quarta-feira, 28 de junho de 2017

A emissão volta dentro de momentos

(onde se vai sem data de regresso)


Este ano lectivo foi muito difícil por diversos motivos. O final do ano foi especialmente dantesco. Estou bastante contente com o desempenho dos rapazes. Na escola e nas suas mil e uma actividades. Mas não estou satisfeita comigo própria. Algo falhou, sinto que andei meses a tentar acompanhar o ritmo sem conseguir. Impõe-se um período de reflexão.

Este ano decidimos ir de férias ainda antes do final das aulas. Ambas as escolas deram a sua autorização. Suponho que a minha cara de morta-viva deve ter ajudado. O meu amor organizou tudo, dentro do espírito que tinha ficado acordado no Verão passado: dar a conhecer o nosso país aos rapazes, antes de continuarmos a mostrar-lhes mais terras longínquas. E, pela primeira vez, partir juntos à descoberta de uma nova paisagem. A escolha foi fácil, dado que o meu amor ainda não conhecia os Açores. Nós também não.

As férias, este ano, querem-se "férias" no verdadeiro sentido da palavra. Ou seja, muito tempo no mesmo sítio. Tempo para ler. Para estarmos juntos. E sozinhos também. Tempo para descansar. Não quero visitar um sítio novo, tirar meia dúzia de fotografias e partir a correr para o próximo. Quero estar. Mais do que ver, quero observar. Com calma, tempo e paz. Sem a obrigação de limpar a casa e cozinhar. Enfim, férias.

Depois de uma paragem em Lisboa para matar saudades da família e dos amigos, eis-nos, então, em São Miguel. A emissão volta dentro de momentos.

Na minha Commune

(onde a vida floresce e se cuida da natureza)


Digo muitas vezes que me volto a apaixonar por este país todos os Outonos, quando a natureza nos oferece um espectáculo de cores lindíssimo. Mas também poderia perfeitamente dizer que me volto a apaixonar pela minha commune todos os Verões. Quando o calor aparece ainda meio tímido, Vielsalm renasce. As entradas e os parapeitos das casas enchem-se de flores. A câmara instala canteiros nas ruas e no cimo dos candeeiros. E hotéis para insectos. Os monumentos dedicados às duas Grandes Guerras são limpos e engalanados. Como todas as vilas e aldeolas perdidas das Ardenas, Vielsalm também sofreu muito com a guerra e a memória quer-se bem presente nas novas gerações. Os miúdos voltam a andar em grupos pelas ruas, vinte ou mais em fila, com um só professor à cabeça. É normal a escola vir para a rua, quando o tempo assim o permite. Vão ver exposições, buscar livros à biblioteca, fazer ginástica em frente ao lago ou simplesmente passear. No outro dia, a directora da escola do Vasco invadiu a esplanada em frente à nossa casa com os pequeninos da creche para comer um gelado. Os pais nunca são avisados destas saídas e é sempre engraçado deparar-me com o Vasco a meio do dia, sem estar à espera.

Este ano, houve novas alterações que me agradaram especialmente. Todo o caminho à volta do lago foi arranjado. Construíram espaços de piquenique, bancos de madeira com canteiros e instalaram maquinetas para fazer exercício. Apesar de correr por ali quase diariamente, ainda não tive coragem de os experimentar… contrariamente aos velhotes todos da commune! Na zona do lago dedicada à pesca, construíram um espaço específico para as cadeiras de rodas, abrindo a actividade a um novo leque de utilizadores normalmente afastados destas lides. Além disso, ao longo das ruas, foram criadas hortas públicas com ervas aromáticas e pequenos legumes biológicos, onde a população se pode servir. Segundo me explicou um trabalhador da câmara oriundo de um centro de refugiados, há um cuidado especial em manter os insectos e abelhas da commune durante a época de polonização, pelo que não são utilizados quaisquer pesticidas. E eu que pensava que as flores que nos invadem nesta época eram apenas uma questão estética!










terça-feira, 20 de junho de 2017

Uma acusação parva, quatro respostas idiotas possíveis

(porque acabei de receber por SMS uma fotografia 

e uma queixa da mãe de um colega do Vasco, 

a dizer que tenho mesmoooo de falar com o meu filho selvagem)



a) Não te passou pela cabeça perguntar ao teu filho como raio é que o Vasco conseguiu mordê-lo na axila?! É que quando se aperta a cabeça de alguém com força debaixo do braço arriscamo-nos a que a pessoa se defenda com a única parte do corpo que tem livre… os dentes!

b) É uma pena a mordidela não ter sido mais forte. Gostava de mandar essa fotografia à ortodontista do Vasco para lhe dar os parabéns pela magnífica mandíbula superior. Afinal valeu bem o investimento dos quatro aparelhos dentários, caraças!

c) Estás cheia de sorte que o Vasco não sabe andar à bulha e defende-se como um miúdo pequeno. Estou cá desconfiada que outro Tuga qualquer de 10 anos lhe teria mandado dois belos sopapos nas trombas só para início de conversa.

d) É que dá insistirem em meter o miúdo na bola! Ele já te disse várias vezes que quer ir para o ballet com o Vasco, mas vocês acham que o futebol é que é um desporto de homens… Mal por mal, ponham-no nas artes marciais. É másculo e ainda aprende imobilizar por completo uma pessoa dos pés aos dentes à cabeça!

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Quando as palavras não chegam

(porque há momentos em que só a música nos salva)



Apetece-me escrever o que me vai na alma, mas as palavras têm dificuldade em sair. Em articular-se. Estou farta de ver a floresta em Portugal a ser dizimada por incêndios no Verão. Tal como estou cansada dos atentados que propagam o medo tão perto de nós, nos últimos tempos. Tantas vidas ceifadas. Aos poucos, aprendemos a ser indiferentes. A seguir com a nossa vida, como se nada fosse. Deixamos de pedir notícias à família espalhada por essa Europa fora quando algo acontece, convictos de que nunca serão os nossos. E suspiramos de alívio porque, apesar de tudo, nos sentimos seguros nesta terriola nos confins das Ardenas. Não sei o que será pior: a calamidade ou a nossa própria indiferença e tranquilidade por nos sabermos a salvo… Até quando?

