domingo, 28 de dezembro de 2014

Amanhã

(ou o desabafo)

 
Amanhã, chegam os meus filhos. Depois de uma semana de ameaças, de chantagens, de incerteza, de medo. Depois de uma semana de guerra, que nos deixou exaustos.
 
Aliás, se pensar bem, depois de uma semana igual a todas as outras no último ano. A nossa vida é isto. Nunca aqui o disse, mas a nossa vida também é isto. Vivemos sob fogo inimigo. Permanentemente. Somos controlados, espiados, ameaçados. Amedrontados. Recebemos telefonemas às horas mais estapafúrdias que nunca atendemos. Recebemos sms acusatórios e intimidantes aos quais nunca respondemos. E e-mails ofensivos que infelizmente não podem ficar sem resposta. Dizem incessantemente que sou louca, desequilibrada, descompensada. Mentirosa. Que vivo numa qualquer realidade paralela feita à imagem da minha pobre existência. Que sou má mãe. Que vou perder os meus filhos.
 
Dizem-me que vou perder os meus filhos para sempre.
 
Amanhã, chegam os meus filhos comprados, deslumbrados. Alienados. Que demoram sempre a regressar à normalidade. Que trazem os braços e as malas cheias de prendas. Muitas prendas. Prendas pagas a peso de ouro, disseram-me. Nada tenho para lhes dar que faça frente a isto.
 
Excepto talvez o nosso amor imenso. Incondicional. A família unida. Os amigos fiéis. Os passeios que gostamos sempre de fazer com eles. Para lhes dar mundo. Contra ventos e marés, vamos vivendo como podemos na esperança de que o amor e o mundo que temos para lhes oferecer seja suficiente.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Adivinhem onde é que eu estou!

(porque este ano o Pai Natal passou mais cedo pela terra do frio)

 
Passei tantos anos a receber prendas que nada tinham a ver comigo, prendas que detestava, prendas que tinha de abrir com um sorriso falso, que ainda sinto um frio na barriga sempre que vejo um embrulho à frente. Ainda não me habituei a ter alguém ao meu lado que me conhece como ninguém. Que gosta de mim tal como sou. Que não me tenta moldar à sua imagem e semelhança. Que não me quer transformar numa pessoa que eu não sou, nem nunca serei. Alguém que olha e vê, que escuta com atenção aquilo que eu nem sequer chego a dizer.
 
E este ano eu só queria mesmo uma coisa. Uma única coisa que, por me parecer inalcançável, não ousei verbalizar. Porque eu agora sei que a dor interposta ainda dói mais.
 
Mas o meu amor percebeu.
 
Por isso, aqui estamos. Com o céu azul. O Tejo. A luz de Lisboa. Este calorzinho bom que me aquece o coração.
 
Quando vislumbro Lisboa ao longe, vinda da outra margem, sei que cheguei a casa. Quando o meu pai me faz uma festinha na cara, depois de me dar um beijo, sei que cheguei a casa. E quando a minha mãe disfarça uma lágrima, sei que cheguei a casa. As minhas irmãs vão gozar comigo, como sempre fizeram. Vou mimar os meus sobrinhos. Abraçar o meu avô, que está tão velhote. Matar saudades dos amigos. Vou olhar para os meus filhos no preciso instante em que um novo ano começa. Dar um beijo ao meu amor e agradecer-lhe mais uma vez por me ler tão bem a alma. Vou ser quem sou, porque sei que cheguei a casa.
 
O meu amor diz que fico sempre diferente, quando estou em Portugal. Que irradio uma espécie de brilho. Que fico mais feliz. Leve.
 
É porque sei que cheguei a casa.
 
Desejo a todos um Natal assim... no sítio onde são mais felizes, com as pessoas que mais amam. Um Natal em que sintam que chegaram finalmente a casa.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

O chico-esperto

(onde se apresenta aquela espécie lusitana

que acha que o resto do mundo vai na canção do bandido)


O chico-esperto é aquele tipo de pessoa que tenta incessantemente contornar o sistema na esperança de obter um qualquer benefício ou vantagem pessoal exclusiva. O fim justifica sempre os meios.

O chico-esperto compensa o que lhe falta em inteligência com esperteza saloia, o que lhe falta em cultura com um desfile de faits divers banais. E, quando tudo isso falha, há sempre o recurso à piada fácil.

O chico-esperto está convencido de que domina como mais ninguém a arte da manigância e dos esquemas. É um tipo cheio de cenas, que se considera mais espertalhão do que o comum dos mortais porque vê pontos de fuga mirabolantes que mais ninguém consegue vislumbrar.

Toda a existência do chico-esperto assenta no dom da prosápia. A prosápia sedutora, manipuladora, deturpada, falsa… A bazófia, portanto. Esta vocação para a lábia leva-o frequentemente a escolher profissões comerciais, onde vende sem pejos frigoríficos a pinguins e, de permeio, ainda lhes oferece um gelado para os fidelizar.

Podem tirar o chico espero do subúrbio, mas nunca poderão tirar o subúrbio do chico-esperto. Para onde quer que vá, arrasta atrás de si o odor suburbano.

O chico-esperto foi alimentado a arroz de frango, por isso, agora só come bife da vazia. Esquece-se de que são os modos à mesa e não o que tem no prato que o traem.

O chico-esperto acha que o “Expresso” vem em vários tomos e que o essencial está resumido nas páginas de “A Bola”. A actualidade restringe-se às novidades futebolísticas. A actualidade portuguesa, bem entendido, pois toda a gente sabe que o mundo acaba no país à beira-mar plantado.

O chico-esperto tenta disfarçar a sua origem usando fato e gravata. Esquece-se que o corte standartizado de hipermercado e a má qualidade do tecido o denunciam. Tal como os sapatos cambados de sola compensada que lhe magoam os pés, mas que lhe conferem os míseros centímetros que tanto almeja.

A linguagem corporal do chico-esperto denuncia sempre a sua enorme insegurança. Tem aquele tique que os comentadores políticos apontavam ao Sarkozy: um ombro ligeiramente mais descaído do que o outro, que denota um certo mal-estar e a dificuldade em entrar na personagem.

