sexta-feira, 31 de março de 2017

Uma relação mais convencional

(porque as relações não têm de ser todas iguais)



Andava eu a trocar e-mails com uma amiga que se prepara para emigrar, quando fui surpreendida por um post scriptum algo despropositado, que rezava assim: Perdoa-me a curiosidade, mas pela leitura do teu blog depreendo que entre o Pascal e o Vasco há uma verdadeira história de amor… E o Diogo? Nunca falas na relação deles. Dão-se bem?

A resposta é sim. Obviamente que sim. O meu amor e o Diogo dão-se muitíssimo bem. Talvez não fale tanto neles, justamente porque não há nada de especial a dizer. Mas se calhar até há e eu é que estou errada, pois não dou o devido valor.

Apesar de em nossa casa não usarmos a palavra “padrasto”, o Diogo usa-a ostensivamente (o Vasco, não). Com imenso orgulho na voz, é preciso que se diga. Creio que esse foi o papel que o meu filho mais velho lhe decidiu atribuir, há quatro anos atrás. Por mais que nos desagrade e que tentemos contrariá-lo, pois gostamos pouco de etiquetas convencionais. Mas o Diogo impôs a sua vontade férrea. O meu filho crescido é algo conservador e obsessivo na organização dos seus afectos. Cada pessoa tem o seu lugar próprio. E não há cá desvios, nem atalhos. O meu amor não tem as funções de pai, nem de amigo. Muito menos de amigalhaço. O meu amor não é um tio. Nem sequer um companheiro. Para o Diogo, é “O padrasto”… que não teve outra solução, senão conformar-se com o papel imposto. Para ser honesta, não deve ter sido fácil. Até mesmo porque o meu amor não estava preparado para assumir de imediato um cargo de tamanha responsabilidade e era profundamente nórdico na expressão dos seus sentimentos. Mas o filho crescido é um miúdo bastante melado. No início, os abraços e declarações de amor nunca eram correspondidos. Depois, começou a retribuir, mas via-se que era uma resposta maquinal e esforçada. Agora, são uma constante. Contrariamente ao que se possa pensar, quem adoçou o nosso Belga não fui eu, nem o Vasco. Foi o Diogo.

Hoje têm uma relação que não é tão liberal, nem igualitária quanto o meu amor teria inicialmente desejado. Porque um é “padrasto”, o outro é “enteado”. Um educa, o outro é educado. É uma relação feita de amor incondicional e respeito mútuo. Aceitação sem reservas. Presença constante. Ajuda inquestionável. Quando se trata de elogiar os rapazes, o meu amor perde-se pelo Diogo. Quando se trata de pensar no futuro dos rapazes, o meu amor preocupa-se é com o Diogo. Quando se trata de engendrar surpresas e viagens mirabolantes, a prioridade do meu amor é sempre o Diogo. Quando o filho grande partiu na visita de estudo a Oxford, o meu amor levantou-se às 5h da manhã para se despedir e dar as últimas recomendações. No lusco-fusco, estendeu-lhe dinheiro. O Diogo recusou de imediato, dizendo: “Obrigado, não é preciso. A mãe já me deu.” E o meu amor continuava com as notas amarrotadas na mão (para eu não ver quanto era) e insistia: “Eu sei, eu sei… mas quero que leves mais isto, nunca se sabe. Podes sempre precisar. Se não gastares, pões na tua conta”. É um cuidado constante, sem falhas.

A principal característica da relação do meu amor com o filho mais velho é secundar-me. Neste sentido, funcionamos como uma dupla de adultos que tenta educar em conjunto um adolescente. Porque ele diz que o Diogo é o adolescente mais perfeito que algum dia lhe foi dado a conhecer. E já se sabe que todos os adolescentes são parvos por natureza. Excepto o Diogo. Este ano fizemos uma espécie de “inquéritos”, quando entrámos em 2017. Na página onde apontámos o que gostaríamos que o outro mudasse (aka página dos defeitos com uma designação construtiva…), o Diogo escreveu simplesmente: “Pascal est parfait”.

Posto isto, o binómio é único. O meu amor tem de facto uma relação especial com o Vasco. Mas, contrariamente ao irmão, não creio que possa ser qualificada como uma relação de “padrasto-enteado”. Nenhum deles precisa de etiquetas ou convenções. O que se passa é que aqueles dois não se conheceram, reconheceram-se. Se eu acreditasse em reencarnação, diria que o binómio se tinha apenas voltado a encontrar, segundo uma ordem natural qualquer que me transcende. OK… eu não acredito em reencarnação, mas tenho a certeza de que aqueles dois são uma espécie trasvestida de almas gémeas. Entre o meu amor e o Vasco não há “uma verdadeira história de amor”, para usar as palavras da minha amiga. Entre o meu amor e o Vasco há uma história de coincidência de personalidades. Em francês há uma expressão que os define na perfeição: “ils ont des atomes crochus”. Têm átomos enlaçados. Porque há algo que, efectivamente, vai para além do palpável e que invade o plano metafísico. Onde não sou tida, nem achada. Nesse sentido, a relação do meu amor com o Vasco é independente de mim, pelo que acabamos por ficar em perfeito pé de igualdade na educação do filho pequeno.


Se acho esquisito os meus dois filhos terem relações tão diferentes com o meu namorado? Não, de todo. Eles são pessoas muito diferentes, por que razão haveriam obrigatoriamente de ter uma relação idêntica? Não tenho dúvidas de que o amor é igual. E isso é a única coisa verdadeiramente importante .


terça-feira, 28 de março de 2017

A escola

(onde perco o filho grande e o filho pequeno se encontra)



À primeira vista, parece estranho. Na Bélgica, as escolas disputam os alunos. As públicas e as privadas, todas elas gratuitas. Os pais são soberanos na escolha das escolas. Nesta altura do ano, multiplicam-se as iniciativas. As famosas “journées portes ouvertes”, com as suas visitas guiadas e apresentações. Os pais dos alunos que terminam o ensino primário são invadidos por propostas e brochuras de diversos estabelecimentos. Já vivi isso com o Diogo e preparo-me para passar pelo mesmo, no próximo ano, com o Vasco. O que mais me espantou foi receber propostas de escolas bastante distantes. Talvez num raio de 50 Km. Claro que há os internatos, onde os miúdos podem ficar durante a semana, mas não são muito comuns no início do secundário, que equivale ao nosso 7.º ano. Seja como for, comecei este ano calmamente à procura de escola para o Vasco, pois julgo que o colégio onde anda o Diogo não lhe convém. Embora fique a uns 150 metros da porta do nosso quintal. E a maioria dos alunos de Saint-Joseph vá para o Sacré-Coeur. O ensino é algo elitista por aqui, quando os miúdos entram no secundário, os pais tendem a mantê-los no mesmo tipo de estabelecimento privado ou público. Não me rejo por essa óptica, procuro a escola que melhor se adapte aos meus filhos. Infelizmente, após quatro anos num colégio, o Diogo tornou-se um menino fino e parece enraizado no seu pequeno universo escolar. É verdade que o ensino privado é mais difícil e obtém melhores resultados nos exames nacionais, mas acredito que a explicação está nas origens socio-económicas dos alunos. E nas expectativas dos pais, que encaram a universidade como a única saída possível após o ensino obrigatório. O ensino superior belga é público e não exige quaisquer condições de entrada. Excepção feita para Engenharia Civil, que tem exame de acesso. Aqui, os alunos que terminam o secundário têm entrada directa na universidade, se assim o desejarem. O trigo e o joio são separados posteriormente. Ou seja, todos entram, mas só os melhores ficam.

