segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Na Disneyland Paris

(onde o Vasco nos diz que regressou à infância)


O primeiro Natal que passámos na Bélgica foi celebrado no Saint-Nicolas, porque os rapazes iam passar as férias em Portugal. Apesar de lhes ter dado as prendas antecipadamente, quis dar-lhes “por telefone” qualquer coisa no dia 25. Assim, surgiu a promessa de ir à Disneyland Paris. O Diogo tinha onze anos, o Vasco tinha seis. Nesse Verão, fomos efectivamente passar uma semana de férias em Paris com a avódrasta… mas ninguém quis ir à Disney. O tempo era pouco e preferimos calcorrear a cidade de lés a lés. O Diogo sonhava com a Notre-Dame, o Vasco com a torre Eiffel e a avódrasta com Montmartre. A verdade é que nenhum de nós é grande amante de emoções fortes, nem de carrosséis. Pouco depois, o meu amor entrou nas nossas vidas, inviabilizando por completo a Disneyland Paris. Temos corrido mundo com o Belga, mas enfiarmo-nos nesse antro de consumismo americano estereotipado estava fora de questão. Felizmente, quando o Diogo entrou para o Sacré-Coeur, o problema resolveu-se. Os alunos do secundário fazem três viagens ao estrangeiro, sendo a primeira a Paris… e à Disney. Ou seja, o Diogo foi à Disneyland com a escola no 8.º ano e, se tudo correr bem, o Vasco também irá quando chegar a sua altura.

Mas o meu amor sabia que a promessa me tinha ficado atravessada. Gosto de cumprir as poucas promessas categóricas que faço aos rapazes. Por isso, pensou que a prenda ideal para os 10 anos do Vasco seria uma ida mãe-filho à Disneyland… que também compensava a ciumeira que a coisa pequena sentiu quando o meu amor ofereceu a viagem a Berlim pelos 15 anos do Diogo. Fiquei tão encantada com a ideia, que decidi de imediato melhorá-la. Quando estivemos em Paris em 2013, acabámos por decidir não ir ao Louvre, porque os miúdos nos pareceram demasiado pequenos para apreciar. Mas o Vasco nunca mais se calou com a história do Louvre. Ao longo dos anos, tornou-se aos seus olhos o museu mais cobiçado do mundo e arredores. Por isso, decidi oferecer-lhe o jantar de anos em Paris e, no dia seguinte, a entrada no Louvre. A escapada ficaria completa com a ida à Disneyland, no Domingo. Este era o plano inicial, que ficou agendado em Agosto. Quem diz agendado, diz marcado pela Net. E pago, na íntegra. E comunicado a quem de direito… em Agosto, repito. Infelizmente há quem esteja disposto a magoar os próprios filhos para me atingir.

Tive de meter um dia de férias na sexta-feira, para poder almoçar a correr com o Vasco. Não houve bolo de anos em casa, só na escola. Mais as pipocas e o Champomy. Para além das borrachinhas para distribuir pelos amigos que, nos últimos anos, têm substituído com sucesso os sacos de doces. O meu amor foi comprar sushi e caviar. Ou um sucedâneo bem imitado, vá… Sabe-se lá porquê, coisa pequena decidiu que adora caviar. Esquecemo-nos das tostas, mas o Vasco não se atrapalhou: comeu o caviar com pauzinhos. Depois, desistiu e foi buscar uma colher, que o tempo era pouco. Ainda conseguiu abrir as prendas e os diversos postais, mas a família não conseguiu falar com ele. À tarde, fomos buscá-lo à escola para irmos comer um cupcake à pressa na novíssima loja de cake design de Vielsalm. O Vasco estava feliz, é o que interessa. Sentiu que era o rei da (nossa) festa. Depois, eclipsámo-nos, de modo a evitar o tão desejado circo. Não fomos jantar a Paris. Obviamente, não fomos  ao Louvre. Quando voltou, no sábado, o Vasco disse que tinha passado o serão a jogar telemóvel…

Apesar de tudo, decidi que não íamos perder também a entrada na Disneyland, no Domingo. Depois da aula de ballet, pusemo-nos os dois a caminho de Paris, onde chegámos já noite cerrada. Foram apenas 24 horas, mas valeu a pena. Quer dizer… para ser completamente sincera, detestei cada segundo. Mas também não fui à Disneyland por mim. O importante é que o Vasco adorou. E eu sinto-me em paz por ter finalmente cumprido a minha promessa.

Quando o meu amor ofereceu ao Vasco a entrada nos parques da Disneyland, tinha em mente a Academia dos Jedis. Infelizmente, há duas semanas, apareceu no site a indicação de que estaria fechada no final de Novembro. Acabámos por escolher, então, ir antes aos Estúdios Disney. Coisa pequena explicou-nos, com um sorriso falsamente envergonhado, que a “fase princesas” já tinha passado. Parecia-lhe que o outro parque seria mais adaptado aos seus gostos atuais. Não sei se já disse que o Vasco quer ser actor…

Inaugurado em 2012, o parque Walt Disney Studios situa-se mesmo ao lado da Disneyland Paris, tendo sensivelmente metade do tamanho e apenas 18 atracções... ainda assim, acho difícil conseguir vê-las todas num só dia, tendo em conta as longas filas. O preço das entradas nos dois parques é igual, existindo bilhetes combinados. Seja como for, é uma autêntica fortuna! Li algures que, em 2015, acolheu 4,4 milhões de pessoas, sendo o 5.º local turístico mais visitado na Europa. Sinceramente, depois de lá ter estado, pergunto-me como é possível… 

Eis o que ninguém vos vai dizer sobre o parque Walt Disney Studios:

