Há cinco meses atrás, o filho crescido decidiu que a pensão de alimentos não lhe dizia respeito e que seria justo receber também uma mesada do outro lado. Afinal, está no 9º ano e já tem as suas despesas. Dois meses depois, a quantia continuava por determinar. Parece que a escola em Portugal ainda não tinha começado. E que era preciso haver equidade entre cá e . Quando o Diogo iniciou a segunda semana de aulas, o meu amor decidiu tomar uma atitude. Entregou-me um envelope com um ano de mesadas para depositar na conta do Diogo, assegurando assim o outro lado. Estranhamente, quando o filho crescido anunciou a novidade, a verba foi desbloqueada: 15 euros para cada filho. Três meses depois, nem sombra do dinheiro. Problemas vários, segundo parece. O meu pai e a mulher decidiram, então, começar a dar uma mesada aos dois rapazes. Uma semana depois, este dinheiro estava nas contas… sem quaisquer problemas. Ao Diogo apenas foi dito “que agora estava rico”. Quanto a mim, aconselhei-o a poupar parte do que recebia e, em nome do seu amor-próprio, não voltar a insistir.

Mas o filho crescido é teimoso. E tem aquela esperteza típica do adolescente, para quem ganhar uma discussão é mais importante do que o tal do amor-próprio. Portanto, decidiu mudar de estratégia. Em vez de mesadas, pediu para comprar o novo jogo do Star Wars para a Xbox, cuja data limite para a pré-venda estava a terminar. O dinheiro apareceu de imediato na minha conta. Mas foi-lhe dito que, provavelmente, pouco mais receberia no Natal. E isto doeu-lhe. Doeu mais do que andar cinco meses a pedinchar uma ninharia que nunca chegou a receber. Desde que vive na Bélgica, o filho grande só tem recebido prendas exorbitantes: um portátil da Sony, uma sofisticada máquina fotográfica, uma Playstation 4, um iPod, um iPhone… Na sua opinião desiludida, o alargamento do núcleo familiar impôs restrições necessárias, a bem da equidade fictícia que tanto lhe querem vender.

A minha visão das coisas é mais cínica. Não vale a pena insistir em tentar comprar um miúdo que abriu os olhos, que já disse que não quer voltar para Portugal, que está feliz com sua nova existência. O problema é que, embora haja consciência de que os meus filhos não estão a soldo, não há capacidade para contribuir para o bem-estar deles neste país. Capacidade emocional, não financeira. Longe disso. Daí as despesas extraordinárias ficarem sempre por pagar, daí os miúdos nem sequer terem direito a receber uma simples mesada. Porque isso são âncoras. E, quando se quer que um barco ande à deriva, rouba-se a âncora, rasgam-se as velas, destroem-se os remos.

Se um ano depois daquele post continuo a ter raiva? Não, já passou. Neste momento, sinto vergonha alheia. E desprezo pela pequenez das atitudes. Às vezes, até já consigo dar umas boas gargalhadas. Como quando me pedem uma mala com roupa e um nécessaire de toilette para passar um fim-de-semana com os rapazes, quando nem sequer o aluguer de uma cadeira de rodas se dignaram a pagar. Ou um lápis. Ou um par de meias. Ou um xarope para a tosse. Acusam-me de ser beligerante, mas tenho a consciência tranquila. Deixei de exigir justiça a todo o custo, porque a minha paz de espírito não tem preço. Agora, não me peçam é para ser parva…

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Polícia-bom vs. Polícia-mau

(a táctica da família a solo emigrante)


 

Aos poucos, retomo a tradução do livro, que ficou intermitente quando a poliartrite me apanhou de surpresa. Retomo a vida, tout court. Avisei os rapazes de que tinha conseguido organizar-me para ficar em casa com eles, durante as férias de Outono… mas que tinha mesmo de trabalhar. Filho grande informou que tinha imensos trabalhos para fazer nas férias. Filho pequeno lembrou que também tinha de estudar, porque a sessão de exames está para breve. Suspirei de alívio, pensei que estávamos todos no mesmo comprimento de onda.