As novas tecnologias são o melhor amigo do chico-esperto. Graças a elas, modernizou-se e já não precisa de vociferar “Agarrem-me, senão vou-me a ele!”. Agora, escuda-se por trás das redes sociais para atacar cobardemente os outros e apelar ao apoio da multidão igualmente boçal que o segue.

Como não tem bagagem intelectual, o chico-esperto barricada-se em ideologias sólidas inquestionáveis: o clube de futebol, o partido político, a religião, o trabalho, as citações de autores conhecidos. À primeira vista sabe falar de tudo um pouco, mas depressa se perde nas curvas.

No fundo, o chico-esperto é uma espécie de caniche que ladra histericamente para afastar o medo, porque teme a sua própria sombra. Na intimidade do lar, é muitas vezes um pau-mandado, um rapazinho que procura incessantemente a aprovação que nunca recebeu do pai, um adulto desnorteado que prefere que escolham por ele.

O chico-esperto adora defender supostas causas nobres e os oprimidos, mas nunca vai ao fundo da questão. Um bocadinho à imagem do escuteiro que ajudava a velhinha a atravessar a estrada. Porque é preciso mostrar segurança, certezas absolutas, rectidão. É preciso esconder a vida vazia e pouco interessante atrás de grandes bastiões.

O chico-esperto não é, tem. Não tem, ostenta. Não ostenta, impõe. Não impõe, inventa.

A coisa que o chico-esperto mais preza é a sua networking. Os conhecimentos. A putativa cunha. Os “amigos” que não lhe conhecem a alma negra de lado nenhum, só o seu lado mundano e o riso falso.

O chico-esperto começa a arreganhar os dentes e disferir mordidelas desde pequenino porque nunca ninguém lhe ensinou a usar a pouca inteligência que a natureza lhe deu para esgrimir argumentos. Por isso, rosna.

A ostentação é algo de extrema importância para o chico-esperto. A localização da casa, o carro, os gadgets, o estilo de vida… A defesa da sua existência comezinha baseia-se na imagem que transmite aos outros.

Quando está ao volante do seu carro, o chico-esperto atinge o ponto máximo da chico-espertice: conduz embriagado graças às suas capacidades sobre-humanas, conhece os melhores atalhos, grita impropérios e aterroriza velhotes (e negros e mulheres e outras minorias aselhas ao volante), faz manobras perigosas e ultrapassagens espectaculares, conduz à velocidade da luz porque o conta-quilómetros, que vai até aos 240, está mesmo a pedi-las.

O chico-esperto é uma instituição no nosso país. Estamos tão habituados a ele que, quando de repente o vemos através de um olhar estrangeiro, sentimos náuseas. E percebemos que essa é a origem do problema, a razão pela qual Portugal anda há séculos a lutar contra os mesmos defeitos autóctones.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Ganhar o dia

(porque do turbilhão adolescente, às vezes, emerge um ser adulto)


Estava a regar as plantas, quando o Diogo reparou num vaso novo e me perguntou de onde é que aquilo tinha vindo. Expliquei que tinha trazido do trabalho. Que estavam a renovar os gabinetes e que iam deitar a planta fora. E que tive pena, porque até era bem bonita. Riu-se e comentou que eu aproveitava tudo. Mas é que era mesmo tudo. Divertido, pôs-se a enumerar as coisas todas que eu já trouxe do meu trabalho… Um dos móveis recuperados da sala. As nossas fichas triplas. O candeeiro da secretária do Vasco. Uma cadeira antiga. Concordei. Nem sequer perdi tempo com grandes teorias sobre a arte do relooking ou do DIY, que fazem com que o reaproveitamento pareça uma cena em voga cheia de estilo. Lembrei-o de que, quando aqui chegámos, não tínhamos nada. Nada de nada. Em dois anos e meio, temos uma casa de quatro andares mobilada. Ele continuava a rir. “Mobilada com coisas apanhadas no lixo.” Certo… mas um lixo internacional, caraças. Desencantámos móveis na Bélgica, na Alemanha e na Holanda. Fora tudo aquilo que nos foi generosamente oferecido pela família, amigos, vizinhos e até gente estranha. Os móveis que descobrimos em feiras, ferros-velhos e vendas de garagem. Um bric-à-brac a quem oferecemos uma vida nova. Uma segunda oportunidade. Tal como nós, acrescentei. Nós também estamos a viver uma segunda vida, que construímos do zero. Esta casa foi feita aos poucos, à nossa imagem.

De repente, o Diogo largou novamente a rir. Eu continuava absorta nas minhas lembranças e não percebi. Ele apontou para a botija de água quente do Vasco com que eu estava a regar as plantas. “Até a água fria da botija aproveitas, mãe!” Sorri. E disse-lhe que achava que o mundo seria um lugar muito melhor se as pessoas tentassem aproveitar o que as outras já não querem. A quantidade de lixo que se evitava… Ele aproximou-se, desengonçado, e abraçou-me. Disse-me que o mundo seria um lugar muito melhor se houvesse mais pessoas como eu. Fiquei de coração cheio.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Murro no estômago

(a austeridade sob outro ponto de vista)


Posso viver 2500 quilómetros a Norte, mas vou seguindo atenta as notícias que me chegam de Portugal. E sei que situações destas acontecem diariamente. Mas não deixa de ser um murro no estômago. Nunca o “longe da vista, longe do coração” me pareceu tão absurdo. Dói ver o nosso país afundar aos bocadinhos e a banda continuar a tocar como se nada fosse.

A Bélgica está há meses a ferro e fogo com protestos constantes contra as medidas de austeridade anunciadas pelo novo governo de direita. Acções várias, manifestações, greves… Mas greves a sério, em que o país pára mesmo. Em que há confrontos graves com as autoridades. Em que as próprias autoridades também fazem greve. Em que os piquetes de greve não deixam passar ninguém. Chamam-lhes “greves rotativas” porque tocam rotativamente todas as províncias e todos os sectores, público e privado, até culminarem numa greve geral. Na próxima segunda-feira, este país vai parar novamente. Escolas fechadas, transportes parados, serviços de saúde mínimos, estradas cortadas, serviços encerrados.

