quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Antes o cabeleireiro-vidente que a adolescente autista

(onde quase se corta o mal pela raiz)


 

Decidi cortar o cabelo. A ideia já andava a germinar há uns tempos. Comecei por inquirir os homens da casa, que de imediato se manifestaram contra em bloco. Só se fosse mesmo um bocadinho de nada, uns milímetros apenas… vá, uns centímetros poucos. Nada que se notasse. Quanto muito, as pontas. Melhor ainda… as pontinhas. O meu amor ficou de sobreaviso e começou a espiar-me os passos, não fosse eu agir intempestivamente. Mal percebeu que o problema era a dor nos ombros, decidiu ajudar-me. Insistia para eu o deixar lavar e secar-me o cabelo. E passou a pentear-me todas as manhãs. Com imenso jeito, diga-se de passagem. Mas uma pessoa tem o seu orgulho e achei melhor resolver esta questão de uma vez por todas.

Na semana passada estive de baixa, para recuperar das infiltrações no ombro. Decidi aproveitar uma breve ausência do meu amor para cortar finalmente o cabelo. Tinha de ser naquele dia, não noutro qualquer. O primeiro sítio onde me dirigi foi, como não podia deixar de ser, o salão do cabeleireiro-vidente. Às tantas, uma pessoa começa a habituar-se àquela sinceridade toda e já nem se incomoda. Mas o homem devia estar de mau humor, naquela manhã. Tinha dois velhotes em amena cavaqueira e despachou-me rispidamente. Ainda tentei argumentar, os velhotes não pareciam ter assim tantoooo cabelo naquelas cabeças. Nada, não o consegui demover. Nem sequer quando joguei a carta da dor nos ombros. Respondeu-me secamente que ali – Naquele Cabeleireiro, Com Maiúscula – também era preciso marcar horas, como nos outros. Que não era só chegar e sentar. Que havia mais clientes. E que nenhum era especial. Que ele era uma pessoa muito ocupada. Que só tinha vaga na semana seguinte.

Saí dali descorçoada, mas determinada a cortar o cabelo antes de o meu amor chegar. Felizmente (ou talvez não…) era o “dia sem marcações” num dos cabeleireiros cá da terra. No início da tarde, ainda antes da hora de abertura, já eu lá estava a marcar lugar. Ganhei por pouco a uma velhota com evidente falta de jeito para estacionar. Foi uma adolescente de poucas falas que nos abriu a porta. Loira oxigenada, com o cabelo comprido muito esticado. Camisola de alcinhas como se estivesse nos trópicos e calças justas. Com um cãozinho a pilhas a tremelicar debaixo do braço. A primeira coisa que fez, ao entrar, foi pôr música. Um rap francês que fez a velhota revirar os olhinhos.

Mandou-me sentar e lavou-me o cabelo em dois minutos. Perguntou se a água estava boa. Respondi que estava um bocadinho fria. Ela continuou como se nada fosse. Gelei o cocuruto, enquanto me questionava se a miúda teria ouvido bem. Ou talvez fosse apenas uma pergunta retórica e a torneira nem sequer tivesse misturadora, sei lá… O cão a pilhas decidiu alapar-se ao meu colo, mas era tão raquítico que nem sequer me conseguiu aquecer as pernas.

Depois, a adolescente mandou-me sentar em frente ao espelho. Senti uma pontinha de medo e agarrei-me ao cão. Nem sequer tinha bem a certeza se ela teria idade para trabalhar. Lavar a cabeça, ainda era como o outro… um corte é uma coisa mais definitiva. Espreitei a velhota pelo canto do olho. Estava calmamente a ler uma revista. Parecia uma habituée da casa, tinha chamado o cão pelo nome. Respirei fundo e deixei-me estar. Quão difícil pode ser cortar um cabelo liso pelos ombros?

A adolescente oxigenada estava muito concentrada a desembaraçar-me o cabelo molhado. Tentei iniciar uma conversa amistosa. Não resultou, nem levantou os olhos. Quando finalmente deu a tarefa por terminada, perguntou-me como queria cortar. Lá lhe expliquei a história das dores nos ombros, que não conseguia cuidar do cabelo convenientemente. Pedi-lhe que cortasse a direito. Nem curto, nem comprido. Pelos ombros, simples. De modo a não dar trabalho nenhum de manhã. Fez um grunhido que me pareceu de assentimento e pegou na tesoura, decidida. Agarrou numa mecha e, apontando com a tesoura, perguntou: “Por aqui?” Respondi que não, que era demasiado curto. Que queria mais comprido, faz favor. Eu disse “se faz favor” docemente. Uma pessoa sabe quando não está em posição de força. A adolescente cortou... e-xa-cta-men-te onde tinha indicado. Mais uma vez me questionei se a miúda teria ouvido o que eu lhe disse. A música não me parecia assim tão alta, mas pronto… Perdido por cem, perdido por mil. O cabelo cresce depressa, certo?

Ao meu colo, o cão a pilhas ia espirrando à medida que os meus longoooos cabelos iam caindo. A dada altura, a rapariga perguntou se não queria “desbastar” para dar um ar “mais moderno”. Repeti a pergunta, noutros termos: “Se quero escadear o cabelo? Não, não quero. Quero cortar a direito pelos ombros... pronto, por cima dos ombros, como está a fazer”. Desta vez, falei mais alto e devagarinho, para ter a certeza de que a mensagem tinha passado. Só me faltou soletrar. Não serviu de nada, devo dizer. A miúda agarrou numa tesoura especial e vai de me “desbastar” o cabelo. Quando emiti um gritinho de espanto, parou. Explicou que era só um “bocadinho”, só para dar um “jeito” ao cabelo. Que ia ficar um penteado mais “natural”.

Aquilo demorou uma eternidade. A miúda parecia autista, mas bastante empenhada no seu trabalho. Eu estava tão furiosa, que ela lá decidiu acatar a minha última vontade e limitou-se a secar-me o cabelo naturalmente. Quando ouviu o secador, o bicho caquético desapareceu a tremer. No fim, a adolescente pareceu satisfeita. Que estava muito natural, explicou-me. Se horrorosa for sinónimo de natural, então ela atingiu plenamente os seus objectivos.