Não tenho por hábito mostrar os meus filhos a tocar, porque acho que as crianças não são macaquinhos de circo. Mas hoje abro uma pequena excepção. O Diogo foi dispensado do exame de órgão em Abril, por estar numa visita de estudo em Oxford. No final deste segundo ano, teve por isso de apresentar quatro músicas na audição. É o único instrumento que o filho crescido consegue tocar sozinho em público. Não está em palco a dar espectáculo, está numa igreja a falar com ele próprio. Não está a exibir-se virado para a assistência, está face a face com o mais belo instrumento. No final, o director da Académie deu os parabéns aos dois jovens músicos, o Noé e o Diogo. Pela excelente prestação mas, principalmente, por serem uma pequeníssima minoria (por coincidências da vida são ambos portugueses e têm um percurso de vida muito semelhante). O órgão de igreja não é um instrumento popular entre os adolescentes. É preciso ter coragem para ser diferente e lutar contra o mainstream. E força de vontade para ter aulas numa igreja fria, em pleno Inverno. Para além da humildade de se não se poder mostrar a ninguém o que se faz no recolhimento daquele espaço sagrado.

Poder-me-ão perguntar qual a relação entre as catástrofes que nos assolam e o órgão de igreja (para além do facto de acreditar que a música é salvadora, nestes momentos). A resposta, para mim, está na educação. De uma maneira ou de outra, estou convencida de que só conseguiremos mudar de paradigma educando as novas gerações para pensarem “fora da caixa”. Sozinha não consigo fazer nada para travar o aquecimento global. Ou para combater o terrorismo. Provavelmente, a única coisa que poderei fazer é educar os meus dois rapazes para serem anticonformistas, para não terem medo da diferença. Para pensarem pela sua própria cabeça. Para serem conscientes e defenderem o planeta que os alberga com todas as suas forças. Para serem empáticos, para se tentarem sempre pôr no lugar do outro. Para serem altruístas e porem o bem maior acima das suas próprias necessidades comezinhas. Para criarem pontes entre povos, culturas, línguas, países. Para terem uma mente aberta, sã, liberta, evoluída. Sobretudo, para serem imaginativos. Acho que estamos desesperadamente a precisar de pessoas com imaginação. O mundo tal como o conhecemos está a deixar de fazer sentido, mas nós continuamos todos cegamente agarrados a uma forma antiga de fazer. De ser e de estar. Não sou nada defensora do “na minha época é que era”. A minha geração está a chegar ao poder. Já detém inúmeros cargos de chefia e posições importantes. E, salvo raras excepções, é uma desilusão. Possamos, pelo menos, ser bons educadores para que as coisas mudem daqui por uns anos.


quinta-feira, 15 de junho de 2017

A ler com atenção

(quando um profissional que muito respeitamos chama a atenção

 para os perigos da “moda” da alienação parental)



Roubado a Clara Sottomayor.
Isto é muito preocupante e repito o que já disse aqui e no O Amor é...: claro que há mulheres - e homens! - que manipulam crianças na sua luta contra o outro progenitor, todos os envolvidos no processo devem ter a preparação e o empenhamento necessários para avaliar as situações. Mas quando se começa a decidir baseados em diagnósticos e rótulos, ainda por cima discutíveis e discutidos, a injustiça espreita em cada esquina . E os números referidos no artigo são impressionantes...
By Marisa Endicott, Common Sense News When Jaclyn moved to Ohio with her two young children, she thought she could begin a new life. She and her hu...
HUFFINGTONPOST.COM

Eis um cheirinho do artigo…

“One three-year study is looking at thousands of cases involving abuse, custody and alienation. A preliminary examination of 238 cases indicates that fathers accused of abuse (adult or child), who in turn accused the mother of alienation, won their cases 72 percent of the time. They won 69 percent of the time when child abuse was alleged and 81 percent of the time when child sexual abuse was alleged. In the seven cases where judges credited both abuse and alienation in the ruling, the father won every time. When the court credited abuse but not alienation, fathers only won 16 percent. The researchers defined winning as any time the litigants received some or all of what they requested, ranging from more visits to full custody.”

domingo, 11 de junho de 2017

Dezasseis anos de filho grande

(porque se não fossem aqueles olhos escuros iguaizinhos aos meus 

e o amor infinito que lhe tenho,

duvidaria que é mesmo meu filho)




Defende ideias de direita. Mesmo muito à direita. Tanto, tanto, tanto, que chega a tocar ligeiramente à esquerda sem se aperceber.

Tem valores morais inalcançáveis. Conservadores, como se pode calcular.

A língua afiada é de crítica fácil. O decote daquela é demasiado pronunciado. Aquele vem das barracas. O comportamento do outro é deplorável. Acolá está um bando de bêbados.

Adora a escola. Sabe-lhe sempre a pouco. Por ele, encurtava as férias todas pela metade. Ainda assim, seria imenso. Defende a rigidez do regulamento interno com a vida. A autoridade docente também é inquestionável. Relembra as datas dos testes e nunca deixa passar os trabalhos de casa em branco. É o terror dos colegas, excessivamente imaturos e palermas.

Abomina a adolescência tresloucada. A que é passada em noitadas de bebedeira, deboche e drogas. A adolescência perdida, desinteressante e ridícula. Mal-amanhada. Mal vestida. Ignorante. Que só sabe escrever textos encriptados, numa espécie de linguajar infantil sintetizado que aboliu as vogais.

A música moderna devia ser erradicada do mundo. Tal como a televisão, que nos tenta manipular sub-repticiamente. E a superficialidade da comunicação social.

Aguarda ansiosamente o regresso dos serial killers que lhe irão garantir um emprego no futuro. Enquanto isso vai devorando livros de crimes. Reais ou ficcionais, tanto faz. As profundezas da maldade humana atraem-no.

Quando adora uma pessoa, os seus defeitos são “queridos”. Mas se alguém cai em desgraça é incapaz de perdoar. A traição é o pior defeito do ser humano.

Tem uma sensibilidade exacerbada ao erro ortográfico, que corrige compulsivamente. Nada escapa ao crivo do seu lápis azul: SMS da namorada, comentários dos amigos no Facebook, cartas de amor da namorada do irmão, artigos de jornais…

É sobranceiro e altivo. Elitista. Arrogante. Superior.

Detesta mudanças, transformações, reviravoltas. O mundo devia ser imutável. A ordem dos objectos fixa. A mínima modificação consegue deixá-lo fisicamente maldisposto. Seja uma cadeira fora do lugar, um quadro ligeiramente torto ou um bloco de folhas desordenadas.

Ostenta com orgulho uma certa forma de pudor. O corpo não deve ser demasiado exposto (muito menos tocado). As manifestações de afecto querem-se discretas. As emoções exacerbadas e demonstrativas são sintoma de fraqueza humana.

Tem um sentido estético apuradíssimo. A indumentária é sinal de distinção. As marcas não são importantes, a originalidade também não. A excentricidade assusta-o. Há que ser discreto.

