quinta-feira, 30 de junho de 2016

Coração-ervilha


(onde um filho cresce

e o coração da mãe fica do tamanho de uma ervilha)


Filho pequeno parece-me hoje ainda mais pequeno. Amanhã, parecer-me-á minúsculo. Temo não conseguir deixá-lo partir.
Há muitos meses atrás, pareceu-me uma boa ideia inscrevê-lo num estágio de equitação. Era suposto o Diogo estar a trabalhar nestes primeiros quinze dias. Era suposto eu estar a trabalhar nestes primeiros quinze dias. Entretanto, estamos os dois de férias. O matulão e eu. Sozinhos em casa. O Belga pisgou-se para Itália, para o seu retiro anual.
Há muitos meses atrás, o estágio era um plano longínquo. O campo ficava mais perto de casa. Os cavalos era mais pequenos. A equitação era aparentada ao tai-chi. Dez dias eram pouco mais de uma semana. E ainda vivíamos no século XXI, onde as telecomunicações aproximavam as pessoas.
Há muitos meses atrás, quando paguei aquela pequena fortuna, fiquei orgulhosa por lhe poder proporcionar uma experiência fantástica. Senti que me estava a redimir por lhe ter negado as aulas de equitação este ano. Confirmei que era possível compensar a falta do meu tempo contado com uns dias de férias roubados.
Depois, o presente apanhou-me. E a minha coisa pequena foi ficando cada vez mais pequenina, à medida que o dia se aproximava. Amanhã, estará minúsculo. Tenho a certeza. Ainda assim, estará sem dúvida maior do que o meu coração-ervilha.
Hoje, levei-o comigo para a reunião da escola. Todos os anos pergunta se passa. E invariavelmente arranca uma gargalhada valente às professoras. Este ano passou para o 5º ano e eu suspiro de alívio, porque ainda tem mais dois anos de Primária pela frente. E tempo para ser menino. Ralhou comigo porque não levei prendas. Acho que funcionam como subornos, expliquei. “O que são subornos?” Na pilha dos objectos perdidos, recuperámos um fato de banho perdido em Setembro, um casaco que o obriguei a levar quando os dias começaram a arrefecer, uma mochila perdida antes do Natal, um gorro esquecido no pino do inverno, uma camisola que insisti em vestir-lhe quando o calor finalmente apareceu. Não conseguimos recuperar outras tantas coisas, perdidas para todo o sempre em parte incerta.
Hoje, levei-o comigo para o trabalho. Sardas no nariz e cabelos espetados. Foi o caminho todo a ler, exactamente o mesmo livro sobre mitologia grega que li com a idade dele. “O que é um tear?”  “O que significa trespassar?”  Espalhou aquela sua magia. Deixou as minhas colegas a rir. Partilhei a minha sopa com ele. “Foram os senhores com trissomia que fizeram? Cozinham muito bem.” Menino maravilha.
Hoje, levei-o comigo às compras. O seu programa favorito. “Temos de aproveitar os pré-saldos!” Fomos à Decathlon comprar um novo toque para a equitação. E as botas, que ele perdeu não sabe bem onde. Acabámos por trazer já as coisas para o próximo ano lectivo. Percorreu feliz os corredores, à procura de tudo. Naquele momento, pareceu-me grande. Mas só um bocadinho. Pela primeira vez, pôde experimentar as sapatilhas de ballet pretas e escolher as que mais lhe agradavam. Deu uns passinhos de dança que encantaram uma velhota. Ele não viu. “Porque pagas com um cartão cinzento e outro laranja?” Expliquei que as coisas para a escola pagava com o visa. Ele percebeu. “O pai não paga as coisas para a colónia.” Depois, encolheu os ombros. Deixou escapar, baixinho: “O resto também não, mas pronto…”. Garanti que sim, mas ele desviou a conversa para o boné que o obriguei a comprar. Tenho a certeza de que será a primeira perda, na colónia.
Hoje, pediu-me uma irmã mais nova. Assim mesmo, “uma irmã mais nova”. Que às vezes sonhava com ela. Imaginava-a. Disse que esperasse mais um bocadinho, que um dia destes o pai havia de lhe dar um irmão. “Pois, não sei…” Afinal, também já podia ser um rapaz. Dormia no quarto dele. Esperto, rebateu o meu argumento antes mesmo de conseguir avançá-lo. Pela enésima vez, é certo. “Eu sei que não queres ter mais filhos, mas podemos adoptar”. Também não quero. Quanto muito, daqui por algum tempo, sermos família de acolhimento. “Ah… Também pode ser!" Decidi meter-me com ele, perguntei o que diria o Diogo. Explicou-me com um sorriso trocista que estaríamos em maioria. "Não me interessa se é de outra raça ou cor.” E fez um gesto de displicência com as mãos. Menino querido.
Hoje, foi dormir para a minha cama. “Posso levar os meus ursos?” O urso do ano 2006 do Harrods, tradição da família inglesa que demorou tantos anos a voltar a nós e que ele nunca mais largou. E o Chewbacca. Tem tudo a ver. Mais um livro, como não podia deixar de ser. Espalha livros pela casa fora, mas sabe sempre onde os deixou e em que página estava. Algo suspeito.
Amanhã, vou deixá-lo pela primeira vez entregue a si próprio. E aos monitores, que certamente parecerão pouco mais velhos do que o Diogo. Volto dali a 10 dias. Entretanto, podemos trocar cartas. Não podemos falar. Bem vistas as coisas, é pouco mais ou menos o que eu fazia, quando ia para as colónias da IBM. Então, por que diabo os 9 anos dele me parecem incomparavelmente mais infantis do que os meus 6?
Amanhã, a minha coisa pequena vai crescer, apesar de me parecer mais pequenino do que nunca. Há muitos meses atrás, pensei que eu também fosse crescer como mãe. Agora, já só desejo conseguir chegar ao carro antes de começar a chorar. É difícil quando o coração se opõe à razão. Mas continuo a lutar contra mim mesma por aquilo em que acredito.


terça-feira, 28 de junho de 2016

A primeira semana


(onde o tempo se torna mais pesado

e o dinheiro ganha valor acrescentado)




Filho grande quis jogar pelo seguro e aceitou o primeiro trabalho de estudante que apareceu, num restaurante a alguns quilómetros de casa. O meu amor foi com ele à entrevista e a coisa ficou apalavrada em Abril. O meu feeling estava certo, o Diogo acabou mesmo por ser chamado para a colónia de férias com os velhotes do concelho, que o tinha cativado no “Salon de l’Emploi”. Infelizmente, tinha aceitado a primeira proposta e recusou voltar atrás com a palavra dada. Por mais que lhe explicássemos que era normal recusar um emprego meses antes de começar a trabalhar, o rapaz manteve-se inflexível na sua ética (pré) profissional. Confesso que não fiquei lá muito satisfeita, mas percebi que estamos a desbravar caminho num terreno em que a nossa opinião já pouco conta. Um trabalho esporádico de duas semanas como monitor parecia-me mais adequado aos seus 15 anos do que um trabalho num restaurante, que se pretende que tenha alguma continuidade ao longo do ano.