1) À hora da abertura da Disneyland, os carros avançam como loucos até ao parque de estacionamento gigantesco. Quer fiquemos 2h, quer fiquemos 24h… o preço é o mesmo: 20€. Por outro lado, há uma mera indicação da zona. Nós ficámos na zona Sininho, no corredor Bambi. Nós e mais umas boas centenas de carros, porque o parque não está organizado por números. No final do dia, passámos largos minutos à procura do carro, no meio do escuro…
2) Chegados à zona para mostrar os sacos há uma multidão. Nenhuma alma se lembrou de fazer uma fila com cordões… a multidão vai afunilando, aos encontrões, até dois postos de controlo. Crianças e deficientes e velhos e carrinhos tudo ao molho. Centenas e centenas de pessoas, é claustrofóbico.
3) O afunilar natural da manada repete-se para o controlo dos bilhetes...
4) Felizmente, todas as atracções têm filas organizadas. Não que melhore muito a situação… são 30, 45, 60, 100 minutos de pé, no exterior, com um frio de rachar, sem nada para fazer. Como é óbvio, as crianças ficam rabugentas e com propensão para o disparate. Os pais absortos nos telemóveis ou a falarem uns com os outros. Numa fila que durou 40 minutos, vi uma pequenina apanhar três valentes palmadas, antes de conseguir meter o traseiro dorido num carrossel que deve ter durado pouco mais de dois minutos. Vi um bebé de colo, a mamar na fila… e, depois, a andar aos solavancos num carrossel. Vi crianças a serem acordadas para andarem nas atracções, sem saberem muito bem onde estavam. Vi miúdos pequenos a aguentarem horas de pé graças aos sacos obscenos de guloseimas que iam ingerindo. Vi um menino que não devia ter 4 anos ser ameaçado de tanta tareia que tive de agarrar no Vasco com força pelo braço, para não se virar para reclamar com aquela mãe. Vi um freak show de adultos mascarados de personagens Disney, com atitudes completamente parvas. Vi pais a dançarem com as personagens da Disney bem mais animados do que os filhos, a taparem desavergonhadamente a vista aos meninos mais pequeninos que estavam atrás. Vi duas meninas serem arrastadas para uma atracção que me encheu de medo a mim. Vi cenas absurdas que nunca pensei ver na minha vida. E isto passou-se num fim-de-semana banal do mês de Novembro, não foi nas férias escolares, nem no Verão… nessa altura, não quero imaginar como que será.
5) O Walt Disney Studios não tem áreas de repouso absolutamente nenhumas, andamos até doer os pés, sem nunca nos conseguimos sentar. Não se vêem muitos bancos no exterior e não existe um espaço coberto onde as crianças possam descansar (ou acalmarem-se ou alimentarem-se ou…).
6) A área da restauração “rápida” (ah, ah, ah!) é claramente diminuta. Está sempre cheia a todas as horas do dia e nunca há mesas vagas, o que faz com que muitas famílias acabem a comer o seu hambúrguer nojento, pago a peso de ouro, no meio do chão. Ia matando uma senhora que estava calmamente “a guardar” mesa para seis pessoas, que se recusou a ceder uma cadeira para o Vasco se sentar noutra mesa. Jurei que lhe devolvia a cadeira quando a família aparecesse, mas nada… Valeu-me um adolescente que já tinha acabado de comer e que se dispôs a partilhar a cadeira com a mãe.
7) Está tudo feito para gastarmos dinheiro a cada esquina… as barraquinhas com comida, os quiosques com souvenirs, as lojas oficiais Disney… tudo aquilo envolve um merchandising fortíssimo ao qual é difícil resistir. Como o Vasco se portou excepcionalmente bem, deixei-o comprar um sabre de luz “composto” por ele. Acho que só isto já justificou a viagem…
8) Contrariamente às nossas expectativas, há muito poucas atracções sobre os bastidores do universo cinematográfico da Disney. Embora se apresente como um parque para “os mais crescidos”, os Estúdios Disney também vivem basicamente dos carrosséis, bastante infantis por sinal. Como detestamos atracções assustadoras, acabámos por gostar muito da oferta que havia… até que me lembrei de entrar numa atracção tipo “casa do terror” da 4ª Dimensão. Tive o cuidado de ver a indicação da idade, no mapa. Não vinha especificado, mas diziam que a altura mínima era 1.20 metros. Achei que não corríamos perigo. Era um elevador completamente escuro que caía em queda livre de 13 andares e que voltava a subir e que voltava a cair… A cada paragem, nas subidas, abria-se uma janela gigantesca que dava para o vazio, com o parque muito pequeno, lá em baixo. Acho que nunca gritei tanto na minha vida. O pobre Vasco desfez-me a mão e gritou ainda mais do que eu. Pedi-lhe desculpa mil vezes, quando saímos… mas, para ser honesta, apeteceu-me ir pedir justificações aos funcionários: como raio deixam entrar crianças pequeninas ali dentro?!
9) Fiquei bastante surpreendida com a escolha das personagens das atracções: Toy Story, Cars, Nemo, Ratatouille… Os filmes escolhidos são bastante antigos e vê-se que o parque sofreu poucas actualizações. Por outro lado, os grande clássicos não são sequer abordados, o que é uma pena. Teria imensa piada vermos a evolução da “filosofia” Disney, que se reflecte na animação, na escolha dos heróis, nas músicas, etc. Ou seja, nem os adultos da minha geração, nem os miúdos mais pequenos se revêem. Felizmente, estes são os filmes que o Vasco viu quando era mais novo, pelo que estava todo contente. Gostei muito quando me disse que era como “regressar à infância”… e eu que pensava que ele ainda nem sequer tinha saído!
10) Resumindo: se têm amor ao dinheiro, não o gastem no Walt Disney Studios. A sério. Não sei dizer se o parque da Eurodisney será muito diferente. Suponho que, pelo menos, tenha atracções mais recentes, que consigam efectivamente cativar o público mais jovem. Pela parte que me toca, nunca mais na minha vida tenciono lá pôr os pezinhos. Foi mesmo só para “cumprir promessa”, convencida que aquilo faria parte do imaginário infantil. Não sei o que diabo me terá passado pela cabeça… A França está cheia de parque engraçados: o Futuroscope, onde estivemos no Natal passado e que adorámos, o parque Asterix ou o Puy du Fou, que andamos a namorar há uma série de tempo. Ali, nunca mais ninguém me apanha. Não vou mentir: o Vasco gostou muito do Walt Disney Studios. Mas a verdade é que este miúdo não serve de exemplo, porque gosta de tudo.















sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Duas mãos cheias de anos

(porque hoje celebras uma década de vida)



Não gostas de acordar bruscamente. Não gostas de apressar o ritual da noite, antes de te deitares. Gostas de lavar os dentes a ouvir música clássica e de ler um bocadinho na cama. Não és um grande dorminhoco. Nunca foste. Há pouco tempo, disseste-me que era uma perda de tempo.