Gosta muito de viajar e de conhecer novos mundos. Novas culturas. Tem imensa curiosidade perante a diferença. Apesar disso, o melhor de tudo é voltar a casa. Ao refúgio imutável e seguro.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Ninguém me encomendou este fado

(onde se passa momentaneamente para o lado de lá)



Nestes últimos cinco anos, tenho ouvido todo o tipo de pergunta. A nossa vida parece suscitar curiosidade. A temática da emigração é recorrente. Questionam-me sobre a Bélgica, as diferenças entre os dois países, a problemática do bilinguismo, a distância da família, as saudades que sinto dos amigos, o isolamento… Às vezes, perguntam-me como é educar dois rapazes sozinha. O meu amor também é alvo de atenção. A nossa relação a quatro, que está a anos-luz da típica família recomposta. Muito raramente me questionam sobre a relação do Diogo e do Vasco com o outro lado. E eu agradeço o respeito pela privacidade dos meus filhos. No entanto, penso que seria interessante inverter esta questão. Ou seja: que tipo de mãe seria eu se estivesse do outro lado? Esse assunto atormentou-me largos meses, durante a disputa pela guarda do Diogo, em 2014. Estranhamente, nunca ninguém me fez essa pergunta. Talvez preferíssemos todos manter a esperança de que ambos os rapazes ficariam comigo na Bélgica e ninguém quisesse imaginar cenários derrotistas. Excepto eu e a minha mente atormentada. Passei muitas noites acordada a pensar no que faria, caso o Diogo fosse viver para Portugal. Felizmente, tal não aconteceu e já esquecemos esses tempos negros. Amanhã, o filho crescido faz 16 anos. Pela primeira vez, pediu expressamente para não receber a visita do outro lado. A sua vontade foi respeitada. Mas hoje, ao espreitar pela terceira vez a caixa do correio vazia, fiquei com a sensação de que a sua vontade foi também castigada. E voltei a pensar no que eu faria, se fosse o progenitor que está longe.

Acredito que é possível contrariar o paradoxo de nos mantermos presentes na vida de um filho que está longe. A distância pode ser colmatada de diversas formas. Não será o ideal, mas é exequível. Assim haja vontade de ambas as partes e – o mais importante – assim o progenitor em questão tenha capacidade para se apagar e pôr os filhos em primeiro lugar. Não vale a pena seguir cegamente a lei e obrigar toda a gente a viver no medo. Não vale a pena obrigar os filhos a falar todos os dias a determinada hora, só porque é o que está estipulado legalmente. Principalmente, se esse tempo for usado para falar do trabalho do progenitor, dos resultados da bola, do tempo que faz em Portugal e da vida de outras crianças que entretanto apareceram. A longo prazo, o que vai acontecer é que os miúdos vão associar esses telefonemas a uma obrigação isenta de prazer. E, quando perceberem que o tal medo instituído era meramente fictício, deixarão de atender o telefone. Nesse momento, já não haverá lei nem presença física que valha para reconstruir a relação filial. O telefone é um excelente meio de comunicação, mas a partir de certa idade deve ser deixado a cargo dos filhos. Quando um filho tiver algo importante para dizer, liga. Até lá cabe ao progenitor distante fomentar a vontade de falar. Se pensarmos bem, não é assim tão difícil… Mandar uma mensagem a dizer que se está em tal sítio e se lembrou de uma história divertida passada. Partilhar um post qualquer interessante no Facebook, o trailer de lançamento da série preferida, o cover de uma música que o filho gosta especialmente, um artigo que possam posteriormente discutir, etc. Hoje em dia, há tantas redes sociais que se torna fácil manter em aberto diversos canais de comunicação. Por que não manter um blog fechado para trocarem impressões e fotografias? Verba volant scripta manent. Além do mais, a escrita tem a vantagem de colmatar lacunas na língua materna dos filhos que estão a crescer num país estrangeiro.

Cada vez mais, as pessoas parecem centrar-se unicamente no imediatismo do contacto humano. Mas o Skype ou o Facetime diários nunca poderão substituir um postal ou uma carta mais longa (a escrita… novamente, a escrita!). Mostrar o crescimento de alguém através do iCoiso não substitui fotografias actualizadas que poderão ser revistas e, inclusivamente, mostradas aos amigos na escola. Tal como, mais importante do que dizer que se comeu este ou aquele prato num novo restaurante (ou em casa de familiares), é enviar por correio um produto português qualquer que os miúdos apreciem. Quem está longe sabe a alegria que é receber um chapelinho de chocolate da Regina, uma farinheira ou uma caixa de "Chocoflakes". Ou outra coisa qualquer. Não é só pela comida, como é evidente. É também pelo facto de sabermos que somos importantes, que alguém pensou em nós, que nos conhece os gostos e os anseios. No ano em que estive na Bélgica, recebia frequentemente cassetes, livros e jornais. Por vezes, uma peça de roupa. E cartas… recebi centenas de cartas, que guardei anos a fio com imenso carinho. Não percebo por que diabo não se pode continuar a enviar estas coisas por correio. A Fnac, por exemplo, permite fazer entregas em países diferentes por um custo ridículo. Os jornais e os livros ainda não se tornaram obsoletos! Obviamente, convém que os periódicos confirmem a versão cor-de-rosa do que dizemos passar-se no jardim à beira-mar plantado…

Por outro lado, uma das vantagens da sociedade actual é a democratização dos preços das viagens de avião. Que tal apanhar um avião em cima da hora para fazer uma surpresa aos filhos? Basta activar um alerta nos principais sites de voos low cost para receber notificações automáticas, quando houver bilhetes a preços convidativos. No ano em que o meu amor esteve em Itália, raramente gastava mais de 70 euros nos voos ida e volta. Normalmente, comprava-os com bastantes meses de antecedência, mas também aconteceu aproveitar lugares de última hora. Dir-me-ão que os hóteis são caros… Mas pode-se sempre alugar um airbnb, que também permite poupar nas refeições. De qualquer modo, o que interessa mesmo é o tempo passado juntos a construir memórias. Não me parece que os miúdos se importem de andar de transportes públicos ou de dormir em casa de alguém. Faz tudo parte da “aventura”, assim o progenitor que está longe esteja disposto a deixar cair a imagem de pessoa abastada e séria. A vantagem de se viver no centro da Europa é que depressa se está noutro país vizinho. Talvez inclusivamente se possa aproveitar a viagem para dar a conhecer novos mundos aos filhos. O tempo em família é essencial para se criarem novas dinâmicas, mas o tempo passado em exclusivo com os filhos é a base de toda a relação filial futura. Acredito que esta dedicação dará os seus frutos um dia mais tarde (ou a falta dela).

