quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Este ano que passou

(porque diz que é tempo de fazer balanços e fechar contas)


 

Desde que me lembro de ser gente que rejo a minha existência ao sabor dos anos lectivos. Setembro é sinónimo de recomeços. Ainda estava na faculdade quando tive o meu primeiro filho, portanto sempre houve anos lectivos na nossa vida. Mas, de há uns tempos para cá, Janeiro tem adquirido outra importância. Talvez porque a passagem dos anos seja inexorável. Talvez porque, entretanto, cresci. Não sei.
Neste final de ano, dei por mim cansada. Extremamente cansada. Cada vez aprecio mais os momentos sem filhos, a dois. As verdadeiras férias, sem obrigações, nem horários. Quando os fui levar ao aeroporto esta segunda-feira – depois de mil e uma atribulações que me mostraram bem o quão exausta ando – senti um alívio imenso. E isto é novo. E estranho. Mas é uma estranheza boa. Sem um vislumbre de culpa. Demorei muito a chegar aqui. Amo os meus rapazes e toda a minha vida gira em torno deles. A nossa vida gira em torno deles. Só que os rapazes cresceram e, agora, começa a ser o meu tempo. O nosso tempo. Estas pequenas pausas são apenas primícias do que me espera, nos anos vindouros.
Na viagem de regresso, feita pela primeira vez com o coração levezinho, pus-me a pensar no ano que passou. Tive de fazer um esforço para ir bem lá atrás, ao início de tudo. Percebi que a minha memória é mesmo muito curta. Provavelmente faço demasiados “reset”. O ano de 2015 foi duríssimo. Apesar de ter este blog, apesar de ter as nossas memórias aqui escritas e fotografadas… fica tanto por dizer. Ainda bem, não me entendam mal. Este “tanto por dizer” é propositado. É a nossa intimidade que também deve ser salvaguardada. Tenho é pena que a minha memória seja demasiado lesta a descartar-se do lado mais negro da nossa vida. Quando as coisas más passam, tendo a confiná-las às masmorras da memória a uma velocidade alucinante. Eu sei que fundamentalmente isto é bastante saudável, psicologicamente falando. Mas às vezes precisava que estas más lembranças fizessem um pequenino aceno, lá dos confins da memória, para me recordar o caminho percorrido. Porque também me parece positivo conseguir dar pancadinhas nas nossas próprias costas, enquanto dizemos: “Caraças, pá! Olha lá bem de onde vieste… Repara no caminho que percorreste este ano… Bolas, isso é que foi viver! Fantástico, estás de parabéns! Estiveste à altura dos acontecimentos”.

O ano que hoje termina foi um ano de muito trabalho, que deu os seus frutos. Viajámos muito, vivemos novas experiências, passámos por grandes aventuras. Escapámos tão incólumes à tempestade que quase nos esquecemos. Mas, em 2015, houve uma batalha judicial de proporções kafkianas pela guarda do meu filho Diogo. Uma descida aos infernos que durou meses e consumiu uma energia considerável. Saímos ilesos. Mais… saímos todos fortalecidos. Enquanto pessoas, enquanto mãe e filhos, enquanto casal, enquanto família. Não precisámos de assinar um contrato para nos casarmos. Bastou este ano. Agora, somos uma família, na verdadeira acepção do termo. O Diogo agradeceu várias vezes termo-nos batido por ele e isso, para nós, foi o ponto final efectivo nesta história absurda. O Vasco ficou um bocadinho esquecido no meio do tumulto, mas isso esteve longe de ser negativo. A coisa pequena cresceu, que é algo que faz sempre com enorme dificuldade. Nos últimos tempos (semanas, mesmo), começámos a assistir a ligeiros prelúdios de uma pré-adolescência anunciada. Dizer-vos que é assustador é pouco, mas não deixa de ser delicioso. Vá… é deliciosamente assustador. O meu amor fez um acto de abnegação sem limites, neste ano que passou. Dedicou-se por inteiro a nós, aos miúdos. E isto não tem agradecimento possível. Embora eu tente todos os dias cuidar dele com um amor, um desvelo, uma atenção, que nunca dediquei a ninguém na minha vida. É a única forma de tentar retribuir o que não tem compensação. Mas 2016 terá de ser o ano dele, com todas as mudanças que isso nos obrigará a fazer. O ano que se avizinha promete transformações profundas na nossa vida… porque será que não estou minimamente assustada?

[ Nós, na patetice. Como sempre. ]
 
 
Um excelente 2016 a quem por cá passa e nos estima. Que o próximo ano vos dê a coragem e os meios para concretizarem os vossos sonhos mais doidos!


sábado, 26 de dezembro de 2015

Natal futurístico

(onde se deseja um feliz Natal futurístico)

 


Estamos a passar o Natal mais futurístico de todos os tempos. Este ano, decidimos fazer um Natal alternativo. Já que não podíamos ter a pátria-mãe, a família, o bacalhau e as rabanadas... então, íamos mesmo dar uma volta de 180 graus à coisa. A nossa prenda principal para os rapazes foi uma nova experiência, uma nova aventura. Viemos passar o Natal ao Futuroscope, em Poitiers (França).
O Futuroscope fica a pouco mais de 6 horas de nossa casa. A ideia inicial era virmos de TGV mas, com a história dos atentados, achámos melhor vir de carro. Viajámos durante a noite, nas calmas e sem trânsito, e chegámos na manhã de dia 24. Depois de um dia extenuante a andar em todo o tipo de atracções malucas, regressámos ao nosso quarto de hotel, dentro do parque. A consoada foi passada aqui mesmo, a comer croquetes e rissóis comprados no Luxemburgo e a abrir as prendas. Diferente, mas divertida.
O dia de Natal foi novamente passado no Futuroscope. Só não conseguimos andar numa atracção, de resto fizemos tudo. As mais engraçadas, até repetimos. Vim por eles, porque pensei que era uma forma de os compensar por tudo o que não lhes posso oferecer nesta quadra. Mas diverti-me tanto ou mais do que os rapazes. Isto é mesmo muito giro, vale bem a pena. É uma alternativa à Eurodisney, que já não tem grande piada nestas idades. Os preços devem andar ela por ela, mas tem a vantagem de ser instrutivo e de também ser muitíssimo divertido para os adultos. Ah... e sem aquele merchandising todo da Disney que me põe os nervos em franja. À noite, jantámos no restaurante do "Artur e os Minimeus"... e tivemos de ir desmoer para Poitiers!
Foram dois dias fora de série. Quando regressar a casa, logo ponho fotografias para verem. Por agora, quero apenas desejar-vos a todos um feliz Natal, junto de quem mais amam.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Super-mulher

(onde se fala de ciclos viciosos)


 
Durante anos a fio, esgotamo-nos a viver uma vida de super-mulheres. Temos de conciliar trabalho, filhos, casa, marido. A família de origem, a que se herdou e a que se criou. Alimentamos a ideia de que somos perfeitas. Ainda mais perfeitas do que as nossas mães, que também acumulavam estas múltiplas funções, mas sem a pressão que a sociedade actual impõe às mulheres. Hoje, não basta ser perfeita, tem de se parecer perfeita. E, principalmente, feliz.
 