Mal os exames terminaram, ligaram-me para combinar o horário. Deixei-o trabalhar nesta última semana de Junho, à experiência. Garantiram-me que teria folga na próxima quinta-feira, para receber o boletim e ir à missa de encerramento do ano lectivo. Dada a sua idade, só poderá trabalhar em horário diurno. No primeiro dia, só disse maravilhas. Fazer sandes e limpar mesas era o sonho da vida dele. Não quis parar para comer, nem fazer pausas. No segundo dia, vinha todo entusiasmado. Afinal, aprendia depressa e até já o deixavam servir ao balcão. Devorou rapidamente um hambúrguer feito pela sua própria mão. Sábado, esteve de folga. Apesar de não dizer nada, estava estafado. Foi à festa de anos de uma amiga só mesmo porque não podia recusar. No terceiro dia, regressou alegre, mas já a contar o dinheiro que tinha feito. Ter de se levantar com as galinhas no Domingo não foi fácil. Parece que já não era bem o sonho de uma vida… Aproveitou para nos dizer que, agora, compreendia o nosso cansaço e falta de paciência, quando chegamos a casa no final da tarde. Desta vez, fez as pausas todas a que tinha direito. No quarto dia, a coisa pesou-lhe a sério, mas o estoicismo impôs-se. A motivação financeira falou mais alto. Afinal, 50 euros por dia é bastante dinheiro. Mas trabalho é trabalho, conhaque é conhaque. Ao quarto dia não se fez rogado para lembrar a chefe de que era hora de almoço. Hoje, entusiasmou-se por ver uma luz ao fundo do túnel. É o quinto e último dia desta sua primeira semana de trabalho, pautada por uma alegria decrescente. E pelo crescimento abrupto provocado pela entrada no mundo do trabalho.


Podia ter aceitado ficar mais uns dias, no início de Julho, mas preferiu dizer que não era possível. Quer descansar e aproveitar as férias, agora que todas as actividades extracurriculares acabaram. Suspirei de alívio, confesso. Tem-me custado vê-lo tão cansado e a recusar saídas com os amigos. Além disso, ainda estou a trabalhar e tem sido caótico conciliar os trajectos e os diferentes horários de trabalho com a escola do Vasco a meio gás. Já para não falar de que temos feito discretamente todas as tarefas do Diogo, para ver se lhe aligeiramos a carga... Na realidade, esta primeira semana de trabalho do filho grande também foi extremamente cansativa para nós.


Na última quinzena de Julho, o trabalho do Diogo no restaurante recomeça. Já percebi que vai ser a doer. Literalmente. Tanto mais que nem sequer se pode dizer que em Agosto vá aproveitar para esbanjar o ordenado, em Portugal. Metade vai directamente para a conta-poupança, sem apelo nem agravo. A outra metade servirá para pagar o LCD do home cinema que o Diogo partiu há meses. O restante, espero que gaste em disparates próprios aos seus 15 anos. É o ínfimo lado bom de começar a trabalhar como gente grande. O lado visível. O reverso da medalha é a tomada de consciência que o trabalho acarreta. É a perda da inocência, típica da infância. O tempo e o dinheiro adquirem um novo significado. Agora, as coisas começam a ter outro valor. Um valor acrescentado, digamos assim. Um videojogo são x horas de trabalho. Um telemóvel são x dias de trabalho. Umas férias no estrangeiro são x semanas de trabalho. E, assim, sucessivamente…


Se, no final de Julho, o Diogo decidir que afinal não quer trabalhar durante o ano lectivo não há qualquer problema. Mas se quiser trabalhar, também não. Até pode decidir que quer trabalhar, mas noutro emprego qualquer. No entanto, sabe que estará sempre condicionado pelas boas notas da escola. E que nunca poderá trabalhar mais do que um dia por semana, aos fins-de-semana. Idealmente, um dia por semana a cada dois fins-de-semana. Só ele poderá tomar essa decisão, porque depois terá de honrar o contrato que assinar com a entidade patronal. Espero que as três semanas de trabalho este Verão sirvam para ele conseguir tomar uma decisão avisada. Se possível, madura. Isto fica bem no papel… aqui dentro, balanço entre a vontade de ver o Diogo crescer e o desejo de proteger este meu filho crescido-mas-ainda-tão-pequeno. Há momentos em que custa crescer como mãe.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Lama

(onde nos sentimos mães de filhos alheios)



Acordámos hoje ao som do Brexit. Enquanto o meu amor desfiava excertos de notícias de diversos jornais online, eu não conseguia deixar de recordar o documentário que vi há uns dias. Ele fazia conjecturas e montava cenários possíveis, eu recordava a miséria que grassa na selva (des)humana de Calais. Ele citava políticos, eu ouvia o desesperado eco longínquo dos voluntários belgas. E os passos das galochas das crianças no meio daquele mar de lama. Diz que há centenas que estão largadas à sua própria sorte. Pior. Diz que há centenas que já foram apanhadas por redes de pornografia infantil. Cinco euros. O preço do sexo infantil, em Calais. A poucas horas de minha casa. No coração da Europa. E, de repente, o meu amor irrompe pelos meus pensamentos negros adentro. O ministro do interior francês avisou que ia suspender todas as medidas que impediam os refugiados de passarem a Mancha. Seres humanos como moeda de troca. Como arma de arremesso. Como vingança mesquinha. Que Europa somos nós, em pleno século XIX?

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Obrigar a velhinha a atravessar a rua

(ou a triste saga de uma mente velha emprisionada num corpo jovem)



Devo ser a única mãe que obriga o filho de 15 anos a ir à festa de final do ano lectivo com os colegas. Ou por outra, que até lhe paga para ir. Também devo ser a única que recebe SMS a dizer que está tudo bem, quando nem sequer perguntou nada. E tenho a certeza de que mais ninguém foi questionado até à exaustão sobre a hora limite de regresso, depois de ter dito para ficar até o dinheiro acabar. Não preciso de referir os milhentos smileys de agradecimento e as declarações de amor filial, pois não? Praga, pá! Ninguém merece um adolescente destes, a sério.

terça-feira, 21 de junho de 2016

Uma questão de género

(na sequência do post de ontem…)





