sexta-feira, 29 de maio de 2015

Diz que são 39, mas podiam ser 40

(onde se faz um exercício de gratidão)


 

Diz que são 39, mas bem podiam ser 40. Um marco, uma baliza qualquer. Uma data redonda, importante. Porque eu sinto que são muitos anos de vida. Principalmente, sinto que foram anos muito vividos. Bem vividos. Que valeram a pena.

Mas não é só isso. Sinto que percorri um caminho. Que as coisas – todas as coisas, boas e más, que me foram acontecendo ao longo da vida – tiveram um sentido, por mais pequenino que fosse. Que as coisas agora fazem sentido. Que cheguei a algum lado, finalmente. Cresci.

É engraçado como continuamos a crescer, pela vida fora. Embora, a partir de certa altura, seja suposto dizer que se amadurece. Mas eu cá sinto que cresci. Que me transformei. Tornei-me uma pessoa melhor. Mais consciente, com uma visão muito mais madura da vida. Segura. De bem comigo mesma.

Festejei estes 39 anos, que não são uma passagem aparentemente digna de nota, com as pessoas mais importantes: os meus filhos, o meu amor. O essencial. O meu âmago. E, ao longe, a minha família e os amigos… tantos amigos! Gente que encurta distâncias e se mantém presente na minha vida. Que me aquece o coração. O meu rochedo. A minha base. Nem eles imaginam a importância que têm, lá longe. Por isso, estes 39 anos são também feitos de uma imensa gratidão por todo o amor que recebo dos meus três homens, da minha família invulgar, dos amigos sempre fiéis. Nada disto faria sentido sem cada um deles.
 

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Uma espécie de dieta

(mas não contem comigo para aderir à loucura das bagas goji

e das corridas)


 

Depois de o cabeleireiro-vidente me ter dito, com uma sinceridade constrangedora, que eu tinha passado este longo Inverno a vingar-me na comida, pensei em fazer dieta. Mas passou-me depressa, que eu sou uma pessoa muito dada ao conforto alimentar.

Entretanto, fui à consulta com o médico mais giro do mundo fazer os exames de rotina. A boa notícia é que o HPV está controladíssimo. A má notícia é que a nova pílula faz engordar uns quilitos. E o giraço achou por bem sonegar inicialmente esta informação, tendo em conta que é a única no mercado que eu posso tomar. Estava encontrado o culpado para os quilitos extra, que decidi heroicamente combater de imediato.

O primeiro passo foi anunciar a novidade aos homens da casa. Devem ter imaginado que iam passar a enfardar salada todas as noites, porque se ergueu um coro de vozes contra a minha dieta. Que estava óptima e linda e nada gorda e mãe (argumento do Vasco, o que quer que isso seja). O meu amor perguntou, então, como raio é que eu tencionava fazer tal coisa sem balança, nem espelhos. Sinceramente, não tinha pensado nisso. Excepto o espelhinho da casa de banho, não temos mais espelhos nesta casa. Quer dizer, há um todo catita no nosso quarto… mas como foi o meu amor que o fixou, está à altura dele e eu só consigo vislumbrar o toutiço em bicos de pés. A única solução é ir avaliando a perda de peso através da roupa. O meu amor voltou à carga: se eu já tenho tanta dificuldade em encontrar roupa para o meu tamanho neste país, o que faria se ficasse mais magra? Passava a ir à secção infantil, como sempre fiz. Lá lhe expliquei que só quero perder os quilos que engordei nos últimos tempos, porque a minha roupa me está a ficar um bocadinho apertada.

Driblados os últimos argumentos, o meu amor quis provar-me que era possível cozinhar de forma saudável para todos, sem ser preciso fazer “pratos especiais de dieta” para mim. Meteu mãos ao trabalho e preparou uma carne branca (com molho de natas), acompanhada por batatas (fritas) no forno, endívias (caramelizadas) e pimentos (salteados em azeite). Eis o primeiro prato que comi depois de entrar oficialmente de dieta. Percebi que isto ia dar mais trabalho do que eu pensava…

O Diogo ofereceu-se para ir ao supermercado comigo para me ajudar a comprar “coisas próprias para dieta”. Adoçantes é que não, porque viu um documentário na escola e descobriu que aquilo não é nada saudável. Fartámo-nos de olhar para os rótulos das embalagens e chegámos à brilhante conclusão que 100 gramas de qualquer alimento têm cerca de 400 e tal calorias. Mas é que é mesmo QUALQUER ALIMENTO… 100 gramas de peito de peru ou de rôti de porco com mostarda, 100 gramas de bolachas integrais ou de bolachas de manteiga recheadas de chocolate, 100 gramas de diferentes iogurtes ou queijos, 100 gramas de chocolate de leite ou de gelatina. Ficámos seriamente desconfiados que os produtores devem calcular a quantidade de calorias dos seus produtos um bocado ao calhas, algures ali entre as 438 e as 476 calorias por 100 gramas. Já na caixa, o Diogo descobriu entusiasmadíssimo um alimento excelente para quem está a fazer dieta, porque tinha pouco mais de 300 calorias por 100 gramas… gomas!

Resumindo, ao diabo a ditadura das balanças e dos espelhos. Ao diabo a loucura das dietas espartanas e dos alimentos light. Ao diabo a ajuda preciosa dos homens da casa. A minha dieta é uma coisa muito pessoal. Digamos que é uma espécie de dieta. Cortei no açúcar, nas gorduras e nos hidratos de carbono. Bebo mais água, como mais vezes ao dia. Passei religiosamente a dar todas as noites a volta ao lago, pelo caminho mais longo, com uma passada rápida. Tenho feito um esforço para dormir melhor. Ando nisto há quase duas semanas, sem grande esforço. A roupa já deixou de me ficar apertada. No entanto, a acreditar nos meus homens, estou prestes a desaparecer da face da terra, tal foi o emagrecimento fulgurante…

terça-feira, 26 de maio de 2015

Fartar, vilanagem

(Onde se corre as capelinhas todas e ainda fica tanto por ver...)

 
 
 
No fim-de-semana passado foi um fartar, vilanagem. Todos os anos, as diferentes câmaras da Valónia fazem um “Fim-de-semana portas abertas” durante a Primavera. O objectivo é dar a conhecer a região aos turistas, mas igualmente aos próprios habitantes do concelho. Em Vielsalm, havia cerca de sessenta actividades gratuitas possíveis e nós quisemos aproveitar ao máximo. Não parámos durante dois dias, de manhã à noite, a fazer literalmente de turistas em casa.

Começámos por visitar o castelo de Farnières, logo no Sábado de manhã, cujos jardins têm um arboretum de rara beleza.

 
 



Após andarmos uns largos quilómetros no meio dos bosques, chegámos ao novo percurso de cordas nas árvores. Felizmente, nenhum dos miúdos quis experimentar, porque aquilo era mesmo muitoooo lá em cima.
 