A verdade é que os miúdos crescem demasiado depressa. Num abrir e fechar de olhos, a divisão das férias deixa de lhes convir. Acredito que as concessões serão sempre mais benéficas do que as obrigações. Quando as imposições legais desaparecerem, vamos basear-nos em quê? Nas hipotéticas obrigações morais? Na simples chantagem emocional? Mais tarde ou mais cedo, os verdadeiros sentimentos virão à tona. Em vez de obrigar os filhos a passar quinze dias na Páscoa fechados em casa (ou, pior, a saltar por diferentes casas de familiares), por que não aceitar que venham apenas metade do tempo, desde que venham felizes? Há que deixar que, a dada altura, a vida deles seja o centro de tudo. Que tal compensar com visitas mais frequentes? É normal que os miúdos queiram mostrar a vida deles, os amigos deles, as namoradas deles, as actividades deles, a escola deles. O país deles, porque é ali que vivem e se estão a construir como pessoas. Os filhos não têm culpa se um dos progenitores foi viver para longe. Ignorar essa parte das suas vidas é ignorá-los a eles. E ignorar a sua identidade, que será sempre dúbia. Mais importante do que férias forçadas é assistir a concertos de música, estar presente naquele exame mais difícil, levá-los àquela estreia tão aguardada. Se o sonho de um filho é visitar um museu que fica apenas a 4 horas de distância do local onde vivem, custa assim tanto ao pai ausente levá-lo lá? Fará algum sentido oferecer uma entrada à pessoa que está com ele todos os dias para o levar? Até que ponto a guerra que movemos contra o outro progenitor nos impede de vermos o quão importantes são os nossos filhos? Quando há amor, “não há longe nem distância”.

[ Ninguém me encomendou este fado, é certo. Mas o Diogo faz 16 anos amanhã e, se eu fosse o progenitor que está longe, insistiria numa visita noutra data, no final dos exames. Ou antes, era indiferente. Insistiria em levá-lo a passear. Pelo menos, teria enviado uma carta bonita. E teria encomendado o iPod que ele tanto quer, para entregar em casa dele. Independentemente do sítio onde ele estivesse. ]

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Agente imobiliário em potência

(onde se percebe que o Vasco é um bocadinho mórbido)



Estávamos no cemitério com o meu “pai belga”, o homem mais crente que conheço. Pareceu-me um local feiinho e sem graça, mas abstive-me de fazer comentários. O facto de ficar colado à igreja de Santo António basta-lhe. Diga-se em abono da verdade que a igreja também deixa muito a desejar. É demasiado moderna. Paredes brancas, caiadas. Deslavadas. Vitrais de cores primárias, que retratam cenas seculares de forma contemporânea. Quase abstracta. Até o órgão é electrónico. Tudo aquilo me enoja. É claustrofóbico. O cheiro deixa-me maldisposta. Esforço-me por encontrar algo simpático para dizer. Sei o quanto adora aquele lugar, onde se recolhe diariamente para rezar. E onde insiste em levar-me com frequência. Sabe-se lá porquê, Santo António divide alegremente o altar com Santa Rita. O que, aos seus olhos, parece ser motivo suficiente para me fazer gostar daquela pequena igreja. Precisamente aquela. Embora eu seja ateia. Mas esse sempre foi o nosso ponto de discórdia. Passamos horas incontáveis a discutir assuntos celestes. Ou terrestre, depende da perspectiva. Honra me seja feita, sou bastante diplomata nos meus argumentos. Infelizmente, o mesmo não se pode dizer do meu filho pequeno, que desta vez nos acompanhava. Estacámos em frente a um espaço relvado.

Papi: Reservei esta sepultura. Quero ser enterrado exactamente aqui.
Vasco: E já o experimentaste?
Papi: Como?!
Vasco: Sim, já te deitaste aqui para ver se o lugar é mesmo bom? Se é confortável, se te sentes bem...
Papi: Ehhh... não.
Vasco: Compraste um lugar para seres enterrado para todo o sempre sem experimentares primeiro?
Mãe (a tentar mudar rapidamente de assunto): Acho que escolheste muito bem, este lugar é melhor do que aqueles ali ao fundo.
Vasco: Lá isso é verdade, papi! Aqui, a vista é melhor! E é mais espaçoso!
Papi: Pois, ali ficam as sepulturas das crianças.
Vasco: Boa, vou já lá deitar-me para experimentar o meu lugar!

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Sempre foste andar de balão, Rita?

(onde o mundo desaba em cima das nossas cabeças)



Sábado amanheceu quente e ensolarado. Muito quente e muito ensolarado. Aliás, esta semana as temperaturas mantiveram-se excepcionalmente elevadas para a época e para o país em questão (e, se quisermos ser mesmo rigorosos, para a região das Ardenas onde nós vivemos). Daí o nosso espanto quando o meu amor recebeu um SMS da Montgolfiere.be a dizer que o voo do dia seguinte tinha sido anulado, porque havia risco de trovoada. O meu belga andava a acompanhar o estado do tempo há uns dias num site para malta especializada que percebe destas coisas (já vos disse que, para além de marinheiro, o meu amor também é piloto privado?). De facto, anunciavam tempestade para o final da tarde… mas o nosso voo era ao nascer do dia. Ficámos desolados. Quer dizer, eu fiquei desolada. O meu amor ficou possesso. Parece que o voo incluía champanhe, entre outras pequenas surpresas.

Durante todo o dia, o tempo manteve-se bom. Um céu azul e limpo como é raro ver por aqui. O sol brilhava. E estava mesmo calor! À noite, o Diogo deu o seu primeiro concerto com a Filarmónica e voltámos para casa de madrugada, sem precisarmos de vestir os casacos. Feito completamente inédito, por aqui. Olhei espantada para o céu estrelado… parecia impossível que aquela gente anulasse o meu voo por causa de uma hipotética tempestade!

Mas, depois, domingo amanheceu meio cinzento. Um calor abafado. E, passado pouco tempo, deu-se o dilúvio. Ainda bem que eu estava com os pés bem firmes em terra!


segunda-feira, 22 de maio de 2017

Desmancha-prazeres

(onde se estraga a surpresa ao primeiro indício)



O meu amor andava há semanas muito misterioso, a dizer que tinha uma surpresa preparada para os meus anos. Por mais que eu repetisse que este ano não queria festejos, percebi que o homem estava decidido a fazer algo em grande. Não acho nada de especial fazer 41 anos… parece uma coisa meia deslavada. Fartei-me de lhe explicar que queria passar directamente dos 40 para os 42, que já me parece um número mais jeitoso. Uma idade gira. Tipo, mais madura. Mas, não. Tanto tenho pregado a ideia das “prendas-experiência”, que o meu amor decidiu aderir ao conceito contra a minha vontade.