Os homens da casa foram sinceros, no final do dia. O veredito dos rapazes foi unânime: estou horrorosa. Ninguém me manda andar sempre a dizer que detesto que me mintam. O meu amor foi mais simpático, passado o primeiro embate. Diz que continuo linda, mas que “fico diferente”. Ora se a premissa inicial já é falaciosa…

Sabem que mais? A verdade é que isto está tão mau, que não dá trabalho nenhum. Nisso a miúda tinha razão. Não há grande coisa que se possa fazer por esta desgraça, excepto esperar que cresça. Daqui por uns dois anos e meio volto a dar notícias.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Tortura encapotada

(onde se percebe que eles andam aí)


 

Desta vez, decidi levar as sessões de cinesiterapia (ou fisioterapia, não sei bem a diferença… se é que há alguma) muito a sério. Estou decidida a fazer o tratamento todo até ao fim, por mais que me custe. Só impus uma condição à minha médica: não me abandonar novamente nas mãos torcionárias do Dr.Sauvage. Ela riu-se muito e assentiu. Parece que aquilo não resulta com toda a gente. Não sei porquê, mas não me admira…

Lá fui eu, então, a uma cinesiterapeuta (ou fisioterapeuta, não sei bem a diferença… se é que há alguma) aqui do burgo. Uma jovem calma, com o ar mais fofinho do mundo. Muito terra-a-terra. Medianamente bonita. De trato afável. Aquele tipo de pessoa com a qual se simpatiza logo à partida. Felizmente… porque depois de nos pôr as mãozinhas delicadas em cima, o único sentimento que me vem à cabeça é ódio. Ódio puro. Mas, no dia seguinte, quando lá entramos, voltamos a sentir a mesma paz e tranquilidade no ar. A mesma simpatia delicada. Até ela pôr mãos ao trabalho. Literalmente. É uma coisa um bocadinho esquizofrénica, não consigo explicar melhor. Uma estranha ambivalência de sentimentos.

Estou seriamente desconfiada de que estes “profissionais” se enquadram na categoria dos sádicos. Dos sádicos encapotados, entenda-se. Gente completamente pervertida que arranjou uma maneira legal – até mesmo lucrativa, imagine-se – de dar vazão às suas pulsões mais secretas e sórdidas. Por trás de um sorriso adorável esconde-se uma personagem bastante sombria. Onde nós vimos uma sala de trabalho, eles vêm uma sala de prazer. Onde nós vimos aparelhos de ginástica e uma marquesa, eles vêm aparelhos de tortura. É uma perfeita cena de terror, onde nós somos vítimas conscientes, consensuais.

Pior do que isso. Estes “profissionais” seguem uma seita secreta, nascida nos idos anos 80, nos EUA. Os seus mentores são aqueles actores foleiros dos filmes de porrada. Não os brutamontes desprovidos de cérebro, sem qualquer interesse. Mas os minorcas caídos em desgraça que praticavam artes marciais ao pôr-do-sol. Os gurus solitários em construção. Que conseguem derrubar o adversário mais imponente apenas com um toque do dedo mindinho. Que conseguem provocar as dores mais intensas com uma enorme economia de movimentos. A sua força advém do conhecimento das fraquezas do outro.

Para elucidar melhor esta minha descrição da personagem em questão, talvez valha a pena transcrever o monólogo desta manhã:
 

Bruta: É aqui, não é?
Eu: Hum, hum…
Bruta: É precisamente aqui que lhe dói mais, não é?
Eu: Hum, hum…
Bruta: Vá, coragem! Isto custa um bocadinho, eu sei.
Eu: Hummm…
Bruta: Pode gritar, sabe?
Eu: Hum?!
Bruta: Tenho aqui homens que gritam que se fartam. Um deles tem quase dois metros!
Eu: Hum?!
Bruta: Eu sei que isto provoca umas dores incríveis. Há pessoas que preferem verbalizá-las.
Eu: Hummm…
Bruta: Estou a ver que não é o seu caso. As mulheres são sempre mais fortes. Eles acham que não, mas nós é que somos o sexo forte.
Eu: Hum, hum…
Bruta: Pronto… coragem! Isto está a correr tão bem, vou só fazer mais um bocadinho, sim? Já que consegue aguentar…
Eu: Hum?!
Bruta: Aiiii… estou aí a ver uma lagrimita a correr! Está a portar-se mesmo bem!
Eu: Hummm…
Bruta: Pronto, já passou! Agora vou um bocadinho aqui para este lado, para a deixar respirar.
Eu: Hum!
Bruta: Aiiii… não me diga que também lhe dói aqui?! Está bem arranjada, está! Olhe, vamos lá… só mais um pouco de coragem!
Eu: Hummm…
 

E é isto durante 25 minutos. Atentai no que vos digo: eles andam aí. Disfarçados de profissionais com licença e tudo. Disfarçados de bons samaritanos. No fundo, bem lá no fundinho, não passam de sádicos encapotados, legalizados, remunerados. A quem nós ainda agradecemos pelo mal infligido.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Negação, aceitação

(e voltar à casa da partida)


 

A especialista em medicina desportiva, que consultei há um ano atrás, proibiu-me terminantemente de praticar natação. De nadar, tout court. Por mais estranho que pareça, posso manter a equitação… o desporto que me deu cabo dos ombros, no seguimento de uma queda aparatosa quando estava na faculdade. Segundo ela, o movimento de rotação dos braços acima da cabeça é dos piores que pode haver para o meu problema. Achei aquilo um bocadinho suspeito, a equitação parece-me um desporto muito mais violento do que a natação, mas enfim… decidi não arriscar. Demorámos bastante a encontrar um tratamento eficaz, não queria deitar tudo a perder. Há muito tempo que não me sentia tão bem, sem dores nenhumas. Neste ano que passou, nunca nadei. Nem sequer umas simples braçadas. Limitei-me a dar alguns passeios a cavalo. Primeiro, a medo. Depois, ao ver que não me provoca quaisquer dores, mais à-vontade. Acabei a andar a galope pelos bosques sem estribos. Os ombros nunca acusaram estas aventuras.

Aos poucos, comecei a pensar que talvez o tratamento tivesse conseguido resolver definitivamente o meu problema. No fundo, acho que sabia que era impossível. “Crónico” é antónimo de “curável”, certo? Mas quis acreditar que a médica se poderia enganar. Quis acreditar num milagre. Logo eu, que nunca fui uma pessoa crente. A verdade é que a mente tem a prodigiosa capacidade de se esquecer depressa das dores passadas.

Quando fui dar um mergulho com o meu amor ao lago de Butgenbach, no mês passado, estava longe de imaginar os efeitos que isso poderia vir a ter. Nem sequer posso dizer que tenha tentado o diabo, porque sei que não o fiz. Nunca me permiti nadar livremente. Num cantinho recôndito da minha mente, a proibição da especialista em medicina desportiva ecoava. Fiz um esforço imenso para não nadar costas, o meu estilo de eleição nos velhinhos tempos da competição. Tenho tantas saudades de nadar costas! Mariposa também estava completamente fora de questão. Por isso, tive juízo e dei apenas umas braçadas devagarinho. Docemente. Num estilo de bruços caquético que me teria envergonhado há uns anos atrás. Também nadei crawl, mas foi só mesmo um bocadinho. Quase nada. Sem me esforçar, sem me cansar. A temperatura da água estava tão agradável, soube-me mesmo bem.