O que está aqui em causa são medidas de austeridade que estão a anos-luz das medidas já impostas em Portugal. A supressão da indexação dos salários e dos abonos de família, o aumento do IVA numa série de produtos e serviços, a imposição de um limite de tempo para o subsídio de desemprego, o aumento da idade da reforma para 67 anos em 2030. Aos nossos olhos, é coisa poucochinha. Temos tendência a pensar que esta gente se queixa de barriga cheia. Sabem lá eles o que é a crise… Mas a questão é mesmo essa: a Bélgica não sabe o que é crise e está firmemente decidida a nunca saber. Os belgas já perceberam que as medidas de austeridade que foram impostas aos países da Europa do Sul não criaram prosperidade nenhuma, bem pelo contrário. Está mais que provado que esse modelo económico não funciona, pelo que é essencial não deixar margem de manobra ao poder político para tentar implementá-lo aqui. Doa a quem doer. E na segunda-feira vai doer a todos.

Nos últimos tempos, mal sabem que sou portuguesa, as pessoas fazem-me sempre a mesma pergunta. O funcionário da mediateca, o meu mecânico, o médico da medicina do trabalho, a secretária da minha escola, um eminente neurolinguista que entrevistei no outro dia. Por que razão ninguém ouve falar do que se passa em Portugal? Ouve-se falar das manifestações violentas na Grécia, do Podemos em Espanha, dos ouvidos moucos que a Itália faz às imposições europeias. Mas ninguém tem noção da miséria que grassa em Portugal, só mesmo quem lá vive. Ou quem por lá passa, como simples turista, e se vê confrontado com uma realidade para a qual não estava minimamente preparado. É vergonhosa a quantidade de gente que tenho conhecido que me diz ter ficado chocada depois de ter visitado o nosso país. É tudo muito bonito, o clima é excelente, as pessoas muito acolhedoras e tralálá... mas a miséria, senhores, a miséria! O comércio fechado, as casas a ruir, a pobreza que deixou de ser encapotada. E, no meio disto tudo, o que mais choca é o desconhecimento total que a Europa do Norte tem sobre esta situação. Às vezes, a incredulidade é tanta que as pessoas pendem naturalmente para a teoria da conspiração. Perguntam-me se fazemos protestos em Portugal que a Europa faz questão de silenciar. Não, também não é isso.

Não tenho resposta para as perguntas recorrentes que me fazem, infelizmente. Lá vou admitindo que somos culpados pelos governos que elegemos. Ou que deixámos eleger, o que ainda é pior. Somos culpados porque acatamos tudo com o estoicismo derrotista e medroso de quem alancou com quase 50 anos de ditadura no lombo. Já me têm corrigido: “Somos, não… que você agora vive na Bélgica e, aqui, as coisas são diferentes”. É verdade, as coisas são diferentes, eu é que não sou. Para minha grande tristeza, percebi isso esta manhã, quando fui levar o Vasco à escola. Ele perguntou-me: “Na segunda-feira, também vais fazer greve?”. Respondi que não tinha de se preocupar, porque eu tinha trocado as minhas folgas para poder ficar em casa com eles. E vim o caminho todo com um estranho sentimento de culpa a corroer-me. Ele tem de se preocupar, sim. Porque tem uma mãe que, 2500 quilómetros a Norte, mantém a passividade colada à pele. Que preferiu não fazer barulho e trocar as folgas, a aderir à greve. Não tomei posição. Não levantei ondas. Não questionei. Sou culpada. E este é o verdadeiro murro no estômago.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Males que vêm por bem

(é só preciso saber esperar)


Sexta-feira passada, passei o dia todo a maldizer a minha vida. Mal eu sabia que ainda havia de agradecer...

Por que raio é que a festa de Saint Nicolas da escola do Vasco tinha de começar às 13h30? E, ainda por cima, só avisaram em cima da hora. (Quer dizer, acho que avisaram com a devida antecedência, mas o papel andou vários dias perdido no buraco negro que é a mochila do meu filho pequeno.) Como se as festividades escolares fossem um motivo válido para faltar ao trabalho. “Desculpe lá, chefe, mas amanhã não posso vir trabalhar porque o meu mais novo tem a festa de Saint Nicolas lá na escola e vai fazer de serpente.” Estava fora de questão. Ainda se fosse o menino Jesus… Mas, depois, a coisa pequena fez olhinhos de bambi. Cheios de lágrimas. E eu lá liguei ao chefe a dizer que tinha sido apanhada desprevenida pelas temperaturas amenas para a época (tipo, 6º) e que ainda não tinha ido pôr os pneus de Inverno. O que era a mais pura das verdades. E que anunciavam um nevão para a madrugada de Domingo. O que talvez fosse um bocadinho exagerado, mas plausível. Afinal, sempre há vantagens em viver nas Ardenas, onde nunca ninguém sabe muito bem que tempo é que faz. Mas é sempre pior do que no resto do país. Três centímetros de neve em Verviers podem bem transformar-se em dez centímetros lá para os meus lados.

Folga trocada, aproveitei para ir à garagem de manhã pôr os pneus. O meu novo mecânico é um tipo um bocado estranho. Estranho, tendo em conta o estereotipo profissional. Não tem calendários de mulheres nuas nas paredes, a garagem está impecavelmente arrumada, ele está sempre bem vestido e de mãos limpinhas, oferece-me café, nunca lhe vi o rabo, tem uma gata toda branca que trepa pelo meu casaco acima para se alapar ao colo e dois jack russell velhotes que tentam sempre enfiar-se no meu carro. E não é caro.

