terça-feira, 20 de junho de 2017

Uma acusação parva, quatro respostas idiotas possíveis

(porque acabei de receber por SMS uma fotografia 

e uma queixa da mãe de um colega do Vasco, 

a dizer que tenho mesmoooo de falar com o meu filho selvagem)



a) Não te passou pela cabeça perguntar ao teu filho como raio é que o Vasco conseguiu mordê-lo na axila?! É que quando se aperta a cabeça de alguém com força debaixo do braço arriscamo-nos a que a pessoa se defenda com a única parte do corpo que tem livre… os dentes!

b) É uma pena a mordidela não ter sido mais forte. Gostava de mandar essa fotografia à ortodontista do Vasco para lhe dar os parabéns pela magnífica mandíbula superior. Afinal valeu bem o investimento dos quatro aparelhos dentários, caraças!

c) Estás cheia de sorte que o Vasco não sabe andar à bulha e defende-se como um miúdo pequeno. Estou cá desconfiada que outro Tuga qualquer de 10 anos lhe teria mandado dois belos sopapos nas trombas só para início de conversa.

d) É que dá insistirem em meter o miúdo na bola! Ele já te disse várias vezes que quer ir para o ballet com o Vasco, mas vocês acham que o futebol é que é um desporto de homens… Mal por mal, ponham-no nas artes marciais. É másculo e ainda aprende imobilizar por completo uma pessoa dos pés aos dentes à cabeça!

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Quando as palavras não chegam

(porque há momentos em que só a música nos salva)



Apetece-me escrever o que me vai na alma, mas as palavras têm dificuldade em sair. Em articular-se. Estou farta de ver a floresta em Portugal a ser dizimada por incêndios no Verão. Tal como estou cansada dos atentados que propagam o medo tão perto de nós, nos últimos tempos. Tantas vidas ceifadas. Aos poucos, aprendemos a ser indiferentes. A seguir com a nossa vida, como se nada fosse. Deixamos de pedir notícias à família espalhada por essa Europa fora quando algo acontece, convictos de que nunca serão os nossos. E suspiramos de alívio porque, apesar de tudo, nos sentimos seguros nesta terriola nos confins das Ardenas. Não sei o que será pior: a calamidade ou a nossa própria indiferença e tranquilidade por nos sabermos a salvo… Até quando?

Não tenho por hábito mostrar os meus filhos a tocar, porque acho que as crianças não são macaquinhos de circo. Mas hoje abro uma pequena excepção. O Diogo foi dispensado do exame de órgão em Abril, por estar numa visita de estudo em Oxford. No final deste segundo ano, teve por isso de apresentar quatro músicas na audição. É o único instrumento que o filho crescido consegue tocar sozinho em público. Não está em palco a dar espectáculo, está numa igreja a falar com ele próprio. Não está a exibir-se virado para a assistência, está face a face com o mais belo instrumento. No final, o director da Académie deu os parabéns aos dois jovens músicos, o Noé e o Diogo. Pela excelente prestação mas, principalmente, por serem uma pequeníssima minoria (por coincidências da vida são ambos portugueses e têm um percurso de vida muito semelhante). O órgão de igreja não é um instrumento popular entre os adolescentes. É preciso ter coragem para ser diferente e lutar contra o mainstream. E força de vontade para ter aulas numa igreja fria, em pleno Inverno. Para além da humildade de se não se poder mostrar a ninguém o que se faz no recolhimento daquele espaço sagrado.

