segunda-feira, 22 de maio de 2017

Desmancha-prazeres

(onde se estraga a surpresa ao primeiro indício)



O meu amor andava há semanas muito misterioso, a dizer que tinha uma surpresa preparada para os meus anos. Por mais que eu repetisse que este ano não queria festejos, percebi que o homem estava decidido a fazer algo em grande. Não acho nada de especial fazer 41 anos… parece uma coisa meia deslavada. Fartei-me de lhe explicar que queria passar directamente dos 40 para os 42, que já me parece um número mais jeitoso. Uma idade gira. Tipo, mais madura. Mas, não. Tanto tenho pregado a ideia das “prendas-experiência”, que o meu amor decidiu aderir ao conceito contra a minha vontade.

Ontem, lembrou-se finalmente de dar as primeiras informações para o bom desenrolar da surpresa, no próximo fim-de-semana. A ideia era apenas organizarmo-nos, uma vez que o Diogo vai tocar com a filarmónica na noite anterior. “No domingo, temos de sair de casa às 5h30 da manhã...”, começou o meu amor. E eu gritei de imediato: “Vamos andar num balão de ar quente!!!”. Fez-se silêncio à mesa. Os rapazes ainda olharam para o meu amor à espera que ele negasse. Mas o Belga ficou calado. Decididamente, estou a ficar mesmo boa nisto!

Coisa pequena ficou absolutamente incrédula. Assim, um misto de espanto e de medo. A raiar o transcendente. Cheira-me que vou conseguir manter a minha reputação de mãe-adivinha por mais uns tempos. É de dizer que, no outro dia, logo após a primeira jogada do Cluedo, eu atirei: “Foi o Coronel Mostarda, na sala de estar, com o candelabro”. E não é que acertei?!

quinta-feira, 18 de maio de 2017

A interminável saga das aventuras capilares

(onde se tenta fazer uma boa acção e se fica irreconhecível)



Como já aqui disse, decidi aproveitar a reviravolta que aconteceu na minha vida para realizar sonhos e desvarios. Ora há muito tempo que acalentava o desvario de doar o meu cabelo à Think Pink, uma espécie de liga contra o cancro aqui do burgo. O mínimo era 20 centímetros. Depois de muito pensar, achei que com um bocadinho de esforço conseguiria chegar aos 30 centímetros. É certo que o meu cabelo cresce depressa, mas tenho a sensação de que demorou séculos. Nos últimos seis meses comecei a ficar mesmo farta, confesso. Já não aguentava ter o cabelo tão comprido, que exigia imensos cuidados para o manter o mais saudável possível. De modo que aproveitei a onda de mudança e fui ao cabeleireiro. Descobri na Net um salão aderente não muito longe de Vielsalm. O corte era gratuito e o envio ficava por conta deles.

Sábado de manhã, lá fomos. O meu amor quis estar presente para dar apoio moral e a coisa pequena veio atrás, sempre pronta para novas aventuras. O filho crescido ficou amuado em casa, pois desde o início manifestou-se veementemente contra (e acreditem que isto é um eufemismo). Demorámos bastante tempo a encontrar o cabeleireiro. O GPS bem repetia que tínhamos chegado, mas nós não víamos nada. Excepto campos e vacas a perder de vista. Até que decidimos estacionar em frente a um curral e explorar a zona. O estranho cabeleireiro ficava num anexo da quinta. Entre o curral e a casa, para ser mais precisa. A cabeleireira veio a correr abrir a porta, à hora marcada. Trazia uma criança adormecida nos braços e queixou-se que era a mulher dos sete ofícios. Olhando para trás, percebo que era a minha deixa para fugir. Infelizmente, pensei que ser cabeleireira (e proprietária de um cabeleireiro-anexo) seria um desses ofícios.

Três rabos-de-cavalo de 30 centímetros foram diligentemente medidos e cortados. O restante cabelo ficou ligeiramente acima dos ombros. Perfeito! Era exactamente o que eu queria. Estranhei a cabeleireira não lavar o cabelo e começar às tesouradas por ali afora. Ainda tentei dizer que gostaria de pagar o corte, apesar de saber que fazia parte da campanha “Coup d’éclat” da Think Pink. A senhora contrapôs e continuou a cortar. Zás, zás, zás! Quando dei por mim, tinha o cabelo cortado a viés. À esquerda, acima do ombro… à direita, pelo queixo. A medo, perguntei: “Mas não está tudo torto?”. Respondeu-me que era propositado. Era um corte “destruturado”. Olhando para trás, percebo que era a minha segunda deixa para fugir. Mas limitei-me a engolir em seco e explicar que gostava de estrutura na minha vida, a começar pelo cabelo. A cabeleireira cortou o lado mais comprido, como é óbvio. E, de uma assentada só, conseguiu igualar o horror. Saí de lá com menos 40 centímetros de cabelo. Tristíssima. O Belga dizia que adorava. O filho pequeno também. Só tive uma opinião honesta quando o Diogo me viu entrar em casa: estava horrorosa.