Ontem, lembrou-se finalmente de dar as primeiras informações para o bom desenrolar da surpresa, no próximo fim-de-semana. A ideia era apenas organizarmo-nos, uma vez que o Diogo vai tocar com a filarmónica na noite anterior. “No domingo, temos de sair de casa às 5h30 da manhã...”, começou o meu amor. E eu gritei de imediato: “Vamos andar num balão de ar quente!!!”. Fez-se silêncio à mesa. Os rapazes ainda olharam para o meu amor à espera que ele negasse. Mas o Belga ficou calado. Decididamente, estou a ficar mesmo boa nisto!

Coisa pequena ficou absolutamente incrédula. Assim, um misto de espanto e de medo. A raiar o transcendente. Cheira-me que vou conseguir manter a minha reputação de mãe-adivinha por mais uns tempos. É de dizer que, no outro dia, logo após a primeira jogada do Cluedo, eu atirei: “Foi o Coronel Mostarda, na sala de estar, com o candelabro”. E não é que acertei?!

quinta-feira, 18 de maio de 2017

A interminável saga das aventuras capilares

(onde se tenta fazer uma boa acção e se fica irreconhecível)



Como já aqui disse, decidi aproveitar a reviravolta que aconteceu na minha vida para realizar sonhos e desvarios. Ora há muito tempo que acalentava o desvario de doar o meu cabelo à Think Pink, uma espécie de liga contra o cancro aqui do burgo. O mínimo era 20 centímetros. Depois de muito pensar, achei que com um bocadinho de esforço conseguiria chegar aos 30 centímetros. É certo que o meu cabelo cresce depressa, mas tenho a sensação de que demorou séculos. Nos últimos seis meses comecei a ficar mesmo farta, confesso. Já não aguentava ter o cabelo tão comprido, que exigia imensos cuidados para o manter o mais saudável possível. De modo que aproveitei a onda de mudança e fui ao cabeleireiro. Descobri na Net um salão aderente não muito longe de Vielsalm. O corte era gratuito e o envio ficava por conta deles.

Sábado de manhã, lá fomos. O meu amor quis estar presente para dar apoio moral e a coisa pequena veio atrás, sempre pronta para novas aventuras. O filho crescido ficou amuado em casa, pois desde o início manifestou-se veementemente contra (e acreditem que isto é um eufemismo). Demorámos bastante tempo a encontrar o cabeleireiro. O GPS bem repetia que tínhamos chegado, mas nós não víamos nada. Excepto campos e vacas a perder de vista. Até que decidimos estacionar em frente a um curral e explorar a zona. O estranho cabeleireiro ficava num anexo da quinta. Entre o curral e a casa, para ser mais precisa. A cabeleireira veio a correr abrir a porta, à hora marcada. Trazia uma criança adormecida nos braços e queixou-se que era a mulher dos sete ofícios. Olhando para trás, percebo que era a minha deixa para fugir. Infelizmente, pensei que ser cabeleireira (e proprietária de um cabeleireiro-anexo) seria um desses ofícios.

Três rabos-de-cavalo de 30 centímetros foram diligentemente medidos e cortados. O restante cabelo ficou ligeiramente acima dos ombros. Perfeito! Era exactamente o que eu queria. Estranhei a cabeleireira não lavar o cabelo e começar às tesouradas por ali afora. Ainda tentei dizer que gostaria de pagar o corte, apesar de saber que fazia parte da campanha “Coup d’éclat” da Think Pink. A senhora contrapôs e continuou a cortar. Zás, zás, zás! Quando dei por mim, tinha o cabelo cortado a viés. À esquerda, acima do ombro… à direita, pelo queixo. A medo, perguntei: “Mas não está tudo torto?”. Respondeu-me que era propositado. Era um corte “destruturado”. Olhando para trás, percebo que era a minha segunda deixa para fugir. Mas limitei-me a engolir em seco e explicar que gostava de estrutura na minha vida, a começar pelo cabelo. A cabeleireira cortou o lado mais comprido, como é óbvio. E, de uma assentada só, conseguiu igualar o horror. Saí de lá com menos 40 centímetros de cabelo. Tristíssima. O Belga dizia que adorava. O filho pequeno também. Só tive uma opinião honesta quando o Diogo me viu entrar em casa: estava horrorosa.

Passei o resto do fim-de-semana a perguntar ao homem se não achava que o corte estava todo torto, mas ele garantia que não. Estava linda. Ficava-me a matar. Muito mais jovem. Dava-me um ar traquina. Enfim… Acabei por desistir. Na segunda-feira, decidi-me finalmente a pintar o cabelo. Estava a precisar, mas preferi esperar pelo corte para ter menos trabalho. A embalagem de sempre, a cor de sempre. Se houve coisa que acabei por aprender com o cabeleireiro-vidente foi a manter-me fiel a estes dois parâmetros. Fiz a aplicação como sempre. O fim de 15 minutos, passei por um espelho. Estranhei a cor estar tão escura. Corri para o espelho da casa de banho para confirmar. E, a seguir, corri para o caixote do lixo: “Garnier Nutrisse Castanho médio”. Corri para o duche… o mal já estava feito. Não sei o que raio se passou, tendo em conta que a embalagem tinha sido comprada há pouco tempo e estava fechada. Uma vez seco o cabelo, deparei-me com a Beatriz Costa. Excepto a franja. E o corte certinho.

Terça-feira de manhã, mal deixei o Vasco na escola, entrei no primeiro cabeleireiro que encontrei aberto. O meu aspecto era tão desolador que a cabeleireira aceitou receber-me naquela tarde, no meio dos outros clientes. Aqui, normalmente, só com 15 dias de antecedência. Avisou que ia tentar (frisou bem T-E-N-T-A-R) salvar a situação. Decidi confiar. O meu desespero era tão grande, que teria confiado no diabo. Apesar de tudo, fartei-me de repetir que não era uma fútil, nem nada que se parecesse. Mas que pura e simplesmente não me reconhecia. É estranho passarmos por um espelho/montra/vidro e vermos uma pessoa que não reconhecemos. Eu estava nesse estado. Para ser sincera, já tinha amaldiçoado um cento de vezes a ideia da doação de cabelo. Nem nunca vivi de perto uma situação dessas, não sei o que me terá passado pela cabeça (literalmente). Como dizia o meu filho mais velho, as senhoras com cancro ficam muito bem de lenço na cabeça. Em certas zonas neste país, grande parte da população feminina anda de cabeça coberta. Raios partam o meu espírito voluntarioso e empático.