Mentira transformada em verdade, lá fui eu assistir à festa da escola. Como estava sem carro, tive de atravessar Vielsalm a pé e cheguei atrasada. Menos mal, talvez conseguisse evitar as apresentações dos miúdos mais novos. Aparentemente, sou a única mãe que acha as festas da escola uma grandessíssima estopada. O salão de festas estava à cunha. É inacreditável como neste país há uma enorme flexibilidade de horários de trabalho. Mães, pais, irmãos, avós, tios, vizinhos. Como sou pequena, não via nada com aquela multidão à minha frente. O que não seria de todo grave, se o Vasco conseguisse ver-me do palco. Toda a gente sabe que as mães vão às festas da escola para serem vistas pelos filhos e não o contrário, como se pensa. Lá fui eu furando, furando, furando, até chegar ao corredor central. Senti uma mão ligeira pousar na minha mochila. Virei-me e percebi que uma velhota tinha decidido aproveitar a boleia. As cadeiras estavam todas ocupadas. Sentei-me no chão, de pernas cruzadas. Ouvi-a abrir um banquinho e sentar-se, atrás de mim. Velhota esperta. Fez-me uma festinha na cabeça e perguntou-me em que ano estava o meu irmão. Que ela não tinha ali nenhum neto, mas que todos os anos vinha assistir à festa de Natal porque achava tudo muito profissional. As cortinas até abrem e fecham sozinhas. Suspiro. A tarde avizinhava-se longa. Depois de uma série de musiquinhas intermináveis, muitas criancinhas desengonçadas e várias professoras com bandeletes de rena a mimar entusiasticamente a coreografia, vi a minha serpente durante três minutos. Um pequeno sorriso cúmplice mostrou que ele também me viu. Missão cumprida.

Entre a troca de pneus e a festa na escola, foi-se o dia de folga que eu tanto prezo.

Sábado à tarde, no escuro do cinema, o Vasco conseguiu a proeza de arrancar novamente o arame do aparelho que a ortodontista tinha arranjado quinze dias antes. Arames duplos indestrutíveis, segundo ela. Ontem telefonei, envergonhada, para marcar mais uma consulta de urgência. A secretária sabe de cor o meu dia de folga. Se podíamos passar na terça-feira, no final da manhã? Claro que sim. Eu, não… que i.n.f.e.l.i.z.m.e.n.t.e troquei a minha folga. Mas o meu amor pode, claro. Tal como pode tentar arranjar uma boa desculpa para a fúria destruidora da coisa pequena. E pedir com jeitinho se seria possível, desta vez, pôr arames triplos. Ou soldá-los, sei lá. E, já agora, se esta nova reparação também estará incluída no orçamento inicial…

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

A tribo

(pelos olhos de quem tão bem nos conhece)


 
Adoro esta fotografia. Nós, sem filtro. Sem poses. Perdidos em pensamentos. Colados uns aos outros, como sempre. Num acto que é mais do que amor, é uma necessidade. “Isto são vocês”, disse-me o meu amor quando estávamos a ver as fotografias de Amesterdão, este fim-de-semana. A tribo.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Há coisas que só mesmo a mim

(to be continued, que eu tenho queda para o disparate)


De manhã, às pressas e no escuro, a primeira coisa que salta da gaveta são as cuecas cor-de-rosa da Hello Kitty que a minha mãe se lembrou de me mandar, sabe-se lá porquê. Nada de muito grave, não fosse dar-se o caso de ser dia de ir à medicina do trabalho. E ter de me despir. À frente de um médico que teve alguma dificuldade em conter o riso. Já disse que os belgas são pessoas muito à-vontade?

Mal chego a casa, o adolescente de serviço informa-me que os amigos aceitaram entusiasticamente a minha sugestão para irem assistir à sessão especial que o cinema aqui do burgo preparou para a estreia do novo filme do Hobbit. Três filmes seguidos de três horas cada, pela módica quantia de 14 euros. Sou uma mãe fixe, ofereci-me para os ir levar e buscar. Têm é que dormir todos cá, porque é muito tarde para voltarem para casa. Hein?! A sessão acaba às 5h15. Da manhã. Tenho a certeza absoluta de que essa indicação não constava no programa.

E, de repente, vem-me à memória aquele trecho da canção do Sérgio Godinho:

Há dias de manhã
em que um homem à tarde
não pode sair à noite
nem voltar de madrugada

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Uma pessoa nunca está preparada

(é assim uma espécie de hibernação psicológica)

 
Ontem meti-me no carro, distraída. Às tantas, reparei nuns arbustos todos brancos, na berma da estrada. E pensei que era estranho ainda haver arbustos floridos no mês de Dezembro. Um pouco mais à frente, eram umas árvores brancas. E pensei que era mesmo estranho ainda haver árvores em flor no mês de Dezembro. Amendoeiras? Depois, percebi. Era neve.

Porra, já começou.






sábado, 29 de novembro de 2014

Há quanto tempo não falo de amor?

(é que às vezes ainda me custa a acreditar)


Há muito tempo que não escrevo sobre o meu amor. E é injusto. Porque ele faz-me imensamente feliz.

Porque nos apaixonámos há quase dois anos e eu ainda coro quando ele olha fixamente para mim. E todos os dias agradeço a sorte que tive por as nossas vidas improváveis se terem cruzado.

Porque ele regressou de Itália para me ajudar a atravessar uma fase mais turbulenta da minha vida e, seis meses depois, ainda não se foi embora. Não sei como.

Porque ele partilhou muitos barcos, muitas viagens, muitas aventuras, mas nunca tinha lançado âncora. E, agora, atracou num porto onde a bonança tarda.

Porque aceita que eu não quero conhecer família, nem amigos. Compreende que a passarinho ferido, não vale a pena pedir para voar.

Porque continua a abrir os braços todas as noites para eu me aninhar. E deixei de ter pesadelos pela primeira vez na vida.

Porque ainda gostamos muito de fazer aquelas coisas que os adultos fazem em privado. E, pelo sim, pelo não, continuamos sem cama, a dormir no chão.

Porque ele é a minha armadura. O meu escudo, a minha espada. Às vezes, o meu braço, quando a força me falha. Recebe sempre o embate inicial de tudo o que de mal me acontece. Toma como seus os meus inimigos. Indigna-se mais do que eu. Procura soluções, mas primeiro dá-me muitos beijos. E chama os bois com nomes que me dão sempre vontade de rir.