No dia seguinte, os meus ombros acordaram antes de mim. O dia ainda não tinha nascido. As dores – as velhas dores, as esquecidas dores – estavam de regresso. Fingi que não ouvia, que não era nada comigo. Tomei um analgésico, à espera que passasse. Tomei mais uns quantos. Estava convencida de que as coisas voltariam ao que eram antes, quando eu já nem sequer me lembrava de que tinha este problema. Mas as dores aumentaram. Decidi, fazer uma semana de anti-inflamatórios. E as dores tornaram a aumentar. Disse para mim mesma que era culpa do esforço de andarmos a montar as camas dos miúdos. Montar é como quem diz… fazer. Repeti exactamente o mesmo tratamento que tinha feito um ano antes, convencida de que resultaria de imediato. Tirei uma semana de férias. Decidi levar aquilo a sério e parar por completo. Repouso total. Ainda antes do final do tratamento, aceitei a derrota. Telefonei à médica e supliquei por uma consulta urgente. Sim, suplicar é mesmo a palavra certa. Uma consulta, outro tratamento e muitos exames depois, começámos a fazer infiltrações. Nem sequer me doeram, tal era o desespero. Agora estou na fase da tortura, com sessões diárias de cinesiterapia. Ou seja, estou naquela fase em que as coisas pioram consideravelmente para depois poderem melhorar.

Não duvido que, mais cedo ou mais tarde, os meus ombros hão-de ir ao lugar. Literalmente falando. A dor há-de desaparecer. Ou, pelo menos, atenuar. Mais infiltração, menos infiltração. Mais sessão de tortura, menos sessão de tortura. Se não for com esta médica, há-de ser com outro especialista qualquer. Em Antuérpia há um centro ortopédico de ponta, uma coisa mesmo futurística. Estou longe de me sentir desesperada. Derrotada. Actualmente, há muito caminho a percorrer, no que à medicina diz respeito.

No outro dia, acordei a chorar. Nunca me tinha acontecido. O meu amor perguntou se estava com dores. Estava, mas era na alma. Nunca mais vou poder nadar. Acho que demorei a aceitar esse facto. Nadar faz parte de mim desde que sou pequenina, é o único desporto que gosto de praticar com espírito de missão, de sacrifício. Para o qual tenho jeito. Foi o primeiro desporto que dei a conhecer aos meus filhos, quando ambos tinham apenas 6 meses. Não imagino a minha vida sem poder nadar. Não consigo. Não aceito.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Metas

(porque antes de serem estudantes, são crianças)




Quando desembarcámos numa aldeia pedida nas Ardenas belgas, há três anos atrás, inscrevi os meus filhos na escola primária sem pensar muito no assunto. Nenhum deles falava francês. Integraram uma turma mista composta por 19 crianças, do 1º ao 6º ano. Todas juntas numa pequena sala, com uma professora a tempo inteiro e outra a meio-tempo. O meu filho pequeno era o menino mais novo da escola, com uns 5 anos ainda muitoooo infantis. Durante meses, a professora teve de dar aulas com o Vasco pela mão para o manter sossegado. O meu filho crescido era o miúdo mais velho, com 12 anos. Era também o único inscrito no 6º ano. No final daquele ano lectivo teria de fazer os exames nacionais que dão acesso ao ensino secundário. As crianças inscritas no 2º e no 4º ano teriam igualmente de fazer exames nacionais externos. Todos os outros teriam apenas de fazer os exames regulares internos, em Dezembro e Junho.

Nos últimos tempos, pela primeira vez, tenho tentado pôr-me no papel dos pais das outras crianças. Os meus filhos foram tratados com enorme respeito e carinho. Foi graças ao esforço de todos que se conseguiu angariar dinheiro para o Diogo fazer a classe de neige na Primavera com os outros “finalistas” da região, por exemplo. No final do ano, teve a melhor nota do concelho nos exames nacionais, para grande orgulho de todos aqueles pais. Foi uma vitória conjunta, uma vitória de Malempré. A presença dos meus filhos naquela escolinha foi encarada com normalidade. Eram apenas mais dois miúdos, iguais a todos os outros. Nem melhores, nem piores. Nunca foram encarados como uma desvantagem, um peso morto. Nunca ninguém pôs sequer a questão se estaríamos a perturbar o normal desenrolar das aulas, dos programas, dos planos curriculares, das metas, dos exames. As preocupações absurdas e egoístas que tenho lido nas redes sociais ultimamente sobre a escolaridade dos miúdos constrange-me de sobremaneira. Que crianças está Portugal a educar? De que serve tanto curricula se depois falta a humanidade? Como é que esta pressão oficial e parental se irá reflectir futuramente na personalidade destes miúdos? Como é que em pleno século XXI se pode dar primazia ao acumular de conhecimentos sobre o gosto pelo conhecimento? Não percebo, a sério que não percebo.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Música francesa

(para não dizerem que não ficam a conhecer coisas novas neste blog)


 
Não sendo exactamente o meu “tipo de música”, gosto muito do timbre da voz de todos estes cantores. É assim uma coisa meio tola…quando tenho um trabalho de tradução grande entre mãos, só consigo ouvir música na língua original que estou a traduzir. E não pode ser música que aprecie por aí além, senão distraio-me.
 
 
  Zaz, « Je veux »
 
Thomas Dutronc, « J’aime plus Paris »

Indila, « Dernière dance »  

Louane, « Je vole »
 
[ Se passar por aí nos cinemas "La famille Bélier", não percam! O Vasco chorou do início ao fim. Eu chorei de tanto o ver chorar. E o Diogo ia chorando de vergonha. ]
 

Fréro Delavega – « Mon petit pays »

Indila, « Dernière dance »

Stromae, « Ave Cesária »

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Um passarinho a cantar dentro do peito

(porque a definição de José Mauro de Vasconcelos é a melhor)



Há uns tempos atrás, o meu filho Diogo perguntou-me se eu já alguma vez tinha sido subitamente invadida por um sentimento intenso de felicidade. Assim uma coisa que se sente de repente e que nos aconchega a alma. Uma sensação sem explicação. Um bem-estar transbordante. A pergunta saiu-lhe de rajada, um pouco atabalhoada. Desatei a rir. Estava na correria do final do dia, no meio dos banhos e do jantar. Tinha a cabeça a léguas de grandes pensamentos e deu-me para gozar com ele. Disse-lhe que o melhor era guardar aqueles sentimentos esquisitos para ele e não dizer nada a ninguém. Que crescer era começar a ter consciência da nossa estranheza. Que havia coisas que devíamos esconder para não parecermos demasiado maluquinhos aos olhos dos outros. Acabámos os dois a rir e a conversa ficou por ali. Nesta casa andamos sempre na palhaçada. E tem mesmo de ser assim, porque os meus rapazes são uns homens um bocadinho fora do vulgar… muito sentimentais, muito melados, muito filosóficos. Às vezes, isto só vai lá mesmo no gozo. Mas sei que quem lhes conquistar o coração docinho será uma pessoa cheia de sorte.

Ainda não lhe disse, mas percebi perfeitamente o que o Diogo me estava a tentar dizer naquele dia. Ainda não lhe disse, mas foi isso mesmo que senti ao assistir à sua primeira aula de órgão. Uma felicidade tão súbita, tão grande, tão sem explicação aparente. Um passarinho a cantar dentro do meu peito, como dizia o Zézé.