Adoras comer. De preferência, doces. Chocolate e gomas. Detestas a consistência dos legumes. Mas adoras sopa passada. Gostas da alface da nossa horta, mas o tomate e o pepino dão-te vómitos. Adoras canja. Devoras sushi. E tudo o que é comida chinesa, em especial pato com laranja. Estás sempre pronto a experimentar novos restaurantes, novas gastronomias, novos sabores. Só não te peçam para comer de manhã, és incapaz. Bebes apenas leite com chocolate. Com esforço, umas bolinhas de cereais, que vais pescando distraidamente com a mão enquanto lês.

Tens a sensibilidade à flor da pele. Emocionas-te com facilidade. Choras muito, quando te comoves. Ou quando tens medo de levar um ralhete. Mas depressa passas ao riso. Às gargalhadas tolas. Às vezes, penso que és como o Pessoa, finges tão completamente que chegas a fingir que é dor a dor que deveras sentes. Como se a vida fosse um palco de uma peça de teatro. As emoções além de verdadeiras, também podem ser fingidas. Por isso, voláteis e inconstantes.

Fazes contas de cabeça com uma velocidade assombrosa. E percebes conceitos matemáticos bastante abstractos. Mas fartas-te depressa, se não te sentires motivado. Ou é difícil ou não interessa. Ou exige esforço mental ou não vale a pena.

Perdes tudo, o tempo todo. Ou melhor, as coisas perdem-se. Estragam-se. Partem-se. É como se tu e os objectos quotidianos vivessem em dois planos paralelos. Às vezes, também te perdes. Entras num mundo que é só teu. Que te faz esquecer num segundo o que acabámos de dizer. As ordens e os pedidos. As súplicas. Esqueces tudo. Chega a ser desesperante. Nunca tens pressa. Porque as pequenas contrariedades da vida de todos os dias pura e simplesmente não te conseguem atingir. Sorris e o mundo ilumina-se.

Tocas violino desde os dois anos e meio. Já lá vão sete. E cinco violinos. Vários professores, que não esqueces. Adoras tocar, mas não gostas muito de praticar todos os dias. Por ti, já tocavas na orquestra e nem precisavas de ensaiar. Nunca esqueceste o teu primeiro amor. Espera só mais um bocadinho, já falta pouco para teres as tão desejadas aulas de violoncelo. Mas também querias experimentar a flauta transversal. O piano, nem pensar. É o instrumento do teu irmão, que invejas mas não ousas experimentar.

É muito difícil castigar-te. Porque tu precisas de muito pouco para ser feliz. Se te tiro as consolas, queres brincar com Legos. Se te tiro os Legos, vais brincar para o quintal. Se te tiro o quintal, o que te está mesmo a apetecer é ver televisão. Se te tiro tudo, vais alegremente ler um livro. Sabes bem que isso nunca serei capaz de te tirar.

Baixas sempre a cabeça e franzes o sobrolho, quando te ralho. Ou choras grandes lágrimas de crocodilo ou ris disfarçadamente. Nunca te atinge. Passados uns minutos, apareces aqui em baixo como se nada fosse.

Adoras a sétima arte. Gostas dos grandes clássicos de Hollywood, que duram horas infinitas. Especialmente se, depois, puderes ver os remakes. Nunca gostaste muito de filmes para crianças. Há muito tempo que te levamos connosco a ver filmes para adultos. Tapas os olhos com as mãos quando há cenas de beijos. Ficamos sempre espantados com o alcance da tua compreensão. Fazes as perguntas correctas, tiras ilações assombrosas. Percebes tudo ao mais ínfimo detalhe. Viste o Interstellar. Bridge of Spies. Le Tout Nouveau Testament. The Martian. Le Dernier Loup. Captain Fantastic. E tantos, tantos outros. O dono do “nosso” cinema já te conhece e deixa-te sempre entrar. Choraste tanto quando viste a Famille Bélier, que nos conseguiste emocionar a nós. E o resto das pessoas que estavam à nossa volta.

Adoras viajar, partir à aventura. És um óptimo companheiro de viagens. Nunca te queixas, nunca estás cansado, nunca te fartas. Gostas de tudo. Andas de olhos bem abertos para captar tudo o que te rodeia. As pessoas, a cultura, a arquitectura, a gastronomia, os hábitos. Os sons. A arte. Gostas de museus. Fixas um objecto e só sais dali quando tiveres percebido tudo. Incomodas os guias com mil perguntas, sem qualquer vergonha. O que mais te encanta são as diferenças.

Gostas de brincar no quintal. De chinelos. Ou descalço. Gostas da tua colecção de paus que consegues desencantar nos sítios mais estranhos. No meio das rochas e no centro das cidades. Não precisas de muito para te entreter. Um pau basta. Faz de espada ou de pistola. Gostas de espadas e pistolas e armas em geral. Principalmente se forem antigas. Não percebo porquê, não gostas de guerras. Nem de conflitos de qualquer espécie.

Não és muito dado às novas tecnologias, aos ecrãs, às consolas. Ligas pouco a telemóveis e jogos alienantes. Só acendes a televisão nas manhãs de fim-de-semana, quando acordas antes do resto da tribo. Talvez seja pelo exemplo que tens em casa, mas preferes um bom livro. Ou umas peças de Lego. Entreténs-te muito bem sozinho.