Porque se levanta para dar festinhas ao D. Fuas sempre que o vê a abanar o rabo, a olhar docemente para ele.

Porque fala cada vez melhor português, com um sotaque que me derrete. Porque conhece o país, a história, a política. A triste economia. Pede para ouvir Toquinho e Vinícius. Cita Pessoa de cor. Devora bolo-rei, ovos escalfados com ervilhas, açorda de camarão e feijoada. Só é pena gostar tanto de farinheira como nós.

Porque ele roubou o coração do meu filho pequenino. E construiu um mundo só deles. Porque faz questão de assistir às aulas de ballet e de violino. Faz-lhe chocolate-quente às escondidas. Leva-o ao médico. Diz orgulhoso que a directora da escola o trata pelo nome. Porque inventa ditados palermas e ensina os números negativos. Fica horas a ver vídeos antigos no Youtube. Porque dá três nós nos atacadores. E ri quando o Vasco dá puns no colo dele.

Porque quando estou de folga, ele levanta-se sempre num ápice para levar o Vasco à escola. Enquanto eu durmo mais um bocadinho, combina roupas, faz lanches, verifica dentes lavados, sacos de ginástica e ajuda a escolher os melhores “Gogos” para combater nesse dia no recreio.

Porque é o melhor exemplo que o meu filho grande podia ter. Um porto seguro no meio da tempestade típica da adolescência. Que sabe levantar a voz e zangar-se a sério. Mas que não se importa de mostrar as suas fraquezas. Porque gosta de o ouvir tocar trompete, mesmo quando toca mal. Porque o ouve pacientemente discorrer sobre tudo o que se passou na escola, do primeiro ao último toque. Porque o defende sempre que recebe um mau resultado ou tem um ataque de preguiça e foge às tarefas diárias. Ou quando se recusa a vestir o casaco, apesar de estar um frio de rachar. Porque se lembra de lhe lavar as calças preferidas. E nunca se esquece de mentir quando o Diogo lhe pergunta se tem o cabelo espetado. Porque lhe cede sempre o último pedaço de carne. E sabe o nome de todos os seus amigos.

Porque se levanta de manhã e nos prepara pequenos-almoços de telenovela. Aqueles pequenos-almoços de hotel que ninguém come. Excepto nós. E quando vai ao pão ao fim-de-semana traz sempre um mimo para cada um: gaufre de alperce para mim, chocolate branco para o Diogo e chupa-chupa de chocolate de leite para o Vasco.

Porque adora passear sozinho comigo, de mão dada, à volta do lago ao entardecer. Ou à noite, para vermos as estrelas.

Porque faz compras, cozinha, limpa, aspira, lava, engoma e cose em perfeito pé de igualdade. Porque nunca discutimos sobre dinheiro. Ou sobre a falta dele. Sobre quem faz-mais-o-quê. Porque a rotina estabeleceu-se espontaneamente, sem nunca termos pensado muito sobre isso. E é tão natural que quase me esqueço que é uma raridade.

Porque não resmunga quando volto dos nossos passeios com paus ou pedras para fazer qualquer coisa em casa. E guarda com o maior dos carinhos tudo o que faço.

Porque passado este tempo todo, ainda nos vamos deitar às 2 da manhã, porque estivemos a noite toda à conversa. E às vezes continuamos no escuro até adormecermos. Porque também somos amigos.

Porque trocamos mensagens e telefonemas para não dizer coisa nenhuma. E no fim ele diz “Beijinhos” e eu rio-me. Porque ele ainda me chama “Raposinha” e “Petit Coeur”.

Porque cada vez que ele está concentrado a trabalhar e eu passo por trás, não consigo deixar de lhe dar um beijo no pescoço. E um abraço.

Porque adoro mimá-lo. E ele adora surpreender-me com novos passeios.

Porque gostamos muito de fazer programas a quatro, mas também adoramos enroscar-nos no sofá a ver uma série. Ou um daqueles filmes antigos de que ele tanto gosta.

Porque as minhas colegas todas o adoram e estão sempre a dizer: “Esse homem ama-te mesmo. Olha só como ele cuida dos teus filhos…”. E eu fico toda orgulhosa, porque sei que é verdade. É isso e muito mais.

Porque ele cuida de mim. E eu cuido dele. Sem nenhuma obrigação, apenas porque queremos. Porque gostamos de cuidar um do outro. Porque nos amamos.

Afinal isto de falar de amor é uma piroseira pegada, mas de vez em quando também é preciso. Apaixonarmo-nos por uma pessoa é algo que acontece. Amá-la é uma decisão que tomamos, conscientemente. Todos os dias, uma e outra vez. Nós tivemos a sorte de nos apaixonarmos, mas depois decidimos amar-nos. Numa espécie de alinhamento perfeito de toda uma série de factores encadeados, que nos esforçamos por manter vivos. Por cuidar.
 
 

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Não sei se vá, se fique…

(diálogo assustador quando me estava a preparar para ir dar aulas)

 
- Estou deprimido.
- Porquê, filhote?
- Vais dar aulas agora?
- Vou.
- Mas vais já sair?
- Sim, daqui a um bocadinho.
- Ah…
- Estás triste porque a mãe vai dar aulas? Coitadinha da minha coisa pequena!
- Não é isso…
- Querias que a mãe te desse atenção, era?
- Hum… Onde é que está o Pascal?
- Está quase, quase a chegar.
- Ainda não tive a minha hora de Pascal.
- “A tua hora de Pascal”? Estás com saudades do Pascal, é? Ele está mesmo aí a chegar.   Estás à espera dele para fazeres os trabalhos de casa?
- Não, já fiz tudo.
- Então? Estás à espera do Pascal para fazeres alguma brincadeira?
- Não te posso contar nada.
- Ai...
- É que hoje íamos fazer umas experiências, quando estivesses a dar aulas. Tínhamos combinado, mas era segredo.
- Experiências?
- Sim, de química.
- Mas porque é que eu não posso estar em casa?
- É que as coisas podem correr mal. Muito mal…

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Quem disse que burro velho não aprende línguas?