A seguir, fomos conhecer um senhor que constrói hotéis para insectos. O Vasco e eu já tínhamos reparado nestas pequenas estruturas de madeira que estão espalhadas um pouco por toda a parte no concelho e estávamos curiosos. Cada brincadeira daquelas custa uma pequena fortuna, pelo que decidimos tentar construir nós mesmos um hotel para abrigar as abelhas que temos no quintal.
 




 Acabámos o dia no Centro Europeu do Cavalo, o ponto alto deste fim-de-semana. Acho que nenhum de nós estava preparado para o que nos esperava. Pensávamos que íamos ver demonstrações de cavalos ou coisa que o valha. O que já não seria nada mau, tendo em conta paixão que a tribo nutre por estes animais. Mas este não é exactamente um centro equestre onde se dão simples aulas de equitação. Trata-se do maior centro europeu de estudo e reprodução de diferentes raças de cavalos, bem como de desenvolvimento das diversas profissões do mundo equestre.

A visita começou com uma apresentação das diferentes valências do centro. Seguiu-se uma demonstração de um cavalo de trabalho das Ardenas que, obedecendo apenas aos comandos da voz, transportava troncos enormes. Depois, assistimos à apresentação do trabalho de um ferreiro, igualmente interessante. Tivemos ainda oportunidade de assistir ao treino de um cavalo no tapete para estudar diferentes parâmetros. A tecnologia de ponta para melhorar a performance e a qualidade de vida destes animais nos dias de hoje é absolutamente fascinante.

No final, fomos visitar o centro de reprodução. Quando nos disseram a rir que o cavalo de trabalho que tinha feito todas as demonstrações da tarde ia finalmente ter a sua “recompensa”, eu vi logo a minha vida a andar para trás. Para ajudar à festa, no grupo de visitantes estava uma velhota dos seus setenta anos que não tinha vergonha nenhuma de fazer as perguntas mais mirabolantes possíveis. Eu não sabia bem como explicar ao Vasco o que se ia seguir. O Diogo ria-se à parva, o meu amor arregalava os olhos cada vez que a velhota abria a boca e eu… eu tentava explicar rapidamente os factos da vida à coisa pequena, no intuito de o preparar rapidamente para a versão hardcore da reprodução equina. Como o próprio veterinário explicou, aquilo entrava claramente no âmbito da pornografia para cavalos. Resumindo, assistimos à preparação do frasco para estimulação e recolha do esperma do animal (sendo que a velhota aproveitou para fazer várias perguntas sobre preservativos equestres), à preparação do “manequim” (que a velhota não achou lá muito estimulante, mas que pareceu agradar de imediato ao “cliente” em questão), contemplámos a cena pornográfica propriamente dita (que deixou a velhota espantadíssima pela evidente satisfação equina) e, por fim, à recolha do esperma que acabou por ser deitado fora, porque não ia ser utilizado (provocando a pertinente pergunta se “aquilo” era biodegradável). A coisa pequena não estava a perceber lá muito bem o que se passava, mas é de reconhecer que as minhas explicações improvisadas e atabalhoadas não foram as melhores. Quando, no dia a seguir, nos falou do “corante branco” que tinha ficado dentro do frasco, percebi que se impunha uma conversa séria sobre sexualidade. A verdade é que o Vasco nunca pareceu muito interessado neste assunto, portanto fui adiando uma primeira conversa. Infelizmente, as crianças da cidade não compreendem os factos da vida ao contemplarem os animaizinhos em plena acção…
 











No dia seguinte, levantámo-nos bem cedo para ver se conseguíamos visitar o máximo de sítios possível. Como o Diogo tem andado com dores num pé nos últimos tempos, decidimos deixá-lo descansar. No Domingo, começámos por visitar uma torre bastante bem conservada, que há meses nos chamava a atenção. Afinal, trata-se de uma geladaria do século XIX.
 




Seguiu-se uma visita a uma quinta que vende produtos biológicos, onde eu nunca tinha ousado entrar porque pensava que tudo seria excessivamente caro… não podia estar mais enganada. Por pouco, não saíamos de lá com uma cabrinha debaixo do braço (viva e de boa saúde, bem entendido). No recinto da quinta, havia uma exposição de vários pequenos produtores e artesãos que vendem os seus artigos na lojinha da quinta. Foi muito interessante falar com dois jovens que “cultivam” trutas, um belga meio hippie que criou uma cadeia sustentável de cultivo e importação de café e uma artesã espanhola que só trabalha com lã biológica. À saída, recebi uma catapulta de mensagens do meu filho crescido: “Onde estão todos?”/ “Acordei e não vi ninguém”/ “O que posso comer?”. Decidimos, então, fazer uma paragem em casa para almoçar a truta fumada, o pão biológico e os queijos de cabra que tínhamos acabado de comprar.




À tarde, visitámos o Musée de la coticule, uma espécie de pedra de amolar típica desta região formada por xisto com mais de 480 milhões de anos, reputada pela sua eficácia e longevidade. A indústria da extracção da coticule teve início no século XVI e museu, constituído em parte por um verdadeiro atelier, parece datar dessa época. Mas acabou por ser engraçado visitar um museu que é um museu em si mesmo, como uma espécie de palimpsesto. Estávamos nós a pensar em como é muito mais atraente para os miúdos desta geração visitar museus modernos e interactivos, quando as máquinas todas do atelier começaram de repente a trabalhar sozinhas, como que por magia. E aí, sim, a visita ficou imbatível e o Vasco riu à gargalhada.
 


 
 


No final do dia, já exaustos, fomos conhecer uma loja nova que abriu aqui perto dedicada exclusivamente à indústria do mel. O proprietário andava por lá a mostrar as colmeias e ficou embevecido com os conhecimentos enciclopédicos sobre abelhas que nós não fazíamos ideia que o filho pequeno tinha. Resultado: tivemos direito a pegar nas abelhas, a provar mel morninho acabado de tirar da colmeia, mexer na cera e experimentar todo o tipo de produtos feitos com mel que a mulher do proprietário se lembrou de inventar especialmente para aquele dia… merengues de mel, chupa-chupas de mel e gelado de mel.











 Ficou tanta coisa por ver! Ficámos com a sensação de que passámos o fim-de-semana a correr e fizemos uma ínfima parte das actividades disponíveis. O que vale é que para o ano há mais… :D

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Princesa?!

(onde se fala das alegrias da maternidade)


 

Acordo com uma mensagem do Diogo, às 7h20 da manhã. Não fosse a hora matutina, não seria de estranhar. A casa é enorme, temos a mania de mandar sms uns aos outros, quando nos dá a preguiça. Estremunhada, leio: “Cucu minha princesa. Tudo bem?”. Como se não bastasse, esta pérola vinha cheia de corações e smileys a mandar beijos. E um erro ortográfico cabeludo. Espeto com o telemóvel à frente dos olhos entreabertos do meu amor, que desata à gargalhada. “Não é para ti”, responde. Como se eu não soubesse! Viro-me para o lado e volto a adormecer.