Sempre foi difícil oferecer prendas ao Vasco, porque ele nunca se interessou por brinquedos típicos de criança. Nunca brincou com carrinhos, bonecos ou jogos. Apesar de viver numa casa onde proliferavam livros infantis, também nunca mostrou especial interesse. A única coisa que parecia interessá-lo era a música. Desde muito pequenino, as prendas preferidas do Vasco eram caixas de sons, instrumentos diversos, microfones, CD, etc. Quando fez dois anos, a colecção musical já era vasta. Nesse Natal, à falta de ideias, perguntei à educadora, qual o brinquedo preferido do Vasco na escola. Mostrou-me o “cantinho do teatro”, onde tinham à disposição máscaras de carnaval e acessórios. Foi a prenda mais barata que lhe comprei na vida: enchi um baú com tralhas dos chineses para ele se mascarar. Foi uma festa!
Por volta dos três anos, o Vasco passou pela “fase princesas”. Começou por se apaixonar perdidamente pelo filme da Pequena Sereia. Era capaz de ficar horas a ver aquilo em looping. Depois, numa visita à Disney Store do Colombo, insistiu em comprar um conjunto com as principais princesas da Disney. Durante meses, andou com as malfadadas bonecas atrás. Seguiu-se a tiara das princesas que vinha de oferta numa revista… de princesas, pois claro. E foi aqui que a família começou a achar aquilo um bocadinho esquisito. Creio que eu era a única que não me importava de andar com ele na rua de tiara. Altivo, alheio a comentários e risinhos maldosos, o Vasco pavoneou-se durante bastante tempo com uma tiara lilás de plumas no cimo da cabeça. Era a coisa mais pirosa possível, mas ele adorava-a. O cúmulo da felicidade era ver o filme da Pequena Sereia, sentado na cadeirinha com as bonecas das princesas cuidadosamente alinhadas à sua frente, de tiara na cabeça.
Por insistência familiar, falei com a pediatra sobre esta paixão do Vasco. Ela desvalorizou, outra coisa não seria de esperar. Mas perguntou-me se eu estava preocupada. Respondi que não, rigorosamente nada. Antes da fase das princesas, tinha havido a fase da Mariza. Nessa altura, o supra-sumo era ver os DVDs dos concertos da Mariza, com uma toalha a fazer de xaile e um microfone na mão. Aquele pedacinho de gente, sabia as canções e a coreografia toda de trás para a frente. Imitava cada gesto, com um rigor do detalhe surpreendente. O que mais o emocionava era o violoncelo do Jaques Morelenbaum, no concerto de Lisboa. Aos dois anos e meio, meteu na cabeça que queria aprender a tocar violoncelo. Acabou por se render ao violino, mais adaptado ao seu tamanho diminuto. Mas não se pense que a paixão pelo violoncelo desapareceu, sete anos depois. Continua bem viva, à espera de permissão para ir aprender um segundo instrumento.
A fase das princesas acabou por desaparecer naturalmente, com o tempo. Aos poucos, foi substituída pelas construções de Legos, a grande paixão herdada do irmão que já dura há anos. O seu amor pela música mantém-se, mais forte do que nunca. E o gosto pelas máscaras, pelos acessórios teatrais, pela encenação, nunca desapareceu. A de encarar outros personagens também não. Todas as brincadeiras do Vasco implicam de algum modo uma mise en scène. Não será por isso de estranhar o seu interesse pelo ballet. Na última aula, começaram a alinhavar ideias para o espectáculo do próximo ano. Enquanto as meninas discutiam as entradas e os passos que farão, o Vasco conversava com a professora sobre a escolha das músicas e do guarda-roupa. Acho que temos ali um encenador em potência, embora ele diga que quer ser actor. O meu amor anda a tentar convencer-me a inscrevê-lo num curso de teatro, mas infelizmente não há tempo para tudo.
Apesar desta sua sensibilidade de artista, o Vasco é um autêntico furação que derruba tudo à sua passagem. Uma força bruta da natureza. Aquelas mãozinhas de ouro continuam a partir todos os objectos, qual maldição de Midas trasvestida. Decididamente, não tem jeito nenhum para trabalhos manuais que exijam o mínimo de delicadeza. Bicho-carpinteiro irrequieto e trapalhão, tem uma queda nítida para o disparate. As brincadeiras que tem com o irmão são sempre demasiado violentas e acabam frequentemente mal, com lutas corpo a corpo e duelos com todo o tipo de arma, espadas ou até mesmo paus. Os seus centros de interesse seguem de perto os do irmão que adora: música clássica, história, ciências, astronomia, Star Wars, Legos… Entretanto, também desenvolveu algumas paixões próprias, como as bandas desenhadas e os filmes do James Bond.
Este ano, o Vasco celebra uma década de vida. Apesar de ter uma maturidade muito grande, ainda está a anos-luz da pré-adolescência. É a criança mais feliz que alguma vez vi. Mas consegue passar do riso à lágrima numa questão de segundos. Capta com uma facilidade desconcertante as emoções à sua volta, de modo completamente intuitivo. Embora nem sempre saiba como canalizar os sentimentos alheios e isso o deixe confuso. Tem uma capacidade de atenção ao detalhe que me deixa siderada. É muito sensível a tudo o que seja visual. Adora moda. O programa preferido é as “Reines do Shopping”. Continua a gostar muito de acessórios e pede-me muitas vezes para experimentar as minhas “joias” e maquilhagem. Infelizmente, não teve muita sorte com a mãe pouco vaidosa que lhe calhou na rifa, mas ele não se atrapalha. Dá conselhos de moda a quem o quiser ouvir. No outro dia, pediu-lhe que lhe comprasse um verniz porque quer pintar as unhas. E ao meu amor cravou-lhe uns óculos sem graduação.
Nós – os adultos da casa – lidamos muitíssimo bem com esta personalidade algo peculiar do Vasco. Vemo-la como uma característica do seu espírito de artista, nada mais. O meu amor diz que ele é uma “pessoa original”, sendo que este é o maior elogio que lhe podia fazer. Sinto-me profundamente aliviada e agradecida por ter encontrado um modelo masculino para os meus filhos que está nos antípodas do machismo típico do “macho latino”. Mas o Diogo e os amigos, com aquela rigidez de pensamento intrínseca à adolescência, acham que o Vasco é “maricas”. O meu filho crescido teve uma educação suficientemente liberal para me confessar, com a maior das naturalidades, que achava que o Vasco era homossexual, embora não visse problema nenhum nisso. Creio que não deve ser o único na família a pensar isso... E, uma vez mais, fico feliz pela distância do nosso país de origem, que nos permite educar o Vasco longe da pressão social, respeitando a sua personalidade complexa. Tenho a certeza de que a nossa hétero ou homossexualidade não depende da educação que recebemos. Mas, pelo contrário, os futuros traumas que possamos vir a ter dependem em grande parte de uma visão preformada da vida que um dia tentaram impor-nos à força. Muito sinceramente, não estou minimamente preocupada com o que o Vasco é ou deixa de ser. Aquilo que os meus filhos farão na sua intimidade não me diz respeito. Já aprenderem a ser felizes e bem resolvidos, é uma das minhas obrigações de mãe.

 

[ Para quem se interessa sobre esta temática, sugiro um filme belga autobiográfico realizado e interpretado por Guillaume Gallienne: “Les Garçons et Guillaume, à table!”, sobre um jovem que teve de lutar contra a homossexualidade imposta pela família. Muito, muito, muito giro. E elucidativo. ]

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Pressão social


(porque o isolamento também tem o seu lado positivo)



Uma das vantagens de viver 2500 km a Norte é não ter de lidar com opiniões alheias. Demorei algum tempo a aperceber-me desta minha nova liberdade… provavelmente porque nunca fui uma pessoa muito permeável a julgamentos exteriores. Contudo, embora não ligasse por aí além ao que os outros diziam, era difícil escapar aos comentários da família e amigos. A contrapartida de desabafarmos com alguém é termos de ouvir as suas opiniões sobre os nossos problemas. Agora, não tenho ninguém com quem falar, mas descobri que é extremamente libertador não ter de lutar contra essa pressão social.
A questão é que é deveras complicado defender uma determinada posição quando não somos “pessoas de crenças”, ou seja, quando vivemos sem grandes certezas. Tendo sempre a posicionar-me na gama cromática dos cinzentos, não sigo uma filosofia específica de vida. Não sou vegetariana, mas não como carnes vermelhas. Sou ateia, mas os meus filhos andam em colégios católicos. Não defendo a homeopatia, mas evito a medicamentação excessivamente química. Não tenho partido político, mas defendo ideias de esquerda. Não sou adepta do consumismo, mas só compro calças da Esprit. Não sou bem isto, nem sou exactamente aquilo. Vou-me adaptando às diferentes situações, o que faz com que, por vezes, seja acusada de ser inconstante ou volátil nas minhas opiniões.
Esta minha capacidade (diria mesmo, necessidade) de adaptação é especialmente criticada quando se trata dos meus filhos. À semelhança de tudo o resto na vida, também não sigo uma corrente pedagógica específica. É à la carte. Vou buscar uma ideia aqui e outra ali, para forjar a minha própria filosofia educativa… que funciona nesta família, neste preciso momento. À medida que os rapazes crescem, à medida que a vida vai mudando, vamo-nos adaptando. Não concebo a educação como algo estático. Há conceitos básicos que defenderei sempre, que são intrínsecos à minha forma de estar na vida: o respeito pelo outro, o multiculturalismo, a importância do conhecimento, a capacidade de mudança, a sede de descobrir mundo, a liberdade, a tolerância, a amizade, o desenrascanço... Mas depois há todo um mundo lá fora que nos obriga a rever as nossas crenças e a reposicionarmo-nos. E o crescimento de dois rapazes é um excelente motivo para baralhar e voltar a dar. As vezes que forem precisas.
Quem me conhece diz que mudei muito, mas eu não concordo. Acho que cresci, que evoluí como pessoa, e logicamente isso reflecte-se na minha forma de encarar a parentalidade. Além disso, sou uma mãe completamente diferente para cada um dos meus filhos. O Vasco sempre foi um filho especial, o que me obrigou a rever uma série de convicções pessoais. Muitas das premissas que funcionavam com o Diogo, não resultam com o Vasco. Sinto que preciso de estar constantemente a inventar novas estratégias para lidar com a minha coisa pequena. O problema é que a família e amigos nem sempre acompanham pacificamente esta minha mudança de atitude. A acusação de que o Vasco é o meu filho preferido é recorrente. Acho-a profundamente injusta. Aliás, basta ler este blog para ver que o filho crescido ocupa parte bastante considerável das minhas preocupações. E das minhas alegrias de mãe.