Há oito anos que levo este miúdo às aulas de música. Perdão… que o arrasto para as aulas de música. Primeiro, em Portugal. Depois, na Bélgica. O trompete não era o seu instrumento de eleição, longe disso. Mas foi o que lhe permitiu evitar uma operação aos ouvidos e recuperar a audição parcialmente perdida, quando era pequenino. Quando aqui chegámos, estava fora de questão deixar o trompete. Aliás, foi graças a ele que percebi que o Diogo estava com uma otite e que já tinha a audição novamente afectada, no nosso primeiro Inverno belga dantesco. O problema é que, para se aprender a tocar um instrumento, no âmbito de uma academia de música oficialmente reconhecida neste país, é obrigatório ter aulas de solfejo. À antiga. Duas insuportáveis horas por semana. Por isso, este é o quarto ano em que o Diogo é forçado a ter aulas de solfejo para poder continuar a tocar trompete. É caso para dizer que um azar nunca vem só, coitado.

Este Verão, disse-lhe que podia finalmente deixar o trompete. Que escolhesse outro instrumento mais do seu agrado, se quisesse. Há dois anos que não tem problemas de ouvidos, um recorde absoluto desde o seu nascimento. Para meu espanto, o Diogo respondeu-me que não queria. Que preferia terminar o curso, que já está na recta final. Como está no último ano de solfejo, o professor de trompete propôs-lhe saltar um ano e apresentar-se aos exames mais avançados. No final do ano lectivo, se passar nas audições, ficará com o diploma de estudos musicais da Académie. Não só tem entrada directa no conservatório, como fica com habilitações suficientes para dar aulas de música no ensino básico. É uma coisa de monta, com apenas quinze anos. Principalmente para um miúdo que nunca teve especial queda para a música, ao contrário do irmão. Que entrou nisto obrigado e assim se manteve anos a fio, sem hipótese de escolha. Fiquei satisfeita por ele ter conseguido pôr interesses futuros à frente de interesses imediatos, por assim dizer. Até porque agora dá gosto ouvi-lo tocar trompete. Após anos de puro suplício, em que parecia que tinha uma manada de elefantes em casa, começou finalmente a sair um som delicioso daquele trompete. O professor está farto de o convidar para tocar numa das bandas que dirige, na dos jovens ou até mesmo na dos adultos. Mas o Diogo tem horror do palco, não foi feito para dar espectáculo.

Esta decisão responsável tinha uma condição, que eu aceitei de imediato. O Diogo decidiu aprender um segundo instrumento: violoncelo ou órgão de igreja, consoante houvesse vaga. Disse-lhe que escolhesse o órgão. Primeiro, porque a vaga era garantida… quantos miúdos querem aprender a tocar órgão de igreja?! Segundo, porque a igreja onde decorrem as aulas fica mesmo junto à escola de música, permitindo-lhe deslocar-se sozinho a pé. Admito que estou um bocado cansada de fazer de motorista dos principezinhos. Isto de tomar decisões adultas também implica aprender a ser independente e ganhar autonomia para gerir as suas próprias deslocações. Terceiro, porque o violoncelo é o instrumento do Vasco. Escolhido com apenas dois anos e meio. Abandonado em detrimento do violino, mais adaptado ao seu tamanho minúsculo. Tão ansiado, tão desejado, tão sonhado. Achei que era injusto deixar entrar um violoncelo nesta casa que ele não pudesse tocar. Quarto, porque o Vasco confidenciou-me de imediato que se o irmão escolhesse o violoncelo não havia problema nenhum, ele escolheria o piano quando chegasse a altura. Esta atitude de abnegação tão incrivelmente generosa da nossa coisa pequena comoveu-nos a todos, aqui, em casa. O Diogo escolheu, por isso, o órgão de igreja.

No primeiro dia de aulas, pediu-me para o acompanhar à igreja e falar com o professor. Estava com vergonha. E eu lá fui, maternidade oblige. Felizmente. Caso contrário, teria perdido a oportunidade de ouvir um passarinho cantar dentro do meu peito. O professor explicou-lhe como é que o mostrengo funcionava. Os rudimentos da coisa, vá. Depois, começou a tocar para exemplificar. Por fim, pôs-lhe uma partitura à frente e passou-lhe o comando do mostrengo. Para ele tocar só com uma mão e apenas no teclado, claro. Os botões do ar e os pedais ficaram para mais tarde. Bem como o domínio das duas mãos. Mesmo assim, o Diogo olhou para ele meio assarapantado. “Hein?!”  “Sabes ler partituras, não sabes?”  “Ehhh… sei... mas…”  “Então, experimenta!”  O miúdo demorou tempo a arranjar coragem. Fez mais algumas perguntas para se certificar de que não ia fazer figura feia. O professor exemplificou só mais um bocadinho. Até que o miúdo encheu o peito de ar. Ajeitou o cabelo, endireitou os ombros e pigarreou, como se fosse começar a cantar. E lançou-se. Os preparativos demoraram tanto tempo que eu consegui sacar do iCoiso e aprender a filmar naquele preciso momento. Bom, talvez não tenha demorado assim tanto. É que eu fiquei tão nervosa quanto o Diogo, conheço bem o filho que tenho. Mas quando o vi ali sentado, no meio da paz sepulcral da igreja ao entardecer, a tocar órgão pela primeira vez, senti-me invadir por uma felicidade imensa. Não só pelo feito em si, pelo facto de conseguir ler uma partitura e começar a tocar um instrumento novo de imediato, ainda que titubeante. Senti-me feliz porque o vi utilizar um conhecimento adquirido a duras penas ao longo dos anos para, finalmente – Finalmente! – poder tocar o instrumento que ele tinha escolhido. Fiquei feliz porque o vi feliz. Porque o vi realizado. E isto não tem preço. Senti-me feliz porque, cada vez que isto me acontece, cada vez que sinto um passarinho cantar dentro do meu peito, eu consigo perdoar. Fico mais leve. Penso que quem nos faz tanto mal, ano após ano, mês após mês, também está a perder isto. Todos estes momentos mágicos que compõem o crescimento dos rapazes e que nunca mais se repetirão. Instantes únicos, fugazes, que só quem está aqui a vê-los crescer tem o privilégio de assistir. E eu estou. Nós estamos. Felicidade pura.


 

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Daquilo que não se explica

(porque estava a dever um agradecimento sentido)


 

Em quase quarenta anos de existência, houve apenas três situações distintas em que tive mesmo vontade de conhecer alguém. Nem sequer posso dizer que tenha sido vontade, foi mais uma certeza. Uma necessidade. Um sentimento de reconhecimento. Uma espécie de clarividência que me trespassou no instante em que as vi pela primeira vez. Senti um desejo súbito de me aproximar, de entrar no universo daquelas pessoas, de desenvolver uma amizade com cada uma delas. E, em todas essas situações, fui à luta. O peito aberto às balas. Cativei, conquistei. Nunca me arrependi.