Dez minutos depois, ao ver que a princesa em questão não respondia, filho grande dá pelo erro. Decide, então, mandar uma adenda à mensagem original: “Não era para ti.” Respondo-lhe que já calculava e que me deixasse mas é dormir. Parvo! Recebo um smiley desconhecido.

Estou, aqui, em pulgas para voltar para casa. Vou gozar tanto com ele esta noite…

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Como se apazigua o pranto de um passarinho?

(ficam as últimas imagens encantadoras)

  


Tinha aqui guardadas no computador estas fotografias absolutamente deliciosas que tirei no fim-de-semana passado. Estava à espera de ter um bocadinho de tempo livre para escrever um postmais um post – sobre este animal fantástico que era o Loulou branco, rebaptizado Gizmo. Supostamente a estrela do momento seria a recém-chegada porquinha Constança, mas o nosso passarinho roubou-lhe o protagonismo. Com uma paciência rara nele, o Vasco também conseguiu acabar por cativá-lo. Nos últimos tempos, passavam muito tempo juntos nestas brincadeiras.
 







Quis o destino que estas fossem as últimas fotografias do Loulou branco, que morreu esta noite. Há uns tempos, magoou-se na cauda, não sabemos bem como. Durante semanas, evitámos pegar-lhe de maneira a sarar tranquilamente. Já parecia melhor, embora andasse muito sonolento. O meu amor, que antes de se dedicar à oceanografia estudou para ser veterinário, acha que ele morreu com uma diarreia súbita causada por um vírus. Ainda ontem, andou a passear no meu ombro feliz da vida…

Todos nós estamos tristes, claro. O Vasco está destroçado. Mas o que me parte mesmo o coração é a aflição do Loulou amarelo. Nunca tinha visto nada assim. Embora inicialmente só quiséssemos um periquito, acabámos por trazer estes dois porque nos comoveu a ligação que tinham. Pareciam apaixonados, sempre colados, sempre aos beijinhos. Agora só resta um, que ainda não aceitou que o companheiro partiu e não pára de o chamar. Está há horas a piar, numa espécie de som binário. Um som de apelo desolador. E eu não sei o que fazer. Como se apazigua o pranto de um passarinho?

terça-feira, 19 de maio de 2015

Paixão à primeira vista

(onde se faz uma espécie de mea culpa materno)


O problema de se ter um pequeno jardim zoológico em casa é que passamos a vida em lojas de animais. É preciso comprar comida, feno, serradura, areia, pellets, etc. Ou seja, a nossa paixão pela bicharada está constantemente a ser posta à prova. Quando vou às compras com o meu filho Vasco, a pedinchice começa logo à entrada da loja e só termina mesmo no final, quando saímos. Porque é só mais um, porque só custa 8 euros, porque até já temos uma gaiola e tudo... Prefiro de longe ir com ele a uma loja de brinquedos ou a um supermercado. Com o Diogo a coisa não é muito melhor, só não faz olhinhos de Bambi.

Desta vez, julgava-me a salvo porque levámos o meu amor a reboque. Normalmente, ele refreia melhor os ímpetos dos miúdos do que eu. Não porque não goste de animais ou defenda que já excedemos largamente a cota. O diabo do homem é muito mais perigoso do que os meus dois filhos juntos. O objectivo dele são os animais um bocadinho maiores… galinhas, patos, cabras, burros. Se não fosse o D. Fuas, o nosso quintal estaria repleto de bichos de grande porte. Vá… de médio porte. Volta e meia, lá me apresenta mais um plano engenhoso para driblar o zelo de caça canino. Até agora, ainda não me conseguiu convencer…

Na semana passada, lá fomos nós reabastecermo-nos ao Tom&Co. Com paragem obrigatória no corredor dos roedores, claro. Onde eu me apaixonei perdidamente por uma porquinha-da-índia bebé. É preciso que se diga que nenhum dos presentes me tentou demover. Bem pelo contrário. Quer dizer, o meu amor ainda tentou dissuadir-me, mas só porque tinham decidido oferecer-me um porquinho como prenda de anos e lhes estraguei a surpresa. Portanto, para todos os efeitos, festejei o meu aniversário antecipadamente. Apenas isso. A culpa não é, decididamente, minha.

Depois de chegarmos a casa, quando os remorsos da minha loucura me começaram ligeiramente a atacar, verifiquei que o bichinho tinha mordidelas no corpo e nas orelhas. Ou seja, salvei mais um animal maltratado, foi o que foi. A desgraçada passou três dias a um canto, sem comer. Agora, que já está perfeitamente adaptada, é adorável. Estamos todos apaixonados por esta fofura.

Tendo em conta que, para todos os efeitos, se trata da minha prenda de anos, não houve discussão possível quanto ao nome. Até porque já estou um bocado farta de nomes de inspiração StarWarsdesca. Tive uma porquinha chamada Carlota que me acompanhou durante toda a minha adolescência. Inclusivamente, passou um ano comigo na Bélgica, quando fiz o intercâmbio de estudantes. Em homenagem a esse bichinho fantástico, ficou Constança.

A Constança foi de imediato para o andar de cima, a salvo do D. Fuas. O Diogo pediu para a levar para o quarto dele, mostrando que a suposta indiferença adolescente pela paixão familiar já lhe passou definitivamente. O Vasco argumentou que a bicharada está quase toda junta nos seus domínios, de longe a maior divisão da casa. E a verdade é que não há barulho selvagem que consiga acordar a coisa pequena durante a noite. Portanto, por ali ficou, depois de devidamente apresentada à vizinhança animal.

Neste momento, o reino animal domina claramente nesta casa. Somos quatro humanos para nove bichos. Parece um bocado tresloucado, mas a malta entende-se.





segunda-feira, 18 de maio de 2015

A vingança é um prato que se serve quente

(tão quente quanto possível, tendo em conta que estamos na Bélgica)


 

Acho que já aqui disse muitas vezes o quanto adoro a escola do meu filho Vasco. Gosto do rigor que põe nos estudos e no comportamento. Dos valores que transmite. Da mistura de idades. Gosto do facto de haver duas professoras nas turmas com mais de 20 meninos. Juntamente com os professores de Educação Física, Natação e Inglês. Gosto dos recreios grandes, com muitos brinquedos espalhados, onde os miúdos são deixados em liberdade. Onde há cestos de fruta e vegetais da época, já lavados e descascados, à discrição. Gosto de ver a directora diariamente à porta para nos receber, que nos cumprimenta a todos pelo nome (e elogia o meu amor quando ele faz a barba).

