segunda-feira, 22 de maio de 2017

Desmancha-prazeres

(onde se estraga a surpresa ao primeiro indício)



O meu amor andava há semanas muito misterioso, a dizer que tinha uma surpresa preparada para os meus anos. Por mais que eu repetisse que este ano não queria festejos, percebi que o homem estava decidido a fazer algo em grande. Não acho nada de especial fazer 41 anos… parece uma coisa meia deslavada. Fartei-me de lhe explicar que queria passar directamente dos 40 para os 42, que já me parece um número mais jeitoso. Uma idade gira. Tipo, mais madura. Mas, não. Tanto tenho pregado a ideia das “prendas-experiência”, que o meu amor decidiu aderir ao conceito contra a minha vontade.

Ontem, lembrou-se finalmente de dar as primeiras informações para o bom desenrolar da surpresa, no próximo fim-de-semana. A ideia era apenas organizarmo-nos, uma vez que o Diogo vai tocar com a filarmónica na noite anterior. “No domingo, temos de sair de casa às 5h30 da manhã...”, começou o meu amor. E eu gritei de imediato: “Vamos andar num balão de ar quente!!!”. Fez-se silêncio à mesa. Os rapazes ainda olharam para o meu amor à espera que ele negasse. Mas o Belga ficou calado. Decididamente, estou a ficar mesmo boa nisto!

Coisa pequena ficou absolutamente incrédula. Assim, um misto de espanto e de medo. A raiar o transcendente. Cheira-me que vou conseguir manter a minha reputação de mãe-adivinha por mais uns tempos. É de dizer que, no outro dia, logo após a primeira jogada do Cluedo, eu atirei: “Foi o Coronel Mostarda, na sala de estar, com o candelabro”. E não é que acertei?!

quinta-feira, 18 de maio de 2017

A interminável saga das aventuras capilares

(onde se tenta fazer uma boa acção e se fica irreconhecível)



Como já aqui disse, decidi aproveitar a reviravolta que aconteceu na minha vida para realizar sonhos e desvarios. Ora há muito tempo que acalentava o desvario de doar o meu cabelo à Think Pink, uma espécie de liga contra o cancro aqui do burgo. O mínimo era 20 centímetros. Depois de muito pensar, achei que com um bocadinho de esforço conseguiria chegar aos 30 centímetros. É certo que o meu cabelo cresce depressa, mas tenho a sensação de que demorou séculos. Nos últimos seis meses comecei a ficar mesmo farta, confesso. Já não aguentava ter o cabelo tão comprido, que exigia imensos cuidados para o manter o mais saudável possível. De modo que aproveitei a onda de mudança e fui ao cabeleireiro. Descobri na Net um salão aderente não muito longe de Vielsalm. O corte era gratuito e o envio ficava por conta deles.

Sábado de manhã, lá fomos. O meu amor quis estar presente para dar apoio moral e a coisa pequena veio atrás, sempre pronta para novas aventuras. O filho crescido ficou amuado em casa, pois desde o início manifestou-se veementemente contra (e acreditem que isto é um eufemismo). Demorámos bastante tempo a encontrar o cabeleireiro. O GPS bem repetia que tínhamos chegado, mas nós não víamos nada. Excepto campos e vacas a perder de vista. Até que decidimos estacionar em frente a um curral e explorar a zona. O estranho cabeleireiro ficava num anexo da quinta. Entre o curral e a casa, para ser mais precisa. A cabeleireira veio a correr abrir a porta, à hora marcada. Trazia uma criança adormecida nos braços e queixou-se que era a mulher dos sete ofícios. Olhando para trás, percebo que era a minha deixa para fugir. Infelizmente, pensei que ser cabeleireira (e proprietária de um cabeleireiro-anexo) seria um desses ofícios.

Três rabos-de-cavalo de 30 centímetros foram diligentemente medidos e cortados. O restante cabelo ficou ligeiramente acima dos ombros. Perfeito! Era exactamente o que eu queria. Estranhei a cabeleireira não lavar o cabelo e começar às tesouradas por ali afora. Ainda tentei dizer que gostaria de pagar o corte, apesar de saber que fazia parte da campanha “Coup d’éclat” da Think Pink. A senhora contrapôs e continuou a cortar. Zás, zás, zás! Quando dei por mim, tinha o cabelo cortado a viés. À esquerda, acima do ombro… à direita, pelo queixo. A medo, perguntei: “Mas não está tudo torto?”. Respondeu-me que era propositado. Era um corte “destruturado”. Olhando para trás, percebo que era a minha segunda deixa para fugir. Mas limitei-me a engolir em seco e explicar que gostava de estrutura na minha vida, a começar pelo cabelo. A cabeleireira cortou o lado mais comprido, como é óbvio. E, de uma assentada só, conseguiu igualar o horror. Saí de lá com menos 40 centímetros de cabelo. Tristíssima. O Belga dizia que adorava. O filho pequeno também. Só tive uma opinião honesta quando o Diogo me viu entrar em casa: estava horrorosa.

Passei o resto do fim-de-semana a perguntar ao homem se não achava que o corte estava todo torto, mas ele garantia que não. Estava linda. Ficava-me a matar. Muito mais jovem. Dava-me um ar traquina. Enfim… Acabei por desistir. Na segunda-feira, decidi-me finalmente a pintar o cabelo. Estava a precisar, mas preferi esperar pelo corte para ter menos trabalho. A embalagem de sempre, a cor de sempre. Se houve coisa que acabei por aprender com o cabeleireiro-vidente foi a manter-me fiel a estes dois parâmetros. Fiz a aplicação como sempre. O fim de 15 minutos, passei por um espelho. Estranhei a cor estar tão escura. Corri para o espelho da casa de banho para confirmar. E, a seguir, corri para o caixote do lixo: “Garnier Nutrisse Castanho médio”. Corri para o duche… o mal já estava feito. Não sei o que raio se passou, tendo em conta que a embalagem tinha sido comprada há pouco tempo e estava fechada. Uma vez seco o cabelo, deparei-me com a Beatriz Costa. Excepto a franja. E o corte certinho.

Terça-feira de manhã, mal deixei o Vasco na escola, entrei no primeiro cabeleireiro que encontrei aberto. O meu aspecto era tão desolador que a cabeleireira aceitou receber-me naquela tarde, no meio dos outros clientes. Aqui, normalmente, só com 15 dias de antecedência. Avisou que ia tentar (frisou bem T-E-N-T-A-R) salvar a situação. Decidi confiar. O meu desespero era tão grande, que teria confiado no diabo. Apesar de tudo, fartei-me de repetir que não era uma fútil, nem nada que se parecesse. Mas que pura e simplesmente não me reconhecia. É estranho passarmos por um espelho/montra/vidro e vermos uma pessoa que não reconhecemos. Eu estava nesse estado. Para ser sincera, já tinha amaldiçoado um cento de vezes a ideia da doação de cabelo. Nem nunca vivi de perto uma situação dessas, não sei o que me terá passado pela cabeça (literalmente). Como dizia o meu filho mais velho, as senhoras com cancro ficam muito bem de lenço na cabeça. Em certas zonas neste país, grande parte da população feminina anda de cabeça coberta. Raios partam o meu espírito voluntarioso e empático.