Todas estas pessoas fazem ainda hoje parte da minha vida. Sinto um orgulho imenso em dizer que são minhas amigas, que se mantêm firmemente ao meu lado. O meu primeiro amor de adolescência, que continua a mandar-me mensagens estranhas dos quatros cantos do mundo. A minha madrinha de faculdade, madrinha dos meus filhos, amiga que se tornou família. O meu amor, que desistiu da maior aventura da sua vida para ficar connosco. Estas três pessoas cresceram, mudaram ao longo dos anos. Mas, na sua essência, mantiveram-se as mesmas, numa constância rara. Continuam a fascinar-me pela inteligência, pela profundidade de pensamento, pela beleza interior, pela integridade. Pelo tanto que temos a dizer, numa conversa inesgotável sem princípio nem fim. Por me conseguirem ler a alma sem que seja preciso falar. O que me fez apaixonar-me por cada uma delas, in lato sensu, mantém imutável. Tal como a minha amizade. E o sentimento de gratidão por fazer parte das suas vidas.

A Ana trouxe-me os meus rapazes no final do mês passado. E eu gostei muito da temporada que passou connosco, aqui, na Bélgica. É tão bom receber amigos do coração em nossa casa! Soube a pouco, fiquei com a sensação de que estas duas semanas não tinham sido suficientes para pôr toda a conversa em dia. Mas sei que temos uma vida inteira pela frente para o fazer. Ela dir-me-ia certamente que temos toda uma vida e mais além. Eu acredito que sim. Porque há amizades que vão para além do tempo e do espaço.
 
 

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

O meu amor faz as contas

(baseando-se livremente na obsessão estatística

de um certo personagem do Criminal Minds…)


 

Enviei uma mensagem tristonha ao meu amor, dizendo que um total de 966 candidatos tinham passado na primeira prova do concurso para tradutores de português da União Europeia e que, por isso, eu achava que não tinha quaisquer hipóteses. Eis a resposta imediata que recebo:
 

Mas é muito simples… Tendo em conta que as últimas estatísticas de recrutamento da EU mostram que, em média, apenas 1 candidato em 83 dispõe realmente das competências académicas e linguísticas requeridas, que 2 candidatos em 3 estão efectivamente à procura de emprego e não são psicólogos à caça de formulários para elaborarem eles próprios questionários de recrutamento, que 1/2 dos candidatos não terá condições financeiras para suportar o conjunto das despesas de deslocação inerentes às entrevistas de selecção, e que somente 1/4 dos candidatos tem a possibilidade de mudar de casa ou já mora a uma distância razoável dos locais de trabalho propostos, conclui-se que:

996 x (1/83) x (2/3) x (1/2) x (1/4) = sobra 1 candidato... ou seja, tu !

Spencer R.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

"Favorzinho"

(porque acabei de receber mais um pedido)


 

Não há pedido que aterrorize mais um tradutor do que este… Podes fazer-me um favorzinho? É que o favorzinho em questão é quase sempre muito simples. Faz-se num instantinho. Não dá trabalhinho nenhum. Coisinha pouca. Uma página ou duas. Vá… três. Mas a letra é grande. E tem imagens. Bonecos. Como é que se diz? Ah, ilustrações! O texto – texto a sério, com letras – resume-se a meia dúzia de linhas que se traduzem rapidamente. Quatro parágrafos, não mais. É para o marido da prima. Para o vizinho do tio-avô. Para a amiga de infância do colega. Tem de ser feito com uma certa urgência, mas não é preciso ter pressa. Logo à noite, está óptimo. Deus te pague. És um amor.

O favorzinho pode ser traduzir a receita de tarte de limão deliciosa que vinha num blog de culinária. (Eu sei inglês, mas o problema são as “medidas esquisitas”. Baralho-me toda, percebes?) A carta da imobiliária para os emigrantes portugueses que ainda não dominam a língua. É uma obrigação nossa ajudar os compatriotas. (Tentei traduzir com o Google, mas tenho medo que se perca o sentido… Não te importas de dar aqui um jeitinho, pois não?) As instruções de uma máquina de depilação a laser que se comprou na loja do chinês. (Eu sei espanhol, claro. Quem não sabe? Mas é que isto parece “linguagem técnica”, estás a ver?) A canção ou o poema lindíssimos, que encerram em si a sapiência do mundo. (O francês é uma língua muito bonita. Já não a uso desde os tempos da escola, esqueci-me um bocado…) Um gadget qualquer comprado na Amazon a um preço fantástico. (O problema destas cenas é que as instruções vêm sempre em inglês, é uma chatice! Eu é mais filmes, 'tás a ver?)

Melhor do que o simples favorzinho, só mesmo o favorzinho por interposta pessoa. É o chamado favorzinho 2 em 1. Porque já se sabe que o tradutor tem sempre amigos. As famosas “connections”. Infelizmente, nem sempre domina a língua requerida. Parece impossível, mas é verdade. Afinal, o tradutor é um bocado limitado. (Mas não falavas esloveno?! Pensava que tinhas traduzido desenhos animados em japonês… Não és tu que andas a aprender polaco?) Claro que esta falha linguística lamentável pode ser compensada por um colega mais “especializado”. Um colega que fale hindi e que esteja disposto a fazer-nos, a nós, um favorzinho.

O favorzinho também pode ser profissional. O que é bastante mais lixado, sejamos sinceros. É que não há forma de escapar airosamente sem comprometermos o nosso profissionalismo. A nossa competência. Ou o nosso posto de trabalho. Tradutor que é tradutor pode perfeitamente traduzir línguas que não domina, desde que domine línguas aparentadas. Desde que tenha boa vontade, claro está. (Entre o latim, o português, o francês e o espanhol, alguma coisa há-de conseguir perceber de italiano, não?) E, como é evidente, o tradutor pode fazer sempre uma noitada para acabar um trabalho, em nome da "amizade" consolidada ao longo dos anos. (Confio em si para me entregar isso amanhã de manhã…)

O pior de tudo é quando estes favorzinhos todos se misturam, o que não é assim tão raro como parece. Tipo... quando o chefe nos pergunta se conhecemos alguém que possa fazer o favorzinho de traduzir para ontem um texto pequenino em mandarim para o namorado da filha que está a fazer uma tese de doutoramento sobre Mao Tsé Toung.

E a melhor que já me pediram, em 15 anos de profissão. O número 1 do "Top 10 dos Favorzinhos": uma ajudinha para traduzir para francês o manual de instruções de um iate espanhol. Onde o meu filho Diogo até podia passar uns dias de férias, se quisesse. Assim o pai do colega conseguisse pôr o mamarracho a funcionar. Porque ele percebia muito de barcos, mas não percebia patavina de espanhol. Nada de nada. Quando perguntei se o dito manual estava em castelhano, respondeu que não… estava em espanhol. (Ah… não me digas que além de português, francês, espanhol e inglês, também falas castelhano?!) Obviamente que ia começar por tentar desenrascar uma tradução com o Google Translate, para me dar menos trabalho. Depois, era só fazer uma revisão rápida. Ajudar a traduzir um ou outro termo mais complexo. (Aquilo é fantástico, não é? Há muitas empresas que já nem contratam tradutores… Para quê?! É só espetar lá o texto, que ele faz o trabalho todo.)
 