Mas há uma coisa que eu não suporto. Nem sequer posso dizer que seja um problema específico desta escola, porque faz parte daqueles belgicismos que me dão cabo dos nervos. Acho que as pessoas já estão tão habituadas ao clima implacável, que se tornaram cegas às regras básicas de bom senso. Este Inverno, fartei-me de ralhar com o Vasco à saída da escola. Dei com ele muitas vezes à chuva, a jogar à bola. E não era uma chuva molha-tolos… era mesmo uma chuvada forte. Também o apanhei imensas vezes a brincar na neve, gelado até aos ossos. Com a roupa completamente ensopada. Evidentemente, isto passou-se à vista de toda a gente: directora, professoras, auxiliares, educadoras dos ATL. Mas, por mais que eu pedisse na escola para não o deixarem brincar na rua no meio da intempérie, ninguém me ligava nenhuma. Para esta gente é normalíssimo… o meu pedido é que era estranho. Descobri, então, que os miúdos se despiam na sala e punham a roupa molhada a secar nos aquecedores enquanto tinham aula. Pelo menos, ficou explicado o mistério das meias desaparecidas na escola.

Algures em Fevereiro, zanguei-me mesmo a sério. Foi um dos poucos dias em que o Vasco teve de ficar uma hora no ATL, até às 17h. Quando o fui buscar estava todo vermelho, queimado da neve. Molhado literalmente dos pés à cabeça, desde o intervalo da hora do almoço. O casaco estava ensopado, as luvas e o gorro perdidos em parte incerta, para não variar. As botas escorriam água. A roupa estava colada ao corpo… até os boxers estavam encharcados. Nessa tarde, já não foi ao solfejo. Tivemos de despi-lo a custo e metê-lo rapidamente na banheira com água bem quente. As extremidades já estavam completamente roxas. Ficámos imenso tempo, um de cada lado, a massajar-lhe os pés e as mãos inchadas até a circulação voltar à normalidade. Admito que, se não fosse a calma do meu amor, eu teria pegado no miúdo e teria ido às urgências. Nunca tinha visto nada assim. Jurava que ele ia apanhar uma pneumonia. Milagrosamente, as únicas sequelas deste incidente foram duas palmadas bem assentes no rabo gelado. Vaso ruim não quebra, é o que é. No dia seguinte, à saída da escola, fui falar com toda a gente. Toda, mesmo. E avisei que da próxima vez que eu encontrasse o Vasco naquele estado, sem que me tivessem telefonado a avisar, iria haver consequências. A professora pediu-me, então, que mandasse uma muda de roupa todos os dias. Duas… talvez fosse melhor mandar duas mudas de roupa. Mais umas botas da neve para os recreios e uns chinelos para estar na sala. A partir daí, continuou a brincar à chuva e na neve à vontade, mas, pelo menos, nunca mais me chegou a casa ensopado, porque entretanto mudava de roupa. Claro que isto fez com que perdesse muito mais roupa do que o habitual, mas pronto…

Não insisti mais com a escola, percebi que há guerras que não vale a pena comprar. Tive de aprender a vencer pequenas batalhas essenciais à minha sanidade mental, como mandar as tais mudas de roupa extra. No final do Inverno, ainda tive de ouvir a professora dizer que o Vasco foi dos poucos miúdos que nunca faltou um único dia por estar doente. Que nem sequer uma simples constipação ou tosse apanhou. Engoli em seco, concordei com um sorriso forçado e pensei cá para comigo… “Não perdes pela demora!” E, agora, finalmente está na altura de me vingar daqueles meses de inferno gelado. Dizem que a vingança é um prato que se serve frio mas, neste caso, é um prato que se serve quente. Muito quente. As temperaturas por aqui já atingiram os 25º, é a canícula para esta gente. Mal o termómetro sobe um bocadinho, fica tudo histérico. Imperam as instruções rigorosas para sobreviver ao calor: t-shirts claras, cabeças protegidas por chapéus ou bonés, protector solar, uma garrafa de água para evitar a desidratação. Já sei que, mais cedo ou mais tarde, alguém há-de reclamar porque o Vasco não leva uma garrafinha de água, nem usa boné… Mas eu estou-me borrifando para a histeria colectiva. E juro que, nesse momento, vou mandá-los a todos pastar. Tantos cuidados com o sol quando estão apenas 25º?! Ah, ah, ah, ah! O meu filho há-de levar boné para a escola (para o perder, bem entendido), no dia em que fizerem 35º nesta terra! Ou seja… hum… nunca!

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Petits noms

(onde uma simples fotografia nos leva a recantos perdidos da memória)

 


Passei a minha primeira gravidez indecisa quanto ao nome do bebé. Para simplificar, decidi chamar-lhe Pinguim. Quando a obstetra ia começar a cesariana de urgência, anunciaram na rádio que Gustavo Kuerten, mais conhecido por Guga, ia iniciar naquele momento a sua primeira final de Roland Garros. Lembro-me de ter pensado: “Ora aqui está mais um que também deve estar em sofrimento!” Não tenho outras memórias daqueles longos minutos. Recordo que o meu filho nasceu ao som de 125 Azul dos Trovante, grupo que marcou a minha adolescência que findava naquele instante. E que não chorou, começando de imediato a respirar com aqueles seus olhos imensos postos no mundo. Eu chorei. A minha obstetra também. Quando a cesariana estava mesmo a terminar, anunciaram na rádio que o Guga tinha acabado de ganhar o torneio. Eu ri-me e disse: “Que coincidência tão engraçada… Vou chamar-lhe Guga!” A minha obstetra, que tinha passado nove meses assustada com os nomes que eu ia inventando, respondeu aflita: “Mas o menino não se ia chamar Diogo?!” Ficou Diogo, claro. Mas para mim, até hoje, é o Guga.

Na gravidez seguinte, a indecisão quanto ao novo nome manteve-se. Portanto, voltei ao Pinguim. Infelizmente, a segunda cesariana de urgência conseguiu ser ainda mais urgente do que a primeira. Só me lembro do rio de sangue que caía, dos gritos do obstetra e de uma mancha arroxeada silenciosa que passou rapidamente por mim. Não houve música, não houve lágrimas de emoção, não houve coincidências. Pensei sinceramente que fosse morrer ali. Uma hora depois, encontrámo-nos. Ambos ainda despidos, combalidos, numa maca. O Vasco, com toda a naturalidade, começou a mamar mal o encostaram a mim. Entretive-me a namorar aquele ser estranho, minúsculo, coberto por um espesso manto de pêlos que lhe descia pelas costas abaixo. Quando a minha obstetra finalmente chegou, foi ver-nos. “Estão os dois bem, que susto! Deixa cá ver o Pinguim...”. Ri-me e disse-lhe que afinal era um lobo, já vinha protegido para o Inverno. Ficou Lobito. Entretanto, começou a falar. E até muito tarde, quando lhe perguntavam como se chamava, respondia sempre muito compenetrado: “Bebé Bá”. Bá de Basco, pois claro. E, assim, passou também a ser o Bá. Até que o meu amor entrou nas nossas vidas e o Vasco ganhou mais um petit nom... coisa pequena.
 