Isto explica o motivo pelo qual a minha prioridade, neste momento, é que o Diogo “aprenda a aprender”. Daqui por dois anos, até poderá entrar na universidade com média de 10 valores, se não tiver aprendido a estudar, duvido que consiga ficar. Na escola que fomos visitar na semana passada, os furos no horário dos alunos do 11.º e 12.º anos são completados com aulas de preparação ao ensino superior. Tendo em conta que há centenas de alunos, dos mais variados quadrantes, essas aulas servem para trabalhar competências gerais e métodos de estudo. De qualquer modo, é difícil ter um horário que permita grandes distracções. Contrariamente ao Sacré-Coeur, esta escola tem diversas opções. É todo um mundo novo. Duas páginas de combinações mirabolantes de disciplinas. Há de tudo um pouco. E, principalmente, há flexibilidade de escolha. Não é obrigatório ficar restrito a uma determinada área. Quem quiser, até pode combinar a área de Educação Física com línguas, por exemplo. Dá uma miscelânea pouco consistente, é certo... Mas, tal como não há exames de admissão à universidade, os diferentes cursos também não exigem a frequência prévia de disciplinas obrigatórias. Quem quiser arriscar entrar em Matemática Aplicada vindo da área artística pode fazê-lo. Depois, é o salve-se quem puder. Quer isto dizer que convém ter algum cuidado com as escolhas que se fazem no secundário, mas os miúdos mais indecisos ou mais versáteis podem perfeitamente dar vazão à sua heterogeneidade. Lá está… o essencial é que os alunos consigam “aprender a aprender”. Depois, cabe às universidades ensinar-lhes o que precisam.

O que eu gostaria mesmo que o Diogo escolhesse, nos dois anos do secundário que lhe restam, era um ensino de “imersão” em que grande parte das aulas é dada em inglês. Ou, em alternativa, que fosse para esta escola que visitámos em Liège. Nada parece agradar-lhe. Apesar de tudo, acho que o filho crescido gostou do que viu. Chegámos demasiado tarde para as apresentações, mas tivemos oportunidade de falar com alguns professores. Tenho de dizer que nunca vi um corpo docente tão motivado e bem-disposto. Perdemo-nos imensas vezes naquele labirinto e fomos sempre reorientados com um enorme sorriso. A escola é gigantesca, mesmo para os parâmetros portugueses. Tem diversos edifícios, ginásios, campos de jogos interiores, salas de dança, laboratórios, salas de informática, estúdios de música… No total, são seis andares. O Diogo e a namorada gostaram particularmente da cafetaria, que também serve refeições. Coisa nunca antes vista em terras belgas. De resto, julgo que se sentiram algo intimidados. Foram abordados por diversos alunos da mesma idade muitíssimo extrovertidos. Aliás, foi a primeira coisa que eu lhes disse: “Já viram que os miúdos aqui são completamente diferentes uns dos outros?”. No Sacré-Coeur sempre me pareceram todos iguais. As expressões, as roupas, a maneira de andar e de falar, as mochilas. Na escola de Liège, a multiculturalidade é evidente.

A minha grande aposta era a área de música. O Vasco e eu adorámos o professor… o Diogo nem por isso. Ou por outra, não gostou do facto de ser obrigado a tocar com os outros alunos. De ter de aprender forçosamente a tocar guitarra e bateria. Muito menos de fazerem apresentações na estação dos comboios de Guillemins. Eu achei piada à ideia, mas vi o filho grande arregalar os olhos e quase posso jurar que deve ter pensado que preferia morrer a passar por tal provação. Quando o professor começou a falar da ausência de partições e de estilos musicais tipo gospel e rap, percebi que tínhamos perdido definitivamente o Diogo. Seguiram-se outros encontros, mas nenhum que conseguisse cativar por completo o filho crescido. Apesar de tudo, à saída pediu-me os folhetos todos e a grelha com as diferentes opções possíveis. Disse que ia ler tudo com atenção e reflectir. Não tenho muita esperança, admito. Até mesmo porque a namorada também não ficou especialmente interessada.

Com a coisa pequena passou-se exactamente o contrário. A dada altura, puxa-me a manga e, com um ar muito sério, perguntou-me: “Mãe, posso fazer-te uma pergunta?”. Pensei que quisesse ir visitar qualquer coisa ou falar com mais alguém. Não. “Posso vir para esta escola?”, lançou-me. Nada que me surpreendesse. Aquele labirinto conseguiu despertar algo no Vasco. Os professores falaram-lhe directamente ao coração. Adorou a área de música. Os corredores enormes. As entradas e saídas complicadíssimas. Sobretudo, adorou a professora de dança. Quanto mais ela falava, mais assustada eu ficava. Os adolescentes já se tinham posto a milhas. Mas o Vasco parecia cada vez mais entusiasmado e fincou pé à porta do estúdio. A escola é conhecida por ter um programa de ensino em parceria com uma das melhores academias de dança do país. Só a partir do 9.º ano é que as aulas são dadas em exclusivo na escola… 14 horas semanais. Eu ia acenando com a cabeça e tentei explicar que a dança era só um hobby e coiso e tal… Mas Vasco concordou logo em passar uma audição no final deste ano, na tal academia. Com 10 anos, já só entram por convite. Suspirei de alívio. Certamente, ninguém há-de querer convidar o meu elefantezinho. Até que a professora lhe sorriu e disse que havia pouco rapazes da idade dele, pelo que as perspectivas eram excelentes. HUMFFF! Acho que ela fez batota, porque só disse isto depois de o ver a andar. Sim... o Vasco já anda muito direitinho, com os pés para fora, estilo pato. A professora sorriu e foi a correr buscar uma caneta para apontar o nosso contacto. Eu voltei à carga… estávamos só a fazer “prospecção de mercado”, pois ainda temos um ano pela frente para decidir. Fui ignorada. Segundo parece, nesta altura do campeonato, já o Vasco devia estar a ter 5 horas de ballet por semana. Coisa pequena concordava, numa animação parva. Comecei a tentar escapulir-me, com a desculpa de que ainda tínhamos muito que visitar. Demasiado tarde. Pouco depois, o Vasco fez-me a fatídica pergunta: “Posso vir para esta escola?”

Saímos de lá tardíssimo, já noite cerrada. Os adolescentes falavam entre eles, pouco convencidos. Coisa pequena saltava e corria à minha volta, completamente rendido. Fiquei com a sensação de ter sido ultrapassada pelos acontecimentos. Se o professor de música não tivesse falado tanto… Se a professora de dança tivesse falado menos… Sinceramente, não sei o que faça. Tenho a certeza absoluta de que aquela escola seria óptima para o filho crescido, mas fiquei com algumas reservas em relação ao pequeno. Diz que o tempo é um excelente conselheiro. Veremos...

domingo, 26 de março de 2017

Quando a única defesa possível é o ataque

(porque há coisas difíceis de engolir)



Uma pessoa pede ao outro lado para avançar a sua parte do pagamento de um tratamento bastante dispendioso do filho. Como seria de esperar, é recusado. Uma pessoa diz que não tem como pagar tal quantia. A recusa mantém-se. Que apresente orçamento. Isso mesmo, orçamento. Como se de uma empreitada se tratasse. Uma pessoa convida o outro lado a estar presente, no dia da intervenção. E manda os contactos dos dois especialistas que aconselharam o tratamento. A informação nunca é confirmada. Mas a recusa mantém-se.