Entrei no cabeleireiro às 14h30 certinhas. Saí de lá, já passavam das 17h. Duas cabeleireiras andaram à minha volta a tentar perceber o que se poderia fazer. Chegaram à conclusão de que tinha de me livrar daquele cabelo preto e acertar o corte. “Acertar o corte, não! Fazer um corte como deve ser…”, explicou uma delas. Tive muita dificuldade em fazê-las acreditar que não tinha sido eu a cortar os 30 centímetros de cabelo com a tesoura da cozinha. Não tenho a certeza absoluta de que tenham acreditado. No entanto, confirmaram o mistério da cor trocada. Parece que já não era a primeira vez que lhes entrava uma alma de cabelo escuro pelo salão adentro com as mesmíssimas queixas.

Começaram por me descolorir o cabelo. De permeio, queimaram-me os neurónios e o couro cabeludo. E serviram-me um café. Fiquei com a cabeça amarela. Amarela cor-de-pintainho. Depois, estive séculos com uma máscara que era suposto reparar os efeitos nefastos da descoloração. Mas continuava amarela, embora me doessem menos os neurónios e o couro cabeludo. Bebi mais um café. Entre elas, decidiram a cor que me iria “iluminar”. Aparentemente, é preciso estarmos “iluminadas” depois dos 40. Apesar de garantirem que eu estava muito longe de parecer ter 40 anos. Seja como for, parece que o facto de “iluminar” o rosto me faria esquecer o corte de cabelo. Ou a ausência de cabelo. Era ponto assente que aquilo teria de levar um jeito valente (as cabeleireiras usavam muitos “petit” para aligeirar a coisa, à falta dos nossos “inhos”). Fiquei, então, loira. Acho que estou loira. Filho crescido acha que estou loira. Os belgas (incluindo o filho pequeno, que se diz meio-belga) acham que louro é outra coisa qualquer mais clara. Para a generalidade do mundo (belga), tenho o cabelo castanho clarinho. Seja.

A seguir, veio o corte. Estava a ver que as cabeleireiras me iam tirar uma fotografia com o cabelo ensopado e penteado. Definitivamente mais curto de um lado do que do outro. Com as pontas assimétricas. E em escadinha atrás. Foram chamar outra cabeleireira para apreciar o trabalho. Até a esteticista veio lá das catacumbas ver aquele espectáculo. Para além de todas as clientes presentes. Findo o demorado conciliábulo, decidiram que a única coisa a fazer era cortar tudo por igual, exactamente do mesmo comprimento da mecha mais curta. Ou seja, por cima do queixo. Ao verem-me de lágrimas nos olhos, nem ousaram propor escadeados, degradés, franjas, nem merdas do estilo. Para pior, já basta assim, como diz a canção. Fiquei com o cabelo curto, mas direitinho. Fiquei loira e “iluminada”. Decididamente, não gosto do resultado final. Mas sei que passei uma tarde com várias pessoas à minha volta a tentar desfazer o erro da “talhante”, como apelidaram a primeira colega. Não ousei dizer que o salão-anexo ficava situado entre o curral e a casa. No final, propuseram-me um chá. E sei que aligeiraram bastante a factura, porque afinal eu “tinha apenas tentado fazer uma boa acção”.

Passaram-se uns dias. Filho crescido continua a ser defensor do uso do lenço, nos casos de cancro. Detesta ver-me assim e é de uma honestidade desarmante. Mas olha para mim com um ternurento ar de condescendência. Filho pequeno anda encantado. Já me pediu para ficar assim “para sempre”. O Belga não poupa os elogios, mas acho que é só para evitar que corte os pulsos ou parta os poucos espelhos que há nesta casa. Quanto a mim, continuo sem me reconhecer, quando me cruzo com a loira de cabelo curto. Eu sei que o cabelo cresce (e o meu cresce depressa). E sei que isto é tão fútil e desprezível, face ao que certas pessoas sofrem. Mas, pronto, estou zangada comigo mesma. Aproveitei para informar o pessoal da casa que, na próxima vez que me apetecer fazer um disparate destes, têm a obrigação de me impedir.


Disclosure: Entretanto, desafiei-os para o seguinte desvario. Infelizmente, nenhum deles pôs um travão a tempo. Tornámo-nos todos voluntários num refúgio para animais abandonados. E já passámos umas horas a passear cães. Ah… e apadrinhamos a Jasmine.


segunda-feira, 15 de maio de 2017

A mãe é deus

(porque ontem foi dia da mãe na Bélgica)



A mãe sabe que tempo vai fazer amanhã. E no fim-de-semana seguinte. A mãe é meteorologista.

A mãe consegue levar ambos os filhos a duas actividades diferentes à mesma hora. A mãe detém o segredo da teletransportação. Ou da ubiquidade.

A mãe sabe o título do livro que era preciso comprar ontem, sem que a lista de leituras tenha saído da mochila. E, como é evidente, a mãe tem esse livro na estante da sala. A mãe é previdente.

A mãe tem ingredientes e disponibilidade para fazer 35 bolinhas de frutos secos para celebrar a despedida do professor estagiário, desde que seja avisada até às dez da noite. A mãe é cozinheira num quartel.

A mãe sabe o número de telefone do colega do filho e, idealmente, da mãe dele também. A mãe engoliu a lista telefónica.

A mãe sabe sempre onde estão os ténis. A caixa do lanche. A mochila da piscina. A t-shirt preferida. As chaves. O telemóvel. E, se preciso for, sabe tudo isto ao mesmo tempo. A mãe tem uma excelente memória visual.

A mãe está a fazer o jantar que o olfato dos filhos detectou no andar de cima. Exactamente aquele jantar. A mãe é adivinha.

A mãe tem os 25 euros para pagar a actividade da escola, na manhã seguinte. De preferência trocado. A mãe é o multibanco.

A mãe sabe se as gavetas estão mal arrumadas só de olhar fixamente para o armário fechado. A mãe tem visão raio-X.

A mãe é a rainha da private joke. Faz parte das suas funções conhecer todos os diálogos dos sete filmes do Star Wars. I am one with the force and the force is with me. A mãe é fã.

A mãe pode coser o casaco preto com linha preta à noite. Antes de se ir deitar. A mãe não precisa de dormir. E, como já se percebeu, tem uma excelente visão.

A mãe tem uma farinheira e consegue multiplicá-la quando faz feijoada, de modo a que todos repitam várias vezes e haja sempre uma rodela (grande) no prato. Mesmo nos restos do dia seguinte. A mãe tem o dom da multiplicação.

A mãe sabe o que fazer quando dói a garganta ainda antes do filho se queixar. Porque a mãe prevê as dores. A mãe é médica. E enfermeira. E curandeira.

A mãe começa logo a gritar (ainda que esteja apenas a rosnar baixinho). Porque uma mãe zangada ouve-se sempre muito bem. A mãe tem voz de tenor.

A mãe não pode cortar o cabelo ou mudar de visual. A mãe é imutável.