Temos estudos superiores e uma vida profissional estimulante, que consome grande parte da nossa energia. Isto sem descurar a vida pessoal: as saídas com as amigas, os bestsellers e os blockbusters do momento, a esteticista e a actividade desportiva, que uma mulher tem de saber cuidar de si. As viagens, a evasão. Talvez até mesmo um blog, onde relatamos a correria do dia-a-dia. Os nossos filhos andam em boas escolas, estudam inglês, piano e judo nos tempos livres. Nos fins-de-semana, são estimulados com workshops de artes e iniciação ao ioga. Saídas culturais em família. E, no meio disto, o tempo a dois. Já se sabe que as relações se desgastam com os anos. Mais do que nunca, há a consciência de que é preciso investir no casal. Alimentar a paixão.

Nesta vida de mulher-mãe-esposa perfeita não há margem para erro. Se engordamos é porque negligenciamos a nossa imagem de mulheres. Se o miúdo tem más notas é porque não o estimulamos correctamente. Se a entidade empregadora não nos dá a promoção desejada é porque damos demasiada importância à vida familiar. Se a família se queixa da nossa ausência é porque não sabemos optimizar o tempo. Se a amiga deixa de nos convidar é porque andámos obcecadas com os filhos. Se o miúdo apanha um estalo é porque ainda não dominamos eficazmente as teorias do mindfulness e não nos conseguimos controlar. Se o marido arranja outra é porque não soubemos manter a chama do casamento e nos esgotamos na função materna. Se adoecemos é porque não somos suficientemente fortes a nível psicológico e o corpo grita por ajuda.

E assim vamos vivendo a nossa vida, permanentemente sob tensão. Subjugadas pela perfeição inatingível que se espera de nós. Felizmente, um dia, os miúdos crescem. E nem parecem por aí além traumatizados. O marido acaba mesmo por ficar com a secretária, que sabe dar valor a um homem “que ajuda”. Levando com ele a família que éramos obrigados aturar. Mal ou bem, lá nos vamos safando no trabalho e até conseguimos fazer carreira. As amizades que se mantiveram sabemos agora que são para a vida. Os laços familiares estreitam-se nas dificuldades. O dinheiro começa a esticar para pequenos luxos que nos dão prazer. A idade traz-nos segurança e uma beleza que nunca soubemos apreciar. Talvez nos traga também outro amor, uma relação baseada em novas premissas. E o sentimento de que uma segunda vida começa. Uma existência menos perfeita, mas mais real. Até que temos vontade de celebrar esse crescimento, essa renovação da vida, essa segunda oportunidade… e temos mais um filho. E volta tudo ao início.

Está na moda ter filhos depois dos quarenta. Em Portugal, bem entendido. Por aqui, as mulheres têm os filhos todos seguidos bastante cedo. Não tenho nada contra ter filhos tardiamente, quando se optou por fazer outras coisas antes. Por “aproveitar a vida”, como se costuma dizer. O que me faz uma certa confusão é ter filhos depois dos quarenta, quando já se tem filhos a entrar na adolescência. Ou, pior, em plena adolescência. O que me faz imensa confusão é voltar novamente à estaca zero na escala da perfeição. E refazer tudo outra vez, mas agora de maneira “diferente”,condicionando irremediavelmente os próximos 20 anos da nossa vida. O que me faz uma confusão tremenda é imaginar ter filhos adolescentes e netos bebés. E permanecer uma vida inteira completamente dependente de um homem, porque já se sabe que as crianças pequenas sugam as mães, não os pais.

Não consigo ter esta visão conformada da vida, que parece esgotar-se num eterno ciclo vicioso. Libertei-me da pressão da sociedade, recuso-me a voltar a viver sob o jugo da imagem da super-mulher. Prefiro as manhãs de sábado que se eternizam a dois na cama à natação para bebés. Gosto de gerir a minha vida profissional sem ter medo de receber um telefonema da escola a dizer que o miúdo está cheio de febre. Assumo que já não estou para aturar novas famílias, a minha chega-me perfeitamente. Os meus tempos livres são passados em programas que nos agradam aos quatro, sem a preocupação dos estímulos precoces. Se me apetecer não cozinhar, já ninguém fica com fome em casa. Prefiro de longe ter um homem que me considera como sua igual a preocupações femininas fúteis. Adoro ver os filhos crescerem e vibro com cada autonomia conquistada. Dentro em breve, o meu tempo será só meu. Só nosso. Primeiro, sei que terei de voltar às noites mal dormidas, à espera de um adolescente folião. Mas tenho esperança de aproveitar esse tempo para fazer aquelas coisas que dois adultos que se amam e que não estão à beira da exaustão gostam de fazer. Ou ler, vá… Se decidir condicionar os próximos anos da minha vida, prefiro de longe um doutoramento a um bebé. Por uma questão de egoísmo, sim. E de liberdade.




sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Um homem

(onde se percebe a importância das denominações)


 

Os bilhetes para a estreia do Star Wars, na quarta-feira passada, ficaram um bocadinho mais caros do que o esperado. Porque as criaturas estavam com fome antes do filme, durante o filme e depois do filme. Porque era preciso comprar um “pack Star Wars” pipocas e bebida para ter direito ao cartaz oficial. Porque o Chewbacca de peluche era mesmo amoroso. Porque fomos tirar uma fotografia no photomaton para marcar o dia pelo qual as criaturas esperaram tantoooos anos e o meu iPhone desapareceu para parte incerta, no meio disto tudo. Saiu barata a festa, portanto.

Ontem saí atrasada do trabalho. Chovia. Apanhei trânsito. A entrada da autoestrada estava cortada. E eu sem telemóvel para avisar alguém em casa. Cheguei à escola do Vasco já depois das 17h, pela primeira vez. Numa pilha de nervos, porque dali a pouco tinha de ir dar aula de Espanhol (é mais uma farra, mas pronto). Já estava escuro e não vi o Vasco. Uns miúdos começaram à procura dele. Que ainda há pouco ali estava. Que tinham estado a jogar à bola. Que parecia impossível ter desaparecido assim. Até que apareceu a educadora ao longe, que andava a apagar as luzes. Quando me viu feita barata tonta no recreio, gritou-me que o Vasco já se tinha ido embora. Senti-me desfalecer. Perguntei com quem. Só ouvi um qualquer-coisa-papa. Senti-me tonta. E fiquei ali especada, sem me conseguir mexer.

A educadora entretanto aproximou-se de mim. Pôs-me uma mão no ombro e repetiu meigamente “Il est parti avec son beau-papa”. Perguntei-lhe se tinha mesmo a certeza, ele não me tinha avisado que ia buscá-lo. Pois claro que não, eu não tinha telemóvel, lembrou-me ela. Aquilo é que era um homem! Que às 17h quando não me viu em casa percebeu que tinha havido um contratempo e foi a correr buscar o menino. Que homem! Recomecei a respirar normalmente. Disse-lhe que em nossa casa não usamos esse termo… beau-père. Ela riu-se. Que já tinha percebido. Que o Vasco lhe chama “mon Pascal”. Que é exactamente a mesma coisa. Que posso chamar-lhe o que quiser, mas é isso que ele é. Que homem!