Uma pessoa faz um esforço sobre-humano para reunir a verba necessária, no tempo requerido. No dia da consulta, é informada de que o procedimento, afinal, não poderá ser efectuado. Apesar de ter de pagar esta notícia a peso de ouro. Uma pessoa consulta os anteriores especialistas, que corroboram a mudança de estratégia. É efectuado outro tipo de intervenção. Paga, evidentemente.

Uma pessoa envia um e-mail ao outro lado a relatar todos estes desenvolvimentos. Explica que, posteriormente, terá de ser feito outro tipo de tratamento. Um mês volvido, continua sem resposta. E a vida avança. Como sempre.

Até que o outro lado se lembra de questionar o filho a este respeito. Argumentando que só tem acesso às informações através do discurso infantil. Porque uma pessoa se recusa a prestar esclarecimentos. Porque uma pessoa só está interessada no dinheiro. Porque obviamente o outro lado só serve para pagar.

E, agora, como pode uma pessoa defender-se destas acusações sem comprometer a imagem que o filho tem do outro lado? Como pode uma pessoa que é acusada de alienação parental há tanto tempo elucidar o filho sem propositadamente “alienar” o outro lado? Como pode uma pessoa não resvalar na armadilha que lhe estenderam, sem perder a face perante o filho? Como pode uma pessoa engolir a raiva que sente e manter o sorriso? Como pode uma pessoa pedir a outra que se mantenha calada, quando, efectivamente, foi ela que esteve presente e se preocupou e deu a mão e pagou a outra metade? São anos a fio desta guerrilha, estamos exaustos. E o filho confuso.

sexta-feira, 24 de março de 2017

Limites

(porque já entrámos na recta final, 

mas não sabemos muito bem onde fica a meta)



Passamos tantos anos a impor limites aos nossos filhos que temos tendência para esquecer os nossos próprios limites. Ultimamente, tenho reflectido muito sobre esta questão. Porque quando um filho entra na adolescência é normal que comece a proteger ferozmente as fronteiras do seu mundo. Interior e exterior. O respeito total pelo universo interior do adolescente parece-me uma evidência. E, pelo menos no nosso caso, tem sido bastante fácil. Até porque é um processo que se constrói desde a mais tenra infância. Obviamente, à medida que a criança cresce, torna-se mais complexo, mais secreto, mais intrigante… mais perigoso. Mas, lá está, faz parte da sua intimidade e está-nos naturalmente vedado. Acho importante deixar livre curso aos meus filhos, nesse terreno. Não espero que sejam um livro aberto. Não quero que me contem a sua vida toda ao pormenor. O que pensam, o que sentem, o que dizem, o que ouvem, o que anseiam. Cada um dos seus passos. Cada minuto do seu dia. Confio plenamente neles e respeito-os. Penso que só assim poderei esperar que tenham confiança para recorrer a mim, quando precisam. E a verdade é que mesmo o adolescente ainda precisa muitoooo.

Sou uma mãe bastante liberal, creio eu. Pelo menos, esforço-me por isso. E repreendo-me a mim mesma, quando não consigo ser na prática aquilo que defendo na teoria. Quando educamos os nossos filhos para se tornarem autónomos o mais cedo possível, depois temos de ser coerentes e dar-lhes rédea. Mas isto não quer dizer que lhes demos rédea solta. Para nos mantermos nas metáforas equestres… quando saltamos, o cavalo tem sempre de olhar para baixo para avaliar o obstáculo que tem pela frente antes de se lançar. Precisa de rédea curta, mas suficientemente larga para baixar a cabeça à vontade. Se o cavaleiro não souber usar as pernas vai cair na certa… Nos saltos de obstáculos, a rédea serve para muito pouco. Acredito que educar um adolescente seja isso mesmo: chega um momento em que a rédea se faz discreta, o controlo quase invisível faz-se por outros meios. Sendo que o melhor meio – com cavalos e com filhos – será sempre a confiança mútua. Cada um deve saber o que tem a fazer e confiar no outro. Caso contrário, o trambolhão é iminente.

O problema diz respeito ao mundo exterior, como é evidente. Aqui, digamos que surgem alguns “conflitos de interesses” materno-filiais. Porque se torna extremamente difícil gerir o comprimento das rédeas. Quando devemos impor a nossa vontade? Quando devemos respeitar os limites que os filhos nos tentam impor? Onde está o equilíbrio saudável? É inegável que há decisões que terão repercussões irremediáveis no futuro dos nossos filhos. Tal como é incontestável que a idade nem sempre lhes permite tomar as decisões mais esclarecidas e maduras. Nesses casos, cabe-nos a nós evitar o disparate. Explicar. Argumentar. E, em último caso, até mesmo impor determinada vontade. Castigar, se preciso for. Mas não me parece que seja muito produtivo dar castigos meramente punitivos a um adolescente. Do tipo, “não fizeste o trabalho de casa, ficas sem o computador”. Nestas idades, vale mais responsabilizá-los e motivar uma mudança de atitude. Se tal não suceder, creio que é melhor retirar a rede de protecção e deixá-los arcar com as consequências. A aprendizagem faz-se sempre por tentativa e erro. Embora seja difícil deixá-los cometer erros “menores” para que, um dia mais tarde, não comentam erros mais graves. E isto não é apenas válido no caso dos adolescentes. No outro dia, o Vasco esqueceu-se do saco da Natação e eu fui levar-lho à sala de aula. Apanhei um raspanete da directora… muitíssimo justo diga-se de passagem, porque ele voltou a esquecer-se, na semana seguinte. Ou seja, eu cheguei atrasada ao trabalho e ele não aprendeu rigorosamente nada.

As relações afectivas e a sexualidade dos jovens costumam levantar uma série de problemas. Provavelmente, porque poderão ter consequências futuras mais ou menos irreparáveis. Conheço casais que não deixam que o namorado/a vá a casa deles na sua ausência. Também há aquela variante de pais que não deixam que os filhos fiquem sozinhos com o namorado/a no quarto. Ou que pensam que “essas coisas” só acontecem na calada da noite. Por aqui, temos tentado arranjar estratégias que não traiam os nossos princípios. Os amigos e namoradas são sempre bem-vindos a nossa casa, estejamos presentes ou não. Só pedimos para ser avisados, por uma questão de respeito. E achamos normalíssimo que os jovens queiram ficar restritos ao seu espaço, no último andar, onde podem estar mais à vontade. OK… à vontade não quer dizer “à vontadinha”. A regra é que a porta do quarto deve ficar aberta. Mas não vamos lá confirmar. Aliás, eu nem sequer subo as escadas. Se precisar de falar com o Diogo, mando um grito cá de baixo. Ou um SMS, que é sempre daquelas coisas que diverte as visitas (antes de perceberem que é um bocado cansativo estar a subir três andares só para dar um recado…). Ou seja, confio no meu filho. Com quase 16 anos, o Diogo tem as informações todas de que precisa. E sabe exactamente o que nós pensamos sobre esse assunto. Não sei se estaremos a fazer o mais correcto, mas tenho a certeza de que a proibição nunca será a solução. Por isso, é confiar e deixar andar...