És o menino da mamã. Apegado, melado, mimado. Ainda pedes colo e beijinhos. Gostas de te aninhar em mim. Olhas-te ao espelho e procuras as semelhanças. Não é difícil, somos quase iguais. Mas espero que o teu cabelo se mantenha claro. E tens umas sardas deliciosas que só aparecem no pino do Verão. Procuras também semelhanças de carácter. Queres ouvir-me contar as minhas histórias de infância. Os disparates e as grandes aventuras. Tal como eu fazia, gostas de imaginar as profissões que um dia gostarias de ter. Tal como eu, perdes-te num mundo de escolhas. Podes ser tanta coisa. Podes ser tudo.

Gostas de História. És capaz de passar dias inteiros a ouvir os relatos do Pascal. São uma espécie de palestras que devoras. As Guerra Púnicas. O antigo Egipto. A Segunda Guerra Mundial. Estás sempre a sugerir novos temas. Tens dez anos mas já sabes a diferença entre comunismo e capitalismo. E em que consistiu a Revolução Cultural. Dizes com um ar muito sério: “O dinheiro é o nervo da guerra.”

A música é a tua vida. Desde sempre. É como se o teu corpo fosse movido por uma espécie de música interior. Passas a vida a dançar. A saltitar. Ouves quase sempre música clássica, que conheces na perfeição. Aos primeiros acordes, reconheces os compositores e a obra. Com o teu irmão, gostas de fazer jogos de adivinhas sobre os grandes clássicos. Não lhe ficas muito atrás. Também gostas de música pirosa, dos anos setenta. E de metal. Tens um gosto ecléctico, não fazes distinções qualitativas.

Desde pequenino que transformas gostos passageiros em obsessões. Começaste com as princesas da Disney. Não, primeiro foram os concertos da Mariza. O Noddy. A Pequena Sereia. Star Wars. Kid Paddle. Animais. A mitologia. James Bond. A última foi o Harry Potter. Durante longos períodos de tempo, mergulhas num mundo qualquer que te deixa completamente obcecado e alheado. Depois, passa. Ou passas à próxima obsessão. É cíclico.

Gostas de dinheiro. De ter dinheiro. De gastar dinheiro. Não te preocupas minimamente de ficar sem nada, depois. Fazes contas e mais contas. Pões de um lado e tiras de outro. Adoras passar tempos infinitos a ver lojas de brinquedos. Principalmente o corredor dos Legos. E do Star Wars. Mas também gostas de oferecer prendas. Compraste com as tuas mesadas a prenda de Natal do teu irmão em Setembro. E acho que acertaste em cheio.

Não és um desportista. És extremamente trapalhão. Se houver um buraco num raio de meio quilómetro, é certo e sabido que vais lá cair. Não gostas de jogar basquetebol, mas forças-te a jogar futebol para estares com os teus amigos no recreio. Dizes sempre que o professor de Educação Física te detesta. Morres um bocadinho quando te obriga a correr à volta do lago. Gostas das aulas de natação, onde andas ininterruptamente desde os seis meses. Outros já se estariam a preparar para os Jogos Olímpicos, tu limitas-te a brincar  na água como um golfinho. Gostas de dança clássica, mesmo que não tenhas a flexibilidade, a fluidez, a delicadeza ou a beleza necessárias. Mesmo que não gostes do universo feminino despudorado que te rodeia nas aulas. Gostas do movimento do corpo e da música. E isso chega perfeitamente para estares disposto a contrariar ferozmente a tua natureza duas horas seguidas por semana.

És um diplomata nato. Gostas de agradar. De parlamentar. De manipular. De dar ordens. Exploras na perfeição todas as zonas cinzentas da vida. As nuances e as excepções. Gostas de ser popular, de ser conhecido. De agradar. De seduzir. Gostas de te dar bem com toda a gente. Não gostas que as raparigas te peçam em namoro. Gostas de ter amigas. As tuas “potes”. Tens muitos amigos na escola. E todos gostam de ti. Dos mais pequeninos aos maiores. Adoras quando é o teu dia de tomar conta dos pequeninos da creche, durante o recreio da hora do almoço. Ontem, disseste que um menino tinha cancro e choraste. És uma boa pessoa. Pões uma enorme ternura em tudo o que fazes. É verdade que procuras estar sempre feliz, que pões a tua felicidade à frente de tudo o resto. Mas também é verdade que procuras incessantemente fazer os outros felizes. És, sem sombra de dúvida, a pessoa mais empática que conheço.

Adoras o teu irmão e consegues levá-lo à loucura. Usas e abusas do facto de seres mais pequeno. Gostas de ouvir as suas histórias e de estar com os seus amigos. Queres ser com eles, o mais depressa possível. Segues os gostos do teu irmão de perto, com uma veneração que me comove. Música clássica, Star Wars, Harry Potter, Lego, lutas de espadas, videojogos. Nos últimos tempos, começaste a tentar competir com o Diogo em certos terrenos. Já percebeste que o irrita que saibas mais de história do que ele e gostas de o provocar. Apesar do amor incondicional, tens um grande espírito crítico em relação ao teu irmão. Apontas-lhe os defeitos como ninguém. E espias com curiosidade o estranho mundo da adolescência.

Vives a ler. Num mês, leste a saga toda do Harry Potter. Sete livros com milhares de páginas. Tens sempre um livro perdido nas diferentes mochilas das actividades. Lês e relês, até saberes tudo de cor. Repetes as tiras de BD como se fossem piadas. Gostas de confrontar livros e filmes. Livros e música. Livros e o mundo. Mais do que literatura, gostas de literatura comparada. E eu não posso deixar de sorrir perante a beleza da vida, que me deu um filho que segue naturalmente a minha paixão.

Tens uma memória de elefante. Consegues lembrar-te dos pormenores mais insignificantes. Basta ouvires uma história uma vez para conseguires contá-la nos mais ínfimos detalhes. Fixas as datas e os números. Por vezes, espantas-me com acontecimentos muito longínquos que te vêm à memória. Gostas muito de recordar o passado. Principalmente as histórias engraçadas, que repetes à exaustão.