Poder-me-ão perguntar qual a relação entre as catástrofes que nos assolam e o órgão de igreja (para além do facto de acreditar que a música é salvadora, nestes momentos). A resposta, para mim, está na educação. De uma maneira ou de outra, estou convencida de que só conseguiremos mudar de paradigma educando as novas gerações para pensarem “fora da caixa”. Sozinha não consigo fazer nada para travar o aquecimento global. Ou para combater o terrorismo. Provavelmente, a única coisa que poderei fazer é educar os meus dois rapazes para serem anticonformistas, para não terem medo da diferença. Para pensarem pela sua própria cabeça. Para serem conscientes e defenderem o planeta que os alberga com todas as suas forças. Para serem empáticos, para se tentarem sempre pôr no lugar do outro. Para serem altruístas e porem o bem maior acima das suas próprias necessidades comezinhas. Para criarem pontes entre povos, culturas, línguas, países. Para terem uma mente aberta, sã, liberta, evoluída. Sobretudo, para serem imaginativos. Acho que estamos desesperadamente a precisar de pessoas com imaginação. O mundo tal como o conhecemos está a deixar de fazer sentido, mas nós continuamos todos cegamente agarrados a uma forma antiga de fazer. De ser e de estar. Não sou nada defensora do “na minha época é que era”. A minha geração está a chegar ao poder. Já detém inúmeros cargos de chefia e posições importantes. E, salvo raras excepções, é uma desilusão. Possamos, pelo menos, ser bons educadores para que as coisas mudem daqui por uns anos.

video

quinta-feira, 15 de junho de 2017

A ler com atenção

(quando um profissional que muito respeitamos chama a atenção

 para os perigos da “moda” da alienação parental)



Roubado a Clara Sottomayor.
Isto é muito preocupante e repito o que já disse aqui e no O Amor é...: claro que há mulheres - e homens! - que manipulam crianças na sua luta contra o outro progenitor, todos os envolvidos no processo devem ter a preparação e o empenhamento necessários para avaliar as situações. Mas quando se começa a decidir baseados em diagnósticos e rótulos, ainda por cima discutíveis e discutidos, a injustiça espreita em cada esquina . E os números referidos no artigo são impressionantes...
By Marisa Endicott, Common Sense News When Jaclyn moved to Ohio with her two young children, she thought she could begin a new life. She and her hu...
HUFFINGTONPOST.COM

Eis um cheirinho do artigo…

“One three-year study is looking at thousands of cases involving abuse, custody and alienation. A preliminary examination of 238 cases indicates that fathers accused of abuse (adult or child), who in turn accused the mother of alienation, won their cases 72 percent of the time. They won 69 percent of the time when child abuse was alleged and 81 percent of the time when child sexual abuse was alleged. In the seven cases where judges credited both abuse and alienation in the ruling, the father won every time. When the court credited abuse but not alienation, fathers only won 16 percent. The researchers defined winning as any time the litigants received some or all of what they requested, ranging from more visits to full custody.”

domingo, 11 de junho de 2017

Dezasseis anos de filho grande

(porque se não fossem aqueles olhos escuros iguaizinhos aos meus 

e o amor infinito que lhe tenho,

duvidaria que é mesmo meu filho)




Defende ideias de direita. Mesmo muito à direita. Tanto, tanto, tanto, que chega a tocar ligeiramente à esquerda sem se aperceber.

Tem valores morais inalcançáveis. Conservadores, como se pode calcular.

A língua afiada é de crítica fácil. O decote daquela é demasiado pronunciado. Aquele vem das barracas. O comportamento do outro é deplorável. Acolá está um bando de bêbados.

Adora a escola. Sabe-lhe sempre a pouco. Por ele, encurtava as férias todas pela metade. Ainda assim, seria imenso. Defende a rigidez do regulamento interno com a vida. A autoridade docente também é inquestionável. Relembra as datas dos testes e nunca deixa passar os trabalhos de casa em branco. É o terror dos colegas, excessivamente imaturos e palermas.

Abomina a adolescência tresloucada. A que é passada em noitadas de bebedeira, deboche e drogas. A adolescência perdida, desinteressante e ridícula. Mal-amanhada. Mal vestida. Ignorante. Que só sabe escrever textos encriptados, numa espécie de linguajar infantil sintetizado que aboliu as vogais.

A música moderna devia ser erradicada do mundo. Tal como a televisão, que nos tenta manipular sub-repticiamente. E a superficialidade da comunicação social.

Aguarda ansiosamente o regresso dos serial killers que lhe irão garantir um emprego no futuro. Enquanto isso vai devorando livros de crimes. Reais ou ficcionais, tanto faz. As profundezas da maldade humana atraem-no.