Neste momento, a minha maior dúvida prende-se com a escolaridade. O Diogo é um excelente aluno, que tem uma paixão assolapada pelo seu colégio. O problema é que, sendo uma escola de “proximidade”, como se diz por aqui, é bastante pequena. É uma espécie de microcosmos que está muito distante da realidade que o espera na universidade, daqui por pouco tempo. No primeiro ano, começam com dez turmas. Seis anos depois, restam apenas duas. Ou seja, as opções são forçosamente bastante reduzidas. Para nosso azar, é uma escola de pendor científico. E o filho crescido é mais versado nas ciências sociais e humanas. Se fizer os dois anos que lhe restam no Sacré-Coeur, ficará com um furo no horário. Não o estou a ver a ter seis horas de Matemática, mais seis horas de Ciências… Na realidade, não vem mal ao mundo, mas penso que poderia aproveitar esse tempo para aprender mais uma língua, por exemplo. Ou para estudar música. Ou outra coisa qualquer. Por outro lado, sei que a protecção que este colégio oferecia foi muito benéfica para o Diogo, que era uma criança com alguns problemas de sociabilização. Hoje, a história é outra. Trata-se de um miúdo bastante bem enturmado e popular. Talvez esteja na altura de levantar voo e abandonar este mundo tão protegido, onde os professores têm demasiada tendência a adaptar-se aos desejos e vontades do Diogo. O assunto tem sido largamente debatido, lá em casa. Já repeti inúmeras vezes os meus argumentos. E até já arranjei novos argumentos para o convencer a ir para uma escola em Liège. O meu amor também está farto de tentar. Até agora, a recusa foi categórica.

Hoje, jogo a minha última cartada. Vamos à “journée portes ouvertes”, no final do dia. O Diogo, a namorada e eu. A coisa pequena vem atrelada, porque também gostava que viesse para esta escola no sétimo ano (e o argumentário funcionou, no caso dele). Espero que a escola em si convença o filho crescido. Ou o estúdio de música, sei lá. Os professores. As actividades. Os alunos. Estou por tudo, admito. Custa-me muito deixá-lo tomar decisões que vão completamente contra o que julgo ser o melhor para ele. Até mesmo porque o meu amor pensa que devíamos obrigá-lo a mudar de escola e ponto final. É a primeira vez que não estamos de acordo quanto à educação dos miúdos. Mas quero ser fiel a mim mesma. Trata-se da vida do Diogo, a decisão cabe-lhe exclusivamente a ele. Provavelmente, será o primeiro grande erro que vou deixá-lo cometer. Mas ser mãe também é saber quando retirar a rede de protecção.

terça-feira, 21 de março de 2017

21/03

(onde uma decisão política nos obriga a mudar de paradigma

e o resultado fica à vista)



Hoje é o dia internacional da trissomia 21. Para nós é o dia das famílias. Uma desculpa perfeita para os profissionais da associação onde trabalho conviverem com as famílias que têm um cromossoma a mais. Ao longo dos anos, a fórmula foi-se aperfeiçoando. Deixámo-nos de grandes celebrações. Ficou apenas o essencial. Um local despretensioso onde nos podemos encontrar. Um lanche onde cada um traz o que quer. Umas horas de descontracção e de conversa. Sobre a trissomia ou nem por isso.

Levo sempre os meus filhos comigo. Acho importante terem contacto com outras realidades. E fazerem voluntariado. Inicialmente, o Diogo era algo renitente. A deficiência perturba-o. Quatro anos depois, já lhe passou. Tem imenso jeito para os miúdos pequeninos e uma paciência sem fim para os nossos jovens. Alguns são teimosos como uma mula, têm isso em comum. O Vasco ficou para nos anais da história da associação quando, após passar uma tarde inteira a brincar com várias crianças com trissomia 21, comentou que tinha passado um dia espectacular… só estranhava não ter visto nenhum menino deficiente! Tinha sete anos. O que mostra bem que a diferença é puramente subjectiva. As crianças nem sequer a vêem.

No Domingo passado, decidi deixar o binómio em casa e aproveitei para passar um dia mãe-filho grande. A verdade é que o Vasco estava absolutamente estafado com tantas horas de ensaios. Mais os espectáculos, propriamente ditos. E eu queria falar a sós com o filho crescido. Com o filho adolescente. Às vezes, tenho de obrigá-lo a crescer um bocadinho. É uma chatice. A técnica de ataque é sempre a mesma e ele já a conhece de ginjeira: apanho-o dentro do carro e começo a falar sem me calar. Ele não pode fugir e não há nada que o distraia, por isso o sermão é absorvido por inteiro. Sem interferências, nem filtros de qualquer espécie. É uma economia considerável de tempo e energia, acreditem. E teve resultados quase imediatos. Amanhã, em vez de passar a tarde encafuado com a namorada no home cinema a ver “Senhor dos Anéis” pela enésima vez, vão até Liège de comboio ao cinema. E na sexta-feira vem comigo ver uma nova escola, com o espírito “mais aberto” por assim dizer…

Fomos dos primeiros a chegar para ajudar nos preparativos. Pouco depois, o marido da minha chefe apareceu com o Frédéric. Que fez questão de se apresentar, todo despachado. Tem 48 anos. A mãe já morreu. Vive e trabalha em Bruxelas. Gere um orçamento de 50 euros por semana. Segundo ele, não é nada mau. Quando recebeu o e-mail a anunciar o “Dia das Famílias” ficou muito feliz. Há dois anos, tinha acabado de ser operado. No ano passado, tinha partido uma perna e não tinha podido vir. Com muita pena. Por isso, desta vez, telefonou logo ao secretariado para saber como poderia ir da estação dos comboios até à quinta onde ia decorrer a festa. Tem uma aplicação com o horário dos comboios no telemóvel, que o ajuda imenso. O pior são os autocarros, é mais complicado. Mas o Paul tinha sido muito simpático em ir buscá-lo à estação. Talvez durante o lanche conhecesse alguém que viesse de Bruxelas e o pudesse levar de carro. Só tinha comprado o bilhete de comboio de ida já a pensar nessa eventualidade. Trazia uma mochila vazia às costas. Tinha comido bastante antes de sair de casa, para não ir carregado com o farnel. Assim, podia levar vários folhetos e alguns números da nossa revista. Dava-lhe jeito ter mais uns quantos para distribuir. É que ele faz parte de diversos “groupes de parole”, inclusivamente no Norte de França. Decidiu dedicar os seus tempos livres a isso. Porque percebeu que dava esperança aos pais de crianças com trissomia 21. Mostrava-lhes que se pode passar por cima da deficiência. Que se pode ultrapassar a deficiência. Que é possível ter uma existência tão banal e preenchida como as outras. Uma vida útil. “A trissomia não é limitativa”, explicou-nos.