Tudo isto para dizer que hoje fui comprar o verniz que o Vasco anda a pedir há tempos. Fi-lo sem pensar muito – principalmente sem pensar muito nos outros – com a liberdade de espírito que me caracteriza. Mas isso ficará para uma outra conversa, que esta já vai longa…

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Prendas para um adolescente, gadgets e outras questões


(onde se dão algumas sugestões que funcionam connosco)



Um colega sem filhos, mas cheiinho de sobrinhos adolescentes, perguntou-me o que tinha oferecido ao meu filho Diogo pelos anos. Segundo ele, os miúdos actualmente só querem gadgets ou coisas de marca caríssimas. Não me parece que isso seja assim tão linear, acho que depende muito do adolescente em questão. Por outro lado, fica a dúvida: será que os jovens só querem mesmo receber esse tipo de prenda ou será que são os adultos que se limitam a seguir a lei do menor esforço? Quanto a mim, tento dar a volta ao texto...
No que diz respeito a presentes, há um ponto prévio que importa referir. Como já devo ter aqui dito inúmeras vezes, só ofereço prendas aos miúdos nos anos e no Natal. Antigamente, ainda dava qualquer coisa na Páscoa e no dia da criança. Entretanto, também me tornei belga nesse ponto (porque me convinha, vá…). No final do ano lectivo, tento fazer um programa qualquer com eles para assinalar a data, mas não me parece que mereçam prendas por terem cumprindo a sua obrigação: serem estudantes.
Posto isto, é verdade que ofereço muitas prendas aos miúdos nos anos e no Natal. Primeiro, porque o faço apenas duas vezes por ano, portanto acho que posso exagerar um bocadinho nos mimos. Segundo, porque tento compensar a ausência de outras prendas familiares para abrir. Terceiro, porque começo a comprar as prendas com meses de antecedência à medida que vejo alguma coisa engraçada e/ou que lhes faz falta, por isso, a aspecto utilitário está sempre presente. Para terem uma ideia, comprei a primeira prenda para os anos do Diogo em Fevereiro (um livro).
Mas afinal que prendas recebeu o filho grande pelos seus 15 anos?

- Um piano digital, oferecido a meias com a restante família do Diogo;
- Uma viagem mãe-filho de 4 dias a Berlim, oferta do meu amor;
- Umas calças de ganga, um polo e uma t-shirt da H&M, prendas algo oportunistas, porque de qualquer modo sou eu que lhe compro a roupa;
- Criminologia para Totós, só para ver se o tipo desiste da ideia e decide ir para Ciências…
- Gone Girl de Gillian Flynn… em inglês e em segunda mão;
- O Regresso de Sherlock Holmes de Arthur Conan Doyle, o autor de eleição do meu filho, também em segunda mão;
- Uma enormeeee caixa de chocolates, um clássico nesta casa;
- Várias prendinhas patetas, só para o fazer rir;
- Material escolar do Star Wars… dois coelhos numa cajadada só, não é verdade?
- Uma escova de dentes eléctrica, para ver se ele larga finalmente a minha;
- Uma caixa de plástico gigante com algumas coisas para o futuro Kot do Diogo (canecas, copos, panelas, uma batedeira, etc.), para ir completando nos 3 anos que lhe faltam até ir para a universidade. Penso que o conceito de “enxoval” continua a ser útil, desde que promova a igualdade de sexos e seja devidamente adaptado à realidade dos nossos dias. Nem eu terei dinheiro para lhe montar um estúdio completo quando o momento chegar, nem quero ter de andar a pedir aos amigos e vizinhos tarecos perdidos que possam dispensar (true story). A verdade é que o Diogo percebeu de imediato de que se tratava mal abriu o embrulho e adorou a ideia. Crescer também implica começar a projectar-se no futuro… 

Resumindo… Gadgets? É pá, não. A sério. Nisto assumo que sou um bocado contra-corrente. Aos 15 anos, se o Diogo precisar de um telemóvel ou de um computador para a escola, acho que me compete a mim comprar-lhe. São bens necessários actualmente, não são prendas. Escusando será dizer que acho impensável um miúdo de 9 anos ter um telemóvel. Em Setembro passado, comprei ao Diogo um iPhone 5 em promoção, porque me permite comunicar gratuitamente quando os miúdos estão em Portugal. O computador dele veio do meu trabalho, quando um colega foi despedido e deixou de ser preciso. O meu amor comprou o software necessário e actualizou-o. Se é um topo de gama? Não, mas serve perfeitamente para fazer pesquisa e os trabalhos da escola. De resto, acho que as porcarias electrónicas são de evitar ao máximo, seja qual for a idade. Principalmente, nos quartos. Só servem para os isolar e embrutecer. Nesta casa, estão restritas ao home cinema e pertencem a todos: LCD, leitores de DVD/Blu-Ray, consolas várias, etc. Nos quartos, há apenas os computadores e nada mais. O Vasco tem uma PSP e uma Tablet que utiliza unicamente para se entreter quando vamos viajar. Felizmente, nunca foi preciso proibi-lo. É um miúdo que liga muito pouco a essas coisas. Ainda tentou pedir para jogar nos nossos telemóveis, mas nós desinstalámos os jogos todos. Por isso, quando vai a algum lado, leva livros. Por outro lado, a televisão está sempre desligada nesta casa. Acho que os miúdos tendem a seguir o exemplo dos adultos que os rodeiam. Se não queremos os miúdos colados aos ecrãs, também não podemos fazê-lo. É simples. Quando vamos ao restaurante, por exemplo, levamos sempre jogos para nos entretermos enquanto esperamos. Pelo menos, comunicamos uns com os outros. Resta dizer que a gestão do tempo que o Diogo passa no iCoiso nem sempre é pacífica, mas resolve-se facilmente desligando o wifi… :)

terça-feira, 14 de junho de 2016

Da tolerância


(onde se mistura atentados, reality shows e Facebook)



Uma das coisas que me deixa mais orgulhosa neste país é a tolerância. Quando vejo as notícias do tiroteio em Orlando, não posso deixar de suspirar de alívio por estar a criar os meus filhos numa sociedade que está nos antípodas da homofobia americana. E, sendo a Bélgica um alvo preferencial dos terroristas, onde nos últimos tempos se nota um maior cuidado para não provocar inutilmente as comunidades ditas “susceptíveis”, mais orgulhosa fico por ver que o canal de televisão estatal continua tranquilamente a passar o vídeo promocional da próxima temporada de “L’amour est dans le pré”. Trata-se de um reality show onde vários agricultores andam à procura da alma-gémea, que tanto pode ser uma mulher como um homem. Porque é normalíssimo que alguém que trabalha num meio tipicamente másculo seja gay. Tal como é perfeitamente banal que a Super Nanny – figura central de outro reality show, desta vez dirigido a pais em apuros – vá resolver o problema de uma família recomposta com quatro crianças e duas mães. Não estou a falar de documentários sobre a homossexualidade, estou a falar de programas que passam em horário nobre, onde surgem em pé de igualdade outras formas de amor.
A Bélgica é um país precursor ao nível dos direitos dos LGBT. O casamento, a adopção e a reprodução medicamente assistida para casais homossexuais são uma realidade neste país há mais de uma década. A questão é que não basta legislar, é preciso mudar a sociedade. E as mentalidades só evoluem quando situações diferentes irrompem no nosso quotidiano confortável e se instalam, acabando por se tornar normais. Um reality show que é visto por milhões de famílias ao serão, onde tanto aparecem casais heterossexuais como gays, banaliza por completo a diferença. Ao longo dos anos, isto ajuda a criar uma sociedade tolerante.
Após os ataques de Bruxelas, o slogan que começou de imediato a circular por aqui foi “Même pas peur”. Essa era a mensagem importante a fazer passar: vergamos, mas não quebramos. Não houve cá bandeirinhas, nem lágrimas, nem “Je suis coisa nenhuma”. Em Portugal é sempre tudo mais epidérmico, mais inflamado, mais emotivo. Desta vez, tenho de admitir que fiquei admirada por ver a ausência de “solidariedade” facebookiana para com os atentados norte-americanos. Mas suponho que seja fácil apregoar que se é Charlie ou Paris, embora seja um bocadinho mais difícil dizer que se é Orlando… não vá o chefe ou os vizinhos começarem de repente a pensar que uma pessoa é “virada” ou algo assim. E isso talvez ainda seja pior do que os 50 mortos do tiroteio, caraças...