Entrei no cabeleireiro às 14h30 certinhas. Saí de lá, já passavam das 17h. Duas cabeleireiras andaram à minha volta a tentar perceber o que se poderia fazer. Chegaram à conclusão de que tinha de me livrar daquele cabelo preto e acertar o corte. “Acertar o corte, não! Fazer um corte como deve ser…”, explicou uma delas. Tive muita dificuldade em fazê-las acreditar que não tinha sido eu a cortar os 30 centímetros de cabelo com a tesoura da cozinha. Não tenho a certeza absoluta de que tenham acreditado. No entanto, confirmaram o mistério da cor trocada. Parece que já não era a primeira vez que lhes entrava uma alma de cabelo escuro pelo salão adentro com as mesmíssimas queixas.

Começaram por me descolorir o cabelo. De permeio, queimaram-me os neurónios e o couro cabeludo. E serviram-me um café. Fiquei com a cabeça amarela. Amarela cor-de-pintainho. Depois, estive séculos com uma máscara que era suposto reparar os efeitos nefastos da descoloração. Mas continuava amarela, embora me doessem menos os neurónios e o couro cabeludo. Bebi mais um café. Entre elas, decidiram a cor que me iria “iluminar”. Aparentemente, é preciso estarmos “iluminadas” depois dos 40. Apesar de garantirem que eu estava muito longe de parecer ter 40 anos. Seja como for, parece que o facto de “iluminar” o rosto me faria esquecer o corte de cabelo. Ou a ausência de cabelo. Era ponto assente que aquilo teria de levar um jeito valente (as cabeleireiras usavam muitos “petit” para aligeirar a coisa, à falta dos nossos “inhos”). Fiquei, então, loira. Acho que estou loira. Filho crescido acha que estou loira. Os belgas (incluindo o filho pequeno, que se diz meio-belga) acham que louro é outra coisa qualquer mais clara. Para a generalidade do mundo (belga), tenho o cabelo castanho clarinho. Seja.

A seguir, veio o corte. Estava a ver que as cabeleireiras me iam tirar uma fotografia com o cabelo ensopado e penteado. Definitivamente mais curto de um lado do que do outro. Com as pontas assimétricas. E em escadinha atrás. Foram chamar outra cabeleireira para apreciar o trabalho. Até a esteticista veio lá das catacumbas ver aquele espectáculo. Para além de todas as clientes presentes. Findo o demorado conciliábulo, decidiram que a única coisa a fazer era cortar tudo por igual, exactamente do mesmo comprimento da mecha mais curta. Ou seja, por cima do queixo. Ao verem-me de lágrimas nos olhos, nem ousaram propor escadeados, degradés, franjas, nem merdas do estilo. Para pior, já basta assim, como diz a canção. Fiquei com o cabelo curto, mas direitinho. Fiquei loira e “iluminada”. Decididamente, não gosto do resultado final. Mas sei que passei uma tarde com várias pessoas à minha volta a tentar desfazer o erro da “talhante”, como apelidaram a primeira colega. Não ousei dizer que o salão-anexo ficava situado entre o curral e a casa. No final, propuseram-me um chá. E sei que aligeiraram bastante a factura, porque afinal eu “tinha apenas tentado fazer uma boa acção”.

Passaram-se uns dias. Filho crescido continua a ser defensor do uso do lenço, nos casos de cancro. Detesta ver-me assim e é de uma honestidade desarmante. Mas olha para mim com um ternurento ar de condescendência. Filho pequeno anda encantado. Já me pediu para ficar assim “para sempre”. O Belga não poupa os elogios, mas acho que é só para evitar que corte os pulsos ou parta os poucos espelhos que há nesta casa. Quanto a mim, continuo sem me reconhecer, quando me cruzo com a loira de cabelo curto. Eu sei que o cabelo cresce (e o meu cresce depressa). E sei que isto é tão fútil e desprezível, face ao que certas pessoas sofrem. Mas, pronto, estou zangada comigo mesma. Aproveitei para informar o pessoal da casa que, na próxima vez que me apetecer fazer um disparate destes, têm a obrigação de me impedir.


Disclosure: Entretanto, desafiei-os para o seguinte desvario. Infelizmente, nenhum deles pôs um travão a tempo. Tornámo-nos todos voluntários num refúgio para animais abandonados. E já passámos umas horas a passear cães. Ah… e apadrinhamos a Jasmine.


segunda-feira, 15 de maio de 2017

A mãe é deus

(porque ontem foi dia da mãe na Bélgica)



A mãe sabe que tempo vai fazer amanhã. E no fim-de-semana seguinte. A mãe é meteorologista.

A mãe consegue levar ambos os filhos a duas actividades diferentes à mesma hora. A mãe detém o segredo da teletransportação. Ou da ubiquidade.

A mãe sabe o título do livro que era preciso comprar ontem, sem que a lista de leituras tenha saído da mochila. E, como é evidente, a mãe tem esse livro na estante da sala. A mãe é previdente.

A mãe tem ingredientes e disponibilidade para fazer 35 bolinhas de frutos secos para celebrar a despedida do professor estagiário, desde que seja avisada até às dez da noite. A mãe é cozinheira num quartel.

A mãe sabe o número de telefone do colega do filho e, idealmente, da mãe dele também. A mãe engoliu a lista telefónica.

A mãe sabe sempre onde estão os ténis. A caixa do lanche. A mochila da piscina. A t-shirt preferida. As chaves. O telemóvel. E, se preciso for, sabe tudo isto ao mesmo tempo. A mãe tem uma excelente memória visual.

A mãe está a fazer o jantar que o olfato dos filhos detectou no andar de cima. Exactamente aquele jantar. A mãe é adivinha.

A mãe tem os 25 euros para pagar a actividade da escola, na manhã seguinte. De preferência trocado. A mãe é o multibanco.

A mãe sabe se as gavetas estão mal arrumadas só de olhar fixamente para o armário fechado. A mãe tem visão raio-X.

A mãe é a rainha da private joke. Faz parte das suas funções conhecer todos os diálogos dos sete filmes do Star Wars. I am one with the force and the force is with me. A mãe é fã.

A mãe pode coser o casaco preto com linha preta à noite. Antes de se ir deitar. A mãe não precisa de dormir. E, como já se percebeu, tem uma excelente visão.

A mãe tem uma farinheira e consegue multiplicá-la quando faz feijoada, de modo a que todos repitam várias vezes e haja sempre uma rodela (grande) no prato. Mesmo nos restos do dia seguinte. A mãe tem o dom da multiplicação.