Não é para me vangloriar, mas eu acho que os tradutores são uns seres absolutamente extraordinários. Estamos disponíveis 24h/dia, 7 dias/semana, 365 dias/ano, por quantias irrisórias. Obscenas mesmo. Cumprimos prazos apertados, limitados, impossíveis. Somos claramente arraçados de morcego. Não dormimos, dormitamos. Alimentamo-nos essencialmente de cafeína. Por vezes, também comemos um quadradinho de chocolate para espevitar à noite. Ou uma tablete inteira, dependendo dos níveis de stress. Temos uma relação obsessiva-compulsiva com o nosso computador, que avaria sempre nas piores alturas possíveis. Uma relação de amor-ódio. Na nossa cabeça convivem muitas línguas em simultâneo. Fazemos de tradutor e de revisor. Somos o polícia-bom e o polícia-mau. Mãe, pai, médico, motorista, professor. Mas, no fundo, somos apenas lobos solitários. A nossa existência está directamente dependente da ligação à internet. Por isso, somos peritos em procrastinar. Fazemos uma pausa para ir espreitar o Facebook que dura três horas. Podemos não ter tempo para ir beber um café, mas os nossos amigos sabem que podem desabafar connosco às horas mais estranhas. Estamos sempre "ligados”. Por isso, não me lixem… A malta já aguenta tanta coisa, será mesmo preciso ainda virem chatear-nos com favorzinhos?!




segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Imitar bichos

(onde se acaba a rir à gargalhada)


 

Finalmente conseguimos ter um fim-de-semana normal. O Diogo foi dormir a casa do melhor amigo na 6ª feira. O melhor amigo veio cá dormir no sábado. O Vasco passou os dois dias a arrastar-se como uma alma penada pela casa, a perguntar constantemente pelo irmão. Excepto durante a primeira aula de ballet com a professora nova, que ele adorou… porque faz exercícios ao som de uma música que o irmão gosta. No Domingo, decidimos aproveitar a boa onda para obrigar o Diogo a sair da toca. O meu amor escolheu um programa que andávamos há imenso tempo a adiar, à espera de um dia chuvoso: a Casa das Ciências em Liège. A rapaziada adorou a ideia e foram os três todos contentes. Dizer honestamente que, desta vez, quem saiu de casa a arrastar os pés fui eu…

[ as figurinhas tristes do 3D ]

 [ uma experiência que deixou mãe do artista em pânico ]
 
 [ também havia por lá um aquário cheio de peixinhos estrambólicos ]

 [ os meus dois filhos, mais o adoptado ]
 
 [ a parte da exposição que me deixou mais impressionada, odeio animais embalsamados. Mas depois eles decidiram animar-me... ]
 







 

 [ na barriga da baleia, como o Pinóquio ]

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Há cenas um bocado tristes

(isto é dar pérolas a porcos, é o que é)


 

Aproveitei a ausência do meu amor e decidi surpreender os miúdos com um jantar tipo fast-food, em frente à televisão. Hambúrgueres com batatas-fritas! Uma espécie de jantar no restaurante no palhaço, mas à moda da Rita. Bom… quem não tem cão caça com gato, certo? As batatas fritas eram daquelas congeladas que se podem fazer no forno, que sempre é mais saudável. Mas pus sal e acompanhei com um pratinho de maionese, a loucura total. E os hambúrgueres vinham numas embalagens todas catitas que se põem directamente no micro-ondas, tal e qual os verdadeiros. Até havia Ice-tea, que é coisa rara nesta casa. Vá… coisa inexistente.

Estava toda orgulhosa da minha surpresa, preparada em segredo. Admito que estava desejosa de ver a reacção deles. Quando chegaram à sala ficaram perplexos. Em vez de se atirarem ao meu pescoço com agradecimentos efusivos e grandes declarações de amor, como qualquer filho amoroso teria feito, perguntaram-me o que se passava. Se estava bem. Que nunca me tinham visto comer “porcarias”. Que diabo se passava comigo. Se aquilo era mesmo a sério. O Diogo sacou do iCoiso para fazer um snapshot a dizer que eu devia estar com falta de ideias. Falta de imaginação culinária, entenda-se.

Cena triste, pá. Fiquei mesmo desiludida, porcaria dos miúdos. Só tive vontade de lhes atirar com os hambúrgueres quentes em cima. Esta noite vão comer peixe cozido com todos para ver se aprendem a dar valor à mãezinha que têm…

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

E agora a realidade

(das férias e suas consequências)


 

Estes dias têm sido complicados. Agridoces. Os rapazes estão de regresso a casa, mas voltaram estranhos destas últimas férias de Verão em Portugal. Mais estranhos do que o habitual, entenda-se. Um mês é muito tempo. Mais o mês que passaram connosco entre a Bélgica, Espanha, Marrocos e Portugal. O Vasco anunciou que estas tinham sido as melhores férias de sempre. Não é fácil deixar para trás dois meses de férias e acordar de repente para a realidade. Os meus filhos responderam de forma diametralmente oposta. Um suspirou de alívio, o outro chorou de tristeza. Andamos aos pouquinhos a tentar entrar na nossa rotina. Na rotina do novo ano escolar, que começou na semana passada.

O Diogo anunciou logo à chegada ao aeroporto que tinha gostado muito das férias, mas que estava desejoso de voltar. De regressar a casa. À sua casa. À sua escola, que adora. E fê-lo com um sorriso que espelhava bem a felicidade que sentia, indiferente à desilusão que isso pudesse causar a quem o rodeava. As despedidas foram rápidas, banais. Mal aterrou, telefonou-me a dizer que já cá estava, que tinha saudades minhas, que gostava muito de mim, que dali a cinco minutos estaríamos juntos. Fiquei de coração cheio, claro. Mas achei estranho. Aos catorze anos já não é suposto corrermos para o colo da mãe. Tanto mais que estamos a falar de um miúdo que, ainda há poucos meses, dizia que queria ficar em Portugal. Sempre defendi que o Diogo dizia isto apenas para agradar ao outro lado, por um qualquer dever filial pervertido que lhe tinham conseguido inculcar, por estar com os braços repletos de prendas caras e a cabeça cheia de maledicência contra mim, contra os emigrantes, contra este país. Penso que agora se tornou evidente.

Pior, penso que o meu filho crescido já não se sente bem quando fica muito tempo em Portugal, a viver uma vida que se quer perfeita, artificial e excessivamente social. Obrigatoriamente familiar. Desta vez, voltou cheio de tiques. Falava e a cara contorcia-se com movimentos regulares involuntários. O meu amor ficou bastante preocupado. A madrinha, que veio com eles, também estava estarrecida. Eu tive uma visão de reconhecimento. O Diogo sempre teve este problema, quando confrontado com situações que não conseguia gerir. Quando andava no hóquei, quando era vítima de bullying na escola… Mas, desde que viemos viver para a Bélgica, os tiques desapareceram por completo. A vida mudou e ele aproveitou a deixa para se reinventar. Com mestria, diga-se de passagem. Há três anos que eu não o via ter tiques e partiu-me o coração perceber o que devia ter sentido. Adivinhar o que se passava naquela cabeça, porque o Diogo recusou falar sobre as férias. Ainda andou assim três ou quatro dias, foi aflitivo.