(onde se mostra que com um bocadinho de esforço isto vai lá)


 
D. Fuas Roupinho é, como se sabe, uma criatura meio selvagem. Estranho cruzamento entre um texugo e um cão, que dorme de patas no ar e língua de fora. Persegue inimigos mesmo em sonhos, rosnando e choramingando baixinho. Vive eternamente à procura do ponto de fuga, bicho indómito que é. O instinto de caça está-lhe no sangue e pouco se pode fazer contra isso.

Ao fim de quase cinco anos de feroz convivência, capitulámos. Decidimos começar a soltá-lo, durante os nossos passeios ao Domingo pelos bosques. Por fim, aceitámos que não vale a pena tentar que ele ande calmamente ao nosso lado. Ou que corra alegremente à nossa volta, como todos os outros cães com os quais nos cruzamos. Coração ao alto (o nosso), e lá vai ele...

Quando solto em plena natureza, D. Fuas larga a correr como se não houvesse amanhã. Como se toda a caça do mundo estivesse ali escondida, entre as árvores, à espera de ser apanhada. Por isso, desaparece num ápice. Depois, volta. Por vezes, demora muito tempo. Mas, quando finalmente aparece, todo ele é felicidade.

Acho que se pode dizer que a aprendizagem foi mútua. Nós tivemos que aprender a confiar no instinto dele. De ir e voltar. Sobretudo, voltar. Ele teve de aprender a não ir longe demais, a dosear a correria desenfreada. A regressar, quando ouve o nosso chamamento preocupado ao longe. Até agora, tem corrido bem… Isto é, ele tem voltado sempre. E ainda nunca trouxe um bambi assustado na boca.




segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Amesterdão não é bem Atenas, mas foi o que se conseguiu arranjar

(preview do aniversário do Vasco)

 

Quando questionado sobre o que queria fazer nos anos, o Vasco disse simplesmente que queria ir à Grécia. E eu – que não me canso de dizer que a vantagem de vivermos no centro da Europa é que, num pulinho, estamos em qualquer lado – comecei a ver a minha vida a andar para trás. Felizmente, ele aceitou trocar o Pártenon pelos mimos do tio. E lá fomos nós passar o fim-de-semana a Amesterdão, a casa do meu irmão mais novo. Como não somos pessoas supersticiosas, a coisa pequena teve direito a enfeites, bolo, velas, parabéns e prendas. Três dias antes da data oficial. Mas, que diabo, o rapaz só faz 8 anos uma vez na vida!

Amesterdão é daquelas cidades onde sabe sempre bem voltar. Não me canso dos canais, das casas baixinhas, das feiras um pouco por todo o lado, dos cafés que mais parecem a nossa cozinha, da multidão alegre nas ruas, das lojas retro, daquele laissez-faire onde impera o respeito mútuo, dos barcos, dos cães que podem entrar em todo o lado, das crianças com o ar mais pacífico do mundo. Fico sempre espantada a olhar para as pessoas que fazem equilibrismo em cima das bicicletas, de telemóvel na mão, a falar com o vizinho do lado, com filhos atrás e à frente, compras empoleiradas e cães de orelhas a abanar dentro dos cestinhos. O que vale é que, volta e meia, o meu amor deitava-me a mão para evitar que fosse atropelada no meio daquela azáfama toda. Eu e o D. Fuas, que nos acompanhou feito tolinho na passeata. Ah… e também ia deitando a mão ao Vasco, o terror de qualquer ciclista porque ziguezagueia sem parar. O Diogo seguia descontraído e sorridente à nossa frente, com aquela desenvoltura de quem já conhece bem a cidade e gosta de o mostrar.

 













[ Estão ali a ver a coisa pequena de sorriso rasgado e mãozinha na boca? Horas depois, conseguiu arrancar metade do novo aparelho. Ficou barata a festa... ]

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Tínhamos tudo para ser amigas ou talvez não

(vem isto a propósito de me ter deitado às duas e meia da manhã

e estar aqui que não me aguento, porque a idade não perdoa)


Os nossos pais trabalhavam ambos na IBM e nós seguíamos o mesmo ramerram… colónias da ACM e natação no Sporting. Tínhamos pais sem nome próprio, só apelido. Que trabalhavam "nos computadores", numa altura em que ninguém sabia muito bem o que isso era. E que viajavam. Vivíamos entre irmãs mais velhas e irmãos mais novos mimados.

Portanto, tínhamos tudo para ser amigas ou talvez não.

Ela era uma menina queque, eu uma maria-rapaz. Ela era uma girafa escanzelada, eu uma bolinha minúscula. Ela era boa aluna, eu detestava a escola. Ela era incapaz de ler um livro, eu devorava-os. Ela gostava do mainstream, eu tinha a mania que era intelectual. Ela vinha de uma família normal, eu de uma família atípica. Ela tinha vestidos e saias e tops e sapatos bonitos, eu tinha calças de ganga e t-shirts herdadas. Ela admirava a minha irmã mais velha e eu a dela. Ela dizia que a alface sabia a terra, eu era vegetariana. Ela era super-protegida, eu fui educada para o desenrascanço. Ela vivia em Loures, eu em Lisboa.

E, assim, fomos tecendo uma amizade umbilical, que atravessou a nossa infância e adolescência. Que irrompeu, intermitente e trapalhona, na vida adulta. Uma amizade construída em campos de férias, Verão após Verão. Cimentada em fins-de-semana passados em casa uma da outra, ao longo dos anos. Uma amizade que exigia horas diárias ao telefone e longas cartas durante as férias. Uma amizade feita de idas ao cinema nas Amoreiras e tostas de fiambre em Alvalade. Uma amizade feita de leituras de diários para colmatar as pequenas falhas numa existência em tudo partilhada. Uma amizade telepática que sabia prever quem estava do lado da linha ao primeiro toque do telefone. E que reconhecia namorados nunca antes vistos no autocarro. Uma amizade que nem um cadeado no telefone conseguiu calar.