Quando adora uma pessoa, os seus defeitos são “queridos”. Mas se alguém cai em desgraça é incapaz de perdoar. A traição é o pior defeito do ser humano.

Tem uma sensibilidade exacerbada ao erro ortográfico, que corrige compulsivamente. Nada escapa ao crivo do seu lápis azul: SMS da namorada, comentários dos amigos no Facebook, cartas de amor da namorada do irmão, artigos de jornais…

É sobranceiro e altivo. Elitista. Arrogante. Superior.

Detesta mudanças, transformações, reviravoltas. O mundo devia ser imutável. A ordem dos objectos fixa. A mínima modificação consegue deixá-lo fisicamente maldisposto. Seja uma cadeira fora do lugar, um quadro ligeiramente torto ou um bloco de folhas desordenadas.

Ostenta com orgulho uma certa forma de pudor. O corpo não deve ser demasiado exposto (muito menos tocado). As manifestações de afecto querem-se discretas. As emoções exacerbadas e demonstrativas são sintoma de fraqueza humana.

Tem um sentido estético apuradíssimo. A indumentária é sinal de distinção. As marcas não são importantes, a originalidade também não. A excentricidade assusta-o. Há que ser discreto.

Gosta muito de viajar e de conhecer novos mundos. Novas culturas. Tem imensa curiosidade perante a diferença. Apesar disso, o melhor de tudo é voltar a casa. Ao refúgio imutável e seguro.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Ninguém me encomendou este fado

(onde se passa momentaneamente para o lado de lá)



Nestes últimos cinco anos, tenho ouvido todo o tipo de pergunta. A nossa vida parece suscitar curiosidade. A temática da emigração é recorrente. Questionam-me sobre a Bélgica, as diferenças entre os dois países, a problemática do bilinguismo, a distância da família, as saudades que sinto dos amigos, o isolamento… Às vezes, perguntam-me como é educar dois rapazes sozinha. O meu amor também é alvo de atenção. A nossa relação a quatro, que está a anos-luz da típica família recomposta. Muito raramente me questionam sobre a relação do Diogo e do Vasco com o outro lado. E eu agradeço o respeito pela privacidade dos meus filhos. No entanto, penso que seria interessante inverter esta questão. Ou seja: que tipo de mãe seria eu se estivesse do outro lado? Esse assunto atormentou-me largos meses, durante a disputa pela guarda do Diogo, em 2014. Estranhamente, nunca ninguém me fez essa pergunta. Talvez preferíssemos todos manter a esperança de que ambos os rapazes ficariam comigo na Bélgica e ninguém quisesse imaginar cenários derrotistas. Excepto eu e a minha mente atormentada. Passei muitas noites acordada a pensar no que faria, caso o Diogo fosse viver para Portugal. Felizmente, tal não aconteceu e já esquecemos esses tempos negros. Amanhã, o filho crescido faz 16 anos. Pela primeira vez, pediu expressamente para não receber a visita do outro lado. A sua vontade foi respeitada. Mas hoje, ao espreitar pela terceira vez a caixa do correio vazia, fiquei com a sensação de que a sua vontade foi também castigada. E voltei a pensar no que eu faria, se fosse o progenitor que está longe.

Acredito que é possível contrariar o paradoxo de nos mantermos presentes na vida de um filho que está longe. A distância pode ser colmatada de diversas formas. Não será o ideal, mas é exequível. Assim haja vontade de ambas as partes e – o mais importante – assim o progenitor em questão tenha capacidade para se apagar e pôr os filhos em primeiro lugar. Não vale a pena seguir cegamente a lei e obrigar toda a gente a viver no medo. Não vale a pena obrigar os filhos a falar todos os dias a determinada hora, só porque é o que está estipulado legalmente. Principalmente, se esse tempo for usado para falar do trabalho do progenitor, dos resultados da bola, do tempo que faz em Portugal e da vida de outras crianças que entretanto apareceram. A longo prazo, o que vai acontecer é que os miúdos vão associar esses telefonemas a uma obrigação isenta de prazer. E, quando perceberem que o tal medo instituído era meramente fictício, deixarão de atender o telefone. Nesse momento, já não haverá lei nem presença física que valha para reconstruir a relação filial. O telefone é um excelente meio de comunicação, mas a partir de certa idade deve ser deixado a cargo dos filhos. Quando um filho tiver algo importante para dizer, liga. Até lá cabe ao progenitor distante fomentar a vontade de falar. Se pensarmos bem, não é assim tão difícil… Mandar uma mensagem a dizer que se está em tal sítio e se lembrou de uma história divertida passada. Partilhar um post qualquer interessante no Facebook, o trailer de lançamento da série preferida, o cover de uma música que o filho gosta especialmente, um artigo que possam posteriormente discutir, etc. Hoje em dia, há tantas redes sociais que se torna fácil manter em aberto diversos canais de comunicação. Por que não manter um blog fechado para trocarem impressões e fotografias? Verba volant scripta manent. Além do mais, a escrita tem a vantagem de colmatar lacunas na língua materna dos filhos que estão a crescer num país estrangeiro.