Passei o resto do fim-de-semana a perguntar ao homem se não achava que o corte estava todo torto, mas ele garantia que não. Estava linda. Ficava-me a matar. Muito mais jovem. Dava-me um ar traquina. Enfim… Acabei por desistir. Na segunda-feira, decidi-me finalmente a pintar o cabelo. Estava a precisar, mas preferi esperar pelo corte para ter menos trabalho. A embalagem de sempre, a cor de sempre. Se houve coisa que acabei por aprender com o cabeleireiro-vidente foi a manter-me fiel a estes dois parâmetros. Fiz a aplicação como sempre. O fim de 15 minutos, passei por um espelho. Estranhei a cor estar tão escura. Corri para o espelho da casa de banho para confirmar. E, a seguir, corri para o caixote do lixo: “Garnier Nutrisse Castanho médio”. Corri para o duche… o mal já estava feito. Não sei o que raio se passou, tendo em conta que a embalagem tinha sido comprada há pouco tempo e estava fechada. Uma vez seco o cabelo, deparei-me com a Beatriz Costa. Excepto a franja. E o corte certinho.

Terça-feira de manhã, mal deixei o Vasco na escola, entrei no primeiro cabeleireiro que encontrei aberto. O meu aspecto era tão desolador que a cabeleireira aceitou receber-me naquela tarde, no meio dos outros clientes. Aqui, normalmente, só com 15 dias de antecedência. Avisou que ia tentar (frisou bem T-E-N-T-A-R) salvar a situação. Decidi confiar. O meu desespero era tão grande, que teria confiado no diabo. Apesar de tudo, fartei-me de repetir que não era uma fútil, nem nada que se parecesse. Mas que pura e simplesmente não me reconhecia. É estranho passarmos por um espelho/montra/vidro e vermos uma pessoa que não reconhecemos. Eu estava nesse estado. Para ser sincera, já tinha amaldiçoado um cento de vezes a ideia da doação de cabelo. Nem nunca vivi de perto uma situação dessas, não sei o que me terá passado pela cabeça (literalmente). Como dizia o meu filho mais velho, as senhoras com cancro ficam muito bem de lenço na cabeça. Em certas zonas neste país, grande parte da população feminina anda de cabeça coberta. Raios partam o meu espírito voluntarioso e empático.

Entrei no cabeleireiro às 14h30 certinhas. Saí de lá, já passavam das 17h. Duas cabeleireiras andaram à minha volta a tentar perceber o que se poderia fazer. Chegaram à conclusão de que tinha de me livrar daquele cabelo preto e acertar o corte. “Acertar o corte, não! Fazer um corte como deve ser…”, explicou uma delas. Tive muita dificuldade em fazê-las acreditar que não tinha sido eu a cortar os 30 centímetros de cabelo com a tesoura da cozinha. Não tenho a certeza absoluta de que tenham acreditado. No entanto, confirmaram o mistério da cor trocada. Parece que já não era a primeira vez que lhes entrava uma alma de cabelo escuro pelo salão adentro com as mesmíssimas queixas.

Começaram por me descolorir o cabelo. De permeio, queimaram-me os neurónios e o couro cabeludo. E serviram-me um café. Fiquei com a cabeça amarela. Amarela cor-de-pintainho. Depois, estive séculos com uma máscara que era suposto reparar os efeitos nefastos da descoloração. Mas continuava amarela, embora me doessem menos os neurónios e o couro cabeludo. Bebi mais um café. Entre elas, decidiram a cor que me iria “iluminar”. Aparentemente, é preciso estarmos “iluminadas” depois dos 40. Apesar de garantirem que eu estava muito longe de parecer ter 40 anos. Seja como for, parece que o facto de “iluminar” o rosto me faria esquecer o corte de cabelo. Ou a ausência de cabelo. Era ponto assente que aquilo teria de levar um jeito valente (as cabeleireiras usavam muitos “petit” para aligeirar a coisa, à falta dos nossos “inhos”). Fiquei, então, loira. Acho que estou loira. Filho crescido acha que estou loira. Os belgas (incluindo o filho pequeno, que se diz meio-belga) acham que louro é outra coisa qualquer mais clara. Para a generalidade do mundo (belga), tenho o cabelo castanho clarinho. Seja.