 
O tempo está a passar demasiado depressa...
O Guga agora é um adolescente sério e o Bá deixou de ser o meu bebé.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

A Primavera chegou, fui às compras

(... à minha maneira, claro!)

 
 
Este ano, pela primeira vez, estamos a assistir algo incrédulos ao início de uma verdadeira Primavera. Uma Primavera quentinha, entenda-se. No início, pensei que fosse (literalmente) sol de pouca dura e tentei não me deixar levar pelo entusiasmo. Mas os dias vão passando, as semanas vão passando… e o calor parece que veio mesmo para ficar. É engraçado assistir à chegada do bom tempo nesta terra. De facto, há coisas que só quem vive no Norte consegue dar valor. Os belgas vivem a Primavera de uma maneira que eu nunca tinha visto antes. Com uma alegria quase infantil. É altura de tratar dos jardins, de semear, de encher as casas de plantas. Há uma explosão de cores por toda a parte, é mesmo bonito de se ver porque parece que a Primavera nos entra pelos olhos adentro. Aqui em casa, graças ao entusiasmo do belga de serviço, deixámo-nos contagiar. Temo-nos dedicado de corpo e alma ao jardim, que está a ficar um espanto.
 
Claro que, depois, há outras questões mais prementes que atormentam a mãe da casa. Como, por exemplo, a necessidade de comprar roupa mais primaveril. Desde que vivemos na Bélgica que deixámos de ter “roupa de meia-estação”, porque isso foi coisa nunca antes vista por estes lados. Mas, este ano, tive mesmo de repensar a indumentária da malta toda. Em relação ao meu amor foi bastante simples. Os belgas não entendem esta nossa necessidade de termos muita roupa no armário, fazem a festa com três mudas de roupa de boa qualidade. O Diogo também já adoptou esta máxima, possivelmente por influência dos colegas. Enquanto o Vasco estava no solfejo, demos um pulinho ao Luxemburgo e aproveitámos a promoção ‘pague 2, leve 3’ da H&M. Felizmente, a minha vizinha deu-me imensa roupa de meia-estação do filho para o Vasco. Comprei mais umas coisas em segunda mão… e umas camisolas giras da H&M, que a coisa pequena já gosta de imitar o irmão. Entre o que vai perdendo e o que rasga todas as semanas, o Vasco precisa mesmo de muitaaa roupa. Para além de um par de sapatos por mês… é uma autêntica desgraça.
 
Evidentemente, quando chegou a minha vez, já pouco restava do orçamento inicial. Mas, para meu desespero, não podia mesmo deixar de ir às compras com uma certa urgência. A associação onde trabalho foi absorvida por outra bem maior. A minha biblioteca deixou de estar encafuada na torre de marfim e passou a ter lugar de destaque à entrada. De repente, vi-me à frente de um centro de documentação e comunicação com uma dimensão assustadora… e com dezenas de novas pessoas a entrarem-me diariamente escritório adentro. Deixámos de ser uma estrutura familiar, onde cada um vestia o que muito bem lhe apetecia. Depressa se começou a notar um esforço colectivo para melhorar o visual. Com Primavera ou sem ela, o meu guarda-roupa teria mesmo de sofrer um upgrade considerável.
 
Embora o custo de vida na Bélgica seja adaptado aos salários, logo, bastante mais elevado, é sempre possível poupar recorrendo ao mercado em segunda mão. Basta um bocadinho de esforço e saber procurar. Como diz o meu amor – que fica sempre pasmo com estes meus achados – é preciso ter olho. E não ter peneiras, claro. Embora já me tenha deixado de coisas há muito tempo, quando compro roupa em segunda mão, gosto que seja de marca. Tenho a garantia de que tem outra qualidade nas mãos da nova dona. Além disso, sabe-se lá porquê, há marcas que se adaptam melhor ao nosso corpo. A roupa da Esprit parece sempre que foi feita para mim, porque é bastante pequena. Fico sempre radiante quando encontro calças que me custariam 60€ por 2,5€… No total, por incrível que pareça, gastei a módica quantia de 37€. Sendo que sei que esse dinheiro é directamente canalizado pela Cruz Vermelha para ajudar as pessoas desfavorecidas do meu concelho. Cada vez mais odeio ir às compras, andar em lojas, perder tempo em centros comerciais... ali, despacho tudo em menos de meia-hora, gasto pouco e ajudo localmente.
 

 
(para os dias em que as chefias andam por lá...) 

(camisas para disfarçar o uso de calças de ganga)

(para os dias mais quentes... ih, ih, ih!)

(claramente já a sonhar com as férias de Verão...)

(vá... mais adaptado à realidade fresquinha da Bélgica)

terça-feira, 12 de maio de 2015

Entretanto, celebrou-se o dia da mãe por aqui

(e eu recebi um presente sui generis)


 

Domingo passado foi dia da mãe, na Terra do Frio. Perguntaram-me o que queria. Pedi-lhes encarecidamente para me deixarem dormir em paz e não me trazerem o pequeno-almoço à cama. Por mais uma hora de sono, dispenso bem as torradas queimadas e o café frio. E, já agora, se pudessem ir comprar a minha prenda muitoooo longe, seria óptimo. Podiam demorar o tempo que quisessem. De preferência, bastante tempo. Sinceramente, não percebo por que raio de motivo tenho de os aturar ainda mais barulhentos do que o habitual num dia que devia ser consagrado ao meu sossego. De modo que decidi ser honesta e pedir o que realmente queria receber. Acho que ficaram um bocadinho ofendidos com a minha sinceridade. Obviamente, não recebi nada do que queria. Estes dias deviam vir com manual de instruções para filhos e companheiros.

A coisa pequena acordou-me de madrugada para me dar os presentes feitos na escola. Um postal com um daqueles poemas de merda de grande qualidade literária, a puxar à lágrima. Felizmente, a letra do meu filho é tão má que tive uma desculpa para não ler tudo até ao fim. Com o jeito artístico que se lhe conhece, desenhou-me a mim. Fiquei linda, praticamente irreconhecível. Depois, estendeu-me um embrulho. Encolheu os ombros e avisou logo que não tinha tido voto na matéria. Que era a prenda que as professoras tinham decidido fazer este ano. Mas que ele sabia que seria perfeitamente inútil. Por esta altura, já eu estava bem desperta. Com um falso sorriso beático. Preparada para receber mais uma carteira feita de embalagens de leite, uma pega de feltro, uma base para os tachos feita de molas, uma embalagem de ovos pintada de rosa para guardar as jóias de família. Falhei por pouco… era um estojo de maquilhagem, que dizia: “Bela um dia, bela para sempre”. Na parte da frente, tinha um daqueles desenhos à Vasco, cheio de gatafunhos futurísticos a preto. Perguntei o que era. “A casa de repouso que vou construir para ti”, respondeu vitorioso. “É a tua prenda.” O meu amor desatou à gargalhada, enquanto eu fiquei a processar. Suponho que vou passar os meus últimos anos de vida algures no espaço sideral com o meu filho extremoso.