A mãe recorda na perfeição a história sobre o amigo do colega da outra turma que lhe foi contada na Primavera de 2015, quando estava a tirar as compras do carro. A mãe tem memória de elefante.

A mãe tem a solução para todos os problemas do mundo. A mãe é sábia.

A mãe sabe sempre onde perdemos o casaco. A mãe é omnipresente.

A mãe consegue responder a uma pergunta urgente enquanto lava os dentes/faz chichi/toma banho/fala ao telefone com outra pessoa. A mãe é ventríloqua.

A mãe faz sempre a sobremesa preferida do outro filho. Dá sempre mais atenção ao outro filho. Deixa sempre o outro filho falar mais. Defende sempre o outro filho. A mãe é profundamente injusta.

A mãe é a mulher dos sete instrumentos. Domina na perfeição orgão de igreja, violino, piano e trompete. Só assim se explica que estejam sempre a perguntar-lhe: "Toquei bem?"  A mãe é chefe de orquestra.

A mãe, quando descasca uma manga, consegue sempre dar dois caroços a roer aos filhos. Já se sabe que a mãe tem o dom da multiplicação.

A mãe sabe a que horas e em que canal passa determinado programa. A mãe é a TV Guia.

A mãe consegue responder a perguntas não formuladas. A mãe tem o dom da telepatia.

A mãe adivinha o mal de que padece a tartaruga moribunda e consegue curá-la. A mãe é veterinária. E milagreira.

A mãe ostenta com orgulho os brincos horrorosos que o filho fez na escola com massinhas. A mãe é um expositor ambulante da arte da progenitura.

A mãe lê pensamentos secretos e adivinha as parvoíces que estão para acontecer. A mãe é omnisciente.

A mãe vai levá-los a visitar a muralha da China. A mãe é rica.

A mãe tem um colo que cura todas as dores. Os beijinhos e abraços também fazem milagres. A mãe é mágica.

A mãe sabe exactamente o que se passa na cabeça do senhor que está a discutir com a mulher no outro lado da estrada, na terça-feira à tardinha. Por isso lhe perguntam: "O que se está ali a passar?" A mãe sabe sempre tudo.

A mãe tem uma ideia fantástica para o trabalho da escola que deve ser entregue no dia seguinte. A mãe é uma iluminada.

A mãe fala sempre baixinho. Quando pede ao filho para arrumar o quarto, por exemplo. Ou aspirar a casa. Ir chamar o irmão. Lavar as mãos para vir para a mesa. A mãe murmura.

A mãe tem de ceder o seu pacote de pipocas, no cinema. A mãe é abnegada. Ou está de dieta.

A mãe ouve música dos anos 90. A mãe tem mau-gosto. Para além de ser velha.

A mãe é imediatamente informada quando o cão vomita às 7h30 da manhã. A mãe é a empregada doméstica de plantão.

A mãe diz mil vezes as mesmas coisas. Principalmente advertências e ralhetes. A mãe é chata. E bastante repetitiva.

A mãe sabe como se diz paralelepípedo em romeno. A mãe é tradutora.

A mãe está sempre ao lado do telemóvel e responde de imediato. A mãe é reactiva.

A mãe tem resposta pronta. Sabe sempre o porquê de tudo. Em que ano nasceu fulano. Que descoberta fez sicrano. De que nacionalidade é beltrano. E, de permeio, os horários dos comboios. A programação do cinema. A mãe é o Google.

A mãe tem sempre pilhas. Das AAA e das AA+. Quatro pilhas, obviamente. E um compasso, na véspera do teste de matemática. A mãe tem sempre mais um litro de leite algures escondido. Para além da caneta florescente azul clara. A mãe é o supermercado.

Aconteça o que acontecer, a mãe é sempre culpada. Porque devia saber. Devia ter calculado. Devia ter feito de outra forma. Devia ter avisado. Devia ter chegado mais cedo. Ou mais tarde. Porque devia ter corrigido o erro a tempo. A mãe tem as costas largas.

A mãe consegue sempre reparar qualquer objecto partido. A mãe é genial.

A mãe tem todos os defeitos do mundo. E mais alguns. Só assim se explica as falhas dos filhos. E os traumas infligidos. A mãe veio com defeito.

A mãe sabe ao minuto os pormenores da última desgraça que aconteceu algures no mundo (e quiçá mesmo no espaço). A mãe é a CNN. Ou deus. É isso... a mãe é deus.

terça-feira, 9 de maio de 2017

O gestor de carreira idealista

(onde a tenacidade juvenil salva a situação,

contra todas as expectativas)



Foi no início de Setembro que entrou na minha vida o impulsionador da mudança que iria ocorrer. Ou seja, era uma mudança anunciada e eu nem me apercebi. A bem dizer da verdade, a única coisa que compreendi de imediato foi que aquele jovem ia ser uma pedra no meu sapato nos tempos mais próximos. Sendo mãe solteira e tendo direito a algumas ajudas sociais, porque trabalhava apenas a meio-tempo, foi-me atribuído uma espécie de gestor de carreira. Tratava-se de uma mera formalidade burocrática. Tínhamos uma primeira reunião e era suposto ele passar a pasta ao centro de emprego que me ajudaria a encontrar outro meio-tempo, de forma a aumentar os meus rendimentos. Numa manhã, mostrava-me rapidamente uns sites com ofertas de emprego, ajudava-me a fazer um novo CV, mais umas cartas de apresentação pró-forma. E, pronto, a coisa ficava por ali. O problema foi que o aplicado funcionário se deu ao trabalho de estudar o meu processo e depressa percebeu que o centro de emprego pouco poderia fazer por mim. Qualquer outra pessoa teria desistido, eu era um caso perdido. Mas este novato idealista ainda não se tinha vergado ao sistema. Durante meses a fio, bateu as todas as portas. E ouviu as mesmíssimas respostas que eu já tinha ouvido. Não, os meus diplomas nunca seriam reconhecidos na Bélgica. Não, o juri central não poderia homologar a minha experiência profissional. Não, o Ministério da Educação não poderia abrir uma excepção para eu poder continuar a dar aulas. Não, o director da escola onde trabalhei dois anos nada mais poderia fazer por mim. O secretariado também não. Não, a Universidade de Liège não tinha horário pós-laboral, embora me aceitasse como doutoranda. Não, não há bolsas para estudantes de 40 anos. Não, o sonho europeu não se sobrepõe às leis proteccionistas belgas. Etc., etc., etc…

A única solução viável implicava aceitar um trabalho sub-qualificado. Ou pago abaixo das minhas qualificações. Ou tentar arranjar trabalho no Luxemburgo… embora, provavelmente, tivesse de deixar a segurança do meio-tempo que tinha encontrado por milagre, sabe-se lá como. Qualquer uma destas soluções seria inevitável mal o meu processo desse entrada no centro de emprego. E eu acabei por achá-las aceitáveis. Mas o persistente funcionário não se dava por vencido, impedindo que o meu dossier seguisse o curso que lhe estava predestinado. As reuniões sucediam-se. Falávamos de tudo, explorávamos todas as ideias possíveis. O jovem tinha de justificar a anomalia do processo e mostrar trabalho aos superiores. Habituei-me a receber as convocatórias na minha caixa do correio. Quando lhe perguntei se não seria mais simples enviar-me um e-mail, lá me confessou que era mesmo só para mostrar serviço. Às tantas, percebi que me tinha transformado numa obsessão. Era como se, desistindo de mim, ele estivesse a renunciar aos sonhos de todos os estrangeiros que diariamente entram neste país. No final de cada encontro, eu é que acabava a consolá-lo por não conseguir fazer nada pelo meu caso.