sexta-feira, 10 de junho de 2016

És a minha maçã de Junho


(onde se celebram 15 anos de maternidade)



Fazes hoje 15 anos. Quando nasceste, eu tinha acabado de fazer 25. Era uma miúda. E apaixonei-me perdidamente por ti. Quando tu nasceste, eu cresci. Tornei-me adulta. Demasiado adulta. Foi a única maneira que encontrei de conseguir fazer face à responsabilidade imensa que me impuseste. Tornaste-me mãe. Não uma mãe qualquer, tornei-me tua mãe. E isso exigiu de mim ser a melhor. Ou, pelo menos, eu assim pensava. Não merecias menos. Regressei às origens. Mas ainda era demasiado infantil para aceitar de ânimo leve o peso das diversas mulheres que povoam a nossa família. Depois, cresci. Hoje, percebo que sou esta mãe – a tua mãe – graças à minha própria mãe. À avó Clarisse e à tia Clarisse. À avó Lena. À mamie. Na confluência (diria mesmo, na divergência…) de todas estas ascendências cresci como mãe. Talvez seja por isso que às vezes me falte alguma coerência. Sou muitas numa só.
Entretanto, desisti de ser a melhor mãe do mundo. Contento-me em ser a tua melhor mãe. A melhor mãe que consigo ser para ti. (Para o teu irmão, sou uma outra mãe, que tu nem sempre reconheces e compreendes.) Fazemos hoje 15 anos. Percorremos um longo caminho. E eu vou-me reinventado. Agora tenho 40, devo estar a meio da minha vida. E, paradoxalmente, sou muito mais nova do que aquela outra Rita de 25 anos que te teve. Porque me sinto mais liberta e segura, já não preciso de me agarrar a certezas absolutas. Assumo o erro. Sei que, por vezes, tens vergonha desta minha forma despudorada de ser. Dizes-me: “Ó, mãe, olha aí… pára, pareces uma miúda!” E, no outro dia, estava a ralhar contigo e tu interrompeste-me para perguntar por que raio te estava a tratar por “você”. Tive vontade de rir e disse muito depressa: “Estou-me a rir, mas não é de boa”, como dizia a minha avó Rosália. Trato-vos sempre por “você” quando estou muito zangada, só que nunca te tinha dado para questionar esta minha parvoíce. Estás a crescer e isso aquece-me o coração.
Se eu não consegui ser a melhor mãe do mundo, tu consegues ser o melhor filho do mundo. (O teu irmão também, de uma forma completamente diferente que tu nem sempre reconheces e compreendes.) Quando um bebé nasce, diz-se que a mãe tem de fazer um ajustamento entre o seu bebé imaginário e o real. Entre o bebé com que sonhou e o que lhe nasceu. Eu não precisei. A minha capacidade imaginativa ficou muito aquém da realidade. Tu és melhor do que nos meus sonhos. Não és perfeito. Mas és o meu filho perfeito.
Nestes últimos 15 anos, não tenho qualquer dúvida de que aprendi muito mais contigo do que tu comigo. Sinto que o tempo me escorre por entre as mãos, agora. Já temos tão poucos anos juntos, debaixo do mesmo tecto. Deixa-te ficar por aqui só mais um bocadinho, está bem? Espero ainda poder viajar muito contigo. Adoro conhecer mundo contigo. Gosto dos nossos momentos a dois. Os dias mãe-filho. Gosto de te ver cozinhar, embora nem sempre me agrade o resultado e me enfureça o estado em que deixas a cozinha. Gosto de me aninhar contigo no sofá a ver programas palermas. Gosto que me mandes sms a gozar comigo. Gosto muito de te ouvir tocar. Especialmente trompete, que já vai sendo mais raro. Gosto quando és altivo e te achas o melhor. Gosto da tua segurança. Da tua imensa responsabilidade e autonomia. Gosto quando vamos os dois no carro e tu falas sem parar. Gosto quando trocas um sorriso cúmplice comigo, porque o Vasco fez qualquer coisa que te deixou enternecido. Gostei muito de ver o teu assombro, quando espreitámos a aula de ballet do mano pela frincha da porta. Gosto da nossa cumplicidade, do mesmo sentido de humor subtil. Gosto de te ouvir contar muito depressa o teu dia todo ao Pascal, mal chegas da escola. Gosto quando dizes que é a pessoa mais inteligente que conheces. Mas também gosto quando lhe topas os defeitos e encolhes os ombros a rir. Gosto quando fazes perguntas e queres aprender muitas coisas ao mesmo tempo. Gosto muito da tua companhia, de estar contigo. Gosto que tenhas conseguido tornar isto de ser mãe uma coisa tão divertida.

És a minha maçã de Junho, que eu continuo a amar de um amor espantado. O dia em que nasceste, há 15 anos atrás, será sempre o dia mais feliz da minha vida.


Maçã de Junho
Jorge Palma
És a estrela da alvorada
E a madrugada junto ao cais
És tudo o que eu vejo em ti,
És a alegria e muito mais
És a minha maçã de junho
És o teu corpo e o meu
Amo-te mais que à vida,
Que a vida sem ti morreu

És a erva perfumada,
Debruada a girassóis
O trago do café quente
Nas manhãs entre lençóis
És a minha maça de junho
E a minha noite de verão
Anda, vem comigo,
Vamos, dá-me a tua mão

És o encontro na estrada,
És a montanha e o pôr-do-sol
O vinho bebido em festa,
És a papoila e o rouxinol
És a minha maça de junho
E a minha estrela polar
Sem ti eu não tenho norte,
Sem ti eu não sei amar.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Era um bocadinho difícil esconder o mono

(onde se mostra um menino feliz)