Fiquei impressionada por este discurso tão lúcido. Ficámos todos, à sua volta. Principalmente porque ele tinha razão no que dizia. Os pais dos miúdos pareciam convergir na sua direcção como se fossem atraídos por um íman. Falou com novos e velhos sempre de maneira diferente, adaptando o seu discurso. Não tenho dúvidas que cada um de nós faz o seu trabalho o melhor que pode, com o mesmo objectivo: a inclusão da pessoa com deficiência na sociedade. Membros dirigentes e administrativos, psicólogos, assistentes sociais, terapeutas da fala, fisioterapeutas, educadores… e eu, no centro de documentação. Mas ninguém trabalhou tanto e foi tão útil quanto o Frédéric, naquela tarde. E isto só foi possível porque o Governo belga teve a inteligência de lançar um decreto que obriga todas as organizações que, de algum modo, lidam com a deficiência a incluir um núcleo de deficientes nos comités de gestão. No início, a notícia caiu como uma bomba. Depois, começámos a agir. Há dois anos que andamos a formar um grupo de pessoas com diferentes deficiências para serem representantes oficiais. O difícil não foi pô-las a pensar… o maior desafio foi ensiná-las a sistematizar as suas próprias ideias. O nosso objectivo nunca foi criar um grupo de fantoches que só servisse para fazer figura de corpo presente. E daquilo que nos é dado a observar, as outras associações também estão a encarar com imensa seriedade e responsabilidade esta mudança legislativa. De facto, não podemos querer mudar a sociedade sem antes mudarmos a maneira como nós próprios, em primeira linha, lidamos com os deficientes. Temos de ser a sua voz, como sempre fomos. Mas temos igualmente de aprender a ouvi-los. E foi com enorme prazer que começámos a ver o fruto do trabalho destes últimos anos, ao ouvir o Frédéric falar com as pessoas presentes no dia das famílias. 

segunda-feira, 20 de março de 2017

O que tenho a dizer sobre o dia do pai?

(que o amor não precisa de laços de sangue, só de presença)




O meu amor saiu a correr de uma reunião, na sexta-feira à tarde. Num observatório perdido algures na Suíça. Conduziu mais de quinze horas, sem parar. Atravessou quatro países. Foi devolver o carro. Apanhou um comboio. No sábado, quando chegámos ao auditório onde iria decorrer o espectáculo, já lá estava à nossa espera. Só para dar um abraço rápido e desejar boa sorte, pois a coisa pequena estava atrasada para a maquilhagem. Assistiu com esforço aos bailados todos. A Princesa e a Ervilha, Patinho Feio, Soldadinho de Chumbo, Sapatos Vermelhos, A Pequena Vendedora de Fósforos… Até que chegou a vez de A Polegarzinha. No escuro, vi-o iluminar-se com um sorriso. Ainda as luzes não tinham baixado, já o meu amor estava a aplaudir entusiasticamente. À nossa volta ouvia-se: “Que querido!”, “Que fofinho!”, “Que bem que ele dança!”. No meio de quase uma centena de raparigas, o Vasco nem sequer precisa de dançar lá muito bem para se destacar naturalmente. É o único rapaz. O meu amor acenava com a cabeça, com um orgulho de pertença que ultrapassava a sua timidez habitual. Porque ele fez quinze horas de estrada para o ver dançar cinco minutos. Um bailado que já conhecia de cor, dado que tinha assistido à socapa aos ensaios da semana anterior. À saída, o Vasco agarrou-se a ele a matar saudades. Agradeceu-lhe, sentido. E piscou-me o olho, como quem diz: “Bem te disse que ele ia chegar a tempo!” Podemos não ser a família típica, mas sei que os meus rapazes estão a crescer com a certeza inabalável de um amor que não precisa de genes comuns. Deve ser por isso que, no dia do concerto de violino no lar de idosos, mal fui ter com ele, o Vasco me atirou: “Mãe, eu prometo que vou tomar conta de vocês. Nunca vos deixarei num sítio destes, a ti e ao Pascal.”


quarta-feira, 15 de março de 2017

Um público pouco exigente

(onde se aprende uma lição)



Coisa pequena andou dois anos a “desaprender” violino, como diz a nova professora. São coisas que acontecem em qualquer processo de aprendizagem. Às vezes, por força das circunstâncias, anda-se para trás. Até que o director da academia deu autorização para o Vasco mudar de professora. Na Bélgica, o ensino musical oficial é bastante rígido… nada que uma mãe tuga enfurecida não consiga contornar. Suponho que também devo ter marcado pontos ao mostrar-me disponível para fazer 60 km, de modo a evitar o ser execrável que dá aulas na dependência de Vielsalm.

Em Setembro, o Vasco começou uma nova etapa. A mais sofrida da sua existência. É um miúdo bafejado pela sorte, essa é que é essa. Basta-lhe ouvir a matéria uma única vez, consegue compreender e reter de imediato. O estudo não é para aqui chamado. O esforço também não. E as mossas no ego muito menos. Custou-lhe horrores admitir que não estava à altura do que seria esperado no 4.º ano. Teve de se adaptar a um novo violino, consideravelmente maior. Teve de recuar no livro e voltar a tocar partições antigas. Teve de corrigir vícios entranhados. A posição do braço, cotovelo, pulso, mão, dedos. Uma e outra vez. Fisicamente foi bastante duro. Psicologicamente foi muito mais. Até porque a nova professora utilizou uns métodos algo espartanos. Também a mim me custou vê-la destruir este miúdo, semana após semana. As críticas eram ásperas e magoavam-no imenso. Houve dias em que o Vasco saiu da aula com a alma aos pés. Creio que muito poucas crianças teriam resistido. Eu sou adulta, mas sou mãe. E a dada altura, disse-lhe que podia desistir. Que o violino devia ser uma fonte de prazer, não de tortura. Que ninguém podia obrigá-lo a tocar todos os dias com espírito de missão. A única obrigação que ele tinha era a escola.

Mas o Vasco foi mais forte do que eu. Foi mais forte do que todos nós, que sentíamos o coração encolhido, sempre que ele arrancava uns sons dilacerantes daquele pobre violino. Este inverno foi interminável em vários sentidos. Para ser totalmente honesta, devo confessar que o filho pequeno me deu uma lição de espírito de sacrifício. E de auto-confiança. O Vasco manteve uma fé inabalável na sua capacidade de superação. Acreditou quando mais ninguém acreditava. E conseguiu. À sua maneira, claro. Uma mistura equilibrada de muito trabalho e de uns pozinhos de magia. Começou a prestar atenção às aulas da aluna bastante mais avançada do que ele, que antecedem as suas. E pôs a lendária memória de elefante ao serviço da causa. Socorreu-se do Youtube para ver vídeos. Na semana seguinte, reconhecia as músicas e os erros habituais da colega já adulta. Começou a fazer pequenos comentários. A inundar de perguntas professora e aluna, com uma sede de conhecimento que comoveu ambas. Aos poucos, foi melhorando. E de permeio conseguiu conquistar a professora.

Há uns tempos, vi-o chegar aos pulinhos. Mal entrou no carro disse-me que a professora tinha comentado toda contente “Este é o meu aluno!”, quando ele fez um dos seus já habituais comentários sobre as músicas da colega. Foi o ponto de viragem. A partir dali, instalou-se uma dinâmica positiva e o ensino começou a fluir. O violino deixou de ranger todas as noites. O sofrimento desapareceu para dar lugar ao trabalho, apenas e só. Mas o Vasco manteve a operação de charme...