O Verão deu lugar ao Outono. Depois, ao Inverno. E, por fim, à Primavera. Até que comecei sinceramente a temer pelo futuro profissional do jovem funcionário e o confrontei com a realidade da situação. Tínhamos mesmo de acabar com aqueles encontros que não davam em nada. O Cédric – nesta altura do campeonato, já tínhamos deixado cair o tratamento mais formal – pediu-me só mais oportunidade. Havia uma última coisa que ainda não tínhamos tentado. Talvez ele pudesse marcar-me um encontro com o Créajob, um serviço de apoio à criação de empresas. Expliquei-lhe que não tinha qualquer interesse em criar uma empresa. Dado que não era empresária. E que os meus conhecimentos de gestão eram completamente nulos. Que, aliás, tinha aberto uma livraria/salão de chá há muitos anos atrás e que a coisa não tinha funcionado. Mas que dessa experiência tinha resultado a firme decisão de nunca mais me meter noutra. E, de qualquer forma, não tinha dinheiro para investir. Se ele bem se lembrava o meu problema era falta de dinheiro, não excesso. De qualquer modo, não tinha nenhuma ideia de negócio. Nada. Zero. O Cédric contra-argumentou cada uma das minhas objecções. Percebi que devia ter reflectido longamente no assunto. Para tudo, tinha uma solução pronta. Por fim, pediu-me: “Faz isto por mim, por favor”. Não fui capaz de recusar. Não depois de tudo o que ele tinha tentado fazer nos últimos meses. Quando saí do escritório, naquele dia quente de Março, tinha uma reunião marcada para Maio. Entretanto, o frio voltou em força. O tempo passou. E eu esqueci por completo a reunião.

Entretanto, o meu mundo desabou. Ia ficar desempregada a médio prazo. Cruzei-me por acaso com o Cédric nessa semana, quando fui entregar a factura do mazout (por cada 500 litros que encomendo, a Commune participa com cerca de 70 euros). Gozei por ter deixado crescer a barba imberbe. Dava seriedade, confessou envergonhado. Hesitei, mas acabei por lhe contar a novidade. Surpreendeu-me com um sorriso. “Tens até dia 5 de Maio para desencantar um projecto de empresa”, disse-me. O meu amor andava há dias a dizer-me praticamente o mesmo. Excepto que ele já me tinha ouvido falar de uma ideia mirabolante, nos tempos de Malempré. Na altura, pouco me ligou. Era de facto uma ideia estapafúrdia. Sempre defendi que, se é para sonhar, que seja em grande. Gosto muito de sonhar. Os estudos literários chamam-lhe “teoria dos mundos possíveis”, o que lhe dá outra beleza. Aos poucos, o meu sonho começou a ganhar consistência. E decidi avançar. No dia 11 de Abril foi o meu último dia de trabalho.

Passámos as férias da Páscoa a delinear o projecto. O meu amor deu ideias novas, obrigou-me a reformular outras e convenceu-me a abandonar umas quantas. Todos os dias, aparecia com mais um artigo, um estudo, um livro. Vários case studies. Aprendeu para me poder ensinar. O tempo não era muito. Entretanto, chegaram os rapazes. Tínhamos combinado não lhes dizer nada até ao dia da reunião, para não os deixar preocupados. Nessa mesma noite, contei-lhes tudo. Sempre joguei a carta da honestidade com os meus rapazes. Onde vai um, vão os três. Tenho a sorte de ter bons filhos, que apoiam as ideias mais loucas com um entusiasmo transbordante. Na véspera da reunião, tinha os meus três homens a torcer por mim. Mais o Cédric. Embora o meu amor estivesse bastante zangado. Fingi que não percebi. Como bom cientista que é, queria um projecto escrito, com muitos números e gráficos e datas e esquemas. Mas eu sou diferente. Sou pela teoria dos mundos possíveis. Entrei naquele escritório de mãos a abanar. De ténis e calças de ganga e mochila, porque é assim que eu sou. Falei do meu mundo possível. Não falei de factos, mas de sonhos. Do meu sonho. E convenci. Apanhei uma daquelas pessoas fantásticas que estava eu a descrever a colina, já ela estava a visualizar os contornos do Everest. Saí de lá com novas pistas para explorar e diversos contactos. Para além de um lugar garantido no próximo curso que criação de empresas, que vai começar em Agosto. Depois, tenho três meses para edificar o meu mundo no papel… aí, sim, com números concretos. Só os melhores terão acesso à incubadora de empresas, que abre portas e desbloqueia subsídios. Tenho muito trabalho de luta interior pela frente, para me vergar aos imperativos do mundo real. Mas, como tão bem percebi pela luta que o Cédric travou por mim, não tenho muito mais hipóteses de me safar neste país. Daqui por um ano, filho pequeno estará no secundário. Um ano depois, filho grande estará na universidade. São dois excelentes motivos para tudo dar certo. Se eu conseguir isso e, de permeio, realizar o meu sonho, acho que terei efectivamente construído um mundo possível.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Mudar de vida

(porque, como disse Eduardo Lourenço, 

“muda-se pouco na vida, mas a vida muda por nós”)



Seria fácil mentir. Dizer que, aos 40 anos, decidi mudar de vida, porque a que tinha não me preenchia por completo. Porque sou uma insatisfeita crónica. E abomino a rotina. Ou porque queria algo mais. Porque sou corajosa e acredito que a sorte protege os audazes. Porque era agora ou nunca. Só esta última frase é verdadeira. Tudo o resto são desculpas bonitas para dar sentido a mais um tropeção da vida. Estou tão farta de mudanças e recomeços. Sinceramente, ambicionava um pouco de paz para os anos vindouros. Mas o universo voltou a conspirar. Baralhou as cartas todas e distribuiu-as outra vez. No entanto, decidi que seria uma conspiração a meu favor, não contra mim. Como não confiar? Até agora, todas as reviravoltas têm-me sempre sido benéficas. A ter de dar uma justificação a tudo isto, prefiro acreditar que foi para meu bem. Para nosso bem.

Também seria fácil ser modesta. Ou desonesta. No mínimo, acomodada. Dizer que ambicionava uma existência tranquila. Casamento morno e seguro. Casalinho de filhos. Emprego das 9 às 5. Férias anuais no Algarve. Tudo isto é mentira. Sempre pensei que a minha vida seria “algo mais”. Não sei bem o quê, mas mais. Não que achasse que ia mudar o mundo, fazer uma qualquer descoberta científica ou escrever uma obra literária grandiosa. Não que tivesse a certeza de que estava destinada a grandes feitos. Mas as coisas teriam obrigatoriamente de ter um sentido qualquer que me transcendesse. Que fosse importante. Se calhar, é um pensamento (ambição?) muito comum, não sei. Mas desde que me conheço como gente que penso que a vida não pode ser só isto. Uma vidinha. Sendo ateia, acredito que é aqui e agora que tudo tem de acontecer. E tem de acontecer bem. Benzinho só, não me basta.