A chegada da prenda de anos do Diogo estava prevista para a próxima 6ª feira mas, entretanto, o país começou a meter água por todos os lados. Literalmente. Ahhh… e para não variar, tem havido greves. Desta vez, é dos transportes. O pessoal dos comboios reivindica, os outros são solidários (não vos digo o motivo da reivindicação, porque vocês atiravam-se para o chão a rir à gargalhada e depois não liam o resto do post…). Como sempre, quem paga é o povo. Neste caso, o povo que anda nas estradas, completamente abarrotadas de filas intermináveis de trânsito. É que a Primavera é a época escolhida para reparar os estragos feitos pela neve durante o Inverno. Ou seja, há sempre várias vias cortadas ao trânsito.
Resumindo, entre as estradas inundadas, atulhadas ou cortadas, tive medo que o piano não chegasse a tempo. Posto isto, decidi mandar um e-mail à pessoa de contacto da Thomann para o mercado francófono, que também achou melhor não arriscar. E o bom do piano aterrou ontem à nossa porta… minutos antes de começar a desabar outra enorme tempestade. O senhor da transportadora avisou logo que o mono pesava 80 quilos… distribuídos por uma única caixa gigantesca.
A solução foi meter a caixa na garagem à pressa e ir trazendo aos poucos as peças separadamente para cima. Quando terminámos a empreitada, tínhamos a sala cheia de bocados do mono. Ainda pensámos esconder aquilo tudo pela casa, mas tivemos medo de perder alguma parte do puzzle pelo caminho. Decidimos, então, montá-lo. Sim, sim… tipo Ikea. Felizmente, tivemos a inteligência de montar o mono já no seu futuro poiso… porque depressa percebemos que seria completamente impossível tirá-lo da sala montado. Tapámo-lo com um lençol preto para ver se disfarçava e se conseguíamos manter a surpresa até 6ª feira… Nada feito. Mesmo escondido, o mono tinha a forma inequívoca de um piano.
O que não tem remédio, remediado está… Ficou decidido que daríamos a prenda ao quase aniversariante no próprio dia. O meu amor foi buscar o rolo de fita que tinha sobrado dos meus anos. Avisou que já faltava pouco para o Diogo chegar da escola e que era melhor despacharmo-nos a “embrulhar” o mono. Depois, pus-me em cima do sofá com a máquina a postos à espera… Nem sequer foi preciso esperar muito. O Diogo fez os 5 minutos que separam a escola de nossa casa a correr, para fugir da bátega de água que caía. 


Breves notas:
  1.  Se alguém estiver a pensar encomendar um mono (ou algo mais maneirinho, há para todos os géneros musicais), recomendo vivamente a Thomann. Foram incansáveis a dar conselhos e a tentar encontrar o piano digital mais adequado às necessidades do Diogo, super eficientes a despachar a encomenda e imaginativos a encontrar soluções. Além disso, têm um site fantástico! A empresa está sediada na Alemanha, mas entregam no resto da Europa.
  2. É injusto dizer que sou “mãe solteira” – designação que aliás abomino – quando estou rodeada por tanta gente, nesta tarefa de educar e mimar os meus rapazes. A compra do piano-mais-próximo-do-órgão-de-igreja-que-encontrei foi uma prenda familiar. Obrigada aos tios além-mancha, ao avô Artur e à Véro, à avó verdadeira e à avodrasta, à tia Ana... Sois os maiores! Este miúdo tem a sorte de ter uma família única que o adora.
  3. O menino que aparece ali em baixo a tocar tem quase 15 anos, mas a mãe dele continua a achar que nasceu ontem. É o melhor filho do mundo e merecia uma prenda à altura.
  4. O menino que aparece ali em baixo a tocar começou a ter aulas – uma aula semanal de 25 minutos – há oito meses atrás. Acho que a mãe (que o viu nascer ontem) tem razões para estar orgulhosa…
  5. Aquele senhor que se ouve a falar todo embevecido ali em baixo é o meu Belga, o amor mais doce, o melhor companheiro de aventuras, o homem-sem-filhos mais amoroso que podia ter cruzado o nosso caminho.
  6. Fica a dica para quem tem casas suficientemente grandes para os miúdos na idade do armário se perderem nelas: descubram o objecto de desejo do adolescente e instalem-no no meio da sala. Tipo mono, mesmo. Vão ver que nunca mais se encafuam no quarto!
  7. Se o objecto cobiçado for… digamos… sonoro, comprem igualmente uns bons phones. Nós optámos por comprar o piano digital em pack, banco e auscultadores incluídos. Não estou nada arrependida. No início, é um bocado estranho vê-lo para ali a tocar horas a fio (é mesmooooo horas!), sem um único som. Mas, depois de ouvir a mesma música vezes sem conta, os ouvidos agradecem. A vizinha tísica também, parece-me.
  8. Para instalar o mono, tivemos de mudar o sofá pequeno de sítio. A bem dizer da verdade, é o sofá do D. Fuas, onde ele passa os dias a espreitar a rua e a dormitar em cima do elefante de peluche. Vai alternando, consoante lhe dá a moleza nos ossos. Não sei porquê, não lhe agradou a mudança. Recusa-se terminantemente a subir para cima do sofá. Há dois dias que se arrasta a suspirar pela casa, amuado. Anda tão triste que me parte o coração, coitado! Esperemos que lhe passe, porque o novo proprietário do spot anda encantado com a localização solarenga do mono.
  9. O meu amor foi de propósito a correr buscar a coisa pequena à escola, mesmo à hora da saída, para assistir ao desembrulhar da surpresa. Infelizmente, quando foi pôr a mochila no quarto, a leitura de uma BD pela enésima vez pareceu-lhe mais premente. Apareceu já a festa tinha acabado, por assim dizer. Andou por ali a tentar colar-se, mas o irmão avisou-o logo de que está proibido de tocar no mono. O Vasco aproximou-se de mim e disse: “Gosto tanto de o ver assim tão feliz!”. Mas eu, que o conheço de ginjeira, respondi-lhe que não fazia mal ter ciúmes. Coisa pequena pareceu aliviada por poder admitir os seus sentimentos contraditórios e, mal viu o irmão pelas costas, tocou no mono com a pontinha do dedo, quase como se fosse um objecto sagrado. E lançou discretamente a ideia de que 10 anos também são uma data importante…
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E o belíssimo som do órgão:

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Há lá coisa melhor nesta vida do que ver um filho feliz!?

terça-feira, 7 de junho de 2016

It runs in the family


(não há nada a fazer, as gaffes são um mal de família)


 

Avó: Já depositei o dinheiro da tua prenda na conta da tua mãe.
Diogo: Obrigado, avó.
Avó: Então, sempre vais comprar o piano?
Diogo: Eu sabia! Eu sabia!
Avó: Sabias o quê?
Diogo: Que ia receber um piano!!!
Avó: Ahhh… mas tu não sabias!?
Diogo: Não, mas agora já sei!

segunda-feira, 6 de junho de 2016

E quando já pensávamos que estávamos safos…


(onde se expõe os malefícios da fruta)



O pai do meu amor decidiu que já era tempo de nos conhecer pessoalmente e impôs a sua presença com uma simplicidade desarmante. Desta vez, foi impossível fugir.
Avisei bem o Vasco: nada de mãos a coçar o que não devem, nada de puns, nada de arrotos, nada de comer como um porco, nada de mandar a comida para fora do prato, nada de entornar copos à mesa, nada de fazer voar os talheres, nada de falar de boca cheia, nada de interromper a conversa dos adultos, nada de se pôr a falar sem parar, nada de familiaridades, nada de tratar o senhor por “tu”, nada de ser indiscreto… a bem dizer da verdade, nada das habituais vasquices. Acho que a minha lista de interdições foi bastante exaustiva. À pergunta desolada “Afinal, o que posso fazer?!”, respondemos unanimemente “NADA!”.
O dia passou-se, com uma estranha naturalidade. O Diogo e eu seguíamos de perto os mínimos gestos do Vasco, não fosse a coisa descambar. Para nossa surpresa, petit chose apresentou-se no seu melhor. Esbanjou simpatia. Ofereceu um café, que se prontificou a fazer (sem partir a máquina, a chávena ou o açucareiro de premeio). Soube ser agradável e cativante como só ele. Aos poucos, começámos a relaxar. No final do dia, parou de imediato de roer uma maçã e interrompeu a leitura para se despedir. Com uma cortesia inesperada, pôs-se de pé e estendeu cordialmente a mão. O pai do meu amor sorriu, fez-lhe uma festinha na cabeça e estendeu-lhe a cara para receber um beijo. Suspirámos de alívio. Surpreendentemente, tinha corrido tudo bem.
Já tínhamos voltado costas para ir à nossa vida, quando ouvimos o Vasco pedir desculpa pela maçã. O senhor, que se estava a dirigir à porta, voltou para trás. “A maçã?!”  “Sim, deixei-lhe aí um bocado de maçã colado na cara, quando lhe dei um beijinho.”
A ver se não me esqueço de acrescentar à lista: nada de despedidas com a boca cheia. Porco, pá!