Foi uma amizade feita de morangos com leite condensado pela noite dentro. Aparelhos perdidos. Revistas brasileiras para adolescentes. Omeletes que a mãe dela fazia como mais ninguém. Séries idiotas ao domingo à tarde, amplamente dissecadas de madrugada. E discos do Leonard Cohen, que faziam medo quando ecoavam no silêncio da minha casa vazia. Uma amizade em que partilhámos os primeiros disparates, substâncias ilícitas, paixões, saídas à noite. Concertos em Alvalade. Paus de incenso que não deitavam estrelinhas. Muitas, muitas, muitas, primeiras vezes. Principalmente ataques de riso que não faziam rir mais ninguém. E prantos compartilhados.

Nunca chegámos a viver juntas num estúdio, no início da nossa vida adulta. Nem fizemos as viagens todas com que sonhávamos. As nossas existências não seguiram os planos cuidadosamente traçados quando tínhamos 12 anos. Páginas repletas de listas de coisas que ficaram por realizar. A vida, a dada altura, afastou-nos um bocadinho. Não sei bem porquê. E ficou um vazio que ninguém conseguiu colmatar. Porque a nossa amizade era feita de uma irmandade assente na soma das experiências vividas, que nos permitiram crescer. A pessoa que hoje sou, devo-o também a ela. Melhor amiga oficial, mesmo que mais tarde o título nem sempre reflectisse a realidade dos dias.

Tantos anos se passaram e, às vezes, ainda penso: “Tenho de contar isto à Marta!”. Esqueço-me que 2500 km e 30 anos nos afastam das miúdas que fomos. Meninas patetas, adolescentes ridículas, jovens adultas cheias de certezas. Mães de filhos, com bastante menos certezas.

Mas, quando nos encontramos, o tempo pára. Ou quando falamos ao telefone. Horas e horas e horas a fio, como ontem. Porque há pessoas que não precisam de estar fisicamente ao nosso lado para dividir a nossa vida. E chorar as nossas dores. E rir das nossas alegrias. Numa lealdade feroz que nunca vacila. Para serem uma peça essencial da nossa história sem a qual ficamos amputados.

Pode o tempo encurtar e o espaço alargar. Pode a vida dar as voltas que der, mobilada por muita ou pouca gente. Podemos ser quem somos ou outro alguém. Pode tudo mudar. 180 graus e mais outros 180 graus, se preciso for. A minha amizade pela Marta é uma constante. Uma amizade que atravessa vidas e quilómetros. A certeza de que estaremos sempre aqui uma para a outra.

Na última vez que estive em Portugal, de todas as pessoas que reencontrei, de todas as longas conversas que tive, de tudo o que vivi e senti, o que mais me marcou foi ver os nossos filhos juntos a brincarem. O Vasco e a Matilde, cópias conformes das crianças que outrora fomos. O meu mais novo e a mais velha dela, com poucos meses de diferença e igual vida no corpo. A correr um atrás do outro, numa Lisboa nocturna e amena. Os risos deles.

 

[ Parabéns a ti, pela quarta vez. A Cris tinha razão, quando dizia que as pré-adolescentes feiinhas se transformavam em mulheres lindíssimas. Tenho um orgulho enorme na mulher em que te tornaste. E uma gratidão sem fim por ter acompanhado esse processo. Bem sei que já ninguém diz isto, quando se tem quase 40 anos, mas eu amo-te muito. ]

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Uma espécie de passeio de fim-de-semana – Colónia, Alemanha

(relato dos três ecos de um telefonema)


Entretanto, os homens da casa decidiram aproveitar o fim-de-semana, apesar da minha ausência. Domingo, meteram-se todos no carro e foram passear. Com muita pena minha, pouco posso contar deste passeio…
 
Então, onde foram?
- “Cô-qualquer-coisa” (coisa pequena)
- “À Colónia” (adolescente cool)
- “Koln” (amor meu)
 
Fica muito longe?
- “Nááá” (coisa pequena)
- “Se fosses tu a conduzir, teria sido uma hora e pouco, como não foste demorou uma eternidade” (adolescente cool)
- “2h15” (amor meu)
 
Estava bom tempo?
- “Chovia imenso” (coisa pequena)
- “Chuviscou” (adolescente cool)
- “Eles levavam casacos” (amor meu)
 
O que viram por lá?
- “Ruas” (coisa pequena)
- “Pizas” (adolescente cool)
- “A catedral” (amor meu)
 
Divertiram-se?
- “Sim, corri” (coisa pequena)
- “Bué” (adolescente cool)
- “Estivemos a experimentar a máquina fotográfica” (amor meu)
 
Voltaram muito tarde?
- “Já era noite” (coisa pequena)
- “Comemos pizas” (adolescente cool)
- “Eles fizeram os trabalhos de casa” (amor meu)
 
E o cão?
- “Ficou na rua” (coisa pequena)
- “Ficou preso na rua e foi para o quintal da vizinha” (adolescente cool)
- “Castiguei-o” (amor meu)
 
Ah… e também não estejam à espera das fotografias da praxe, que isto são homens muitoooo especiais. Vá, experimentais.
 





 

E quando se pensava que as coisas não podiam piorar

(isto só pode ser a Lei de Murphy, pá!)


E quando se pensava que as coisas não podiam piorar, descobri um novo stand de uma associação que se dedica à recuperação de cavalos abandonados. Ou cavalos traumatizados. Cavalos mais velhos. Cavalos que iam para abate. Seja como for, cavalos.

Desta vez, fui forte e virei costas. Controlei-me, não preenchi papel nenhum. Cheguei ao nosso stand de lágrimas nos olhos, mas decidida a esquecer os cavalos abandonados, traumatizados, velhos, para abate. Numa palavra, os cavalos.