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Dia mãe-filho

(porque ontem descemos à cidade a dois)



O Diogo e eu sempre tivemos um “dia mãe-filho”. Não me lembro bem como é que este dia surgiu, mas sei que foi muito antes do nascimento do Vasco. São momentos privilegiados a dois. Não é preciso fazermos nada de especial, basta estarmos juntos. Longe da rotina habitual. Sem horários, nem obrigações. É um tempo para falarmos de coisas sérias e de coisa nenhuma. Para rirmos. Para nos mimarmos. Para cuidarmos desta nossa relação mãe-filho, que vai crescendo com o Diogo. Uma relação que amadureceu muito com a entrada do filho crescido na adolescência. Às vezes, sinto necessidade de fazer uma espécie de ponto de situação. Nem sempre os ouvidos que o ouvem lhe conseguem prestar a atenção merecida… no meio dos trabalhos que acumulo, da traquinice do irmão, das horas de estudo, das idas e vindas das actividades e do jantar que está ao lume. Por isso, é bom parar para o ouvir com ouvidos de gente. Para olhar para ele com olhos de ver. Há quem faça risquinhos na parede para assinalar o crescimento das crianças, eu faço regularmente o “dia mãe-filho”. A única diferença é que o encosto a mim e faço um risquinho no coração.

Entretanto, apareceu a coisa pequena. O conceito alargou-se. Passámos a ter o “dia mãe-filho grande” e o “dia mãe-filho pequeno”. Depois, apareceu o meu amor, que também exigiu ter momentos exclusivos. O Diogo chamou-lhe “le jour beau-père-beau-fils” e assim ficou, apesar de normalmente não durar um dia inteiro como os nossos. O meu amor não tem a minha paciência para andar a ver as lojas que mais lhes agradam, nem a coragem de almoçar num fast-food. Quase sempre, o dia dele é composto por passeios, experiências ou maluquices envoltas nalgum secretismo que me ultrapassa.

Ontem foi “dia mãe-filho grande”. Aproveitámos o Vasco ainda estar em aulas e o Diogo já ter acabado a sessão de exames, para passarmos algum tempo juntos. Fomos até Liège para ele fazer as compras de Natal. Gosto de aproveitar a viagem de carro para conversar. Fica a dica, porque nem sempre é fácil falar com um adolescente: dentro de um carro não dá para fugir ou arranjar pretextos para desviar a conversa. Desta vez, não foi preciso. Esteve duas horas a falar sem parar, enquanto ouvíamos Vivaldi. À ida, falou das aulas de órgão, a sua nova paixão; à vinda, da programação 2016 da Opéra Royal de Wallonie. Em Liège, passámos a tarde a ver lojas e demos uma voltinha pelo mercado de Natal. Todos os sítios eram motivo para tagarelar: os jogos que gosta, os livros que anda a ler, as séries preferidas, o estilo de roupa que agora lhe agrada. Os planos para o futuro. Só não comprou mais prendas para o Vasco, porque eu não deixei. É tão bom assistir ao crescimento desta relação de irmãos! De vez em quando, agarrava-se a mim a dizer o quanto me adora. A agradecer-me pelo dia, que estava a ser fantástico. E a lembrar-me que, no dia seguinte, tínhamos a antestreia do novo filme do Star Wars. E eu ria, feita parva. Porque gosto mesmo destes momentos a dois. Gosto de redescobrir este filho mutante. Porque tenho noção de que estas declarações de amor têm os dias contados. E tenciono aproveitá-las ao máximo.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Era suposto ser um Natal lowcost

(mas entretanto a malta deixou-se entusiasmar)



O tempo dos Natais faustosos já lá vai. Esta crise mundial conseguiu pôr cobro ao consumismo desenfreado tipicamente natalício. O mais importante, nos dias de hoje, não são as prendas, mas as pessoas. Os momentos passados em família. E a oportunidade de nos alambazarmos à volta de uma boa mesa sem nos sentirmos culpados, vá…

Por força das circunstâncias, a nossa família está longe. Não que nesta época sinta mais falta das pessoas que amo do que noutra qualquer. As saudades são uma constante o ano inteiro. Mas, tendo em conta que os miúdos vão passar este Natal connosco, “a festa de família” – a única coisa que resta aos verdadeiros ateus nesta quadra – tornou-se um problema premente. Decidimos, então, fazer um Natal alternativo. Explicámos aos miúdos que, este ano, a nossa prenda seria uma “experiência”: vamos passar dois dias no Futuroscope, em Poitiers (França). Entre viagem, estadia, alimentação e as entradas do parque, o orçamento não comportava mais nenhuma oferta. Embora não estivesse a contar com uma adesão imediata à ideia, a verdade é que os rapazes ficaram todos contentes.

Entretanto, veio o dia de Saint-Nicolas. Na Bélgica, o “Natal das crianças” celebra-se a 6 de Dezembro. Mesmo quando já são mais crescidos, os miúdos continuam a receber as prendas neste dia, juntamente com um prato cheio de doces, frutos secos e tangerinas. A consoada de Natal, propriamente dita, é uma festa dos adultos e da família. Acho piada à tradição do prato de doces, à mesa do pequeno-almoço, onde deixo sempre também algumas prendinhas. Também me agrada o facto de as prendas não estarem embrulhadas, parece-me bastante mais ecológico. Nunca compro nada muito caro, é só mesmo para eles não se sentirem mal quando os colegas na escola mostrarem as prendas que receberam. No ano passado, decidi fazer também um prato para o meu amor. E, sinceramente, não sei qual dos homens da casa ficou mais feliz. Este ano, como não podia deixar de ser, voltei a repetir a surpresa. Como senti que o Diogo tinha ficado um nadinha enciumado com a tonelada de prendas e a atenção que a coisa pequena recebeu nos anos, caprichei nos pratos, por assim dizer. Aproveitei para o mimar especialmente a ele, sem que o irmão percebesse. O filho pequeno ainda está naquela idade em que fica entusiasmado com uma BD em segunda mão, um chocolate grande e uns brinqueditos baratos.

Entretanto, montei a árvore de Natal. Cá em casa, a tradição é estar tudo decorado no dia de anos do Vasco. Ter aquela trabalheira toda por meia dúzia de dias é coisa que não me convence… se é para fazer, que seja para durar um mês inteirinho. Este ano, decidi mudar completamente os enfeites. Acho que o espírito natalício baixou em mim. Estava mesmo a apetecer-me ter tudo vermelho e branco. E um pinheiro verdadeiro, daqueles tipicamente nórdicos, como os que se vendem por aqui. Deixei-me levar pela onda das decorações, mas achei melhor não embarcar em grandes disparates e manter a nossa árvore dos anos anteriores. Tanto caminho foi percorrido desde a primeira vez que montei uma árvore de Natal na Bélgica! Já não me revejo nada na nostalgia que senti noutros tempos. Enfim…

Depois de montar a árvore de Natal, achei que faltava ali algo… Árvore que é árvore, tem uns quantos embrulhos em baixo para ficar com um ar mais composto. E, bem vistas as coisas, os miúdos têm de desembrulhar algum presente à meia-noite, no hotel. Comecei, então, a comprar as prendas. Coisas à Rita, bem entendido. Livros e DVDs em segunda mão, uma ou outra peça de roupa, algum merchandising do novo Star Wars, jogos de sociedade, caixas de experiências e, principalmente, pequenas patetices cómicas para lhes arrancar uns sorrisos na noite de Natal.