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Vórtex de culpa materna


(porque quando as coisas correm mal a culpa só pode ser nossa)


 
O Vasco decidiu tocar o “Lago dos cisnes” no exame final do 3º ano da Académie, apesar de ser matéria do ano seguinte. Infelizmente, a professora de violino concordou com a escolha ambiciosa. E eu, que o tinha visto ser prejudicado no ano anterior por ter escolhido uma música demasiado fácil, acabei por concordar. Contudo, tendo em conta que as divergências antigas com a professora se agudizaram nas últimas semanas, calculei que pudessem surgir problemas. Se dúvidas houvesse, teriam ficado dissipadas quando a professora disse claramente ao Diogo que a nossa troca de mensagens teria consequências nos exames. Decidi, então, arranjar alguém para ajudar o Vasco a preparar o exame de violino. A verdade é que, com problemas ou sem eles, aulas semanais de 25 minutos são claramente insuficientes. O Diogo ajudou o irmão todas as noites a estudar em casa, com um desvelo que me comoveu (e uma dureza que, por vezes, me surpreendeu). E a professora de violino contratada à última da hora fez milagres. Minutos antes do exame, a coisa pequena tocou para nós as duas músicas que tinha preparado. Estava excelente.
Seguindo o conselho da professora que ajudou a preparar o exame, o Vasco não levou o CD que acompanhava o “Lago dos cisnes”. O acompanhamento do CD era demasiado rápido e o Vasco atrapalhava-se. Sem CD, a coisa corria de feição. No dia do exame, a professora de violino, com um sorrisinho sádico, disse que ia acompanhá-lo ao piano. Pela primeira vez na vida, o Vasco não me piscou o olho antes de começar a tocar. Aliás, não olhou para mim uma única vez. Percebi que tinha ficado completamente desnorteado com a ideia de tocar com acompanhamento, sem ensaio prévio. A coisa pequena tocou ao ritmo dele. A professora tocou devagar, muitoooo devagar. O resultado foi uma espécie de cacofonia que o perturbou. Quando lhe vi o queixo a tremer, percebi que o resto do exame estava condenado. Os erros sucederam-se. A segunda música – obrigatória e ensaiada com acompanhamento – também lhe saiu mal. Só quando chegou junto de nós é que deu livre curso às lágrimas. Chorou de vergonha por ter tocado mal e chorou de raiva pela injustiça. Chorou de tristeza por ter falhado, após tanto empenho. O Diogo – também envergonhado – evitou olhar para ele. Eu contive as minhas próprias lágrimas a custo (e a língua afiada também). Esforcei-me por sorrir. Disse-lhe que não era grave, que o importante era divertir-se. A atitude carinhosa veio inesperadamente do Belga, que abriu os braços e o aninhou. Deu-lhe os parabéns. Fez-lhe massagens nas costas. Começou a dizer disparates para o fazer rir. A crise passou, mas a tristeza permaneceu.
A verdade é que a audição de violino do Vasco correu bastante mal. Mas eu fiquei orgulhosa. Aprender a gerir a frustração faz parte da vida. Lidar com gente mal formada também. E a coisa pequena conseguiu estar à altura. Nunca desistiu, continuou sempre a tocar. Acho que só quem o conhecesse bem era capaz de perceber o desnorteio. Não sei se o Vasco passará para o 4º ano. Todos os alunos que se apresentaram a exame cometeram vários erros, o que diz bastante sobre a qualidade da professora. Os outros alunos do mesmo ano tocaram músicas bastante mais simples… com vários atropelos pelo meio. Eu já tinha pedido para falar com o director, para expor o problema e pedir autorização para mudar de professora no próximo ano. Provavelmente, as aulas passarão a ser dadas em Stavelot ou Malmedy, a vários quilómetros de nossa casa. Mas é impensável continuar com aquela professora, que nunca soube dar um elogio ao Vasco em dois anos de aulas. Como se fosse possível evoluir na crítica…
Entretanto, o Vasco já esqueceu o incidente (mas não voltou a pegar no violino). Eu continuo mortificada. A culpa… sempre a sacrossanta culpa materna a corroer-me por dentro. Revejo as minhas justificações, uma e outra vez. O meu amor já não deve poder ouvir falar neste assunto, mas arranja sempre algo novo para dizer. Eu devia ter tentado arranjar outra professora, no ano passado. Mas a implantação da Académie em Salmchâteau fica mesmo a 5 minutos de nossa casa. E se o tirasse do violino, também teria de arranjar outra professora de solfejo para ambos. Isso representaria centenas de quilómetros semanais, entre as várias idas e vindas. O Diogo disse-me que queria terminar o curso ali… Devia ter obrigado um filho a seguir o outro? Quer dizer… acabei mesmo por obrigar um filho a seguir o outro, quando decidi que continuavam ambos em Salmchâteau. Talvez não devesse ter enviado aquela mensagem, há duas semanas. Releio-a vezes sem conta. Não insultei a professora, como ela diz. Três pontos de exclamação não podem ser considerados um insulto. A verdade é que o Vasco faltou à última aula antes do exame de solfejo, porque a professora se enganou. Eu limitei-me a dizer-lhe isso mesmo. Talvez devesse tê-lo feito sem exclamações… Ou talvez devesse ter logo falado com o director. Devia ter insistido mais.
Eu sei que devia concentrar-me no facto de o meu filho pequenino já conseguir tocar o “Lago dos Cisnes” e na felicidade que isso lhe proporciona. Sei que é extremamente importante aprender a lidar com a frustração e a decepção, faz parte do crescimento. Chumbar um ano não é assim tão grave. Devia ficar contente por o Diogo ter ajudado o Vasco noites a fio a ensaiar. É muito bonito ver a relação dos dois irmãos crescer num universo musical exclusivo. Devia esquecer tudo o resto e lembrar-me apenas do sentimento de gratidão profunda que senti, no dia do exame, quando meu amor lhe soube dar colo e secar as lágrimas. Eu sei que devia… mas não consigo. Fiquei presa algures no vórtex da culpa materna.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

40 ans… ça se fête!

(onde se pensa ter descoberto o mistério e se acaba surpreendido)



Acertei em cheio na surpresa que os homens da casa prepararam para os meus 40 anos! O meu amor diz que é impossível surpreender-me, mas engana-se. Eles conseguiram espantar-me durante todo o fim-de-semana. A verdadeira surpresa não foi o destino final da viagem, foi o cuidado com que prepararam tudo ao mais ínfimo pormenor. Foram dois dias recheados de pequenas surpresas, dos melhores da minha vida.