Fazes hoje dez anos. Uma década. Duas sequências de números. É muito tempo e é tão pouco. Vieste virar a minha vida do avesso e estar-te-ei eternamente grata por isso. Espalhas magia à tua volta. És o meu sol, todos os dias. O melhor filho do mundo. Consigo amar-te infinitamente e, ainda assim, ficar novamente apaixonada sempre que olho para ti. Acho sinceramente que és uma pessoa extraordinária, destinada a uma vida fora do comum. Um pequeno ser estranho, que terá uma vida igualmente estranha. Mas muitíssimo feliz. Porque és a pessoa mais feliz que eu conheço. Sabes ver sempre o lado bom da vida. E isso é raro, Vasco.


Ontem estava a escolher a mais bonita fotografia tua. É difícil escolher porque és muito fotogénico e tens sempre atrás de ti o melhor dos fotógrafos, que te adora. Depois, descobri este vídeo… és tão tu! Com apenas 11 meses, já eras todo tu. A felicidade. A música. A dança. A atenção. O não conseguir estar quieto. A queda para o disparate… para destruir tudo à tua volta, sempre com a mesma curiosidade e alegria de vida. Espero que nunca a percas. Que consigas manter sempre vivo este Vasco pequenino, este Vasco dos 10 anos estreados hoje.

video

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

As fórmulas mágicas – Produtos de limpeza caseiros

(onde se mostra a fotografia possível,

 porque o homem escondeu os restantes produtos)



Fujo a sete pés dos corredores da limpeza dos hipermercados, que me deixam completamente baralhada. Aquilo é demasiada escolha para mim. Mas o Belga adorava comprar produtos específicos de limpeza para tudo e mais alguma coisa, como se a adequação 100% perfeita fosse sinónimo de asseio garantido.  Ainda nem estávamos a viver juntos e já eu tinha o armário das limpezas atolado. O problema é que eu detesto o cheiro deste tipo de detergente. E fazia-me confusão passar tempos infinitos a decidir que produto ia usar para limpar determinada coisa. Vai daí, usava um qualquer e percebi que resultava na mesma. O limpa-vidros dava para limpar a placa eléctrica. O limpa-superfícies também servia para o chão. Ou seja, tinha em casa uma panóplia de porcarias tóxicas perfeitamente inúteis. Para piorar a situação, o meu amor gosta de ter os produtos de limpeza à mão de semear, por assim dizer. Estou constantemente a desencantar produtos de limpeza nos sítios mais estranhos. Volta e meia, abria o armário dos tupperwares e deparava-me com o detergente para lavar o chão da cozinha (que obviamente era diferente do detergente para lavar o chão da casa de banho…). Por mais que eu arrumasse os produtos na casa das máquinas, eles acabavam sempre por ir parar aos armários que estão mais perto do local exacto a limpar. Para além de haver demasiados produtos. Todos eles nocivos para o ambiente e para nós. Foi por isso que comecei as minhas experiências pelos produtos caseiros. Depressa percebi  duas coisas: 1) os produtos caseiros são multifacetados; 2) é preciso muito pouco para sermos auto-suficientes em matéria de limpeza da casa: água, sabão, vinagre, limão, bicarbonato e carbonato de sódio, óleos essenciais. E é tudo. A partir daqui, pode fazer-se todo o tipo de combinações, à medida das necessidades. Felizmente, o Belga também tem uma costela ecológica e aderiu com facilidade à ideia dos produtos caseiros. Já não me aparece com detergentes estranhos, mas gosta de fazer sugestões e dar palpites sobre as propriedades dos óleos essenciais. Só não consegui convencê-lo a guardar as coisas num só lugar, mas já não me faz tanta impressão ver estas embalagens por aí espalhadas, porque sei que não são tóxicas.

Aqui ficam, então, as restantes fórmulas dos produtos caseiros longamente testados pela tribo, visto terem sido os primeiros. Costumo fazer por atacado, não tenho paciência para ir fazendo aos bocadinhos. Duplico ou triplico sempre as receitas. Armazeno tudo na casa das máquinas, em bidões que comprei para o efeito numa venda de garagem no Verão. À medida das necessidades, vou enchendo frascos de um litro. Uso antigas garrafas de leite biológico ou umas garrafas fantásticas que catrapisquei à menina do cabeleireiro social. Para não desperdiçar, em vez de etiquetas, escrevo o nome dos produtos com canetas de acetato (isto agora já deve ter outro nome, não?!), que depois dá para apagar com álcool… A propósito de álcool, lembrei-me que há muitas receitas de produtos de limpeza caseiros que usam álcool em vez de vinagre. Nunca experimentei, porque o álcool aqui não está tão vulgarizado como em Portugal e é bastante caro. Eu gosto do cheiro natural do vinagre, principalmente o de sidra. Mas podemos encher um frasco com vinagre e limões (já usados, claro) durante umas semanas e, depois, usar o vinagre coado para fazer os produtos de limpeza. Ficam com um cheirinho delicioso a limão. Infelizmente, o nosso foi literalmente desviado para fins alimentares. É excelente para temperar a salada… Obviamente que, com o tempo, os produtos tendem a “talhar” e ficam feios. Como o que interessa é o conteúdo, limito-me a agitar vigorosamente os bidões para ficar uma mistura homogénea. No entanto, se quiserem dar um ar mais profissional à coisa, basta juntar lecitina de soja, que funciona como agente emulsificante natural e estabiliza a fórmula.