Os rapazes agarraram na deixa e decidiram que este Natal também iam oferecer prendas, como gente grande. Fiquei comovida com as prendas que o Vasco quis comprar com o seu próprio dinheiro. Entretanto, uma espécie de espírito natalício baixou também sobre o meu Belga. Passa horas na Net em sites misteriosos a escolher prendas altamente tecnológicas para os miúdos. Coisas que eu nem sequer sabia que existiam. Tentei explicar-lhe que a ida ao Futuroscope era a nossa prenda, que os embrulhos debaixo da árvore eram as nossas prendas… até que desisti, porque percebi que o problema não estava na incapacidade em conceber  que somos uma entidade conjunta. O meu amor, pela primeira vez, tem crianças a quem dar prendas na noite de Natal. E está feliz da vida. No nosso primeiro Natal, ainda estava a viver em Itália e, no segundo, os miúdos não estavam connosco. Portanto, o meu amor decidiu que este ano era a loucura total. Aliás, esta sua súbita vontade de encarnar o pai Natal estendeu-se também a mim… nos últimos dias têm entrado cá em casa caixas de um tamanho espantosamente grande. Como eu não tenho a força de vontade dos meus homens, as minhas prendas foram todas cuidadosamente escondidas. Sim… eu ainda espreito os embrulhos à socapa, tenho de admitir com alguma vergonha.

Resumindo e concluindo, o Natal que eu tinha idealizado, o Natal que supostamente seria poupadinho e mais centrado na vivência do que nas coisas terrenas, descambou por completo. Já desistimos de levar o Twingo na viagem até Poitiers. O jipe do meu amor vai ter mesmo de voltar a sair da garagem. Não temos família por perto e desconfio que também não vamos ter uma mesa típica de Natal… mas tenho a certeza de que teremos uma consoada com aquela magia especial da nossa infância. Eu já estou cheia de nervoso miudinho como não sentia há muitos, muitos, muitos anos.


[ a árvore mais bonita do mundo e o descalabro ]

  [ o nosso Saint-Nicolas ]


PS: Mãe, as tuas prendas já chegaram e também já estão debaixo da árvore... vês?

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Entretanto, a vida

(dos espaços, tempos e estados de espírito certos)



No Verão, quando soube que ia ficar sem as aulas de Espanhol, não entrei em pânico. Fiquei preocupada, não o nego. No entanto, estava confiante de que alguma coisa haveria de se arranjar. A verdade é que a sorte tem-me sorrido, desde que arrisquei mudar de vida. É preciso que se diga que a sorte dá uma trabalheira desgraçada. E, por vezes, prega-nos pequenas rasteiras. Mas, quando uma pessoa acredita que tem sorte na vida, até se consegue rir das quedas e se levanta mais depressa, sem olhar em volta para ver se alguém assistiu ao trambolhão. A nossa perspectiva muda completamente.

Sabem aquela frase da Catarina Beato que tem o condão de irritar as pessoas? “A vida resolve-se sozinha.” Estou desconfiada de que os mais patetas a devem levar à letra, o que é um perfeito disparate. Enfim… Um disparate quase tão grande como pensar que tudo depende de nós, que temos de estar motivados e ser proactivos em todos os momentos da nossa vida. Que nunca podemos baixar os braços.

Se houve lição que eu aprendi, quando a vida me trocou as voltas, é que nunca conseguiremos controlar todas as variáveis de um problema. Ora eu era uma pessoa que precisava de controlar tudo à minha volta, de antecipar problemas e conjecturar soluções hipotéticas. Sempre sofri por antecipação. Sempre vivi muito mais no futuro do que no presente. Até que caí. E sofri horrores. Nessa altura, fui obrigada a vasculhar o passado para procurar algumas respostas de que precisava urgentemente para compreender o que se estava a passar na minha vida. Percebi que nem tudo era visível ou dedutível… mas, caramba, havia tanta coisa que permaneceu anos a fio à frente dos meus olhos sem que eu conseguisse ver. Demorei a perdoar a minha cegueira.

A questão é que nós só vemos aquilo que estamos preparados para ver. Acredito profundamente que as coisas só acontecem quando somos capazes de as enfrentar. Só que ainda não sabemos. Às vezes, é mesmo preciso deixar andar. Largar. Deixar a vida acontecer. Sem pensar muito, sem agir muito. A inércia nem sempre é sinónimo de apatia. Pode ser uma espécie de dormir acordado, de trabalhar problemas não resolvidos através do sonho. Durante anos fui crescendo, sonâmbula. Até que acordei para a vida. Literalmente.

Enquanto vivi adormecida, fui acumulando experiências profissionais que acabaram por se revelar extremamente úteis nesta minha segunda existência. Os filhos que o meu amor nunca desejou nasceram. Transformaram-me na mãe que sempre sonhei ser. Cresceram o suficiente para terem autonomia necessária para darmos o salto a três. O meu amor estudou, viajou, navegou, mergulhou, pilotou. E no momento certo – nem antes, nem depois – encontrámo-nos os quatro. Num lapso espácio-temporal perfeito. Isto foi sorte, inquestionavelmente. Tudo o resto é trabalho. Fazemos um esforço hercúleo, quotidiano, para estarmos à altura da sorte que nos foi oferecida. Do desafio.

Já não sofro por antecipação. Não vivo no futuro. Não ando à espreita de possíveis dificuldades. Vivo o aqui e o agora que a sorte me proporcionou. Vivo uma felicidade feita de pequeninas coisas. A declaração de amor que encontrei rabiscada num papelinho quando abri este computador, no final do dia. A alegria do Vasco, que foi dormir pela primeira vez a casa de um amigo. O pedido do filho grande para fazermos qualquer coisa a dois.

No Verão, quando soube que ia ficar sem as aulas de Espanhol, já não entrei em pânico. Como teria certamente acontecido noutros tempos. Reduzimos as saídas, os passeios, os restaurantes. Começámos a aventurar-nos por estas Ardenas maravilhosas que nos rodeiam. Descobrimos sabores surpreendentes, quando o meu amor começou a cozinhar para nós. Sem dizer nada, reduzi também alguns médicos e as poucas vaidades que tinha. Confiante, comecei calmamente à procura de pequenos trabalhos, como contei no post passado. Esta semana arranjei mais um. Vou voltar à saudosa tradução e legendagem, por valores bem mais elevados do que os anteriores. Fiquei feliz.


[ Soube hoje que não passei à fase seguinte no concurso da Comunidade Europeia para tradutores de português. Por um ponto apenas. É tão eu, que desatei a rir quando li a mensagem. Raciocínio abstracto e matemática, what else?! Mas também o que raio iria eu fazer para Bruxelas? Os 4000 e tal euros mensais haviam de ser gastos a pagar impostos, uma casa minúscula e uma empregada para tomar conta dos filhos. Os meus dias seriam consumidos entre traduções enfadonhas de um projecto no qual não acredito minimamente e o trânsito infernal da capital europeia. Vistas bem as coisas, posso ficar com a minha consciência apaziguada por ter tentado, mas há males que vêm por bem. Acredito mesmo nisso. E, pronto… para tranquilizar também o ego, nos testes de compreensão linguística de francês e inglês tive uma excelente pontuação. Pode não servir para grande coisa, mas fiquei feliz por saber que sou boa tradutora. Porque, no fundo, apesar dos meus sete ofícios, é isso que eu sou. ]

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Malabarismos

(onde se explica como se chega ao fim do mês)


 

Não é fácil viver com um part-time de 19h por semana, embora não me possa queixar do salário. Longe disso. Mas acho piada falar-se tanto, em Portugal, dos salários mínimos de outros países. O que as pessoas não sabem é que, em muitos países do norte da Europa, como por exemplo na Bélgica, a maioria das mães com filhos pequenos trabalha a 4/5 ou a 1/2 tempo. Isto equivale, grosso modo, a um ou dois dias livres por semana. Ou a horários de trabalho fora do vulgar. A flexibilidade é enorme… até porque as aulas terminam às 11h50, às quartas-feiras. E o ATL só está aberto até às 17h30. As minhas colegas mais organizadas, que entram cedo e almoçam em 15 minutos, conseguem ter três dias por semana livres. Eu preferi adaptar o meu horário de trabalho aos horários da escola do Vasco. E as minhas folgas variam anualmente, consoante as actividades extra-curriculares. Se isto é luxo? Obviamente que sim, mas também não se recebe o tal “salário mínimo”. Economicamente falando, vale a pena, há mais produtividade e menos desemprego. Em termos familiares, as vantagens são claras. Esta foi a maneira que eu arranjei de compensar o facto de estarmos sozinhos, de não termos ajudas familiares. O contrapeso de termos emigrado é eu ser uma mãe muito presente na vida dos meus filhos.