Seguiu-se um animado pequeno-almoço. O meu amor conseguiu instituir o hábito  de tomarmos o pequeno-almoço todos juntos, no fim-de-semana. E ai de quem descer em pijama... Inicialmente, fez-nos imensa confusão, mas a verdade é que acaba por contrariar a tendência para eternizar as manhãs. Os dias começam mais cedo, conseguimos aproveitar melhor os fins-de-semana. Além disso, é delicioso começar o dia com um pequeno-almoço de hotel.

No Domingo, tínhamos também o melhor amigo do Diogo. A mãe do Baptiste e eu costumámos gozar, dizendo que temos uma espécie de guarda conjunta não oficializada pelo tribunal. Eles passam fins-de-semana alternados em casa um do outro. O Baptiste já cá tem uma escova de dentes, há muito que deixou de ser convidado. Mas, apesar de tudo, pareceu-me estranho que passasse o dia da mãe connosco. Quando o questionei, respondeu-me que a mãe tinha dito que o melhor presente que ele lhe podia oferecer era desaparecer por um dia. Fiquei, então, a saber que não sou a única a pensar que este dia devia ser dedicado ao descanso sagrado das mães. Um dia idealmente sem filhos, portanto.

À tarde, deixámos os dois adolescentes trancados no home cinema a jogar e fomos com a coisa pequena a uma venda de garagem, numa aldeola perdida aqui perto. Tenho pena de não ter levado a máquina fotográfica (e de não me ter lembrado que os telemóveis hoje em dia já têm essa função…). A aldeia era muito engraçada, com vacas, cães e miúdos à solta por todo o lado. Parecia ter parado no tempo. As pessoas eram de uma simpatia como já não se vê, fartavam-se de meter conversa. Uma menina ofereceu-me flores pelo dia da mãe. O Vasco esteve horas a brincar num parque infantil construído a partir de objectos reciclados: condutas de gás gigantescas a servir de túneis, balancés com guiadores de bicicletas, baloiços feitos com troncos, escorregas escanifobéticos… Admito que nós também andámos por lá a divertir-nos. Felizmente, não eramos os únicos adultos. No final, assistimos a um desfile giríssimo de tractores antigos. A roçar o pré-histórico, mesmo. É de referir que os condutores eram quase tão antigos como os próprios tractores, o que constituía uma atracção de per se. Para terminar em grande, encontrámos finalmente uma máquina de costura com os pés em ferro forjado, que andávamos há séculos à procura para construir uma mesa de jardim. Ainda por cima, foi uma pechincha. Custou alancar com aquele trambolho pelas ruas cortadas ao trânsito da aldeia, mas houve imensa gente que nos encorajou, dizendo que tínhamos feito uma óptima compra.

No final do dia, o meu amor foi com o Diogo comprar a minha prenda. Pragmatismo adolescente oblige. Filho grande arruinou-se na semana passada a comprar o presente de aniversário para uma amiga. A prenda foi escolhida com todo o esmero e paga a peso de ouro, mas é “só” uma amiga, evidentemente. O Diogo gastou tudo o que tinha e ainda pediu fiado à casa, a saber, a mim. Depois, ficou em pânico quando percebeu que o dia da mãe era no Domingo e foi-se chegando de mansinho ao meu amor. O outro, como é interesseiro, aproveitou a onda da boa vontade para lhe impingir umas horas de suplício explicações de matemática. Parece que me queriam oferecer um porquinho. Um porco verdadeiro, entenda-se. Infelizmente, como foi muito em cima da hora já não deu. Esperemos que pelos meus anos se lembrem mais cedo…

O dia terminou com um animado churrasco. Bem mais tarde do que o previsto, tendo em conta que no dia seguinte havia escola. O meu amor teve a ideia peregrina de aproveitar o bom tempo para inaugurar o churrasco. Depois de obrigar um infeliz Diogo suar as estopinhas durante horas para saldar a dívida das explicações de matemática. A falta de experiência e de jeito desta família citadina é capaz de ter contribuído para a festa tardia. O raio das brasas não havia meio de pegarem… nem com acendalhas, nem com galhos, nem com cartão, nem com nada. Ardia tudo, menos o que era suposto. Menos mal, despachei o que tinha para pôr a reciclar no papelão. Ficou um cheiro meio estranho, mas pronto… Finalmente, quando eu já estava decidida a espetar com aquela carne toda na frigideira, o braseiro pegou. Começámos a jantar lá para as nove e meia da noite, para grande espanto da vizinhança que come impreterivelmente às seis da tarde. Terminei o meu dia cansada, malcheirosa e de barriga cheia... como se quer, portanto. Acho que foi um bom dia da mãe.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

O regresso do cabeleireiro-vidente

(cuja sinceridade infelizmente permanece inalterada)



 
Lembram-se do cabeleireiro-vidente que, juntamente com o corte de cabelo, me ofereceu conselhos avisados sobre os mais variadíssimos temas? Depois de sair de lá com pele de galinha, prometi a mim mesma arranjar outro cabeleireiro o mais depressa possível. Só que o tempo vai passando, passando… na verdade, esta questão não é exactamente prioritária na minha vida. Pronto, admito que desde Setembro do ano passado que não corto o cabelo. Mas esta manhã olhei-me ao espelho e decidi que não dava mesmo para adiar mais.

Mal deixei o Vasco na escola, fui tentar marcar uma hora no cabeleireiro in da terra. Só tinham vaga daqui a duas semanas. Meti-me no carro e parei numa espécie de centro de estética-solário-cabeleireiro-coiso todo fashion perto de casa. Só tinham vaga na próxima semana. Como tinha de ir encher o depósito ao Luxemburgo, decidi tentar o cabeleireiro do centro comercial que está sempre vazio. Tinham vaga, sim, senhora. Mas o corte custava a módica quantia de 65 euros… sem brushing. Desisti. Fui pôr gasolina, aproveitei para comprar uma broa de milho e voltei ao ponto de partida. A meio da manhã, entrei a medo no salão do cabeleireiro-vidente.