Detergente para lavar a loiça
  •           50 g de sabão de Marselha neutro
  •           50 g de sabão preto líquido
  •          1,5 l de água
  •          2 colheres de sopa de bicarbonato de sódio
  •          2 colheres de sopa de carbonato de sódio (Na2CO3)
  •          2 colheres de sopa de vinagre branco
  •          20 gotas de óleo essencial de eucalipto
Começamos por ralar o sabonete em barra. Levamos ao lume com a água e o sabão preto, até dissolver completamente. Eu prefiro passar sempre a varinha mágica para ficar mais homogéneo. Quando a mistura estiver morna, juntamos devagar e com cuidado o bicarbonato e o carbonato de sódio. Mexemos muito bem. Por fim, adicionamos o vinagre. O óleo essencial é opcional, mas eu gosto do cheirinho da eucalipto. Costumo também juntar uma colher de sopa de glicerina para o detergente ficar mais suave para as mãos. Aconselho a dividirem esta mistura por duas garrafas, depois de arrefecida. Por vezes, o sabão engrossa e é preciso juntar mais água e agitar bem.

O mais importante, nesta receita, é a qualidade do sabão sólido, que não deve ter quaisquer aditivos. O ideal é usar sabão de Marselha neutro biológico, o que nem sempre é fácil de encontrar... ou, quando se encontra, costuma ser um nadinha caro. Como alternativa, podem usar um daqueles sabões em barra que se vendem no corredor dos produtos para lavar roupa, tipo sabão azul e branco. Mas, sinceramente, não aconselho produtos de marca branca. E nem pensar em usar sabonete… passado pouco tempo, fica uma pasta sólida e deixa uma camada de gordura na loiça. Depois de muitos ensaios, percebi que mais vale apostar na qualidade. De qualquer forma, uma barra de sabão acaba por render bastante. Caso não encontrem sabão preto (aqui, vende-se nas lojas de produtos de bricolage), não há problema… basta dobrar a quantidade de sabão em barra. Ainda assim, tenho de admitir que o detergente para lavar a loiça é único produto que não me deixa completamente satisfeita, de todos os produtos caseiros que faço. Claro que se pode usar mais detergente, para compensar a falta de espuma… e água quente, que sempre ajuda a dissolver a gordura. Sou sincera, não é melhor e também não fica mais económico fazer o seu próprio detergente para lavar a loiça caseiro. É mesmo por uma questão ecológica (e alguma casmurrice em sermos auto-suficientes). Nos primeiros tempos, estranhamos bastante. Agora, desde que achei encontrei um bom sabão e que “fixei” esta receita, estamos mais satisfeitos.


Detergente para lavar a roupa
  •          200 g de sabão de Marselha
  •          3 l de água
  •          50 g de bicarbonato de sódio
  •          2 colheres de sopa de vinagre branco
  •          20 gotas de óleo essencial de lemongrass ou alfazema
Aquecer a água em lume brando com o sabão ralado e mexer bem para dissolver. Juntar o bicarbonato e o vinagre e misturar muito bem. Por fim, adicionar o óleo essencial à escolha.

Esta receita é do mais fácil que há e funciona mesmo muito bem. Na minha opinião, lava melhor que muitos detergentes de compra e é, sem dúvida, bastante mais económica. Já para não falar do factor ecológico… Tal como no caso do detergente para a loiça, é essencial escolher um bom sabão, mas não tem de ser biológico, nem neutro. Basicamente, qualquer sabão em barra serve. Opto por ter sempre um bocadinho de sabão sólido, na estante por cima da máquina de lavar, para esfregar directamente nas nódoas, antes de pôr a roupa a lavar. Só ponho a máquina a trabalhar à noite, no programa mais económico (1h a 40º C). Após o ciclo inicial, junto meia chávena de vinagre branco que substitui o amaciador da roupa. O óleo essencial de lemongrass anula o cheiro do vinagre que, de qualquer modo, acaba por desaparecer quando a roupa seca.


“Vanish”
  •          250 ml de água
  •          125 ml de água oxigenada 10 volumes
  •          125 g de carbonato de sódio (Na2CO3)
Misturam-se muito bem todos os ingredientes e está pronto a usar. Não pode ser armazenado numa garrafa translúcida, pois a água oxigenada tende a perder propriedades em contacto com a luz. Este produto serve para branquear a roupa durante a lavagem na máquina, tipo “Vanish”. Deve juntar-se logo a seguir ao detergente.


Limpa-tudo
  •          0,8 l de água
  •          4 colheres de sopa de bicarbonato de sódio
  •          4 colheres de sopa de vinagre de sidra
  •          Sumo de 1 limão
  •          1 pitada de sal fino
Num frasco vaporizador juntar todos os ingredientes e agitar bem para misturar. Está pronto a usar!


Limpa-vidros
  •         150 ml de vinagre de álcool
  •          150 ml de sumo de limão
  •          150 ml de água
  •          5 gotas de óleo essencial de pinho
Num frasco vaporizador juntar todos os ingredientes e agitar bem para misturar. Está pronto a usar!


Produto para limpar o fogão/sanitários
  •          Borrifador com vinagre de álcool
  •          Saleiro com bicarbonato de sódio
Borrifar a superfície a limpar com vinagre. Polvilhar com bicarbonato de sódio e deixar agir uns minutos. Se a sujidade estiver muito entranhada, pode-se polvilhar também a esponja com o bicarbonato antes de esfregar. Depois, basta passar por água. Quem não gostar do cheiro do vinagre, pode adicionar no borrifador umas gotas de óleo essencial de eucalipto, que é bastante forte.


Lava-chão
  •          1 l de água
  •          Sumo de 1 limão
  •          2 colheres de sopa de sabão de Marselha ralado
Aquecer a água, juntar o sabão e mexer bem para dissolver. Por fim, juntar o limão e, se quisermos, umas gotas de óleo essencial. Ou, então, usar um pouco de detergente para  roupa caseiro diluído em água. Ultimamente é o que tenho feito e fica tudo limpinho!


segunda-feira, 21 de novembro de 2016

A melhor semana do ano

(onde se inicia a contagem decrescente)


Acordei-o às 6h30. Normalmente, vira-se para o outro lado e deixa-se ficar mais um bocadinho na ronha. Desta vez, não. Levantou-se num pulo. Com um sorriso rasgado, disse-me:

“Hoje começa a melhor semana do ano, mãe! A semana dos meus anos!”