É evidente que o delicado equilíbrio entre trabalho-família-finanças domésticas exige um certo malabarismo. E as coisas complicaram-se seriamente quando a escola onde dava aulas foi obrigada a cortar cursos por falta de verbas, no início do ano lectivo. Sim, a crise também já chegou à Bélgica, embora bastante mais comedida. Por isso, desde Setembro que acumulo pequenos trabalhos para “arredondar os fins do mês”, como se diz por aqui. Felizmente, na Bélgica, não é difícil arranjar estes biscates.

Os meus antigos alunos convidaram-me para lhes dar aulas de conversação em espanhol. Uma coisa menos teórica do que as aulas rígidas que tinham de seguir um programa pré-definido. Todos os meses lhes mando um tema com umas pistas de reflexão por e-mail e, no dia combinado, reunimo-nos em casa de um deles para o debate. À volta de uma boa mesa, como não podia deixar de ser. Já lhes disse que não me sinto bem por receber para estar presente nestes encontros gastronómicos, mas ninguém me liga nenhuma. Tentam convencer-me a beber um copo. Mas tem sido uma enorme fonte de prazer. Vá… de galhofa.

Por outro lado, mantenho as traduções, de forma mais ou menos intermitente. Normalmente, são textos pequenos. Artigos, cartas, diplomas, burocracias. Outras vezes, são livros inteiros, que me obrigam a trabalhar fins-de-semana e noites a fio, como há pouco tempo. Neste momento, faço muitas poucas traduções para o meio audiovisual, porque os preços que se praticam em Portugal são obscenos para os padrões a que me habituei. A regra de ouro, para mim, é sempre a mesma: o tempo roubado à família tem de se justificar financeiramente. Infelizmente, a tradução e legendagem já não compensa. E é uma pena porque é o tipo de tradução que mais prazer me dá.

Há uns tempos respondi a um anúncio algo enigmático. Percebi depois que era para ser cliente-mistério para uma empresa na Flandres. Dispensaram-me da formação in loco, porque vivo na outra ponta da Bélgica. Simplificaram o processo e fazemos tudo online. Excepto as visitas propriamente ditas, como é óbvio. Mas eles adaptam as lojas que me pedem para avaliar ao meu “triângulo geográfico”: trabalho-casa-local habitual de compras. E aos meus horários algo intrincados. Numa outra vida, quando era uma miúda pespeneta, sonhava com este trabalho. Chegar a algum lado, armar o maior banzé e, no fim, anunciar triunfal: “Sou cliente-mistério!”. Agora que o tenho, custa-me. Mudei muito. A vida mudou-me. Olho para aquelas pessoas e penso que podem estar num mau dia. Que têm famílias. Que é esgotante estar horas a fio de pé, num espaço fechado apinhado de gente. Aos poucos, arranjei um método que tenta tirar o melhor de cada um. Comecei a gostar deste trabalho quando percebi que, com um bocadinho de boa vontade, podia ter uma acção positiva na vida das pessoas. Percebi que simpatia gera simpatia.

Tive a confirmação disso mesmo, no outro dia, quando o meu amor se atrasou e eu tive de levar o Vasco para avaliar uma loja. Ora ir fazer de cliente-mistério com um desbocado atrás, é uma missão quase impossível. Eu ia cheia de medo e repeti o discurso vezes sem conta. Fiz um esforço enorme para não ceder à chantagem típica: “se te portares bem, a mãe dá-te um chocolate depois” (sim… os meus filhos vendem-se por pouco). Felizmente a loja tinha uma zona infantil e ele entreteve-se a brincar, sem se aproximar de mim. Correu tudo muito bem e o alívio era generalizado. No fim, quando já estava a sair com a coisa pequena pela mão, a gerente ofereceu-lhe um pai natal enorme de chocolate. Achei que era uma espécie de justiça divina. No carro, o Vasco confessou-me: “Não sei como é que fazes, mãe… Arranjas sempre uns trabalhos tão fixes!”. É nestes momentos que me sinto verdadeiramente agradecida por a vida me ter trocado as voltas e me ter obrigado a mudar de rota.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Finalmente… o vídeo!

(ou “un vrai tsunami”, como lhe chamou o Vasco)



Peço desculpa pela demora, mas foi o filho crescido que filmou e vocês sabem que, a partir de certa idade, o corpo enche-se de moleza e é muito difícil conseguir que faça algo em tempo útil. Não, não estou a falar dos velhotes. Já percebi que a adolescência é uma espécie de preview da 3ª idade… surge envolta em esquecimento, lentidão, resmunguice e sonolência. Mas, pronto, o Diogo lá se decidiu a mandar o vídeo. E eu escolhi umas quantas fotos deste dia, para ficarem para a posterioridade… já passou uma semana e ainda me custa a crer que a nossa coisa pequena tenha mesmo nove anos!

  [ 24 cupcakes para levar para a escola… não sei exactamente em que momento tive a malfadada ideia de substituir o bolo de anos pelos cupcakes, mas o Vasco nunca mais me deixou voltar atrás. ]

  [ o monte de prendas que o Vasco foi abrindo à medida que falava com a família ]

  [ quando já não cabia mais comida no frigorífico, usámos o frio natural… ]

  [ à última da hora, mais 5 meninos confirmaram presença e eu tive de desenrascar mais um bolo! ]

  [ por mais mariquices que se veja na net, confirma-se que os miúdos continuam a gostar mesmo é das coisas do costume: batatas-fritas, gomas, queques, pipocas, rebuçados…]

  [ não, eu não lhe vesti esta camisola velha no dia de anos… ele é que conseguiu voltar da escola já sem a bonita camisola que a madrinha lhe tinha oferecido! ]

  [ quando as marabuntas voltaram todas para casa e o caos finalmente amainou, fomos jantar ao restaurante preferido do Vasco e aproveitámos para espreitar o correio… ]

  [ a primeira prenda de menino crescido! ]

  [ a avalanche de postais organizadinha… acho que faltam alguns, que andam perdidos da mochila da escola! ]
video
  [ ora vejam lá o espanto da coisa pequena! ]


Não tenho palavras para vos agradecer a alegria que deram ao Vasco. Foi uma surpresa para lá de espectacular, que encerrou um dia fantástico. Os olhos dele brilhavam. No restaurante, leu cada um dos vossos postais com uma atenção que nos comoveu. Fez imensas perguntas sobre os diferentes países. Reparou em detalhes que me escaparam a mim, que tinha feito uma leitura prévia. Gostou muito de perceber que as pessoas o “conheciam”. Diz que tem um club de fãs (ok… vamos ter de trabalhar a humildade, nos próximos tempos). E prometeu que ia mandar um postal de Natal a todos.