Hoje, os alunos da professora foram dar um pequeno concerto. Eram vários alunos de diferentes anos, principalmente principiantes. E um conjunto de cordas, composto por malta mais crescida. O local escolhido foi algo inusitado… um lar de idosos. O Vasco explicou-me tudo direitinho, com grande seriedade: era um público pouco exigente. O público ideal, a bem dizer da verdade. Não poderiam tocar trechos muito longos, porque a capacidade de concentração dos velhotes é bastante reduzida. Parece que adormecem com facilidade. Se desafinassem não havia qualquer problema, pois os problemas auditivos são comuns na terceira idade. De qualquer modo, acontecesse o que acontecesse, haviam de ficar todos contentes por terem animação à hora do lanche. E diz que os velhotes acham sempre piada às crianças. A maior parte das mães (sim, somos quase sempre mães…), pôs-se em debandada. Eu desenrasquei com esforço um cantinho, no meio das cadeiras de rodas. Fiquei entalada entre dois velhotes muito cómicos, tive de conter umas quantas gargalhadas valentes. E ainda tive direito a um cafezinho.

Houve alguns miúdos nervosos, mas o concerto foi um êxito. Lá está… o público foi bem escolhido. Bateram muitas palmas (algumas antes do final das músicas, outras a meio e mais umas quantas a despropósito). No fim do espectáculo, desfizeram-se em elogios. Inclusivamente a mim, quando me viram sair com um violino às costas, do alto do meu metro e meio de gente. Parece que tenho muito jeito... O Vasco só tocou uma música, acho que a professora não quis arriscar. Mas tocou-a extremamente bem. Com aquele seu à-vontade, que contrastava com todos os outros. A professora veio falar comigo depois. Estava espantada. Diz que ele brilha quando toca em público. “É uma força da natureza em ponto pequeno.” Aproveitei para lhe agradecer o que tem feito pelo Vasco. “Temos conseguido recuperar o tempo perdido, hein?”, disse-me. Pois… isso a mim pouco me importa. O que me interessa verdadeiramente é ver que o meu filho voltou a tocar com alegria. Que está feliz e motivado. Expliquei-lhe que não fazia mal, se fosse preciso chumbar de ano. A professora respondeu que ainda tínhamos muito tempo, antes do exame de final de curso, no próximo ano. Que logo se via. De qualquer modo, não era um chumbo, era um “ano joker” para se aperfeiçoar. A ideia agradou-me. A ela, nem por isso. Acha que não vai ser preciso. O Vasco é um lutador, explicou-me. O seu amor pela música vai muito para além do violino. Raras vezes viu um aluno tão trabalhador. Que se eu não me importasse de o levar aos ensaios, para o ano queria que ele fizesse parte do conjunto de cordas. Aceitei o convite, meia atordoada. Sobretudo, envergonhada. Porque eu não acreditei no Vasco. Porque me custou vê-lo sofrer. Porque achei que talvez fosse melhor desistir do violino. Fiquei envergonhada por não ter conseguido ser a mãe que ele merecia.

[ pelo menos, desta vez, lembrei-me de levar a máquina fotográfica… estou em franca melhoria! Comoveu-me ver a professora de cócoras ao lado do Vasco, como se estivesse a transmitir pensamentos positivos ]

terça-feira, 14 de março de 2017

Depois do inverno

(onde a tribo decide confiar mais uma vez na mãe-natureza

 para se alimentar)



Todos os anos – e já lá vão cinco – dou por mim a pensar que os invernos belgas parecem eternos. Não gosto dos longos meses escuros e frios, que custam tanto a passar. Detesto a chuva omnipresente. Tenho horror da neve e do gelo, que transformam uma simples ida ao supermercado numa epopeia. Sei que o facto de vivermos nas Ardenas eleva tudo isto ao expoente máximo. Há quem se comova com a natureza inóspita que nos rodeia. Há quem vibre com as montanhas que possibilitam descidas vertiginosas de trenó, o ringue de patinagem no gelo e as estâncias de esqui que ficam apenas a 15 minutos de nossa casa. Decididamente, não é o meu caso.

Mas tenho de ser honesta. Existe a lei da compensação. Se não fossem estes meses de tortura, não conseguiria apreciar o início da Primavera da mesma maneira. Os primeiros raios de sol. O calorzinho bom. As flores que invadem os jardins e fachadas das casas. Uma felicidade que faz cosquinhas. Uma espécie de euforia generalizada. O desejo imenso de aproveitar a vida ao ar livre. Acho que ninguém consegue imaginar a alegria que se sente por aqui quando o Inverno se vai finalmente embora. É quase uma alegria incrédula, como se não tivéssemos bem a certeza da passagem inexorável das estações. Por algum motivo, em todas as aldeolas da região se celebra o “Grande Fogo”, que enterra o Inverno e celebra o renascimento da terra.

Este fim-de-semana, o filho pequeno assistiu a mais um Grand Feu com amigos e o filho grande dedicou-se a tratar da estufa. Pensei que a horta estivesse completamente destruída, depois de dias a fio com temperaturas nocturnas que chegaram aos -20º C. A entrada ficou obstruída com uma montanha de neve que teimava em não derreter. E nós desistimos de lá ir regá-la. Como dizem os brasileiros, entregámos para Deus. Felizmente, o deus dos ateus foi imensamente generoso com as plantações da tribo. Salvaram-me as couves, os brócolos, o alho francês, o aipo e as ervas aromáticas. Salvaram-se inclusivamente umas cenourinhas bebés… que eu desenterrei a pensar que eram ervas daninhas. É para verem o que eu percebo da poda!

No Domingo, fomos à feira de Bomal comprar rebentos de novas plantações. Bem sei que ficava mais barato comprar sementes, mas nenhum de nós tem paciência para esperar tanto. De qualquer modo, o bom tempo dura tão pouco neste país, que o melhor mesmo é dar uma ajudinha à mãe-natureza. Apesar de tudo, o Diogo decidiu tentar plantar as sementes de abóbora que sequei no Verão. Vamos lá ver… Tenho mais fé nos rebentos de tomate, morangos, alfaces diversas, erva-doce e cebolinho que plantámos nas “incubadoras”. Ficaram a faltar os alhos, cebolas, batatas, curgetes e pimentos, que prefiro comprar biológicos no supermercado. Os três primeiros, basta deixar grelar e plantar. Os outros, recuperam-se as sementes e planta-se. Simples! Se tudo correr bem, este Verão seremos auto-suficientes. Ou quase, quase.






 [ filho crescido desapareceu a dada altura e voltou cheio de comida ]
 [ filho pequeno aproveitou para tentar entrar discretamente rio adentro ]

 


[ o Peanuts aprendeu a correr em liberdade no jardim e a voltar, quando o chamo ]

segunda-feira, 13 de março de 2017

Extracção

(onde um momento de horror se transforma em amor)



O Vasco foi arrancar um dente. Um molar que nasceu torto e nunca se endireitou. Literal e metaforicamente falando. Quando este problema começou, há quase ano e meio atrás, pedi a opinião do meu sogro. Mas foi só mesmo um parecer. Ou dois. Nunca quis misturar as coisas. Os tratamentos foram sempre feitos por outros profissionais. Até que o endodontista disse: “extracção”. E o meu coração encolheu. Até que o ortodontista disse: “extracção”. E o meu coração ia deixando de bater. Até que o dentista disse: “extracção”. E eu pus o coração ao alto e recorri ao meu sogro.