O início do mês passado soube que o meu centro de documentação tinha morte anunciada. Digo “meu” com um orgulho desmedido, porque fui eu que o construí de raiz. Nunca me senti tão bem tratada e valorizada a nível profissional. Mas cortes orçamentais vão obrigar ao encerramento da secção de Verviers. Para mim, era impensável trabalhar na sede, em Bruxelas. Tal como era impossível assistir impávida ao derradeiro final. Organizei a minha saída com uma frieza que nunca pensei possuir. Não entrei em pânico, não verti uma lágrima. Primeiro, garanti a minha segurança financeira a longo prazo. Minha e dos meus. Estrangeira ou não, as regalias sociais funcionaram. O subsídio de desemprego não será uma fortuna, mas dará para vivermos (mais algumas traduções que surjam). Depois, negociei tempo. Tempo para pensar. Tempo para me organizar. Em Setembro, quando ficar oficialmente desempregada, já tenho um plano delineado que me fará saltar a etapa do centro de emprego. Porque este país assim mo permite. Vim viver para a Bélgica para mudar de vida. É agora ou nunca. Decidi que estava na altura de dar sentido a tudo isto. Quem diz que o sonho não se pode tornar realidade?

Depressa percebi que a mente é uma fonte inesgotável de surpresas. De recursos. A partir do momento em que decidi que ia realizar o meu sonho, as coisas começaram a tomar forma. A fluir. A encaixar. Pensei muito. (Talvez por isso tenha escrito tão pouco, nos últimos tempos.) E cheguei à conclusão de que, afinal, tenho vários sonhos para cumprir a curto prazo. Quatro sonhos, para ser mais exacta. E tenciono realizá-los todos no próximo ano. Mais uns quantos desvaneios que ando para aqui a adiar há demasiado tempo. Por que raio deixei que a realidade se impusesse à minha vontade de ser “algo mais”? Posso não conseguir, mas serei suficientemente honesta comigo mesma para me dar uma hipótese. Se falhar, pelo menos terei o mérito de ter tentado. Diz-se que o caminho se faz caminhando. Neste último mês, comecei a correr. Literalmente. E em sentido figurado também. Nunca pensei dizer isto, mas estou a adorar. Pelos vistos, no meu caso, o caminho faz-se correndo. Não é que sinta que já vou tarde. Penso que comecei exactamente quando estava preparada para isso. O universo teve de dar o primeiro empurrão, confesso. Mas agora estamos alinhados e vamos ligeirinhos. Estou segura de que iremos longe.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Fazemos nós #3

 (onde aproveitamos uma prenda para dar asas à imaginação)




Este Inverno, decidimos fazer um hotel para insectos. Lemos bastante sobre o assunto, pesquisámos imagens na net e fomos apanhar os materiais necessários. Foi um projecto que durou meses, porque eu estava decidida a fazer uma coisa em grande. E bonita. Para além da preocupação com a protecção da biodiversidade, interessava-me o aspecto estético. Não queria nenhum mamarracho no meio do meu quintal. Já me basta o arco de madeira que o homem construiu, de inspiração nipónica. Para ele, bem entendido. Toda a gente que por aqui passa se espanta com o nosso arco do faroeste. O senhorio, incluído. Que era muito lindo e invulgar e coiso e tal… mas gostávamos assim tanto de filmes de cowboys?! O Belga ficou algo ofendido. E eu decidi pespegar-lhe duas trepadeiras por ali acima para ver se disfarçava. Continua um belo mono. Daí ser tão importante não estragar mais a paisagem com um hotel para insectos desenxabido.

Li algures que um terço dos insectos que fazem a polinização e contribuem para o controlo biológico das pragas não encontra abrigo durante o Inverno. Necessitam de espaços ocos para abrigar as larvas até à Primavera em buracos de árvores, tijolos ou pedras. Por aqui, quase todos os jardins têm hotéis para insectos e casas para os passarinhos, com comida. Mas são umas coisinhas mixurucas. Os verdadeiros hotéis para insectos são demasiado eco-hippies para o meu gosto. Ou, então, são verdadeiras obras de arte caríssimas. Tipo… para cima de 300 euros. Daí ter decidido lançar mãos à obra. Infelizmente, o universo estava decidido a conspirar contra mim.

Um dia fomos dar um passeio num bosque aqui perto, para apanharmos pinhas e paus. Os insectos gostam de se esconder dentro da madeira. Entretanto, vi um campo de milho. E vai de tentar roubar discretamente uma maçaroca para o Peanuts. O problema é que aquilo é difícil de arrancar (percebi demasiado tarde que ainda estavam completamente verdes). O roubo acabou por não passar despercebido, porque fui esbarrar contra a protecção eléctrica e apanhei um choque que me fez dar um uivo pouco discreto. Adiante. Passados uns tempos, fomos apanhar lama. Convém pincelar as paredes com lama para atrair os insectos. Não é fácil arranjar lama de tipo argiloso. Lembrámo-nos de invadir discretamente uma reserva de borboletas que estava fechada no Inverno para obras. De facto, não nos enganámos. Conseguimos uma caixa cheiinha de lama. Para além do Vasco, claro. Coisa pequena conseguiu ficar com lama até à cabeça, porque se esbardalhou numa poça, quando o mandámos encher disfarçadamente a caixa. Deve ter sido a invasão de propriedade mais estranha a que os trabalhadores da obra já assistiram (quando somos apanhados em flagrante delito, costumamos falar português muito alto para justificar não conseguirmos ler os painéis de aviso). Também houve aquela vez em que obriguei o meu amor a ir buscar uns restos de xisto no meio do entulho. Os hotéis para insectos ficam mais protegidos das intempéries se tiverem um bom telhado. Felizmente, o Belga tem as vacinas do tétano em dia. Mas acabámos a fugir de um cão raivoso. Depois, houve aquela ocasião em que o adolescente jurou que nunca mais saía connosco, porque engracei com um tijolo de terracota cheio de buraquinhos. Diz que os materiais de recuperação são ideais para construir os hotéis para insectos, dado que o plástico e o vidro têm tendência a criar bactérias. O tijolo estava abandonado em cima de um muro, não fazia falta a ninguém. E nós fomos bastante discretos durante passeio pela aldeola, pois levamos o tijolo embrulhado num casaco debaixo do braço...