Resta-me apenas fazer um pequeno esclarecimento que me parece importante sobre o aspecto linguístico que envolve toda a problemática da emigração. No vídeo, estamos a falar francês. A razão é muito simples. Normalmente, quando me dirijo aos miúdos, faço-o em português. Mas quando lhes respondo ou quando continuo uma conversa já iniciada, faço-o na língua que eles estão a usar, para evitar aquela mixórdia linguística típica dos emigrantes. Obviamente, tendo em conta que a nossa família é composta por duas nacionalidades, tendemos a usar mais o francês por uma questão de respeito para com o meu amor. Apesar disto, o Vasco tende naturalmente para o francês e o Diogo para o português, como se percebe neste vídeo.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

A perfeição está no meu olhar

(porque podemos sempre escolher o nosso ângulo de visão)



Quando releio algumas coisas que aqui escrevi, percebo que deixo transparecer a ideia de que sou daquelas mães que pensam que os filhos são perfeitos. Não tenho qualquer pudor em confirmá-lo. É verdade… acho mesmo que os meus filhos são perfeitos. Mais, também acho que o meu amor é perfeito.

Se no meio desta perfeição toda têm defeitos? Obviamente…

O meu amor tem um feitio terrível, forjado pelos longos anos de solidão.
O Diogo é demasiado maleável, tende a moldar-se às situações e pessoas com quem está, sendo muitas vezes incapaz de impor a sua vontade.
O Vasco… bem, o Vasco é o Vasco. Vive num mundo de difícil acesso. Imune a conversas, ralhetes e castigos.

O facto de os achar perfeitos, não significa que seja cega. Ou iludida. Eles não são os melhores do mundo. Mas são os melhores do meu mundo. E isso basta-me. A questão é que a perfeição está no meu olhar, não neles. Porque cada um deles é muito mais do que a soma de todos os seus defeitos.

Digo muitas vezes ao meu amor que ele é “o meu perfeito”. Aos meus filhos digo o mesmo de outra maneira. Digo que tenho muito orgulho em ser mãe deles. Acho importante mostrarmos que amamos a pessoas tal como elas são. Fazê-las sentirem-se perfeitas aos nossos olhos. É assim uma espécie de capa de super-herói que lhes damos para enfrentarem a vida.

O Amigo Imaginário é o guardador das nossas memórias. E eu quero que essas memórias sejam tão cruas como a realidade de que se alimentam, mas também quero que tenham um travo doce. Acredito que se escolhermos ver a vida e as pessoas que nos acompanham com esse filtro de doçura, encontraremos mais perfeição.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Parabéns, amor docinho da mãe!

(“Há um ano inteiro que espero por este dia”, disse o Vasco esta manhã)

 
 
Passei nove meses angustiada, sem dizer nada a ninguém. Tinha um medo absurdo de não conseguir amar aquele filho que ali vinha como amava o outro… já crescido, saudável, lindo de morrer, com uma inteligência espantosa, um sentido de humor peculiar, assombrosamente perfeito. Parecia-me impossível conseguir amar mais alguém com a mesma intensidade. Pior, parecia-me impossível que o nosso mundo, o nosso binómio, pudesse incluir outra pessoa.

Há nove anos atrás, a minha angústia desapareceu. A minha vida ficou perfeita. O nosso mundo alargou. Transformámo-nos num trinómio. A tribo. Por incrível que pareça, o Vasco consegue ser tudo o que o irmão é… crescido, saudável, lindo de morrer, com uma inteligência espantosa, um sentido de humor peculiar, assombrosamente perfeito. Mas consegue sê-lo de maneira completamente diferente. O que torna tudo isto mais divertido. Porque, acreditem, ser mãe do Vasco é uma aventura muitíssimo divertida.

Parabéns, amor docinho da mãe!
 


 

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

A minha fada-madrinha

(porque gosto muito de si, tia)


 

Nascida numa família arreigadamente ateia, não tive direito a padrinhos. Mas a vida encarregou-se de corrigir esse erro inicial e deu-me uma fada-madrinha.

Esta fada-madrinha começou por ter uma importância enorme na minha vida porque desbravou caminho. Porque marcou posição. Porque abriu um precedente familiar. Porque “já a Maria Clarisse era assim”. E esse “assim” explicava tudo, não carecia de outras justificações. Explicava esquecer-me do tempo, do lugar, das pessoas, das coisas, da cabeça. Eu era “assim” e nem valia a pena tentarem mudar-me, porque já a minha tia era “assim” e nunca ninguém a tinha conseguido mudar.

Durante a minha infância, a fada-madrinha salvou-me do arreigamento familiar. Enquanto as minhas amigas tinham Barbies, eu tinha Playmobil e Legos. Vá… lá consegui convencer os meus pais de que os Pin&Pon também requeriam grande engenharia mental. E não eram um atentado à mulher emancipada. Apesar de tudo, nunca fui ostracizada pela meninada graças às prendas trazidas periodicamente de Inglaterra pela minha fada-madrinha. Eram coisas nunca antes vistas no Portugal dos anos 80, que causavam furor no recreio: blocos e borrachas com cheiro, bolinhas de sabão gigantescas, canetas que escreviam e apagavam, um quadro negro onde apareciam por magia letras coloridas. Tudo isto compensava a ausência do cor-de-rosa na minha vida.

Quando, já adolescente, se tornou evidente que a minha estranheza só tendia a piorar, a fada-madrinha veio novamente em meu auxílio. Saída daquele Portugal ainda tão pequenino, tinha encontrado além-Mancha a explicação. Um dos porquês do “assim”. Finalmente, deu-se um nome à coisa: “Dislexia”. E isso foi importantíssimo. Não tanto pela maneira como era tratada (julgada?), mas pelo modo como passei a olhar para mim. Quando se tem consciência do problema, é mais fácil procurar soluções. Graças a ela, pude ir descobrindo estratagemas para lidar comigo própria. E isso mudou a minha vida.

A influência da minha fada-madrinha nunca diminuiu, bem pelo contrário. Irrompeu na idade adulta, numa relação de proximidade à distância. De novo, na senda de um abrir caminho. De me facilitar sempre a vida através de um modelo real. Vi nela aquilo que eu não queria ser, mas onde acabei por ir parar. Com a solidão, as noites de trabalho, o cansaço acumulado, os prazos apertados, a insegurança financeira. As línguas que se aprendem já na idade adulta com a mesma facilidade. A dislexia tem tanto que se lhe diga! Principalmente, vi nela um modelo de mãe como eu queria ser. Alguém que põe os filhos e a sua educação acima de tudo. Alguém com uma capacidade de aceitação, de empatia, de motivação pela positiva. A minha fada-madrinha é uma pessoa profundamente boa. E, às vezes, quando irrompe numa gargalhada, consigo vislumbrar aquela outra Clarisse de quem tenho tantas saudades. De quem também herdámos, entre outras coisas, o amor, o cuidado e a dedicação à nossa família. A generosidade. O gosto pelas viagens. A capacidade de fazermos uma infinidade de coisas em simultâneo com uma calma apressada.

O mais engraçado é que esta minha fada-madrinha, que tantas e tantas vezes me deitou a mão desde que a nossa vida desabou, emerge agora na personalidade tão especial do meu filho pequeno. Dizem que o Vasco é muito parecido comigo. Eu acho que o Vasco é muito parecido com a nossa fada-madrinha. É muito parecido com as Clarisses. E fico duplamente orgulhosa.