 

Eu: Bom-dia. Seria possível cortar o cabelo hoje?
Anjo da Guarda: Tenho uma hora livre agora, se quiser aproveitar…
Eu: Quero, quero! Muito obrigada!
Vidente: Já correu os outros cabeleireiros todos da zona e não arranjou vaga, foi?
Eu: Não, que ideia…
Cabeleireiro: Como é que quer cortar?
Eu: Queria cortar só as pontas.
Cabeleiro: Sente-se aqui… Hum… O seu cabelo parece outro!
Eu: Como?!
Fiel depositário de memórias: Achava que eu não me ia lembrar? Nunca me esqueço de uns cabelos! Deve pensar que há por aqui muitas portuguesas com um sério problema de queda de cabelo...
Eu: Estou a ver que tem boa memória…
Fiel depositário de memórias: O seu cabelo estava uma desgraça, quando cá veio na primeira vez. Agora, está óptimo! Claro que já o podia ter cortado…
Eu: Tem razão, mas custa-me cortá-lo…
Consultor de imagem: Já lhe devo ter dito que o cabelo comprido não lhe fica bem. É muito pequena e tem uma cara redonda.
Eu: Disse, disse…
Dermatologista: E que tratamento é que fez?
Eu: Tudo o que havia no mercado… ampolas, comprimidos, champôs.
Psicólogo: Sim, isso ajuda. Mas se uma pessoa não estiver bem psicologicamente, não há medicamento que valha.
Eu: Acho que tem razão.
Psicólogo: Tudo passa, nesta vida.
Eu: Também me disse isso, sim…
Psicólogo: É o que eu digo sempre.
Eu: Ah…
Psicólogo: Mas acho que se vingou na comida, sabe? Toda a gente precisa de um escape para ultrapassar situações de stress, que normalmente estão associadas à queda de cabelo traumática.
Eu: Está a chamar-me gorda?!
Nutricionista: Gorda, não. Mas está a precisar de fazer dieta.
Eu: Desculpe lá… o senhor diz isso a todas as suas clientes?!
Nutricionista: Não! Há clientes que nem vale a pena! Mas há outras que, se não for eu, ninguém lhes diz que estão a precisar de emagrecer.
Eu: Porquê?
Nutricionista: Por acaso, o seu marido já lhe disse que precisava de fazer dieta?
Eu: Não, não me disse.
Sexólogo: Está a ver? Os homens nunca dizem nada por causa do sexo.
Eu: Como?!
Sexólogo: Se um homem disser a uma mulher que ela está gorda, arrisca-se a ficar sem sexo, porque a mulher vai ficar complexada. Entre ter uma mulher mais gordinha e sexo ou o contrário… está a perceber?
Eu: Estou a perceber, estou…
Nutricionista: Tenho a certeza de que engordou um bocadinho nos últimos tempos, para ultrapassar um momento difícil. É natural, não se ofenda. Mais vale ser honesto consigo. Agora, com desporto e uma dieta, volta num instante ao normal. Até porque não está gorda…
Eu: Ah, pronto… obrigada!
Consultor de imagem: E o cabelo está lindo, super saudável. Vamos só cortar um bocado. Mas temos de tratar do resto, sim? Vamos pô-la toda bonita!
Eu: Qual resto?!
Cabeleireiro: O que acha de pintar e fazer umas madeixas?
Eu: Isso deve demorar horas! E deve custar uma fortuna!
Contabilista: Você não liga muito a essas coisas de mulheres, pois não? Não me parece que gaste muito dinheiro consigo…
Eu: Olhe lá… você é um bocado como o Mentalista, não é?
Vidente: Não, que disparate! Mas vejo que não tem o cabelo bem cuidado, as unhas arranjadas…
Eu: Tem razão, pronto! Não ligo nada a isso. Custa-me gastar dinheiro com futilidades.
Vendedor da banha da cobra: Não são futilidades se a fizerem sentir-se mais bonita. Vai dar-lhe outro ânimo para iniciar essa dieta…
Eu: Está bem, mas não exagere. Quero uma coisa discreta.
Consultor de imagem: Não se preocupe! Vou tratar desse cabelo, vai ficar mesmo gira! Mas tem de parar de fazer disparates com a cor, sabe? Isso dá cabo do cabelo! Também já lhe devo ter dito isto…
Eu: Já disse, já…
Contabilista: E não se preocupe com o dinheiro, faço-lhe um desconto do dia da mãe.
Eu: O dia da mãe é no próximo Domingo…
Vidente: Eu sei. Mas as mães como a senhora gostam de passar esse dia com os filhos, não no cabeleireiro…
 
Saí de lá hora e meia depois, sem me ter desgraçado tanto quanto pensava. Dei carta-branca ao cabeleireiro-vidente e, estranhamente, reencontrei os cabelos dos Verões da minha infância. Compridos e mais claros, com madeixas louras do sol.

Como é óbvio, fiquei a pensar no que ele me disse. Custou ouvir, mas o cabeleireiro-vidente tem razão. Vinguei-me um bocadinho na cozinha, nestes últimos meses. A cozinhar e a comer, a bem dizer da verdade. Estou a precisar de fazer dieta. E desporto. Com a frequência com que vou ao cabeleireiro, devo ter uns oito ou nove meses pela frente para emagrecer! A ver se é desta…

terça-feira, 5 de maio de 2015

O homem da casa

(porque este fim-de-semana tive um momento de vergonha alheia

e fiquei a matutar nisto)


 

Se há praga que eu abomino é a noção machista de “homem da casa”, que infelizmente parece universal e intemporal. Não me estou a referir à figura masculina adulta, propriamente dita. No nosso caso, o meu amor… por oposição a mim, que sou a “mulher da casa”. Esta designação advém meramente do facto de sermos de sexos diferentes e de dormirmos debaixo do mesmo tecto, sem qualquer conotação social implícita. É um simples genitivo. Também não me estou a referir à população masculina que compõe uma família. Até porque eu digo muitas vezes “os homens da casa” ou “os meus homens”… mas, neste caso, é a denominação genérica dos habitantes de sexo masculino que comigo vivem.

Estou a falar da promoção quase imediata a “homem da casa” que os rapazes sofrem quando uma mulher fica sozinha. Noutros tempos, isto acontecia invariavelmente na sequência de uma viuvez. Hoje em dia, ocorre tipicamente na sequência de um divórcio. Independentemente da idade, a sociedade impõe de forma sistemática ao filho mais velho um novo papel de defesa da mãe e dos irmãos. De repente, a criança é investida de uma missão protectora. De rapazinho passa a guardião do clã. Pior, de filho passa a “chefe de família”. Dizem-lhe: “Tens de ser um menino crescido, tens de tomar conta dos manos”, “Agora és o homem da casa, tens de ajudar a mãe”. E de uma assentada só, rouba-se uma infância e subverte-se a relação mãe/filho.

Quando são pequenos, a coisa ainda escapa. É engraçado ver um rapazinho a proteger a mãe. É sinal de maturidade, de sensatez, de meiguice. Facilmente se perdoa um comentário mais autoritário, apenas porque tem piada. Porque parece um homenzinho. O problema é quando crescem, quando irrompem adolescência adentro numa posição de força completamente pervertida. Nessa altura, a mãe já não consegue ter a necessária e natural autoridade. Compreendo que seja prático ter um “homem” para mudar as lâmpadas, reparar a torneira que pinga, tirar as compras do carro, pendurar quadros na parede… Já para não falar que é reconfortante ter um ombro amigo com quem desabafar, mais que não seja da conta do telefone que deu cabo do orçamento do mês. Ou do último desgosto amoroso, em que o filho é chamado a dar opiniões sobre o que não lhe diz respeito. Mas este comportamento precocemente adulto e de pendor machista tende a descambar, mais tarde ou mais cedo. Um dia, o rapaz que a sociedade incentivou a tornar-se homenzinho cresce. E decide naturalmente assumir a posição de macho-alfa que dita as regras do clã. O filho deixou de ser apenas filho. O homem em construção transformou-se num macho. E, aqui, já não há volta a dar.