A verdade é que consegui reunir todos os objectos de que precisava, a custo zero. Comprei muito pouca coisa. Um metro de tela de arame para galinheiro e a madeira, que o senhor acedeu a cortar à medida graças aos meus lindos olhos. Entretanto, começou a nevar e nunca mais parou. Esteve um frio desgraçado nos últimos meses. Mas estas férias da Páscoa, o calor voltou em força. E eu lembrei-me do meu projecto tão adiado. Arregacei as mangas e fui buscar o material que andámos a recolher com tanto esforço durante todo o Inverno. Estava lá tudo. Excepto a madeira cortada à medida que – espanto dos espantos – tinha exactamente o mesmo tamanho da nossa mesa de jantar que estava a abanar. O Belga decidiu fazer-me uma surpresa e arranjá-la, nestas últimas férias. Não me ocorreu perguntar onde tinha desencantado a madeira. Tal como não me lembrei de perguntar onde tinha encontrado o arame para reforçar o composto que o intrépido D. Fuas Roupinho insiste em destruir para roubar comida podre. Está visto que nunca faço as perguntas correctas. O Belga levou uma descompostura, porque usou os meus materiais sem pedir. E eu levei uma descompostura pois devia era agradecer-lhe as reparações. Seja como seja, o meu grandioso hotel para insectos ainda não viu a luz do dia. Mas hoje a minha sogra faz anos pensei que, apesar de tudo, podia tentar construir um modelo pequenino para ela pôr debaixo do telheiro onde plantou as roseiras. Não é exactamente a obra de arte que tinha em mente. Digamos que é um parente pobre, mas bastante esforçado.


sexta-feira, 28 de abril de 2017

Da seitas

(onde o pensamento nos foge de imediato para os nossos)



Sabem aquela história dos pais que não vacinam os filhos? Uma pessoa pensa sempre que são os “outros”, gente algo estranha que certamente não faz parte do nosso círculo de amigos. É um daqueles problemas algo abstractos, que discutimos sempre no plano teórico. E, depois, recebemos um SMS aflito do nosso filho. Hoje há “visite médicale” lá na escola. E ele acabou de descobrir que a namorada não é vacinada. Que não toma medicamentos e só segue medicinas alternativas, já nós sabíamos. Do alto dos seus 15 anos, não sabe explicar porquê. São coisas de família. Não se questiona. E o melhor é nem sequer ouvir argumentos contrários. Filho grande está desde as 8h30 da manhã a mandar-me SMS. Alterna entre zangado, incrédulo, furioso, desamparado, consternado, preocupado. Não consegue aceitar, nem perceber. E eu não sei que lhe diga… Só penso naquela miúda de 17 anos que morreu há pouco tempo em Portugal. Gosto muito da Marie. Mas, depois, penso no meu. É automático.

O Diogo tinha um grave problema de imunidade, quando era criança. Passou a infância toda a repetir as chamadas doenças infantis que só se apanham uma vez. Lembro-me bem da varicela. Foram cinco vezes. E da escarlatina. Foram quatro. Mais o exantema súbito. A quinta doença… Perdi-lhes a conta. Foram tantas e tantas vezes nas urgências de um hospital a discutir com os médicos. Já conhecia de cor a sintomatologia, o diagnóstico e o tratamento. Sim, já tinha tido aquilo antes. Sim, era vacinado. Não, não era impossível. Pois claro que podia dar o número da pediatra, ligue lá para confirmar… No final da infância passou, parecia milagre. E eu fiquei sempre chateada com o facto de, no meio de tanta doença diferente repetida, o miúdo nunca ter apanhado papeira. Porque já se sabe que é extremamente perigoso um adolescente apanhar papeira. Mas, pronto, nesta idade o risco é bastante menor. Já todos receberam vacinas e reforços, certo? Excepto a Marie. Que até tem uma irmã mais nova na Primária e está mais exposta às doenças infantis, visto que os recreios das crianças dos 2 anos aos 12 são partilhados. Só tenho vontade de bater naqueles pais, a sério. Ainda bem que fui beber um café com eles há pouco tempo, agora duvido que me voltem a apanhar. Gente inconsciente, pá!

quarta-feira, 26 de abril de 2017

terça-feira, 25 de abril de 2017

A liberdade de hoje

(porque este 25 de Abril foi em pleno)



Liberdade para sermos quem somos (sem esquecer o nosso outro país)
Liberdade de pensamento, porque sonhar é permitido
Liberdade de escolha para mudar de vida (porque o país onde vivemos assim o permite)
Liberdade para amar este homem um bocadinho mais todos os dias
Liberdade de mudança, sem dogmas e muito poucas certezas
Liberdade de ter uma casa que permita ver os filhos a brincar no quintal
Liberdade de movimentos (o mundo é tão grande…)
Liberdade para ser a mãe que sonhei (ir buscá-los às 16h e irmos correr juntos)
Liberdade financeira (para ver a felicidade do meu filho perante o seu novo violino)
Liberdade de horários que me permite parar e respirar (sem pausas, ninguém é livre)
Liberdade para partir à aventura, assim, de repente (só porque nos apetece)
Liberdade para pôr a nossa música a tocar (e explicar tudo, mais uma vez)

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Nem sempre é bom

(onde o esforço compensa, mas cansa)



Nem sempre é bom, isto de ser mãe. Estamos a entrar numa fase em que sinto que os meus actos terão consequências importantes. Provavelmente, as mais importantes dos nossos quase dezasseis anos. E isso pesa. Deixá-los errar, pesa. Obrigá-los a seguir determinado caminho também pesa. Porque será que ninguém diz que o fardo é tão pesado?

Obriguei o Diogo a ir ao seu primeiro ensaio com a banda dirigida pelo professor de trompete. Até pode chumbar no exame do final de ano, é irrelevante. Ninguém estuda um instrumento durante sete anos para obter um diploma. Um pedaço de papel que ateste as suas competências. Ele não quer entrar para a escola superior de música, acredito que aquele certificado de pouco lhe irá servir na vida. Mas a atitude está errada. Baixar os braços sem lutar, está errado. Não se deve desistir à primeira contrariedade. O medo não pode ser paralisante. Mas explicar isto a um adolescente é muito complexo. Porque não é palpável, nem concreto. O mais difícil é impor decisões abstractas. É complicado justificar uma obrigação dizendo que o meio interessa mais do que o fim. Explicando que a força de vontade para se superar é infinitamente mais importante do que o resultado final escrito numa folha de papel.

Por isso, obriguei-o a ir. Desde o final de Fevereiro que andamos nesta luta. É esgotante. Tive de ser eu a andar atrás do professor para combinar as coisas. Tive de ser eu a insistir. Tive de ser eu a fixar datas, horas e locais em que a banda iria iniciar um novo repertório e o Diogo poderia entrar. Foi na sexta-feira passada. E após meses de discussão, ainda passámos o dia a trocar mensagens. Porque o Diogo não queria mesmo ir. Acabei a dizer que quem mandava era eu. Que ele não tinha escolha. Mas custou-me. Vai contra tudo o que eu acredito, no que à pedagogia diz respeito. Mas é a minha filosofia de vida, que considero ter obrigação de lhes transmitir. Quem foge de medo são os cobardes. Quem vai em frente com medo são os corajosos. E eu quero que os meus filhos aprendam a ser corajosos. Que aprendam a ter medo, que tomem consciência do medo, que consigam verbalizá-lo. E, depois, agir em consequência.