[ Vê-se pouca televisão, nesta casa. Mas há um programa que o Vasco e eu adoramos: "Une Saison au Zoo". É uma espécie de reality show sem competição, nem prémios. Sem vencedores, nem vencidos. Passa-se no Zoo de la Flèche, onde podemos acompanhar o quotidiano dos tratadores e animais neste jardim zoológico, na região de Angers, em França. Foi aqui que passámos o dia dos meus anos... e valeu bem as sete horas de viagem. Algo que não se percebe na série e que nos espantou imenso foi o aspecto não comercial do zoo. Não há lojas, nem quiosques no parque. Não se vê gente a tentar impingir coisas a meio dos espectáculos. Há uma lojinha à saída e uma pequena área de restauração. O mais estranho é que existem imensas esplanadas e áreas cobertas para as pessoas se instalarem a comer o farnel que trouxeram de casa... Nós, que não tínhamos levado nada, ficámos um bocado perdidos. Ali, o que interessa são os animais. Tudo o resto é acessório. ]



[ Eis dois bons exemplos das "jaulas" deste Zoo. Por vezes, torna-se difícil encontrar os animais, que se perdem e confundem com a natureza envolvente. Se pensarmos bem, La Flèche não têm gorilas como o Zoo de Lisboa ou pandas como o Pairi Daiza, na Bélgica. Provavelmente não é o Zoo mais espectacular à face da terra, mas tem um ambiente único. O lema deles é "conhecer melhor para cuidar melhor" e isso sente-se nos mínimos detalhes. Não vi um único animal com aquele comportamento típico dos bichos enjaulados, olhar perdido e movimentos repetitivos. Atualmente, existem tantas espécies ameaçadas ou em vias de extinção que o trabalho desenvolvido neste zoo é essencial. ]


[ Esta é uma das razões pela qual ansiava vir ao Zoo de la Flèche... o urso polar, o meu animal preferido! Mal entrámos, obriguei-os literalmente a correr para assistirmos à alimentação dos ursos no tanque vidrado. O espaço exterior é enormeeee! Tem uma mini floresta com um tapete de gelo e um tanque gigante. Um dos meus sonhos era ver um urso polar a nadar, fiquei completamente derretida. ]

[ Neste zoo, os tratadores são as estrelas da companhia. Aliás, vêem-se imensas crianças com um livrinho de autógrafos a correr atrás deles. No final de cada apresentação, os tratadores ficavam por ali a responder às questões dos miúdos. Como não podia deixar de ser, o Vasco massacrava-os sempre com perguntas. Pensei que fosse uma desculpa para falar com as pessoas que vemos há anos atrás das câmaras, mas depressa percebi que eram questões bastante pertinentes. Acabámos por aprender imenso. Muito do sucesso do programa e do próprio zoo deve-se a esta equipa de jovens coesa e motivada. ]


[ Por sorte, cruzámo-nos diversas vezes com uma família que estava a treinar um cão-guia. Foi muito engraçado ver a reação dos outros animais quando ele se aproximava, principalmente a alcateia de lobos... outro dos meus animais preferidos. ]


[ Um dos trabalhos desenvolvidos pelos tratadores no Zoo de la Flèche consiste no "treino médico". Todos os animais aprendem a deixar-se examinar e tratar, sem ser necessário adormecê-los. Na série, vimos que pode ser extremamente útil, quando estão doentes ou feridos. No zoo, assistimos a imensas interacções e à alimentação dos animais, mas espetáculos propriamente ditos, não há muitos. Os bichos não são tratados como animais de circo. ]


[ Nunca tínhamos visto morcegos... ficámos encantados por conhecer a verdadeira "Batcave"! São uns bichos adoráveis. ]

[ Grande parte do dia foi uma espécie de "Onde está o Wally?", à procura da bicharada. ]

[ Fizemos ambas as viagens de ida e volta debaixo de uma chuva torrencial... no dia D estava um sol resplandecente e um calorzinho mesmo bom. Filho grande está cada vez mais belga... apanhou um escaldão! O tigre também devia estar com calor, porque andou o dia todo atrás das sombras... ]

[ O vivarium fez as delícias dos dois homens grandes. Estas serpentes tinham um ar bem mais vivo do que as de Marrocos... ]

[ As várias espécies de papagaios andavam todas à solta, porque os espaços são abertos. ]

[ Para quem vê a série e conhece o trabalho de bastidores no início da Primavera, é giríssimo ver o espectáculo das aves. A passarada ainda não perdeu o peso todo que ganhou no Inverno e as coisas nem sempre correm tão bem como esperado. Seja como for, as aves do Zoo de la Flèche são impressionantes. ]

[ Ver a alegria dos tratadores e a cumplicidade que têm com os animais é um espectáculo em si. Esta é a Barbara, a chefe do sector das aves, uma das nossas preferidas. ]

[ Não é por nada, mas não me parece que entrasse nesta saída de emergência... ]


[ Os rapazes acharam que era muito parecida com esta mãe chimpazé! ]

[ Uma família de leões brancos com três filhotes a dormirem a sesta. Um dos leõezinhos, às vezes, levantava-se só para ir chatear a mãe... ]
 
[ Fiquei impressionada com o espaço dos elefantes, onde todas as tardes um dos tratadores vai encher uma poça de lama. Tivemos a sorte de ver um dos elefantes a tomar um banho de lama com a tromba, qual National Geografic. ]

[ Passei o dia a ser mimada pelos meus homens, que estavam uns melados. Filho grande está tãooooo grande! ]


[ Eis o Diogo reincarnado num chimpazé... mal recebeu a comida, afastou-se do grupo para comer em paz! No Zoo de la Flèche, a comida está muitas vezes escondida ou pendurada nas árvores, dentro de melancias com furinhos ou embrulhada em folhas. Além disso, todos os animais têm brinquedos... os chimpazés, por exemplo, tinham peluches. A ideia é quebrar ao máximo a rotina e oferecer-lhes novas experiências. ]


[ Estes jovens ursos ficaram imenso tempo à luta. A coisa parecia mesmo séria, mas afinal são brincadeiras juvenis, segundo explicou o tratador. ] 
[ Chegámos ao hotel derreados, no final do dia. Na recepção, perguntaram qual de nós fazia anos, porque tinham visto a decoração esmerada do quarto... ]


[ Enquanto eu tomava banho, os homens vestiram-se a rigor à socapa. O meu amor vestiu a farda de oficial da marinha e parecia outro... Ia morrendo de susto, quando o vi todo aperaltado. Ainda bem que já se reformou, porque o mulherio em Angers parava à sua passagem... O Vasco também ficou apaixonado pela farda! ]


[ Ei-los todos bonitos e sorridentes! Esta foi outra das minhas prendas: a felicidade que o meu amor lhes proporcionou com todas estas pequenas surpresas. O Diogo adorou ir pela primeira vez a um restaurante "de luxo", sentiu-se todo importante. ]


[ Eu vesti o meu vestido de princesa, mas acho que não fiquei à altura da beleza masculina da tribo. O Vasco realizou o seu sonho de usar um laço como o James Bond, que o meu amor comprou propositadamente para a ocasião. ]

[ Tivemos direito a champanhe verdadeiro sem álcool... vantagens de se viver num país onde há uma grande comunidade árabe! O meu amor deu largas aos seus talentos culinários: génoise com ganache de chocolate e amêndoas com glaçage de frutos vermelhos. Estava delicioso! O pessoal do hotel também foi presenteado como uma fatia... a rapariga da recepção estava tão impressionada com as surpresas, a decoração, o bolo e a farda, que tive medo que me roubasse o marinheiro! ]


[ Fui muito mimada pelos meus homens, recebi imensas prendas! Principalmente, recebi a prenda que andava a namorar há anos... os Palladium que fizeram as delícias dos meus 15 anos! Foi o meu filho Diogo que vasculhou mundos e fundos até os descobrir, e foram pagos a meias entre todos (embora, segundo conste, o Vasco ficasse com o queixo a tremer, quando viu toda a sua fortuna partir). ]

[ No dia seguinte, pensei que não houvesse mais surpresas, mas enganei-me. Esperava-me uma visita por Angers, pela qual me apaixonei perdidamente. Ficou prometida uma viagem mais longa ao Pays de la Loire, para visitarmos os castelos lindíssimos nas margens do rio. Parámos para comer um delicioso crepe... estar em França e não nos lambuzarmos de crepes era quase um sacrilégio. O filho grande começou a entrar em stress, nesse momento. Está à beira dos exames e já anda bastante enervado. Decidimos desistir da última surpresa que me esperava: uma visita ao Cadre Noir, a escola de equitação nacional francesa. Sou sincera, custou-me horrores. Seria mais um sonho tornado realidade, mas pronto... valores filiais mais altos se levantaram. Ficou a intenção do meu amor, que provou ser possível apaixonarmo-nos muitas vezes pela mesma pessoa. ]