A verdade é que tudo mudou, neste lapso de tempo. Graças ao Vasco, devo confessar. Quando digo que o filho pequeno faz magia, acho que ninguém acredita. Suponho que é preciso conhecê-lo bem para perceber. Tem uma espécie de charme intrínseco que desfaz as barreiras à sua volta. Que cria pontes. Que vai ao encontro das pessoas. Que cativa. Entre o Vasco e os pais do meu amor foi paixão à primeira vista. Enquanto eu me mantinha ferozmente distante, coisa pequena aproximou-se descaradamente. Tornou-se da casa. Às tantas, fica muito difícil não gostar de quem gosta tanto de um filho nosso. Quer dizer, não é que eu não gostasse. Só não queria era ter de sentir afecto por obrigação. Fi-lo durante demasiados anos e sei bem o que me custou. Mas, graças ao Vasco, acho que começámos todos a gostar uns dos outros antes mesmo de haver lugar para grandes convívios. E, quando aos poucos comecei a baixar a guarda, foi como se já nos conhecêssemos há muito tempo. Afinal, temos dois amores em comum…

Assisti a uma das cenas mais ternurentas da minha vida. Tinha tudo para ser pavorosa e, no entanto, foi de uma beleza comovente. Eu estava nervosa. Não consegui comer o dia todo, tinha o estômago embrulhado. Acabei por ficar de fora. Envergonhada, mas fiquei. Achei melhor não insistir, não fosse desmaiar durante o processo. Deixei-me estar no escritório, a espreitar a cena pela porta entreaberta. O meu sogro escondia discretamente os instrumentos que ia tirando, virando-se de costas para o Vasco. A minha sogra deslocava-se estrategicamente, para não assustar. Parecia uma dança coreografada ao pormenor. E iam falando, falando, falando. O Vasco estava descontraído. Distraído. O meu amor ficou o tempo todo de cócoras, ao lado da cadeira, a dar-lhe a mão. A ser apenas presença. E aquela família, que não é minha, tratou um dos meus como se fosse. Demoraram muito tempo. O tempo mais do que necessário. O meu sogro teve o cuidado de cortar o molar ao meio. Tirou uma parte e, depois, a outra. Sem recorrer aos alicates torcionários. Nada fazia medo. Não ouvi um único gemido. Não vi uma lágrima. Só confiança e amor.

No final, insisti para pagar. Tive de insistir muito. Sou coerente com o facto de detestar que me peçam “favorzinhos”. No dia seguinte, o meu sogro ligou para saber do seu “encantador paciente”. E eu fui apanhada de surpresa, a meio do jantar. Mais tarde, com calma, mandei uma mensagem a agradecer. Porque o trabalho tem um custo. Mas a simpatia e o cuidado com que tratam o meu filho pequeno não têm preço.

quinta-feira, 9 de março de 2017

Nova aventura da tribo!

(onde se dá uma prenda e quase resolvemos um crime)



Não é que tenha desistido de dar prendas aos homens da casa mas, desde que comecei a oferecer experiências, fiquei rendida à ideia. Digo “experiências” à falta de melhor termo. Na verdade, cabe praticamente tudo nesta definição: assinatura de uma revista, adopção de um bebé gorila na Dian Fossey Foundation, uma viagem, um voo de parapente, uma entrada num parque temático, bilhetes para a época 2016/17 da Opéra Royal de Wallonie, etc. À partida, parece muito mais caro do que ousaríamos imaginar. E poderíamos ficar com aquela sensação de que, terminada a experiência, não fica nada “que se veja”. Ou que são prendas que só agradam a adultos, porque os miúdos preferem sempre um pássaro na mão do que dois a voar. Daquilo que posso aferir da nossa experiência pessoal, tem sido um sucesso que superou largamente as expectativas.

Como expliquei aqui, nos últimos meses, andámos atarefados a poupar como formiguinhas. Uma das primeiras coisas de que prescindimos foi dos nossos passeios de fim-de-semana. Sinceramente, estava convencida de que o meu amor nem sequer ia dar por isso, que o adolescente ia ficar todo contente a hibernar na solidão das suas masmorras e que a coisa pequena se ia entreter bastante bem no quintal. Não me podia ter enganado mais. Percebi que, aos poucos, esses momentos se tornaram essenciais à vivência da tribo. Ninguém se queixou de nenhum dos cortes orçamentais... excepto das nossas saídas.

Deste modo, no nosso aniversário, voltei a oferecer uma surpresa ao meu amor. Uma experiência nova que pudéssemos fazer em família, para matar saudades dos nossos passeios de fim-de-semana. O Diogo era o único que sabia ao que ia. O Belga só sabia que ia resolver um crime, o que o conseguiu deixar um nadinha apreensivo semanas a fio. O pequeno não sabia coisa nenhuma, caso contrário desbroncava-se à primeira oportunidade… OK, haveria de criar uma oportunidade para se desbroncar! Fomos até Liège, ao Get Out. Trata-se de um franchising francês de sucesso que três jovens de Bruxelas decidiram abrir há pouco tempo na cidade ardente. Marcar uma data foi um verdadeiro quebra-cabeças, porque estava tudo esgotadíssimo. Felizmente, tinha enviado para lá um e-mail a perguntar se poderiam abrir uma excepção para deixar entrar o Vasco e eles acabaram por organizar tudo de forma muitíssimo prestável. Não foi exactamente barato, mas valeu mesmo a pena. Há muito tempo que não nos divertíamos tanto.

A experiência do Live Escape Game consiste em ficar fechado 60 minutos numa sala, onde há uma série de indícios para decifrar em equipa. Uma pista conduz a outra e, assim sucessivamente, até se conseguir decifrar o enigma final e sair da sala. A equipa do Get Out Liège aconselhou-nos a escolher o “Affaire Cunningham”, por ser mais fácil para o Vasco. O objectivo era descobrirmos por que motivo o inspector Cunningham tinha desaparecido no decurso de uma investigação sobre uma série de assassinatos. Escusado será dizer que o filho grande, futuro criminologista, estava feito filho pequeno. Sendo que o verdadeiro filho pequeno estava igual a si mesmo. O Belga estava um bocado às aranhas, porque tinha caído ali de pára-quedas e ainda estava a processar a informação toda. E eu já me tinha arrependido da minha ideia peregrina, ainda aquilo não tinha começado. Ou seja, demorámos um bocado a perceber como funcionava o jogo e a organizar-nos como equipa… Mas, depois, lá conseguimos ir resolvendo os enigmas todos que davam acesso à segunda sala. Houve algumas discussões pelo meio, porque o facto de ter o cronómetro a contar fazia subir a pressão. Quando estávamos mesmo muito enrascados, o maître du jeu, que nos seguia do exterior através de uma câmara, entrava em contacto connosco através de um ecrã para nos dar uma pequena pista adicional. Já no final do jogo, demorámos uma eternidade a atinar com diversos transparentes que, bem posicionados, tinham de projectar um número na parede para desbloquear um cadeado que encerrava mais uma pista. E, depois, não percebemos que tínhamos aberto uma última porta, escondida na parede… onde se situava o enigma final para resolver o caso.