Foi difícil arrancá-lo de casa. Arrastá-lo para dentro do carro. A técnica é sempre a mesma: enrolar até já estar tão atrasado que nem vale a pena ir. E houve gritos. E ameaças. E zangas. Por fim, lá fomos. O Diogo estava tão nervoso, que o jantar lhe caiu mal. O habitual, portanto. Comigo sucedeu o mesmo, mas não lhe disse nada. Estava tão nervosa quanto ele. Parei à porta, deixei-o sair e arranquei de imediato sem olhar para trás. O professor estava à espera dele, se não aparecesse logo me havia de telefonar. Não telefonou. Duas horas depois, fui buscá-lo. Vinha feliz como há muito não o via. Que tinha sido extraordinário. Que tinha adorado. Que no início estava nervoso, mas depois passou. Que devia ter cometido muitos erros, porque não conhecia as partições, mas que não se ralou e deixou-se ir. Que se libertou. Que para a semana estava lá caído. Sem sombra de dúvida. Que aquilo era uma maravilha.

Para rematar, o já costumeiro agradecimento: “Muito obrigado, mãe, por me teres obrigado a vir. Tinhas razão”. Tentei brincar... “Como sempre. Tens de dizer: Tinhas razão como sempre, mãe.” E o Diogo disse-o, com um grande sorriso. Noutros tempos, aquilo teria bastado para me aquecer o coração. Mas hoje sinto-me cansada. Exausta de lutar contra a vontade de um adolescente de quase dezasseis anos que já é bem maior do que eu. E contra um professor que andava há anos a repetir o convite e que já tinha desistido. Estou cansada de lutar contra a minha própria cabeça, para tentar saber onde posso deixá-lo errar e onde devo impor-me. Por isso, mesmo que ninguém o diga, não tenho vergonha de admitir que nem sempre é bom, isto de ser mãe.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

E as saudades que eu tinha disto?!

(onde nos armamos em bons para salvar a situação 

e acabamos aos pinotes)



O meu amor fez anos. E eu decidi organizar um dia em grande, só para nós. Começamos por utilizar finalmente a Wonderbox que o Diogo nos tinha oferecido aqui há uns tempos. Fomos tomar um pequeno-almoço com champanhe num salão de chá muito elegante. Filho grande ainda não deve ter percebido que a mãe dele não está à altura de tanta sofisticação. Felizmente, o Belga não se fez rogado e emborcou as duas taças de champanhe com um sorriso. Ainda nem sequer era meio-dia.

Seguimos para uma espécie de jogo de pista. Marquei um passeio a cavalo para o início da tarde. Num sítio novo, visto que a nossa vizinha de Malempré perdeu o Zorro com um vírus fulminante, ficando apenas com dois cavalos. Como há bastante tempo que não fazíamos um passeio destes pelos bosques, achei que seria uma surpresa engraçada. O problema é que desencantei um sítio na net, que não conhecia de lado nenhum. E depressa percebi que tinha entrado num daqueles programas misteriosos onde as pessoas recebem indicações para irem ter a um local desconhecido, sem saberem muito bem ao que vão. A explicação é simples. Vão mudando os cavalos de pasto consoante o tempo que faz. E nunca se sabe muito bem que tempo faz nesta terra. Quer dizer, a única garantia que temos é que estará frio. Esta terça-feira nevou, acho que ainda não vos tinha contado. Por isso, só recebi as indicações exactas da localização na noite anterior. E eram tão complicadas que fiquei seriamente desconfiada de que não conseguiríamos encontrar os ditos cavalos. Bom, também há uma justificação para tantas precauções. Os cavalos são amistosos e estão habituados às pessoas. Se os diferentes prados onde se encontram fossem conhecidos, poderiam ser facilmente roubados. Daí tanto secretismo.

Apesar de conhecermos bem a região de Aywaille, demorámos algum tempo a dar com o caminho, seguindo atentamente o papel com as intricadas explicações. Nesta altura do campeonato, o meu amor pensava que íamos fazer um percurso de trekking ou de orientação. Pouco depois de chegarmos, apareceu um velhote que nos perguntou: “Vous allez monter?” Respondi que sim, pensando que a surpresa estava estragada. Afinal, estávamos mesmo ao lado de um terreno com cavalos. E de uma zona que se via perfeitamente que servia para os selar. Mas o Belga é meio tolinho e pensou de imediato que íamos fazer escalada, dado o sentido dúbio da palavra “monter”. Menos mal, pensei. De facto, no cimo dos bosques via-se umas rochas escarpadas. Preferia morrer a subir por ali acima, mas pronto. Entretanto, chegaram os donos do clube, já com as cabeçadas na mão. Nem assim o meu amor percebeu. De onde se depreende que é muitoooo fácil surpreender este homem!

Logo para início de conversa, o dono começou a fazer-nos perguntas sobre a nossa experiência equestre. E o Belga mostrou-se humilde. Demasiado humilde, como sempre. O problema é que no site avisavam insistentemente que só faziam passeios com cavaleiros bastante experientes. O meu amor andou muito tempo num centro equestre, mas só começou a fazer passeios ao ar livre quando me conheceu. Mesmo assim, já lá vão quatro anos… e o homem continua modesto. Parece que o cavalo que lhe tinham destinado era “especial”. O meu era um pónei reguila, como sempre. Tendo em conta que era preciso descriminar a altura e o peso na ficha de inscrição, calculei que fosse esse o resultado. É sempre. Mas eu adoro os póneis. Contrariamente ao que se pensa, têm um feitio dos diabos. São teimosos e cheios de genica.

Mas, ontem, comecei a ver o caso mal parado. Os donos estavam com medo de deixar sair o Belga naquele monstro e o Belga também já estava a ficar com receio de tanto os ouvir discutir. Mas não havia mais cavalos disponíveis, naquele prado. E, bom, decidi que o melhor era enaltecer as minhas qualidades para ver se saíamos do impasse. O meu amor é um homem magro, o meu pónei aguentaria bem com ele. Só tinha de os convencer que, do alto do meu metro e meio (que agora até sabemos ser 1.48m, para sermos mais rigorosos), conseguiria montar o maior cavalo que ali estava. Eu nem sequer lhe chegava ao garrote. E vai de começar a falar dos meus anos na Sociedade Hípica Portuguesa, dos tempos tenebrosos dos saltos de obstáculos e da delícia quando finalmente comecei a fazer alta escola. Dressage, como se diz por aqui. Consegui convencê-los. Que sim, senhora, aquele cavalo vinha de uma escola e não estava habituado a movimentos demasiado bruscos. Estávamos com sorte, é assim que eu sei andar a cavalo. Costumo fazer figura de parva, quando vamos nestes passeios aventureiros, porque mantenho a posição e a discrição de movimentos que interiorizei ao longo dos anos. O resto do pessoal vai com as duas rédeas numa só mão, costas curvadas e pouco ou nada usa os pés. Às vezes, dou por mim a rir para dentro a imaginar qualquer um dos meus professores a chorar perante aquele espectáculo.