A seguir, veio o corte. Estava a ver que as cabeleireiras me iam tirar uma fotografia com o cabelo ensopado e penteado. Definitivamente mais curto de um lado do que do outro. Com as pontas assimétricas. E em escadinha atrás. Foram chamar outra cabeleireira para apreciar o trabalho. Até a esteticista veio lá das catacumbas ver aquele espectáculo. Para além de todas as clientes presentes. Findo o demorado conciliábulo, decidiram que a única coisa a fazer era cortar tudo por igual, exactamente do mesmo comprimento da mecha mais curta. Ou seja, por cima do queixo. Ao verem-me de lágrimas nos olhos, nem ousaram propor escadeados, degradés, franjas, nem merdas do estilo. Para pior, já basta assim, como diz a canção. Fiquei com o cabelo curto, mas direitinho. Fiquei loira e “iluminada”. Decididamente, não gosto do resultado final. Mas sei que passei uma tarde com várias pessoas à minha volta a tentar desfazer o erro da “talhante”, como apelidaram a primeira colega. Não ousei dizer que o salão-anexo ficava situado entre o curral e a casa. No final, propuseram-me um chá. E sei que aligeiraram bastante a factura, porque afinal eu “tinha apenas tentado fazer uma boa acção”.

Passaram-se uns dias. Filho crescido continua a ser defensor do uso do lenço, nos casos de cancro. Detesta ver-me assim e é de uma honestidade desarmante. Mas olha para mim com um ternurento ar de condescendência. Filho pequeno anda encantado. Já me pediu para ficar assim “para sempre”. O Belga não poupa os elogios, mas acho que é só para evitar que corte os pulsos ou parta os poucos espelhos que há nesta casa. Quanto a mim, continuo sem me reconhecer, quando me cruzo com a loira de cabelo curto. Eu sei que o cabelo cresce (e o meu cresce depressa). E sei que isto é tão fútil e desprezível, face ao que certas pessoas sofrem. Mas, pronto, estou zangada comigo mesma. Aproveitei para informar o pessoal da casa que, na próxima vez que me apetecer fazer um disparate destes, têm a obrigação de me impedir.


Disclosure: Entretanto, desafiei-os para o seguinte desvario. Infelizmente, nenhum deles pôs um travão a tempo. Tornámo-nos todos voluntários num refúgio para animais abandonados. E já passámos umas horas a passear cães. Ah… e apadrinhamos a Jasmine.


segunda-feira, 15 de maio de 2017

A mãe é deus

(porque ontem foi dia da mãe na Bélgica)



A mãe sabe que tempo vai fazer amanhã. E no fim-de-semana seguinte. A mãe é meteorologista.

A mãe consegue levar ambos os filhos a duas actividades diferentes à mesma hora. A mãe detém o segredo da teletransportação. Ou da ubiquidade.

A mãe sabe o título do livro que era preciso comprar ontem, sem que a lista de leituras tenha saído da mochila. E, como é evidente, a mãe tem esse livro na estante da sala. A mãe é previdente.

A mãe tem ingredientes e disponibilidade para fazer 35 bolinhas de frutos secos para celebrar a despedida do professor estagiário, desde que seja avisada até às dez da noite. A mãe é cozinheira num quartel.

A mãe sabe o número de telefone do colega do filho e, idealmente, da mãe dele também. A mãe engoliu a lista telefónica.

A mãe sabe sempre onde estão os ténis. A caixa do lanche. A mochila da piscina. A t-shirt preferida. As chaves. O telemóvel. E, se preciso for, sabe tudo isto ao mesmo tempo. A mãe tem uma excelente memória visual.

A mãe está a fazer o jantar que o olfato dos filhos detectou no andar de cima. Exactamente aquele jantar. A mãe é adivinha.

A mãe tem os 25 euros para pagar a actividade da escola, na manhã seguinte. De preferência trocado. A mãe é o multibanco.

A mãe sabe se as gavetas estão mal arrumadas só de olhar fixamente para o armário fechado. A mãe tem visão raio-X.

A mãe é a rainha da private joke. Faz parte das suas funções conhecer todos os diálogos dos sete filmes do Star Wars. I am one with the force and the force is with me. A mãe é fã.

A mãe pode coser o casaco preto com linha preta à noite. Antes de se ir deitar. A mãe não precisa de dormir. E, como já se percebeu, tem uma excelente visão.

A mãe tem uma farinheira e consegue multiplicá-la quando faz feijoada, de modo a que todos repitam várias vezes e haja sempre uma rodela (grande) no prato. Mesmo nos restos do dia seguinte. A mãe tem o dom da multiplicação.

A mãe sabe o que fazer quando dói a garganta ainda antes do filho se queixar. Porque a mãe prevê as dores. A mãe é médica. E enfermeira. E curandeira.