Resumindo e concluindo, não conseguimos terminar o Escape Game. Por assim dizer, morremos na praia, o que foi ainda mais desesperante. Pronto… podia ser aldrabona e dizer que foi desesperante só para os miúdos, porque os adultos estavam na desportiva. Mentira. À medida que o tempo diminuía, a tribo toda conseguiu ficar no mesmo estado de excitação. Quando o maître du jeu entrou no final, para nos dizer que o tempo tinha terminado e que tínhamos perdido, íamos matando a desgraçada! Mal ouvimos as explicações finais do crime não resolvido. Estranhamente, a nossa decepção só durou uns minutos. Ainda não tínhamos entrado no carro, já estávamos todos a dizer que tínhamos absolutamente de voltar para fazer o segundo jogo proposto pelo Get Out Liège. Ou noutro sítio qualquer, que a malta é viajada! Acho que ficou ali um bichinho… Apesar de tudo, fomos muito elogiados pelo maître du jeu, pelo espírito de equipa e sagacidade. Na altura, pensámos que era um daqueles elogios da praxe que todos os perdedores recebem, independentemente do resultado. Só quando cheguei a casa e fui espreitar a página deles no Facebook, é que percebi que a maioria das equipas exclusivamente adultas (e muito maiores do que a nossa) quase nunca consegue resolver o seu primeiro Escape Game. Bem vistas as coisas, éramos dois adultos, um adolescente e uma criança, completamente inexperientes neste tipo de aventura, e só nos faltou resolver o último enigma. Portanto, até nem devemos ser nada maus e já nos estamos a preparar para outra, em breve!

The GetOut mind! Leisure activity and cohesion game in Liege 

The team investigation game in Liege :

The Live Escape Game GetOut ! Liege is done to test your skills to the cohesion and team play. During this breakout game scale, your detective insight and your team are your best allies to leave the room full of clues. To leave the room within 60 minutes have elapsed, it is necessary to build a strong team. Take the clues available, analyze them and put them in touch. From the perspective of each and every inspector 's opinion gradually emerge the key to the puzzle. The success of your investigation comes from the multitude of clues around you, but also from your spirit of cohesion during the game to understand the meaning and relationship of each clue.

Full immersion in this cohesion's activity :

A scenario worthy of the best thrillers takes you into a room... where you are locked. You are 3-6 people, now detectives, who must use their ability to act as a cohesive team and to unravel the mysteries of clues left. If only one team on both solves the plot, it is also because of the stress situation in which you need to act. The master of the game is outside of the team room and sees all, hears all. It has the ability to interact with you, you provide advice, but will he do? Your only certainty from the beginning to the end of the game is the countdown 60 minutes. It is little given the magnitude of this puzzle. Will you make it in time?
1999, Scotland Yard. Commissioner J. Cunningham has just disappeared. 
You walk into his office and go looking for him.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Paus

(onde se improvisam umas férias e se nota uma constante)



[ na Tour le Roux, nas Ardenas ]

[ em Eindhoven, com o primo holandês de quatro patas ]


[ quase, quase na fronteira alemã ]

[ a passear nos bosques, perto de casa ]

[ algures na Holanda ]

  [ a namorada não entra na brincadeira... ]

 [ na barragem de La Gileppe, nas Hautes-Fagnes ]

sexta-feira, 3 de março de 2017

Uma miúda feliz apesar dos pesares

(onde a vida dá voltas e reviravoltas, 

enquanto nós aprendemos a ser felizes)



Estávamos na palhaçada na cozinha, como sempre. Filho crescido tinha vindo farejar e ver se roubava alguma coisa à socapa. Eu estava a tentar escorraçá-lo, para ver se conseguia acabar o jantar. De repente, diz-me: “Mãe, tu não mudaste nada! Desde que sou pequeno e me lembro de ti, continuas igualzinha! Parece que não envelheces, ainda tens ar de miúda. Mas mais feliz. Agora, pareces uma miúda feliz!”.

Pensei em todos os anos em que me deixei ficar. Em que me arrastei. Convencida de que os miúdos iam sofrer por serem filhos de pais separados. Convicta de que não conseguiria fazer isto sozinha. Que estúpida fui! Como se as crianças não soubessem ver para lá do nosso fingimento. Como se conseguíssemos enganá-las. Os olhos dos filhos são papel químico que reflete com uma precisão espantosa o nosso estado de alma. Porque este é o reverso da medalha, que ninguém ousa apontar: uma mãe infeliz cria filhos infelizes. E inexplicavelmente doentes. O Diogo, que sempre foi uma criança doente, há cinco anos que vende saúde. E eu, que tinha crises cíclicas de herpes e uma inflamação crónica nos olhos, há cinco anos que não tenho rigorosamente nada. Por isso, não fui só eu que me tornei uma pessoa feliz. Os rapazes também. Uma mãe feliz cria filhos felizes. O Diogo ensinou-me isto.

Mas melhor do que ser feliz e apaziguada comigo própria e com a minha vida, é ver que o Diogo consegue perceber isso. E sincronizar no mesmo comprimento de onda. Nesta casa, há dias difíceis. Há demasiados gritos, porque eu barafusto bastante. Em alto e bom som. Só que também há muitas gargalhadas. Beijos melados e abraços apertados. Conversas intermináveis. Amor a rodos. Há tempo para cada um de nós e para a tribo, no seu conjunto. Há tempo para o casal e há tempo apenas para os filhos. Para cada um dos nossos rapazes. Sobretudo, há uma honestidade de sentimentos. E isto é essencial. O que o Diogo vê todos os dias não é uma miúda tolamente feliz. É uma miúda feliz apesar de tudo o resto. E acreditem que esse apesar de, por vezes, é imenso. Mas penso que ensinar os nossos filhos a serem felizes apesar de é uma das melhores lições que lhes podemos dar para a vida.


Não era suposto os rapazes passarem estas férias de Carnaval na Bélgica. O meu pai ofereceu-lhes as passagens de avião para irem visitá-lo, aproveitando os poucos dias de férias que têm direito a passar comigo. Avô e netos não se vêem há ano e meio. Para além disso, o bisavô está muito velhinho. Tem quase 90 anos. O grande objectivo desta viagem seria irem visitar o bisavô, enquanto ainda se consegue recordar deles. Obviamente houve quem se lembrasse de intimidar e ameaçar a nossa família, atropelando todos os planos cuidadosamente preparados há meses. Após anos a fio desta guerra, já ninguém tem paciência para enfrentar fugas e perseguições rocambolescas. Aconteça o que acontecer, todos temos muito claro que o mais importante é tentar manter uma aparência de normalidade, na vida destas crianças. E, já agora, de todos nós. Por isso, ficaram. Tristes e zangados, mas ficaram. Infelizmente, nem sequer se pode dizer que tenham ficado surpreendidos. Já sabem o que a casa gasta. A outra casa, bem entendido. Mas à noite, sozinhos na sala a ver já não sei que programa, o Diogo e eu ríamos. Gozávamos com a situação. E ele disse-me, num relance de clarividência bastante adulto: “Às vezes, fico surpreso por ver como conseguimos sair tão normais, no meio disto tudo. Deve ser porque conseguimos rir da situação.” Acho que ser feliz apesar de é isto mesmo.

[ à maluca que teve a coragem de partir com estes dois rapazinhos, 
dizer-lhe que a aposta está ganha! ]