Os tiques foram desaparecendo aos poucos, à medida que a segurança de reencontrar a sua vida voltava. Adorou o quarto novo, que agradeceu vezes sem conta. Fartou-se de elogiar a nossa casa e o quintal, que fez questão de mostrar pormenorizadamente à madrinha. Recusou ir a casa de amigos ou convidar alguém para vir cá dormir. Preferiu esperar pelo início da escola e passar os primeiros dias a namorar a casa. Dizia que queria calma, que queria paz. Que estava farto de confusão, de ter muita gente à sua volta. Voltou ainda mais meiguinho do que o habitual, sobretudo para com o meu amor que é profundamente nórdico. Mas lá percebeu que o miúdo precisava mesmo de se sentir seguro e tem retribuído as declarações de amor e as demonstrações de afecto, que sempre o deixaram desconfortável. Devagarinho, as coisas foram ao lugar. A escola recomeçou, bem como as aulas de solfejo e de trompete. Reencontrou os amigos e a namorada. Daqui por uns dias vai começar a aprender um novo instrumento algo inusitado: órgão de igreja. Só falta convencê-lo a praticar um desporto qualquer, para ver se espevita… e se gasta a quantidade absurda de comida que ingere.

O Vasco também voltou estranho, embora fosse uma estranheza diferente da do irmão. Ainda no aeroporto fez a cena do costume, com o choro e os vómitos esperados. Mal a plateia sedenta de drama virou costas, a madrinha disse que o Vasco recuperou instantaneamente o sorriso. Começou a tagarelar alegremente sobre a vida aqui, sobre o meu amor e todas as coisas que faziam juntos. Só não estava lá muito contente por recomeçar a escola dali a dois dias…

Na verdade, custou-lhe imenso regressar à normalidade. À vida regrada. À rotina do quotidiano. Aos horários de deitar e de levantar. Às obrigações, tout court. A escola e as actividades e as refeições e os trabalhos de casa e as inúmeras tarefas pequeninas que é mesmo preciso fazer. A coisa pequena só queria brincar. E jogar videojogos. Nos primeiros dias, pavoneava-se pela casa como se fosse um príncipe, a quem tudo é devido e nada lhe é exigido. Altivo e ufano. A falta de autonomia atingiu níveis assustadores. A má-educação. Ignorava ostensivamente conselhos, ordens e ralhetes. Não se podia ir a lado nenhum com o Vasco, estava sempre a pedinchar. Só tinha uma ideia na cabeça: comprar, comprar, comprar. Fartou-se de pedir coisas a mim, ao meu amor, à madrinha. Tanto podiam ser insignificâncias, como artigos caríssimos cujo valor lhe era indiferente. Principalmente doces. Vinha completamente viciado em doces. Maluquinho. Juro que nunca tinha visto tal coisa na minha vida, era como se o miúdo estivesse a ressacar. Babava para cima de tudo o que fosse doce e andava sempre a ver o que conseguia apanhar. Nem que fosse às escondidas, nada lhe escapava. Tivemos de fazer uma espécie de cura de desintoxicação da diva, o que não foi nada fácil. Custou-lhe horrores. Ficou impossível de aturar, rezingão e choramingas. Dormia mal. Como se não bastasse tudo o que deve ter enfardado durante as férias, ainda trouxe uma mochila cheia de porcarias que parecia um poço sem fundo. Dias depois de chegarem, ainda havia gomas e pastilhas espalhadas pelo quarto. Até que o meu amor se passou, declarou que aquilo era uma obscenidade e, num acto déspota, espetou com os doces todos que restavam no lixo.

Nenhum de nós estava feliz com este reencontro tão esperado. Tentei resolver o problema com várias aproximações diferentes, nenhuma resultou. Falei meigamente, expliquei, tentei passar mais tempo sozinha com o Vasco. Ralhei, zanguei-me, castiguei. Mostrei-me desiludida. As coisas em casa iam de mal a pior. Na escola não era muito melhor. No primeiro dia, perdeu um casaco. Dias depois, foi a lancheira novinha em folha. Também houve aquela vez em que dormiu com um marcador preto sem tampa e manchou a roupa de cama toda… e o colchão novo. Decidi que precisávamos de medidas drásticas para impor os limites que o Vasco parecia incapaz de voltar a aceitar, no regresso das férias. Comprei um quadro branco onde fiz uma lista das tarefas diárias que o filho pequeno tem de fazer. O meu amor acrescentou mais algumas, que entretanto lhe ocorreram. Pregámos o quadro por cima da mesinha de cabeceira do Vasco. Todos os dias, tem de fazer uma auto-avaliação antes de se deitar e marcar com uma cruz as tarefas realizadas. No fim-de-semana, fazemos o ponto de situação. Se tiver sido uma boa semana, terá direito a um prémio (mais uma hora de videojogos, escolher um passeio, escolher o bolo da semana, etc.). Se tiver sido uma má semana, terá um castigo (menos tempo de televisão, um ditado, etc.). A ideia não é apenas recompensá-lo ou castigá-lo, mediante o comportamento. O objectivo do quadro é ajudá-lo a lembrar-se das suas tarefas diárias, visualizando-as, para que progressivamente consiga voltar a organizar-se de forma autónoma. Vamos no terceiro dia e as melhorias são notórias. A principal mudança, para mim, foi vê-lo recuperar o sorriso. Não há dúvida de que as crianças precisam mesmo de regras e de limites, mas as coisas funcionam bastante melhor se forem eles próprios a autodisciplinarem-se. Por aqui, esperamos ansiosamente que daqui por uns tempos nada disto seja preciso e que tudo volte ao normal. À realidade banal dos nossos dias, em que o mimo é doseado com disciplina, em que as crianças não são compradas com doces, em que cada um tem direito à sua individualidade. E à paz de espírito.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Podia ser eu, podíamos ser nós

(porque até para nascer é preciso sorte)


 

Vivi a semana que passou numa espécie de nuvenzinha de felicidade. Posso dizer, sem sombra de modéstia, que estava toda ufana. Verdadeiramente orgulhosa da minha pequena pessoa. Consegui cumprir o objectivo a que me propus há três anos atrás, quando cheguei a este país.

Inscrevi-me na Commune de Manhay no dia 28 de Agosto de 2012, iniciando o pedido de autorização de residência na Bélgica. Foi um processo longo e moroso. Não tinha nada a meu favor. Emigrei sozinha, sem familiares por perto. Aluguei uma casinha totalmente vazia numa aldeia perdida nas Ardenas, que não fazia ideia de como iria conseguir pagar. Não tinha emprego. A minha conta bancária não me dava grande margem de manobra. Trazia comigo dois filhos de 11 e 5 anos que não falavam a língua. Embora tivesse a autorização paterna, a guarda não estava legalmente definida.

O meu dossier era complexo, do ponto de vista burocrático. Eu não reunia nenhuma das condições exigidas pela Administração. Mas tive a intervenção divina da fé humana, por assim dizer. Tive um bocadinho de sorte e, principalmente, as pessoas certas à minha volta. Pessoas boas. Gente que acreditou em mim e que decidiu fazer o que estava ao seu alcance para me ajudar. Um conjunto eclético de pessoas que fez toda a diferença. Não tenho qualquer dúvida de que foi o factor humano que fez a balança pender para o meu lado. Para o nosso lado. Quando tudo o resto falha, só a humanidade nos salva. A solidariedade.