A mãe começa logo a gritar (ainda que esteja apenas a rosnar baixinho). Porque uma mãe zangada ouve-se sempre muito bem. A mãe tem voz de tenor.

A mãe não pode cortar o cabelo ou mudar de visual. A mãe é imutável.

A mãe recorda na perfeição a história sobre o amigo do colega da outra turma que lhe foi contada na Primavera de 2015, quando estava a tirar as compras do carro. A mãe tem memória de elefante.

A mãe tem a solução para todos os problemas do mundo. A mãe é sábia.

A mãe sabe sempre onde perdemos o casaco. A mãe é omnipresente.

A mãe consegue responder a uma pergunta urgente enquanto lava os dentes/faz chichi/toma banho/fala ao telefone com outra pessoa. A mãe é ventríloqua.

A mãe faz sempre a sobremesa preferida do outro filho. Dá sempre mais atenção ao outro filho. Deixa sempre o outro filho falar mais. Defende sempre o outro filho. A mãe é profundamente injusta.

A mãe é a mulher dos sete instrumentos. Domina na perfeição orgão de igreja, violino, piano e trompete. Só assim se explica que estejam sempre a perguntar-lhe: "Toquei bem?"  A mãe é chefe de orquestra.

A mãe, quando descasca uma manga, consegue sempre dar dois caroços a roer aos filhos. Já se sabe que a mãe tem o dom da multiplicação.

A mãe sabe a que horas e em que canal passa determinado programa. A mãe é a TV Guia.

A mãe consegue responder a perguntas não formuladas. A mãe tem o dom da telepatia.

A mãe adivinha o mal de que padece a tartaruga moribunda e consegue curá-la. A mãe é veterinária. E milagreira.

A mãe ostenta com orgulho os brincos horrorosos que o filho fez na escola com massinhas. A mãe é um expositor ambulante da arte da progenitura.

A mãe lê pensamentos secretos e adivinha as parvoíces que estão para acontecer. A mãe é omnisciente.

A mãe vai levá-los a visitar a muralha da China. A mãe é rica.

A mãe tem um colo que cura todas as dores. Os beijinhos e abraços também fazem milagres. A mãe é mágica.

A mãe sabe exactamente o que se passa na cabeça do senhor que está a discutir com a mulher no outro lado da estrada, na terça-feira à tardinha. Por isso lhe perguntam: "O que se está ali a passar?" A mãe sabe sempre tudo.

A mãe tem uma ideia fantástica para o trabalho da escola que deve ser entregue no dia seguinte. A mãe é uma iluminada.

A mãe fala sempre baixinho. Quando pede ao filho para arrumar o quarto, por exemplo. Ou aspirar a casa. Ir chamar o irmão. Lavar as mãos para vir para a mesa. A mãe murmura.

A mãe tem de ceder o seu pacote de pipocas, no cinema. A mãe é abnegada. Ou está de dieta.

A mãe ouve música dos anos 90. A mãe tem mau-gosto. Para além de ser velha.

A mãe é imediatamente informada quando o cão vomita às 7h30 da manhã. A mãe é a empregada doméstica de plantão.

A mãe diz mil vezes as mesmas coisas. Principalmente advertências e ralhetes. A mãe é chata. E bastante repetitiva.

A mãe sabe como se diz paralelepípedo em romeno. A mãe é tradutora.

A mãe está sempre ao lado do telemóvel e responde de imediato. A mãe é reactiva.

A mãe tem resposta pronta. Sabe sempre o porquê de tudo. Em que ano nasceu fulano. Que descoberta fez sicrano. De que nacionalidade é beltrano. E, de permeio, os horários dos comboios. A programação do cinema. A mãe é o Google.

A mãe tem sempre pilhas. Das AAA e das AA+. Quatro pilhas, obviamente. E um compasso, na véspera do teste de matemática. A mãe tem sempre mais um litro de leite algures escondido. Para além da caneta florescente azul clara. A mãe é o supermercado.

Aconteça o que acontecer, a mãe é sempre culpada. Porque devia saber. Devia ter calculado. Devia ter feito de outra forma. Devia ter avisado. Devia ter chegado mais cedo. Ou mais tarde. Porque devia ter corrigido o erro a tempo. A mãe tem as costas largas.

A mãe consegue sempre reparar qualquer objecto partido. A mãe é genial.

A mãe tem todos os defeitos do mundo. E mais alguns. Só assim se explica as falhas dos filhos. E os traumas infligidos. A mãe veio com defeito.

A mãe sabe ao minuto os pormenores da última desgraça que aconteceu algures no mundo (e quiçá mesmo no espaço). A mãe é a CNN. Ou deus. É isso... a mãe é deus.