Cada vez mais, as pessoas parecem centrar-se unicamente no imediatismo do contacto humano. Mas o Skype ou o Facetime diários nunca poderão substituir um postal ou uma carta mais longa (a escrita… novamente, a escrita!). Mostrar o crescimento de alguém através do iCoiso não substitui fotografias actualizadas que poderão ser revistas e, inclusivamente, mostradas aos amigos na escola. Tal como, mais importante do que dizer que se comeu este ou aquele prato num novo restaurante (ou em casa de familiares), é enviar por correio um produto português qualquer que os miúdos apreciem. Quem está longe sabe a alegria que é receber um chapelinho de chocolate da Regina, uma farinheira ou uma caixa de "Chocoflakes". Ou outra coisa qualquer. Não é só pela comida, como é evidente. É também pelo facto de sabermos que somos importantes, que alguém pensou em nós, que nos conhece os gostos e os anseios. No ano em que estive na Bélgica, recebia frequentemente cassetes, livros e jornais. Por vezes, uma peça de roupa. E cartas… recebi centenas de cartas, que guardei anos a fio com imenso carinho. Não percebo por que diabo não se pode continuar a enviar estas coisas por correio. A Fnac, por exemplo, permite fazer entregas em países diferentes por um custo ridículo. Os jornais e os livros ainda não se tornaram obsoletos! Obviamente, convém que os periódicos confirmem a versão cor-de-rosa do que dizemos passar-se no jardim à beira-mar plantado…

Por outro lado, uma das vantagens da sociedade actual é a democratização dos preços das viagens de avião. Que tal apanhar um avião em cima da hora para fazer uma surpresa aos filhos? Basta activar um alerta nos principais sites de voos low cost para receber notificações automáticas, quando houver bilhetes a preços convidativos. No ano em que o meu amor esteve em Itália, raramente gastava mais de 70 euros nos voos ida e volta. Normalmente, comprava-os com bastantes meses de antecedência, mas também aconteceu aproveitar lugares de última hora. Dir-me-ão que os hóteis são caros… Mas pode-se sempre alugar um airbnb, que também permite poupar nas refeições. De qualquer modo, o que interessa mesmo é o tempo passado juntos a construir memórias. Não me parece que os miúdos se importem de andar de transportes públicos ou de dormir em casa de alguém. Faz tudo parte da “aventura”, assim o progenitor que está longe esteja disposto a deixar cair a imagem de pessoa abastada e séria. A vantagem de se viver no centro da Europa é que depressa se está noutro país vizinho. Talvez inclusivamente se possa aproveitar a viagem para dar a conhecer novos mundos aos filhos. O tempo em família é essencial para se criarem novas dinâmicas, mas o tempo passado em exclusivo com os filhos é a base de toda a relação filial futura. Acredito que esta dedicação dará os seus frutos um dia mais tarde (ou a falta dela).