Entretanto, o Diogo decidiu trazer o melhor amigo para passar o fim-de-semana. Nada de inusitado, o Baptiste faz parte da família. A visita tinha sido negada, há uns tempos atrás. Primeiro, o Diogo tinha recebido más notas a Matemática e precisava de estudar. Segundo, o Baptiste estava castigado em casa dele. E nós achámos que se os pais lhe tiraram telemóvel, tablet e consolas até ordem em contrário não devíamos “descastigá-lo”. A mãe ligou a dizer que não se importava, mas mantivemos a decisão. Quando os castigos são demasiado severos e/ou duradouros, percebo que seja mais difícil para os pais que para os filhos... mas isso era problema deles. Entretanto, chegaram as férias. O Diogo pediu, novamente, para convidar o Baptiste. Nós – parvos – deixámos. Fica o aviso à navegação para futuros pais de adolescentes: não subestimem um jovem enjaulado há demasiado tempo.

O fim-de-semana foi caótico. O Baptiste, como calculámos, vinha num estado de sobre-excitação. Os meus filhos alinharam na parvoeira. E com essa nenhum de nós estava a contar. Pouco conseguimos fazer, excepto controlar os estragos. Nada parecia cansá-los, moê-los, acalmá-los. Nem o squash, nem o caminho que fizeram a pé, de regresso a casa. Nem a tarde a fazer gauffres e a encher as paredes de massa. Nem os videojogos ou os filmes à noite. Nem os quilos de comida que enfardaram, tipo debulhadora. Nem as brincadeiras no quarto do mais pequeno: espadas para lutar aos gritos, um jogo para matar zombies no escuro, peças de Lego para atirar pelos ares, jogos de sociedade que se prestavam a acesas discussões… Um disparate pegado.

Na noite de Halloween, já nós estávamos completamente exaustos. Em Vielsalm, sabe-se lá porquê, o Halloween celebra-se em Fevereiro. Eu sabia que o Vasco estava triste por não ir pedir doces às portas, como estava habituado a fazer em Malempré. Lembrei-me, então, de fazer uma caça ao tesouro nocturna. Espalhámos doces no percurso à volta do lago, com enigmas escritos em papelinhos para eles decifrarem, a indicar a localização dos “tesouros”. Devemos ter demorado pouco mais de uma hora a preparar tudo… não imaginam o estado da casa, quando chegámos. O adolescente em saída precária lembrou-se de empestar tudo com Axe cheiro-a-trolha. E deixou o mais pequeno assumir as culpas. Tive um ataque de choro na cozinha, depois de me zangar a sério com eles. Só me apetecia mandá-los a todos para a cama. Por que diabo havia de ficar a trabalhar noite dentro para compensar as horas perdidas com uma surpresa que nenhum deles merecia?! Por um único motivo: os meus filhos só nos têm a nós, neste país.

O mais difícil, nisto de sermos “família a solo emigrante”, é termos de encarnar dois papéis o tempo todo. É sermos o polícia-bom e o polícia-mau, simultaneamente. Ou com minutos de diferença. Porque não há mais ninguém, sem sermos nós. Ninguém para equilibrar, para compensar. Temos de ralhar para logo a seguir elogiar. Temos de premiar para logo a seguir castigar. Não há avós para mimar. Não há tios para aligeirar castigos. Ou para reforçar. Não há ninguém. Por isso, somos sempre coesos. Fazemos “bloco”. Exactamente porque sentimos que somos apenas dois a educar, o que exige de nós toneladas de paciência e amor. No fundo, é isso… somos apenas dois a amá-los.

Por vezes, não há tempo para deixar uma atitude madurecer. Seja uma atitude repressiva ou enaltecedora. Os dias sucedem-se, o tempo não volta atrás. Há ocasiões irrepetíveis. Momentos únicos, que não podemos estragar apenas porque não há ninguém à nossa volta para equilibrar o pêndulo. Por isso, na noite de Halloween, apesar de cansados, apesar de zangados, apesar dos timings profissionais atrasados, fomos festejar. Mascarámos o Vasco, agasalhámos os grandes e partimos à caça ao tesouro. Eles divertiram-se imenso, nós nem por isso. Fazer de polícia-bom nem sempre é prazeroso. Às vezes, é só uma questão de táctica.





[ Penso que nem vale a pena dizer que a máscara da coisa pequena ficou perdida algures pelo caminho... ]