E porque hoje esta pessoa absolutamente fantástica faz anos, aqui fica o meu pequenino tributo. Porque me sinto imensamente grata por tê-la na minha vida. Porque muito do que hoje sou, devo-o a ela.
 

[ Porque além de vivermos com a cabeça e o coração entre duas línguas e dois países,
ainda temos o amor pelo espanhol em comum... ]


sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Um pé e depois o outro

(quando a sincronia da vida entra em acção

para nos mostrar o que é verdadeiramente importante)


 

Esqueci-me que a data limite para entregar o meu artigo para o número de Dezembro da revista terminava esta semana. E tinham acabado de me pedir para traduzir um texto em chinês (não é, mas é como se fosse) sobre uma nova experiência com ratos trissómicos em Espanha.

Ouço vozes animadas no corredor. Gritos. Palmas. Muitos risos. E uma bola a bater na porta do meu escritório. Uma vez. Outra vez. E mais outra.

Sinto crescer em mim uma raiva surda. Aumentei o volume da música. “As ideias estão no chão/Você tropeça e acha a solução”, cantavam os Titãs. Não… nem por isso.

De repente, batem à porta. “Rita, anda cá ver isto!”. Nem tive tempo de me levantar, a porta escancara-se. Vejo um menino com um sorriso enorme estampado na cara. Devia ter uns três anos. Olha para mim e diz: “Un piedpuis, l’autre pied! Un piedpuis, l’autre pied!”. E avança, meio titubeante, ao som desta ladainha. Vê-se que é uma atitude consciente, que exige um esforço concertado entre a cabeça, o tronco e os membros. Atrás dele, a mãe ria. As técnicas riam. “O Nathan aprendeu a andar!”, anunciam-me.

Ri-me. Afinal, os Titãs tinham razão.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Cada um dos convidados

(onde as coisas se complicam)


 

A energia destrambelhada da nossa coisa pequena é amplamente compensada pela meiguice de carácter. Nunca conheci ninguém que se importasse tanto com os outros. Que se preocupasse tanto em agradar, em ser amável. Que prestasse tanta atenção às pessoas que o rodeiam. Que tivesse tanto medo de magoar ou de desiludir alguém. É de uma delicadeza e cuidado comoventes. De todos os membros da família, o Vasco é sem dúvida o mais parecido com a avó Clarisse, de quem herdou o tamanho, o nervo, a diplomacia e a dedicação. Sinto uma tristeza imensa por estes dois nunca se terem chegado a conhecer, acredito que teriam uma ligação especial. Muito embora a minha avó tivesse certamente ficado aflita com o lado mais destravado deste seu bisneto-furacão.

Este ano, o Vasco decidiu que queria fazer uma festa de anos. Apesar de, na Bélgica, não haver esse hábito. As festas de anos são encaradas com despreendimento (como, aliás, tudo o resto) e restritas à esfera familiar. A única festa de aniversário para a qual foi convidado, nestes últimos três anos, foi a de um colega imigrante, como nós, da Europa de leste. Mas, pronto, filho pequeno decidiu que os seus nove anos mereciam uma festa com toda a pompa e circunstância. Como faz anos numa quarta-feira, dia em que não há aulas à tarde, propus que convidasse cinco amigos para virem almoçar cá a casa, quando saíssem da escola. Uma coisinha simples.

A lista dos convidados foi feita rapidamente. Os dois melhores amigos, claro está. E mais outros três com quem costuma brincar no recreio. Os convites foram feitos e entregues, com a discrição que tal acto requeria para não ferir susceptibilidades na turma. Quando o fui buscar à escola, vi logo que alguma coisa não estava bem. O Vasco estava triste. Garantiu-me que tinha sido mesmo cuidadoso a distribuir os convites, tipo agente-secreto, mas que houve quem visse. E que havia um menino que lhe veio dizer que nunca tinha ido a uma festa de anos. E havia aquele outro que tinha pedido para ser seu amigo, logo no primeiro dia na nova escola, quando ele ainda estava a chorar. E a amiga que era mesmo maria-rapaz, que pensou que não tinha sido convidada porque era rapariga. E… e… e…

Perguntei, então, quantos colegas mais seria preciso convidar para aplacar este ataque infame à diplomacia. Só mais cinco, respondeu-me. E lá fui eu comprar mais cinco convites e desencantar mais cinco envelopes e escrever mais cinco textos à mão a explicar a cinco pais surpresos o programa das festas, tão pouco habitual por estas paragens.

Combinei com o Vasco que seria uma festa tipicamente belga, ou seja, a dar para o desenrascado. Nada de temas da moda, decorações temáticas, mousses cromáticas, bolachinhas empilhadas em pratos de loiça, talheres de madeira a condizer com o tom das paredes e o raio que o parta. O filho pequeno, que não lê blogs matchy-matchy, pediu apenas pizzas, cachorros-quentes, batatas-fritas, sumos e o bolo de aniversário. Pareceu-me excelente, estávamos no mesmo comprimento de onda. O meu amor prometeu voltar a correr da faculdade para me dar uma ajuda. Fez-se a requisição pública dos serviços do adolescente resmungão (que, apesar de tudo, exigiu um suborno exorbitante). O tio Rui prometeu vir da Alemanha para controlar os estragos. Entre mortos e feridos, alguém há-de escapar. Tanto mais que é quase certo que os pais não os deixem vir todos, dada a estranheza da coisa.

Obviamente, tinha de surgir alguma complicação com esta minha festa tão desenrascada. Ou não se tratasse do aniversário de Vasco, o Cuidadoso. Parece que há um menino que é alérgico aos ovos. E outro, ao glúten. Como raio é que vou fazer um bolo sem ovos, nem farinha?! Ehhh… não esquecer o melhor amigo muçulmano. Ou seja, as pizzas Havai pré-feitas têm de ter fiambre de frango e os cachorros levam salsicha de peru, coisa que estranhamente nunca vi por aqui. Há também aquele colega que tenho de ir levar e buscar ao solfejo durante a tarde, porque normalmente vai na carrinha da câmara.

OK… inspira, expira. Repetir tantas vezes quantas as necessárias.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Diz que é anão

(porque às vezes o amor faz verdadeiros milagres)


 

Não sabemos ao certo quanto anos terá. Talvez três. Provavelmente quatro. Foi-nos oferecido por aquela vizinha maluca de Malempré, no nosso primeiro Verão na Bélgica. É a prova viva de que não se deve julgar um animal adoptado pelas aparências. Ou pelo contacto inicial. É preciso uma paciência sem fim. E dar tempo ao tempo. Decidimos chamar-lhe Peanuts. Era uma espécie de coelho selvagem que mal se podia tocar. Supostamente anão. Passou dias a fio (e noites… principalmente, noites) a atirar-se contra as grades da gaiola para se libertar. Não suportava estar fechado, mas em liberdade destruía tudo à sua volta. Não gostava de colo, nem de festas. Mordia. Batia furiosamente com a pata no chão quando se enfurecia. Roía tudo o que apanhava a jeito. Só comia granulados. Escusado será dizer que não foi exactamente amor à primeira vista.