A mãe sabe o que fazer quando dói a garganta ainda antes do filho se queixar. Porque a mãe prevê as dores. A mãe é médica. E enfermeira. E curandeira.

A mãe começa logo a gritar (ainda que esteja apenas a rosnar baixinho). Porque uma mãe zangada ouve-se sempre muito bem. A mãe tem voz de tenor.

A mãe não pode cortar o cabelo ou mudar de visual. A mãe é imutável.

A mãe recorda na perfeição a história sobre o amigo do colega da outra turma que lhe foi contada na Primavera de 2015, quando estava a tirar as compras do carro. A mãe tem memória de elefante.

A mãe tem a solução para todos os problemas do mundo. A mãe é sábia.

A mãe sabe sempre onde perdemos o casaco. A mãe é omnipresente.

A mãe consegue responder a uma pergunta urgente enquanto lava os dentes/faz chichi/toma banho/fala ao telefone com outra pessoa. A mãe é ventríloqua.

A mãe faz sempre a sobremesa preferida do outro filho. Dá sempre mais atenção ao outro filho. Deixa sempre o outro filho falar mais. Defende sempre o outro filho. A mãe é profundamente injusta.

A mãe é a mulher dos sete instrumentos. Domina na perfeição orgão de igreja, violino, piano e trompete. Só assim se explica que estejam sempre a perguntar-lhe: "Toquei bem?"  A mãe é chefe de orquestra.

A mãe, quando descasca uma manga, consegue sempre dar dois caroços a roer aos filhos. Já se sabe que a mãe tem o dom da multiplicação.

A mãe sabe a que horas e em que canal passa determinado programa. A mãe é a TV Guia.

A mãe consegue responder a perguntas não formuladas. A mãe tem o dom da telepatia.

A mãe adivinha o mal de que padece a tartaruga moribunda e consegue curá-la. A mãe é veterinária. E milagreira.

A mãe ostenta com orgulho os brincos horrorosos que o filho fez na escola com massinhas. A mãe é um expositor ambulante da arte da progenitura.

A mãe lê pensamentos secretos e adivinha as parvoíces que estão para acontecer. A mãe é omnisciente.

A mãe vai levá-los a visitar a muralha da China. A mãe é rica.

A mãe tem um colo que cura todas as dores. Os beijinhos e abraços também fazem milagres. A mãe é mágica.

A mãe sabe exactamente o que se passa na cabeça do senhor que está a discutir com a mulher no outro lado da estrada, na terça-feira à tardinha. Por isso lhe perguntam: "O que se está ali a passar?" A mãe sabe sempre tudo.

A mãe tem uma ideia fantástica para o trabalho da escola que deve ser entregue no dia seguinte. A mãe é uma iluminada.

A mãe fala sempre baixinho. Quando pede ao filho para arrumar o quarto, por exemplo. Ou aspirar a casa. Ir chamar o irmão. Lavar as mãos para vir para a mesa. A mãe murmura.

A mãe tem de ceder o seu pacote de pipocas, no cinema. A mãe é abnegada. Ou está de dieta.

A mãe ouve música dos anos 90. A mãe tem mau-gosto. Para além de ser velha.

A mãe é imediatamente informada quando o cão vomita às 7h30 da manhã. A mãe é a empregada doméstica de plantão.

A mãe diz mil vezes as mesmas coisas. Principalmente advertências e ralhetes. A mãe é chata. E bastante repetitiva.

A mãe sabe como se diz paralelepípedo em romeno. A mãe é tradutora.

A mãe está sempre ao lado do telemóvel e responde de imediato. A mãe é reactiva.

A mãe tem resposta pronta. Sabe sempre o porquê de tudo. Em que ano nasceu fulano. Que descoberta fez sicrano. De que nacionalidade é beltrano. E, de permeio, os horários dos comboios. A programação do cinema. A mãe é o Google.

A mãe tem sempre pilhas. Das AAA e das AA+. Quatro pilhas, obviamente. E um compasso, na véspera do teste de matemática. A mãe tem sempre mais um litro de leite algures escondido. Para além da caneta florescente azul clara. A mãe é o supermercado.

Aconteça o que acontecer, a mãe é sempre culpada. Porque devia saber. Devia ter calculado. Devia ter feito de outra forma. Devia ter avisado. Devia ter chegado mais cedo. Ou mais tarde. Porque devia ter corrigido o erro a tempo. A mãe tem as costas largas.

A mãe consegue sempre reparar qualquer objecto partido. A mãe é genial.

A mãe tem todos os defeitos do mundo. E mais alguns. Só assim se explica as falhas dos filhos. E os traumas infligidos. A mãe veio com defeito.

A mãe sabe ao minuto os pormenores da última desgraça que aconteceu algures no mundo (e quiçá mesmo no espaço). A mãe é a CNN. Ou deus. É isso... a mãe é deus.

terça-feira, 9 de maio de 2017

O gestor de carreira idealista

(onde a tenacidade juvenil salva a situação,

contra todas as expectativas)



Foi no início de Setembro que entrou na minha vida o impulsionador da mudança que iria ocorrer. Ou seja, era uma mudança anunciada e eu nem me apercebi. A bem dizer da verdade, a única coisa que compreendi de imediato foi que aquele jovem ia ser uma pedra no meu sapato nos tempos mais próximos. Sendo mãe solteira e tendo direito a algumas ajudas sociais, porque trabalhava apenas a meio-tempo, foi-me atribuído uma espécie de gestor de carreira. Tratava-se de uma mera formalidade burocrática. Tínhamos uma primeira reunião e era suposto ele passar a pasta ao centro de emprego que me ajudaria a encontrar outro meio-tempo, de forma a aumentar os meus rendimentos. Numa manhã, mostrava-me rapidamente uns sites com ofertas de emprego, ajudava-me a fazer um novo CV, mais umas cartas de apresentação pró-forma. E, pronto, a coisa ficava por ali. O problema foi que o aplicado funcionário se deu ao trabalho de estudar o meu processo e depressa percebeu que o centro de emprego pouco poderia fazer por mim. Qualquer outra pessoa teria desistido, eu era um caso perdido. Mas este novato idealista ainda não se tinha vergado ao sistema. Durante meses a fio, bateu as todas as portas. E ouviu as mesmíssimas respostas que eu já tinha ouvido. Não, os meus diplomas nunca seriam reconhecidos na Bélgica. Não, o juri central não poderia homologar a minha experiência profissional. Não, o Ministério da Educação não poderia abrir uma excepção para eu poder continuar a dar aulas. Não, o director da escola onde trabalhei dois anos nada mais poderia fazer por mim. O secretariado também não. Não, a Universidade de Liège não tinha horário pós-laboral, embora me aceitasse como doutoranda. Não, não há bolsas para estudantes de 40 anos. Não, o sonho europeu não se sobrepõe às leis proteccionistas belgas. Etc., etc., etc…