Tenho visto à minha volta os efeitos devastadores desta aberração arcaica. A minha amiga Christine queixa-se muitas vezes que o filho mais velho é adorado na vizinhança, mas que ninguém imagina como é tirano dentro de portas. É o reverso da medalha, invisível aos olhos do mundo que só tem elogios para o “homem da casa”. O miúdo de 17 anos é o “homem da casa” desde pequeno. Muito maduro para a idade, é bastante apegado à família. Extrovertido, tem conversa com toda a gente. É um trabalhador incansável, sempre pronto a ajudar a vizinhança. Ainda por cima, é mesmo prestável, vê-se que gosta de ajudar as pessoas a troco de um simples sorriso. Repara na perfeição qualquer objecto destrambelhado: bicicletas, motores de tractores, um armário partido. Tem umas mãos de ouro, sabe fazer tudo. Quando nos mudámos para Vielsalm, foi uma ajuda preciosa nas mudanças. Trabalhou no duro o dia inteiro e nem sequer aceitou que lhe pagasse. A custo, lá o convenci a deixar-me encher-lhe o depósito da mota.

Isto é o lado bom. O lado público, digamos assim, que é alvo de tantos elogios. Mas, depois, há aquele outro lado de machista emergente. Malcriado e displicente. Que dá ordens à mãe. Que é prepotente com a irmã mais nova. Que se pavoneia pela casa como se fosse o rei, a quem tudo é permitido. As saídas à noite, as bebedeiras esporádicas, as anedotas obscenas. Que tem sempre uma palavra de gozo, de desprezo. Humilhante. Que por vezes chega a roçar o agressivo. Mas, lá está, é o “homem da casa”. Ninguém duvida que adore a família, que protege de tudo e todos… excepto de ele mesmo. E de quem é a culpa? Dos vizinhos que elogiam a maturidade do “homem”? Da mãe que se ri para disfarçar o mal-estar, quando ele lhe diz que “pode meter a garrafa de cerveja onde muito bem lhe apetecer”? Da irmã que vai a correr buscar o telemóvel que ficou esquecido no quarto? De mim que prefiro virar costas e ir-me embora a pô-lo no lugar?

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Com ela aprendi o amor

(porque foi com ela que tudo começou)


 

Com ela aprendi o amor. Não me lembro do ventre que me acolheu, dos braços que me embalaram, da voz primeira que me guiou. Sei que não fui uma criança fácil. Muito menos, uma adolescente. A ânsia de independência e liberdade nunca me abandonou. Mas o amor com que cresci ainda hoje me acompanha. Aquele amor que é feito de demonstrações de afecto. O amor lambuzado. Apertado. Declarado. O colo onde há sempre espaço. O amor feito de beijinhos guardados num lugar especial no pescoço que só ela conhece.

Com ela aprendi a ver com a alma. A ler mundo com os olhos do coração. A almejar o que está para além do óbvio. A procurar a beleza das coisas. Aquilo que não se sabe explicar, mas que se sente.

Com ela aprendi a ser exagerada. Emotiva. A equilibrar estados de espírito. A rir quando a situação puxa o riso e a chorar quando a situação exige lágrimas. Passo facilmente da lágrima ao riso. E vice-versa. Aprendi a não me levar muito a sério.

Com ela aprendi a contar histórias. A construir o fio narrativo. O enredo. Aprendi a valorizar a poesia das palavras. A trabalhá-las, a poli-las. Aprendi o exemplo dos clássicos. As lendas. A mitologia. Cresci rodeada de personagens, os melhores companheiros da infância. E entrei na juventude com o Pessoa e o Eugénio de Andrade.

Com ela aprendi a arte. A arte em todas as suas formas. A arte no museu das janelas verdes. A arte nas noites quentes de jazz na Gulbenkian. Na Companhia Nacional de Bailado. E na Comuna. No silêncio das igrejas. A arte que ela descobria nos postais que volta e meia me oferecia, com reproduções de autores desconhecidos. (E a eterna dedicatória no verso com aquela sua letra deitada.) Com ela aprendi também a procurar a arte nas mais pequeninas coisas. Na vida. Na Feira da Ladra. Na velhota que passa. Na música que se ouve através da janela entreaberta. No menino que ri. No gato que espreita. A arte fugaz do nosso quotidiano.

Com ela aprendi a meter conversa com toda a gente. A fazer amigos. A ser extrovertida. A saber estar. Aprendi a usar vestidos e tranças com laços. A ter uma palavra de atenção para com as pessoas invisíveis que estão à nossa volta. Aprendi a bondade. A boa-educação. Aprendi o mais básico. Também aprendi a desenrascar-me. Aprendi que cozinhar é muito diferente de fazer comida.

Com ela aprendi a ser filha única no meio de três irmãos. A ser especial. A sentir que tinham orgulho em mim. Aprendi que podemos discutir com uma mãe, o amor nunca sai beliscado. Podemos até passar muito tempo sem lhe falar, há palavras que não precisam de ser ditas para serem adivinhadas. Aprendi que as mães são mágicas. São espelhos. Reflectem o que de melhor e pior temos. A nossa dor, os nossos desejos, as nossas lutas, as nossas conquistas. Aprendi que uma mãe põe o coração ao alto, engole conselhos e maus augúrios, para deixar os filhos aprenderem por si próprios.

Com ela aprendi que uma mulher tem de lutar por certas causas. Não pode dar nada por adquirido. Uma Barbie não é apenas uma boneca, é um estereótipo que se deve combater. Não se pode abdicar de nada, demorou-se muito a chegar aqui. A vida exige-nos um certo estoicismo. Temperado na medida certa com inteligência e doçura. Podemos tropeçar, mas caímos sempre como os gatos. Há que cultivar a capacidade de nos reinventarmos, sem nunca deixarmos de nos maravilhar.

Com ela aprendi a ser filha e a ser mãe também. A projectar-me no futuro através deles. E a rever-me no nosso passado. Aprendi a ser família. A aceitar defeitos e qualidades que herdei e que transmito, independentemente da minha vontade. Aprendi a fazer parte de um todo que me ultrapassa.
 
 


E o nosso poema de sempre…

Poema à Mãe

No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe.

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha — queres ouvir-me? —
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal...

Mas — tu sabes — a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.


Eugénio de Andrade, in "Os Amantes Sem Dinheiro"