Já só tenho cinco dias para me mentalizar. O Bebé Bá faz 10 anos. ❤


sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Dar prejuízo à casa

(onde se gasta pouco e se come mesmo muito)



Ontem fui com o filho pequeno à consulta de Genética, em Liège. No final, ralhou comigo porque me esqueci de dizer que era um grande leitor. O médico respondeu-lhe a rir que isso não era considerado doença. Felizmente, nada do que o Vasco tem é problemático.

À saída, coisa pequena tinha fome. Muita fome. E muita vontade de escapar às aulas da tarde. Como tinha de lhe comprar um Kispo novo (o segundo, desde o início das aulas...), fomos até ao centro comercial. As galerias comerciais são bastante comuns na Bélgica, os centros comerciais nem por isso. Os poucos que existem são minúsculos, quando comparados com os colossos portugueses. Ainda assim, começo logo a sentir-me claustrofóbica mal entro no estacionamento subterrâneo. Desafiei o Vasco para irmos comer uma fatia de pizza, num fast-food da moda. A ideia era pôr-me a andar dali para fora o mais depressa possível. Claro que há sempre o dia em que a educação que demos aos nossos filhos se volta contra nós. Ontem foi esse dia. Coisa pequena respondeu com desdém, dizendo que a comida de plástico fazia mal à saúde. Que era muito mais saudável irmos almoçar calmamente ao japonês. À falta de argumentos para rebater as minhas próprias teorias, dei por mim sentada em frente a um tapete onde desfilavam continuamente várias iguarias. Descobri que o Vasco é o terror de qualquer buffet pré-pago. De pauzinhos em punho, ia tirando prato atrás de prato. Fiquei enjoada só de olhar para ele. E, 35 minutos depois, tive de lhe suplicar encarecidamente que parasse de comer. Corria sérios riscos de rebentar ou de fazer desmaiar de susto a empregada. A lontra esfaimada comeu 21 pratos! Sendo que pagou apenas 9 euros por ser criança, estou desconfiada que deu um sério prejuízo à casa.

 [ a felicidade do bicho ]

[ a criatura domina tão bem os pauzinhos,
 que come uvas a uma velocidade impressionante ]

[ os despojos do dia ]

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

As fórmulas mágicas – Produtos de higiene caseiros

(onde se deixam muitas receitas, algumas dicas e uma ressalva)



Eis as prometidas receitas dos produtos de higiene caseiros que usamos em nossa casa, à excepção dos sabonetes. Dada a sua complexidade, prefiro dedicar-lhes um post à parte, com explicações e fotografias das diferentes etapas. Quando fizer os sabonetes para oferecer no Natal, a ver se não me esqueço de incumbir um dos rapazes de fazer a “reportagem fotográfica”. Preferi começar pelos produtos de higiene pessoal porque exigem menos precauções e são mais fáceis de fazer do que os produtos para a casa. Creio que os ingredientes utilizados são fáceis de encontrar por esse mundo fora, mas quase todos podem ser facilmente substituídos... verão que a lista de ingredientes é mesmo muito reduzida! A ideia é também poupar e ser ecologicamente consciente. Evidentemente o resultado final vai depender muito dos produtos que usarem, por isso não desistam se não ficar perfeito à primeira… isto vai lá por tentativa e erro, acreditem. Quando faço produtos de higiene, prefiro usar água destilada por ser mais pura. Por outro lado, como não sei bem os prazos de validade dos produtos, opto por não fazer grandes quantidades. No entanto, não creio que haja problema se usarem água da torneira e se dobrarem as receitas. Como recipientes, uso embalagens de produtos antigos ou caixas de plástico para alimentos (sem BPA), que tenho o cuidado de esterilizar a cada utilização. Se tiverem alguma dúvida ou sugestão ou melhoria... ou queixa, podem mandar email, que eu tentarei ajudar. Mas lembrem-se de que estão por vossa conta e risco! Isto não é uma ciência exacta, o que resulta connosco, pode não resultar convosco...


Gel-duche
  • 1 chávena de sabão de Alepo
  • 1 l de água
  •  2 colheres de sopa de glicerina

Misturar os ingredientes todos e aquecer a baixa temperatura até dissolver bem. No final, podem passar a varinha mágica para a mistura ficar mais homogénea. Nessa altura, poderão acrescentar algumas gotas de óleos essenciais. Eu gosto muito do sabão de Alepo de rosas, que é bastante perfumado e não requer óleos essenciais adicionados. Obviamente, também poderão usar os vossos próprios sabonetes ou outro tipo de sabonete biológico. Os normais que se compram no supermercado, esqueçam… fica tipo pasta passado uns dias! Também podem usar este gel-duche como sabonete líquido para lavar as mãos. Tal como disse no post anterior, não faz a mesma espuma que os outros, mas acho que a pele fica mais macia.


Pasta de dentes
  •  4 colheres de sopa de argila branca (bem cheias)
  •  2 colheres de sopa de bicarbonato de sódio (rasas)
  •  4 colheres de sopa de água
  •  10 gotas de óleo essencial de hortelã-pimenta
  •  6 gotas de óleo essencial de tea tree
  •  2 gotas de óleo essencial de cravinho

Misturar a argila e o bicarbonato. Adicionar os óleos essenciais e mexer bem. Ir juntando aos poucos a água para poderem ajustar a consistência, pondo mais ou menos do que o indicado se desejarem. Esta receita dá para uma semana, para nós os quatro… mas estou desconfiada de que os miúdos usam muitoooo mais do que uma noz de pasta de cada vez. Caso não queiram comprar água destilada, podem usar água fervida. Como o bicarbonato de sódio é bastante salgado, com a água da torneira a pasta fica excessivamente salgada… ainda assim, podem pôr mais 2 ou 3 gotas de óleo essencial de hortelã-pimenta, se quiserem disfarçar o sabor. Mas é mesmo uma questão de hábito, acreditem. Tal como estamos demasiado habituados à espuma, também estamos demasiado habituados ao sabor doce. Para quem usa dentífricos de farmácia, não creio que dê pela diferença. Sei que também existem receitas à base de óleo de coco, mas acho que deve ter um sabor nojento!