A única solução viável implicava aceitar um trabalho sub-qualificado. Ou pago abaixo das minhas qualificações. Ou tentar arranjar trabalho no Luxemburgo… embora, provavelmente, tivesse de deixar a segurança do meio-tempo que tinha encontrado por milagre, sabe-se lá como. Qualquer uma destas soluções seria inevitável mal o meu processo desse entrada no centro de emprego. E eu acabei por achá-las aceitáveis. Mas o persistente funcionário não se dava por vencido, impedindo que o meu dossier seguisse o curso que lhe estava predestinado. As reuniões sucediam-se. Falávamos de tudo, explorávamos todas as ideias possíveis. O jovem tinha de justificar a anomalia do processo e mostrar trabalho aos superiores. Habituei-me a receber as convocatórias na minha caixa do correio. Quando lhe perguntei se não seria mais simples enviar-me um e-mail, lá me confessou que era mesmo só para mostrar serviço. Às tantas, percebi que me tinha transformado numa obsessão. Era como se, desistindo de mim, ele estivesse a renunciar aos sonhos de todos os estrangeiros que diariamente entram neste país. No final de cada encontro, eu é que acabava a consolá-lo por não conseguir fazer nada pelo meu caso.

O Verão deu lugar ao Outono. Depois, ao Inverno. E, por fim, à Primavera. Até que comecei sinceramente a temer pelo futuro profissional do jovem funcionário e o confrontei com a realidade da situação. Tínhamos mesmo de acabar com aqueles encontros que não davam em nada. O Cédric – nesta altura do campeonato, já tínhamos deixado cair o tratamento mais formal – pediu-me só mais oportunidade. Havia uma última coisa que ainda não tínhamos tentado. Talvez ele pudesse marcar-me um encontro com o Créajob, um serviço de apoio à criação de empresas. Expliquei-lhe que não tinha qualquer interesse em criar uma empresa. Dado que não era empresária. E que os meus conhecimentos de gestão eram completamente nulos. Que, aliás, tinha aberto uma livraria/salão de chá há muitos anos atrás e que a coisa não tinha funcionado. Mas que dessa experiência tinha resultado a firme decisão de nunca mais me meter noutra. E, de qualquer forma, não tinha dinheiro para investir. Se ele bem se lembrava o meu problema era falta de dinheiro, não excesso. De qualquer modo, não tinha nenhuma ideia de negócio. Nada. Zero. O Cédric contra-argumentou cada uma das minhas objecções. Percebi que devia ter reflectido longamente no assunto. Para tudo, tinha uma solução pronta. Por fim, pediu-me: “Faz isto por mim, por favor”. Não fui capaz de recusar. Não depois de tudo o que ele tinha tentado fazer nos últimos meses. Quando saí do escritório, naquele dia quente de Março, tinha uma reunião marcada para Maio. Entretanto, o frio voltou em força. O tempo passou. E eu esqueci por completo a reunião.

Entretanto, o meu mundo desabou. Ia ficar desempregada a médio prazo. Cruzei-me por acaso com o Cédric nessa semana, quando fui entregar a factura do mazout (por cada 500 litros que encomendo, a Commune participa com cerca de 70 euros). Gozei por ter deixado crescer a barba imberbe. Dava seriedade, confessou envergonhado. Hesitei, mas acabei por lhe contar a novidade. Surpreendeu-me com um sorriso. “Tens até dia 5 de Maio para desencantar um projecto de empresa”, disse-me. O meu amor andava há dias a dizer-me praticamente o mesmo. Excepto que ele já me tinha ouvido falar de uma ideia mirabolante, nos tempos de Malempré. Na altura, pouco me ligou. Era de facto uma ideia estapafúrdia. Sempre defendi que, se é para sonhar, que seja em grande. Gosto muito de sonhar. Os estudos literários chamam-lhe “teoria dos mundos possíveis”, o que lhe dá outra beleza. Aos poucos, o meu sonho começou a ganhar consistência. E decidi avançar. No dia 11 de Abril foi o meu último dia de trabalho.

Passámos as férias da Páscoa a delinear o projecto. O meu amor deu ideias novas, obrigou-me a reformular outras e convenceu-me a abandonar umas quantas. Todos os dias, aparecia com mais um artigo, um estudo, um livro. Vários case studies. Aprendeu para me poder ensinar. O tempo não era muito. Entretanto, chegaram os rapazes. Tínhamos combinado não lhes dizer nada até ao dia da reunião, para não os deixar preocupados. Nessa mesma noite, contei-lhes tudo. Sempre joguei a carta da honestidade com os meus rapazes. Onde vai um, vão os três. Tenho a sorte de ter bons filhos, que apoiam as ideias mais loucas com um entusiasmo transbordante. Na véspera da reunião, tinha os meus três homens a torcer por mim. Mais o Cédric. Embora o meu amor estivesse bastante zangado. Fingi que não percebi. Como bom cientista que é, queria um projecto escrito, com muitos números e gráficos e datas e esquemas. Mas eu sou diferente. Sou pela teoria dos mundos possíveis. Entrei naquele escritório de mãos a abanar. De ténis e calças de ganga e mochila, porque é assim que eu sou. Falei do meu mundo possível. Não falei de factos, mas de sonhos. Do meu sonho. E convenci. Apanhei uma daquelas pessoas fantásticas que estava eu a descrever a colina, já ela estava a visualizar os contornos do Everest. Saí de lá com novas pistas para explorar e diversos contactos. Para além de um lugar garantido no próximo curso que criação de empresas, que vai começar em Agosto. Depois, tenho três meses para edificar o meu mundo no papel… aí, sim, com números concretos. Só os melhores terão acesso à incubadora de empresas, que abre portas e desbloqueia subsídios. Tenho muito trabalho de luta interior pela frente, para me vergar aos imperativos do mundo real. Mas, como tão bem percebi pela luta que o Cédric travou por mim, não tenho muito mais hipóteses de me safar neste país. Daqui por um ano, filho pequeno estará no secundário. Um ano depois, filho grande estará na universidade. São dois excelentes motivos para tudo dar certo. Se eu conseguir isso e, de permeio, realizar o meu sonho, acho que terei efectivamente construído um mundo possível.