Passaram-se dois anos. O Peanuts já faz parte da família. Sobreviveu a um ataque furioso do D. Fuas e, agora, só bate com a pata no chão quando sente que ele anda por perto. Tornou-se um autêntico mimado. E um comilão. É muito asseado, faz sempre as necessidades numa caixinha com serradura. Já pensámos arranjar-lhe uma namorada, mas ainda não encontrámos nenhuma suficientemente grande. Vive numa gaiola enorme, numa casinha do quintal. No Inverno, fica coberto por um espesso manto de pêlo quentinho. Quando está bom tempo, fica no parque, lá fora. Há uns meses, decidimos começar a soltá-lo no quintal, dentro do canteiro de flores que o meu amor construiu. Raramente sai dali, gosta de ficar a mordiscar as flores e a apanhar banhos de sol.

São os rapazes que tratam da bicharada toda da casa. Excepto do Peanuts. Gosto de ser eu a tratar do meu coelho. Mas o Vasco também lhe tem um carinho especial…




sábado, 14 de novembro de 2015

Não

(porque hoje não tive resposta a todas as perguntas dos meus rapazes,

nem soube o que não lhes dizer)



Não, os ataques terroristas perpetrados em Paris ontem à noite não se devem à política externa francesa, nomeadamente na Síria. Começaram muito antes.

Não, isto não foi “mais um ataque terrorista”, igual a tantos outros. O modus operandi deles mudou e isso merece ampla reflexão.

Não, os terroristas não entraram todos na Europa de barco, com as armas escondidas nos coletes, disfarçados de refugiados. Andamos todos a fugir do mesmo.

Não, a verdade boçal “Nem todos os muçulmanos são terroristas, mas todos os terroristas são muçulmanos” que li por aí é voluntariamente falaciosa.

Não, o Corão não diz em lado nenhum que se deve dizimar populações em nome de Alá.

Não, os terroristas não falavam árabe, coisíssima nenhuma. Várias testemunhas ouviram-nos falar um francês perfeito, sem sotaque. Tal como os meus filhos, que estão neste país desde pequenos.

Não, #JenesuispasCharlie#JenesuispasParis, nem porra nenhuma. Isto não é um hashtag, isto não é uma moda, isto não é uma foto de perfil de facebook com a bandeira da França durante uma semana.

Não, não tenho medo de actos terroristas que aconteceram a três horas de minha casa. A única maneira de lutarmos contra isto é recusando-nos a entrar nessa vaga explosiva de medo+xenofobia. Disso, sim, tenho muito medo.

Não, a maior comunidade estrangeira a viver em Bruxelas, contrariamente ao que se pensa, não é árabe… é francesa. Ninguém dá por eles e não param de chegar, é uma maçada. Mas não é por isso que vamos deixar de acolher refugiados.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

O ralhete do chefe

(ou literalmente a leste do paraíso)


 

Chefe: Posso saber por que razão levaste o computador para trabalhar em casa na 2ª feira? Já não te disse para não levares trabalho para casa?
Trabalhadora: Hein?!
Chefe: Mandaste-me um e-mail na 2ª feira?
Trabalhadora: Mandei. Tu nem me respondeste…
Chefe: Quer dizer que levaste o computador para trabalhar em casa na 2ª feira?
Trabalhadora: Não, mandei-te o e-mail durante as horas de trabalho, na biblioteca.
Chefe: Na 2ª feira?!
Trabalhadora: Sim… Qual é o problema?
Chefe: Então, ainda é pior do que eu pensava! Vieste trabalhar no feriado?
Trabalhadora: Feriado?! Estás maluco? 2ª feira foi dia de trabalho, os miúdos foram para a escola. O feriado foi ontem, 4ª feira.
Chefe: 2ª feira não era um feriado oficial. Mas a maioria das empresas deu o dia aos funcionários para compensar aquele feriado de Julho que calhou a um Domingo…
Trabalhadora: Como?! Mas por que diabo se vai compensar um feriado de Julho em Novembro?
Chefe: Para fazer a ponte!
Trabalhadora: Qual ponte?
Chefe: A ponte, na 3ª feira. Espera aí… não me digas que também vieste trabalhar na 3ª?!
Trabalhadora: Quer dizer…
Chefe: Não reparaste que não estava ninguém no escritório?!
Trabalhadora: Pois… De facto, achei que havia algo estranho… um bocado parado…
Chefe: É pá, tu não existes! Em Portugal, não compensam os feriados que calham aos fins-de-semana?
Trabalhadora: A bem dizer da verdade, em Portugal deixámos de celebrar uma série de feriados oficiais.
Chefe: Hein?! Estás a gozar comigo, não estás?
Trabalhadora: Não, diz que é a crise… Estás a ver, coiso… a produtividade… e assim…
Chefe: Mas ontem, no dia do Armistício não vieste trabalhar, pois não? Ao menos isso… Esse era um feriado oficial.
Trabalhadora: Não, ontem fiquei em casa. Mas também só me dei conta na noite anterior, quando ia começar a preparar as lancheiras e os miúdos gozaram comigo.
Chefe: Esquece. Vou passar a mandar-te sms a avisar-te. Só naquela…

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Surpresas

(quando o amor se estende a toda uma família)


 

Nesta casa, somos três a ser amados desmedidamente. Somos três a ser mimados. A ser surpreendidos. Meu amor cuida de cada um de nós de forma idêntica. Nunca há uma demonstração de afecto que não seja extensível aos meus filhos. Por isso, este amor é tão especial.

No outro dia, chegou com os braços carregados de flores. Saiu para ir comprar o jantar e voltou com três vasos de flores. Não flores mortas e embaladas. Flores vivas, como eu gosto.

Deixou-as em cima da mesinha da sala, sem dizer nada. Que o meu amor é um homem de gestos, não de palavras. Fingi que não vi. Às vezes, gosto de o provocar. Mas os miúdos viram-nas e reagiram de imediato, com a maior naturalidade do mundo. E foi esta espontaneidade que me emocionou. Porque eles perceberam logo, não foi preciso explicar nada.

A roseira branca era para o Vasco, o nosso Principezinho que gosta tanto de cuidar da sua rosa. A que ele tinha no parapeito do quarto deixou de dar flores, parece ter entrado em hibernação. Foi o primeiro vaso a desaparecer.

A mini-árvore das malaguetas era para o Diogo. Numa outra incarnação o meu filho grande deve ter sido indiano, porque adora sabores picantes. No dia anterior tinha acabado de inventar mais um molho capaz de fazer fumegar um morto. Eu ralho, mas o meu amor acha piada a estas incursões na cozinha que me esvaziam os frascos das especiarias. Foi o segundo vaso a desaparecer.

Sobrava uma planta simples. Nem bonita, nem feia. Um bocadinho fora do vulgar. Nenhum de nós sabia o nome. O Vasco quis saber o porquê daquela flor, especificamente. Os rapazes já sabem que, por trás de cada acção do meu amor, há sempre um motivo específico. Normalmente, complexo. Que requer amplas e aprofundadas explicações. Os rapazes riem-se sempre, não se cansam de dizer que ele é a pessoa mais inteligente que conhecem. Ele é a pessoa mais generosa que eu conheço. Porque além do conhecimento, nos dá tempo. O tempo que passamos a dedicar-nos aos outros será sempre o melhor presente.

O nome da minha flor não interessa. Não sabemos. Mas a minha flor é magenta. Uma cor que não existe no espectro. Raríssima na natureza. Uma espécie de ilusão de óptica. Uma cor que para existir precisa do olhar humano, subjectivo por definição. “Um olhar especial, como o teu”, disse ele.