Pode dar-se o caso de ter partilhado a minha profunda tristeza com a colega chata como o raio. E, palavra puxa palavra, a dita colega – que afinal nem é assim tão chata, tirando a obsessão pelos cafés e as idas à casa de banho, mais o jornal que insiste em ler em voz alta – anuncia que até tem um terreno. O tal onde aprendeu a conduzir o tractor. Uma pradaria. Que até lhe dá jeito que não fique ao abandono. Onde já andam uns burros de outro colega (esse, sim, completamente doido).

E o meu coração ainda não parou de bater descompassado. A minha cabeça fervilha…

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

O pior não é…

(espero que o meu amor esteja tão ocupado com os miúdos

que nem se lembre de passar por aqui)



O pior não é trabalhar ao Domingo.
O pior não é trabalhar ao Domingo, em Bruxelas.
O pior não é trabalhar ao Domingo, em Bruxelas, com uma colega chata como o raio.
O pior não é trabalhar ao Domingo, em Bruxelas, com uma colega chata como o raio e saber que ainda temos mais dois dias de intensa labuta pela frente.
 
 
O pior não é o local de trabalho ficar em pleno centro de Bruxelas, onde o trânsito é caótico.
O pior não é o local de trabalho ficar em pleno centro de Bruxelas, onde o trânsito é caótico e a selecção joga esta noite.
O pior não é o local de trabalho ficar em pleno centro de Bruxelas, onde o trânsito é caótico e a selecção joga esta noite, seguida de um concerto de Stromae.
O pior não é o local de trabalho ficar em pleno centro de Bruxelas, onde o trânsito é caótico e a selecção joga esta noite, seguida de um concerto de Stromae, e a nossa colega guiar o carro da associação como se fosse o tractor onde aprendeu a conduzir.
 
 
O pior não é estarmos a angariar fundos para a nossa associação.
O pior não é estarmos a angariar fundos para a nossa associação numa coisa cruamente designada por “Salão do Testamento”.
O pior não é estarmos a angariar fundos para a nossa associação numa coisa cruamente designada por “Salão do Testamento”, rodeadas por velhos deprimentes e moribundos.
O pior não é estarmos a angariar fundos para a nossa associação numa coisa cruamente designada por “Salão do Testamento”, rodeadas por velhos deprimentes e moribundos, sem percebermos um corno da lei de sucessões deste país.
 
 
O pior não é a nossa colega, chata como o raio, ter uma bexiga de galinha.
O pior não é a nossa colega, chata como o raio, ter uma bexiga de galinha e passar o dia a emborcar cafés.
O pior não é a nossa colega, chata como o raio, ter uma bexiga de galinha e passar o dia a emborcar cafés, estar convencida de que sofremos do mesmo mal.
O pior não é a nossa colega, chata como o raio, ter uma bexiga de galinha e passar o dia a emborcar cafés, estar convencida de que sofremos do mesmo mal e, portanto, obrigar-nos a ir frequentemente à casa de banho.
 
 
O pior não é passarmos horas a apresentar um projecto complexo.
O pior não é passarmos horas a apresentar um projecto complexo a uma cambada de velhos extravagantes.
O pior não é passarmos horas a apresentar um projecto complexo a uma cambada de velhos extravagantes e surdos.
O pior não é passarmos horas a apresentar um projecto complexo a uma cambada de velhos extravagantes e surdos, que falam maioritariamente flamengo.
 
 
O pior não é o nosso stand estar encaixado entre a Unicef e a WWF.
O pior não é o nosso stand estar encaixado entre a Unicef e a WWF, cheias de cartazes com crianças sorridentes e pandas amorosos.
O pior não é o nosso stand estar encaixado entre a Unicef e a WWF, cheias de cartazes com crianças sorridentes e pandas amorosos, que metem os nossos velhotes com trissomia 21 cheios de pinta a um canto.
O pior não é o nosso stand estar encaixado entre a Unicef e a WWF, cheias de cartazes com crianças sorridentes e pandas amorosos, que metem os nossos velhotes com trissomia 21 cheios de pinta a um canto, e ainda oferecem balões e gomas de ursinhos a quem passa (parece que os velhos adoram).
 
 
O pior não é o stand à nossa frente ter uma deficiente de cadeira de rodas com um cão.
O pior não é o stand à nossa frente ter uma deficiente de cadeira de rodas com um cão, gira que se farta.
O pior não é o stand à nossa frente ter uma deficiente de cadeira de rodas com um cão, gira que se farta, a meter conversa com toda a gente.
O pior não é o stand à nossa frente ter uma deficiente de cadeira de rodas com um cão, gira que se farta, a meter conversa com toda a gente, em três línguas diferentes.
 
 
O pior é que eu, que não tenho dinheiro nenhum para lhe doar, nem em vida, nem depois de morta, descobri que posso ser muito útil como família de acolhimento para criar um cão durante o primeiro ano de vida, antes de poder começar a ser treinado para ajudar os deficientes. A culpa não é minha, é da Golden Retriever que conquista os velhos todos quando lhes vai pedir festas no meio do corredor e que já devorou as bolachas que eu tinha trazido. A culpa é desta cadela do demo que é a coisa mais fofinha que já vi na vida e que me roubou o coração, entre um velho mouco e as minhas idas obrigatórias à casa de banho, para descanso da minha colega chata como o raio, que até já perguntou à deficiente da cadeira de rodas como é que o bicho se aguentava ali tanto tempo sem fazer chichi. A culpa também deve ser dos meus pais que não fizeram de mim uma criatura rica, obrigando-me a tentar fazer o bem à minha volta por vias mais travessas.
 
 
Resumindo e concluindo:
Sobrevivi ao trânsito infernal, ao trabalho ao Domingo, à colega mijona que conduz como uma louca, aos velhos duros de ouvido, às criancinhas sorridentes e aos pandas amorosos. Até sobrevivi ao gajo lindo de morrer que está no stand da Liga do Alzheimer (via-o melhor no meio dos pandas, mas enfim…). Infelizmente, não sobrevivi aos olhos doces da Golden Retriever à minha frente. Pode dar-se o caso de até já ter preenchido um formulário para nos candidatarmos a ser família de acolhimento de um cachorrinho…