O primeiro amor de adolescência que me surpreendeu no aeroporto, quando aterrei neste país completamente perdida com duas crianças pela mão e uma mala imensa. A família do coração, que me deu guarida inicialmente e me ajudou a encontrar casa. Vizinhos-que-depressa-se-transformaram-em-amigos, que a vida se encarregou de pôr no meu caminho no momento em que mais precisava. Que durante meses apareceram lá em casa, às horas mais estranhas, com móveis e comida e recortes com ofertas de emprego e tarecos vários. Profissionais que generosamente ofereceram muito mais do que o seu profissionalismo. Com a distância dos anos, pode parecer irrisório a quem nunca passou por esta reconstrução de vida. Pela parte que me toca, sei que tenho uma dívida de gratidão para com todas estas pessoas. O garagista que me emprestava o carro sempre o velho Saxo avariava. Os professores e funcionários da escolinha de Malempré que receberam os meus filhos com um afecto sincero. O agricultor que tantas vezes me tirou da neve com o tractor. A proprietária do albergue que me deixou lavar lá a roupa, enquanto não tive dinheiro para comprar uma máquina. O professor de trompete que dava aulas ao Diogo em nossa casa para me poupar um trajecto semanal. O advogado sui generis, que esperou eu arranjar emprego para lhe pagar. A funcionária da secundária de Spa que aldrabou a papelada para eu receber os primeiros salários na conta de uma vizinha, até ter os meus documentos em ordem. A vizinha que adiantava o ordenado uns dias sem que eu soubesse. O médico de família que me confortava dizendo que todas as maleitas de que padeci no primeiro Inverno mostravam que o físico era mais frágil do que o psicológico, mas que o segundo haveria de ganhar. E que desencantava sempre amostras de medicamentos para eu não gastar dinheiro.

E a pessoa mais especial de todas. A senhora encarregue do serviço de estrangeiros da Commune de Manhay, que moveu mundos e fundos para eu obter a autorização de residência neste país, contra todas as expectativas. Que foi arranjando maneira de ir adiando o processo até eu conseguir reunir todas as condições necessárias. Que celebrou cada nova conquista connosco. E que me telefonou num dia de folga a dar a boa notícia. O pedido de residência tinha sido aceite. No fim, pediu-me que aguentasse três anos. Os três primeiros anos. O período mais difícil para um emigrante. Depois, seria uma cidadã de direito próprio, com acesso a todas as ajudas sociais que qualquer belga pode usufruir no seu país. Depois, já me podia acontecer qualquer coisa na vida, que nunca mais ficaria “sem rede”. Eu e os meus filhos. Prometi-lhe que iria conseguir, que tivesse confiança em mim. Em nós.

No dia 28 de Agosto de 2015 fui à Commune de Manhay. Assim que me viu, fez-me um sorriso enorme. Ralhou comigo por não ter dado mais notícias, desde que nos tínhamos mudado para a Commune de Vielsalm. Mas que sabia por portas e travessas que estava tudo bem. E eu anunciei orgulhosa que o prazo inicial de três anos tinha finalmente terminado. Que tinha conseguido. O contrato de trabalho efectivo. A guarda definitiva dos miúdos, que estavam perfeitamente adaptados e felizes. Que pareciam outros. O meu amor, que entrou nas nossas vidas quando este longo processo terminou. E que aqui continua. A casa dos meus sonhos. Uma vida nova. Consegui construir uma vida nova neste país, que me acolheu há três anos atrás, onde me sinto muito mais realizada. Ela voltou a sorrir e deu-me os parabéns. Disse que é sempre bom ver histórias com um final feliz. Que infelizmente nem sempre é possível. Que ultimamente, com a quantidade de refugiados que esta zona tem recebido, tem sido muito complicado de gerir. Há vidas miseráveis, pelas quais ela nada pode. O sorriso desapareceu. Deu lugar a um olhar triste. Indicou-me discretamente com o queixo um cantinho da sala onde aguardavam umas quantas pessoas negras. Na minha altivez, nem as tinha visto. E senti-me envergonhada. O orgulho desvaneceu-se. Podia ser eu. Podíamos ser nós.

A vaga de pessoas que arrisca a própria vida e a dos filhos para tentar romper as fronteiras bem estabelecidas e confortáveis desta nossa velha Europa já não é apenas constituída por refugiados de guerra, como antigamente. Mas são refugiados políticos, sim. De séculos de políticas ocidentais de exploração mercantilista. São refugiados da pobreza, das condições mínimas de vida. São refugiados da fome. Da ausência de cuidados médicos. São refugiados da falta de oportunidades. Do desemprego. Da privação do direito à escolaridade. Do desalento. São refugiados iguais a mim, que em desespero de causa também arrastei os meus filhos para esta aventura sem ter um plano B. Apenas com a convicção profunda de que os nossos destinos não estão escritos à partida. De que todos temos direito a uma vida melhor, seja lá onde for. Esteja ela onde estiver. E de que a minha obrigação como mãe era lutar para lhes conseguir garantir um futuro melhor. É tão simples quanto isto. A única diferença é que eu tive a sorte de nascer num cantinho na Europa. Pude pegar no meu carro e partir. Enviar os meus filhos na segurança de um avião. A única diferença é que os meus pais puderam oferecer-me um ensino universitário que me permitiu arranjar um emprego em pé de igualdade com qualquer belga. Tive sorte. Sorte à nascença e sorte à chegada a este país. Acredito que todas as pessoas fantásticas que me ajudaram a mim, individualmente, nos confins das Ardenas belgas, teriam ajudado qualquer mãe sozinha com dois filhos. Uma mãe síria, egípcia, eritreia, afegã. Uma mãe qualquer. Mas também acredito que ninguém teria ajudado milhares de portugueses que aqui desembarcassem de repente. Porque não nos iludamos, desde que a crise nos bateu à porta, os portugueses também têm estado a emigrar em massa para o estrangeiro. É a debandada. Já não “dão o salto” como nos anos 60, porque deixou de haver fronteiras. A nossa sorte – a sorte dos milhares que anualmente saem do país – é que nos vamos espalhando e diluindo no tecido europeu. A nossa sorte é que somos todos brancos, vestimo-nos “à ocidental” e temos facilidade em aprender novas línguas. A nossa sorte é que somos uma nação de emigrantes com uma capacidade de adaptação e integração fora do comum. Ninguém dá por nós. Mas se fôssemos milhares a acossar os muros de arame farpado que vão crescendo para proteger a tranquilidade europeiazinha também seríamos corridos a jactos de água. Podia ser eu. Podíamos ser nós. Essa é a vergonhosa constatação que tiro de ter orgulhosamente alcançado a plenitude dos meus direitos de cidadã a viver na Bélgica, ao fim de três anos de camuflagem e solidariedade.