A verdade é que os miúdos crescem demasiado depressa. Num abrir e fechar de olhos, a divisão das férias deixa de lhes convir. Acredito que as concessões serão sempre mais benéficas do que as obrigações. Quando as imposições legais desaparecerem, vamos basear-nos em quê? Nas hipotéticas obrigações morais? Na simples chantagem emocional? Mais tarde ou mais cedo, os verdadeiros sentimentos virão à tona. Em vez de obrigar os filhos a passar quinze dias na Páscoa fechados em casa (ou, pior, a saltar por diferentes casas de familiares), por que não aceitar que venham apenas metade do tempo, desde que venham felizes? Há que deixar que, a dada altura, a vida deles seja o centro de tudo. Que tal compensar com visitas mais frequentes? É normal que os miúdos queiram mostrar a vida deles, os amigos deles, as namoradas deles, as actividades deles, a escola deles. O país deles, porque é ali que vivem e se estão a construir como pessoas. Os filhos não têm culpa se um dos progenitores foi viver para longe. Ignorar essa parte das suas vidas é ignorá-los a eles. E ignorar a sua identidade, que será sempre dúbia. Mais importante do que férias forçadas é assistir a concertos de música, estar presente naquele exame mais difícil, levá-los àquela estreia tão aguardada. Se o sonho de um filho é visitar um museu que fica apenas a 4 horas de distância do local onde vivem, custa assim tanto ao pai ausente levá-lo lá? Fará algum sentido oferecer uma entrada à pessoa que está com ele todos os dias para o levar? Até que ponto a guerra que movemos contra o outro progenitor nos impede de vermos o quão importantes são os nossos filhos? Quando há amor, “não há longe nem distância”.

[ Ninguém me encomendou este fado, é certo. Mas o Diogo faz 16 anos amanhã e, se eu fosse o progenitor que está longe, insistiria numa visita noutra data, no final dos exames. Ou antes, era indiferente. Insistiria em levá-lo a passear. Pelo menos, teria enviado uma carta bonita. E teria encomendado o iPod que ele tanto quer, para entregar em casa dele. Independentemente do sítio onde ele estivesse. ]

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Agente imobiliário em potência

(onde se percebe que o Vasco é um bocadinho mórbido)



Estávamos no cemitério com o meu “pai belga”, o homem mais crente que conheço. Pareceu-me um local feiinho e sem graça, mas abstive-me de fazer comentários. O facto de ficar colado à igreja de Santo António basta-lhe. Diga-se em abono da verdade que a igreja também deixa muito a desejar. É demasiado moderna. Paredes brancas, caiadas. Deslavadas. Vitrais de cores primárias, que retratam cenas seculares de forma contemporânea. Quase abstracta. Até o órgão é electrónico. Tudo aquilo me enoja. É claustrofóbico. O cheiro deixa-me maldisposta. Esforço-me por encontrar algo simpático para dizer. Sei o quanto adora aquele lugar, onde se recolhe diariamente para rezar. E onde insiste em levar-me com frequência. Sabe-se lá porquê, Santo António divide alegremente o altar com Santa Rita. O que, aos seus olhos, parece ser motivo suficiente para me fazer gostar daquela pequena igreja. Precisamente aquela. Embora eu seja ateia. Mas esse sempre foi o nosso ponto de discórdia. Passamos horas incontáveis a discutir assuntos celestes. Ou terrestre, depende da perspectiva. Honra me seja feita, sou bastante diplomata nos meus argumentos. Infelizmente, o mesmo não se pode dizer do meu filho pequeno, que desta vez nos acompanhava. Estacámos em frente a um espaço relvado.

Papi: Reservei esta sepultura. Quero ser enterrado exactamente aqui.
Vasco: E já o experimentaste?
Papi: Como?!
Vasco: Sim, já te deitaste aqui para ver se o lugar é mesmo bom? Se é confortável, se te sentes bem...
Papi: Ehhh... não.
Vasco: Compraste um lugar para seres enterrado para todo o sempre sem experimentares primeiro?
Mãe (a tentar mudar rapidamente de assunto): Acho que escolheste muito bem, este lugar é melhor do que aqueles ali ao fundo.
Vasco: Lá isso é verdade, papi! Aqui, a vista é melhor! E é mais espaçoso!
Papi: Pois, ali ficam as sepulturas das crianças.
Vasco: Boa, vou já lá deitar-me para experimentar o meu lugar!