Admito que a pasta de dentes era o produto caseiro que tinha mais receio de usar, por ainda ter crianças em casa. Contudo, o meu sogro é dentista e, depois de experimentar a pasta, deu o seu aval. Agradou-lhe especialmente o efeito abrasivo e desinfectante. Foi ele que me aconselhou a pôr óleo essencial de cravinho, um produto muito utilizado na medicina dentária, devido às suas propriedades anti-sépticas e anti-infecciosas (tal como o tea tree, aliás). Segundo ele, o fluor apenas é necessário durante a formação dos dentes. Aparentemente as pastas de dentes em gel são altamente desaconselhadas, pois deixam apenas uma “sensação de limpo”. Com tanto incentivo, decidi lançar-me no fabrico da nossa própria pasta de dentes! O Diogo sofre de sensibilidade dentária e não se tem queixado, desde que começou a usar a nossa pasta.




Creme hidratante para o rosto e corpo
  • 2 partes de óleo de amêndoas doces
  • 3 partes de água de rosas
  • 2 partes de óleo de coco
  • ½ parte de cera de abelha

Derreter em banho-maria o óleo de coco e a cera de abelha. Juntar a água de rosas e o óleo de amêndoas doces aquecidos (se estiverem à temperatura ambiente, a cera solidifica de imediato) e mexer bem até ficar homogéneo. Se fizerem uma quantidade maior, podem misturar os ingredientes todos no robot de cozinha até ficar tipo mousse. A cera de abelhas que comprei tem um cheirinho absolutamente delicioso, pelo que não foi preciso juntar óleos essenciais. Cuidado porque a ½ parte pressupõe que a cera esteja em pepitas ou lascas… se estiver derretida, é preciso reduzir a quantidade.

(a cobaia besuntada!)


Batom do cieiro
  • 2 partes de óleo de amêndoas doces
  • 2 partes de óleo de karité
  • 1 parte de cera de abelha

O princípio do batom de cieiro é idêntico ao do creme hidratante. Derrete-se a cera em banho-maria e junta-se os óleos quentes. Se quiserem substituir o óleo de amêndoas doces por azeite, juntem umas gotas de óleo essencial de lavanda para dar cheirinho.


Desodorizante
  • 2 colheres de sopa de bicarbonato de sódio
  • 2 colheres de sopa de Maizena
  • 1 colher de sopa de glicerina
  •  5 gotas de óleo essencial de lemongrass

Esta é a receita-base do desodorizante. Primeiro, mistura-se o bicarbonato e a Maizena peneirada. Depois, junta-se a glicerina e mexe-se muito bem. Por fim, acrescenta-se o óleo essencial. Podem perfeitamente substituir a glicerina por azeite ou óleo de coco/amêndoas doces. Eu adoro o cheirinho fresco de óleo essencial de lemongrass, mas a lavanda também é uma excelente opção. Como gosto dos desodorizantes em roll-on, acrescento aos poucos mais líquido (glicerina ou água de rosas) até ficar uma mistura fluída. Usei uma antiga embalagem que tinha para guardar o meu desodorizante. Como uma faca, tirei com cuidado a parte da esfera e lavei tudo muito bem. Quando uso embalagens de origem, termino sempre de limpar com álcool para desinfectar melhor.

É preciso agitar o desodorizante antes de cada aplicação e deixar secar um bocadinho ao ar. Costumo pôr assim que saio do banho e, quando me vou vestir, já está seco. Se acontecer vestirem uma camisola sem o desodorizante estar seco, deixa mancha (por dentro da roupa), mas sai facilmente com a lavagem. Atenção que este desodorizante permite que a pele respire, ou seja, não elimina a transpiração. A magia ocorre porque não se deita mau cheiro nenhum! 


“Bombas de sais” para o banho
  • 250 g de bicarbonato de sódio
  • 125 g de ácido cítrico
  • 125 g de Maizena
  • 5 ml de óleo de amêndoas doces
  • 15 gotas de óleo essencial de toranja
  • Um frasco de spray com água com corante alimentar

Começamos por misturar todos os ingredientes secos, juntando em seguida os óleos. Depois, com muitooooo cuidado vamos borrifando esta mistura com a água colorida (o rosa e o azul resultam muito bem) e vamos mexendo lentamente. Se pusermos muita água de uma só vez, obviamente o ácido cítrico irá reagir. A mistura tem de ficar húmida, mas não molhada. O ideal é ficar tipo massa areada, com alguns grumos. Por fim, enchemos os moldes, comprimindo bem a mistura. Eu usei os moldes de plástico das almôndegas que tinha feito para o jantar. Mas suponho que também podem usar cubas para fazer gelo. A mistura tem de ficar a secar 24 horas à temperatura ambiente. Se começar a crescer, é sinal que exageraram na água. Basta ir comprimindo bem a mistura até secar… como não tinha paciência para passar a noite nisto, pus os moldes a secar em cima do aquecedor umas 2 horas. Ficou perfeito! É uma experiência gira para fazer com os miúdos e dá uma prenda de Natal engraçada.



Champô seco
  • 1 chávena de maizena
  • 1/3 chávena de cacau magro em pó
  • 10 gotas de óleo essencial de lavanda

Misturar bem os dois pós e peneirar com um passador fino. Juntar o óleo essencial e voltar a mexer. Guardar num saleiro pequeno para ser mais fácil de aplicar. Caso não tenham o cabelo castanho, podem eliminar o cacau e pôr apenas 6 gotas.


[ uma amiga indiscreta (♥) , depois de ler o post anterior onde eu dizia que não comprava produtos de higiene pessoal há dois meses, perguntou-me se já tinha aderido à história do copo menstrual. É muito simples, minha gente, há uma solução tão mais evidente para esse problema: a pílula sem estrogénios, que se toma em contínuo. A bem dizer da verdade, há mais de 3 anos que passo nesse corredor sem parar! ]