quarta-feira, 26 de abril de 2017

terça-feira, 25 de abril de 2017

A liberdade de hoje

(porque este 25 de Abril foi em pleno)



Liberdade para sermos quem somos (sem esquecer o nosso outro país)
Liberdade de pensamento, porque sonhar é permitido
Liberdade de escolha para mudar de vida (porque o país onde vivemos assim o permite)
Liberdade para amar este homem um bocadinho mais todos os dias
Liberdade de mudança, sem dogmas e muito poucas certezas
Liberdade de ter uma casa que permita ver os filhos a brincar no quintal
Liberdade de movimentos (o mundo é tão grande…)
Liberdade para ser a mãe que sonhei (ir buscá-los às 16h e irmos correr juntos)
Liberdade financeira (para ver a felicidade do meu filho perante o seu novo violino)
Liberdade de horários que me permite parar e respirar (sem pausas, ninguém é livre)
Liberdade para partir à aventura, assim, de repente (só porque nos apetece)
Liberdade para pôr a nossa música a tocar (e explicar tudo, mais uma vez)

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Nem sempre é bom

(onde o esforço compensa, mas cansa)



Nem sempre é bom, isto de ser mãe. Estamos a entrar numa fase em que sinto que os meus actos terão consequências importantes. Provavelmente, as mais importantes dos nossos quase dezasseis anos. E isso pesa. Deixá-los errar, pesa. Obrigá-los a seguir determinado caminho também pesa. Porque será que ninguém diz que o fardo é tão pesado?

Obriguei o Diogo a ir ao seu primeiro ensaio com a banda dirigida pelo professor de trompete. Até pode chumbar no exame do final de ano, é irrelevante. Ninguém estuda um instrumento durante sete anos para obter um diploma. Um pedaço de papel que ateste as suas competências. Ele não quer entrar para a escola superior de música, acredito que aquele certificado de pouco lhe irá servir na vida. Mas a atitude está errada. Baixar os braços sem lutar, está errado. Não se deve desistir à primeira contrariedade. O medo não pode ser paralisante. Mas explicar isto a um adolescente é muito complexo. Porque não é palpável, nem concreto. O mais difícil é impor decisões abstractas. É complicado justificar uma obrigação dizendo que o meio interessa mais do que o fim. Explicando que a força de vontade para se superar é infinitamente mais importante do que o resultado final escrito numa folha de papel.

Por isso, obriguei-o a ir. Desde o final de Fevereiro que andamos nesta luta. É esgotante. Tive de ser eu a andar atrás do professor para combinar as coisas. Tive de ser eu a insistir. Tive de ser eu a fixar datas, horas e locais em que a banda iria iniciar um novo repertório e o Diogo poderia entrar. Foi na sexta-feira passada. E após meses de discussão, ainda passámos o dia a trocar mensagens. Porque o Diogo não queria mesmo ir. Acabei a dizer que quem mandava era eu. Que ele não tinha escolha. Mas custou-me. Vai contra tudo o que eu acredito, no que à pedagogia diz respeito. Mas é a minha filosofia de vida, que considero ter obrigação de lhes transmitir. Quem foge de medo são os cobardes. Quem vai em frente com medo são os corajosos. E eu quero que os meus filhos aprendam a ser corajosos. Que aprendam a ter medo, que tomem consciência do medo, que consigam verbalizá-lo. E, depois, agir em consequência.

Foi difícil arrancá-lo de casa. Arrastá-lo para dentro do carro. A técnica é sempre a mesma: enrolar até já estar tão atrasado que nem vale a pena ir. E houve gritos. E ameaças. E zangas. Por fim, lá fomos. O Diogo estava tão nervoso, que o jantar lhe caiu mal. O habitual, portanto. Comigo sucedeu o mesmo, mas não lhe disse nada. Estava tão nervosa quanto ele. Parei à porta, deixei-o sair e arranquei de imediato sem olhar para trás. O professor estava à espera dele, se não aparecesse logo me havia de telefonar. Não telefonou. Duas horas depois, fui buscá-lo. Vinha feliz como há muito não o via. Que tinha sido extraordinário. Que tinha adorado. Que no início estava nervoso, mas depois passou. Que devia ter cometido muitos erros, porque não conhecia as partições, mas que não se ralou e deixou-se ir. Que se libertou. Que para a semana estava lá caído. Sem sombra de dúvida. Que aquilo era uma maravilha.

Para rematar, o já costumeiro agradecimento: “Muito obrigado, mãe, por me teres obrigado a vir. Tinhas razão”. Tentei brincar... “Como sempre. Tens de dizer: Tinhas razão como sempre, mãe.” E o Diogo disse-o, com um grande sorriso. Noutros tempos, aquilo teria bastado para me aquecer o coração. Mas hoje sinto-me cansada. Exausta de lutar contra a vontade de um adolescente de quase dezasseis anos que já é bem maior do que eu. E contra um professor que andava há anos a repetir o convite e que já tinha desistido. Estou cansada de lutar contra a minha própria cabeça, para tentar saber onde posso deixá-lo errar e onde devo impor-me. Por isso, mesmo que ninguém o diga, não tenho vergonha de admitir que nem sempre é bom, isto de ser mãe.