Cavalos bem alimentados, escovados, selados e lá fomos nós… O dono num pónei branco terrorista que passou o passeio todo às cangochas, o meu amor no meu/seu pónei cheio de speed, eu no mostrengo bem-educado… e o tal velhote que quase tinha estragado a surpresa. Ontem foi um daqueles dias em que tivemos uma valente lição de vida. O velhote tinha 83 anos e aparentava-os bem. Mas ainda faz 20 km diários de bicicleta. E estava ali para experimentar aquela égua, pois queria comprá-la para voltar a dar passeios a cavalo. Já estava meio desabituado… há três meses que não montava. A verdade é que o passeio demorou muito mais do que o previsto. Havia umas árvores caídas a cortar o caminho e gravilha fininha onde uns dias antes era só terra batida. E também nos perdemos, quando estávamos a galope. Seja como for, o velhote aguentou-se direitinho. Já nós… às tantas, estávamos um bocado mortos. Foram quase quatro horas de muitas subidas e descidas complicadas. E paisagens lindas. Não faço ideia como o dono se orientava, as árvores pareciam-me todas iguais. Mas, quando é assim, quem nos guia são os cavalos que sabem sempre escolher o melhor caminho.

Eu ia a fechar o pelotão. O mostrengo assim o decidiu. De vez em quando ia lado a lado com o meu amor, para falarmos um bocadinho. Mas o mostrengo gostava de manter as suas distâncias. Estranhamente, portou-se muito bem. No início, o dono lançava-me uns olhares preocupados. Mas, quando me viu já sem estribos a esticar as pernas, riu-se muito e disse que quando há técnica, não é preciso mais nada. Nem tamanho, nem força. O bicho era pacífico, mas com um trote largo e um galope veloz como o vento. Fartei-me de chorar com a ventania! Cruzamos tractores, cães, muitos cavalos e uma manada de vacas demasiado amistosas. Só se assustou, quando numa descida íngreme, nos saltou um ciclista pela frente. Acho que nos assustámos os quatro, bicicleta incluída. Azar dos azares, já me doía tudo e mais alguns músculos que nem sabia existirem. E estava sem estribos a esticar as pernas. A besta deu um salto atrás e vai de desatar aos pinotes. Mas acalmou depressa, passado o susto. E desceu o monte com um salto. O meu amor agradeceu-me por todos os santinhos ter-me armado em boa para salvar o passeio, porque dizia que teria ido de cabeça ao chão pela certa. O velhote afiançou que não queria o mostrengo, nem que fosse oferecido. E o dono disse que voltasse quando quisesse.

Quando já estávamos a chegar, os cavalos começaram a ficar mais nervosos e fizemos o resto do caminho a pé. A puxar por aquele brutamontes, que estava decidido a comer a erva toda que estava na berma do caminho. Daí o ar zangado, da última fotografia… J

O final do dia foi muito… como dizer? Doloroso. É que nem o banho quente nos valeu, caraças. Os miúdos ofereceram uma edição vintage da velhinha consola Atari ao meu amor. Foi engraçado vê-los à rasca com os joysticks. Já o meu amor estava perfeitamente à vontade. Uma pessoa esquece-se que aqueles jogos antigos tinham piada, mas a musiquinha enervante dá cabo do sistema nervoso. Seja como for, foi complicado arrancar os quatro dali. O Vasco tinha duas horas de solfejo em Stavelot e decidimos aproveitar para fazer um jantar romântico enquanto esperávamos. O Diogo quis ficar em casa, com a desculpa de que tinha de estudar para um teste. Mas acho que foi só um querido e deixou-nos aproveitar o resto do dia a dois. Tinha programado um filme para o serão, mas achámos melhor rendermos-nos às evidências de que os rabos doridos precisavam de descanso…


 








quarta-feira, 19 de abril de 2017

Resumo

(onde uns vão futilmente às compras e outros apreendem conteúdos novos por osmose… ou coisa que o valha, ainda não percebi bem)



Ontem, o meu amor foi buscar um livro que eu tinha encomendado. Mentira, ele é que o encomendou numa livraria universitária. Eu cá sou mais despachada, fui directamente ao site. Antes de fazer o pagamento, reclamei em voz alta que parecia incrível um livro demorar uma semana a vir de França. A Fnac Portugal despacha livros à velocidade da luz. No máximo, 72 horas. Mas os contos da Ferrante chegaram cá um dia depois de ter feito a encomenda. Ainda hoje o carteiro se lembra da minha cara de parva a olhar para ele. Daí o meu espanto pela demora daquela editora francesa. O meu amor achou que seria muito mais rápido encomendá-lo numa livraria no centro de Liège. Argumentou que funcionava que era uma maravilha. Céleres e prestáveis. E sempre se poupava nos portes. Seja. Precisava daquele livro o mais depressa possível.

Quinze dias depois, ligaram da livraria a dizer que o livro tinha finalmente chegado. A culpa era da editora, claro. O meu amor prontificou-se logo a ir buscá-lo. Não que eu andasse há mais de uma semana a falar constantemente do assunto. Nem que tivesse amaldiçoado a sua ideia peregrina umas mil vezes. Sou pessoa de bom feito e carácter agradável, como se sabe. A razão era outra. Bastante menos altruísta, por sinal.

Decidi aproveitar a ida à cidade, para ir às compras. E o meu amor achou por bem escapar airosamente ao suplício, oferecendo-se para ir buscar o livro. Pela primeira vez na minha vida, precisei de ir comprar calças de ganga ao filho pequeno, porque as que tem deixaram de lhe servir. Não estão rasgadas. Não têm joelheiras. Não estão verdes de tanto esfregar na relva. Simplesmente, deixaram de servir. Uma vitória completamente inédita. Filho grande também estava a precisar de calças. Depois de, incrédulo, se ter apercebido que também não cabia nas que tem. Depois de muito se ter espremido. E comprimido. Mas nem quase asfixiado aquilo fechava. O problema não é o rabo gordo, herança materna que o irmão ostenta orgulhoso (porque diz que tem um rabo musculado graças ao ballet). O problema são os ossos largos (eu não disse que também são herança materna, dado que ele não parece apreciá-los por aí além). Seja como for, os filhos precisavam de calças. E a filha do vizinho de meias anti-derrapantes (sim, sim… ofereci-me para o que fosse preciso). Eis-me então às compras, em pleno centro de Liège, enquanto o meu amor se pôs ao fresco.

O problema, quando uma pessoa desce à cidade, é que a oferta é mais que muita. E já que é para a desgraça, que seja a valer. Ando há tanto tempo à procura de um distribuidor de sumos para fazer água com frutos. E também havia a questão da manete da Xbox que o Vasco partiu com os nervos e que o irmão o obrigou a pagar e que eu fui incumbida de comprar no Media Markt. E as novidades na Fnac. E andar à procura de uma máquina de pão no Cash Converters. E ainda me faltava uma prenda de anos para o meu Belga preferido. Coisas várias, portanto. O meu amor descobriu por artes mágicas a Dadá, no meio das muitas centenas de carros que estavam naquele parque de estacionamento. E mandou mensagem a dizer que não me apressasse, que ele tinha assentado arraiais no capot (eu tinha ficado com a chaves, na esperança de o obrigar a dar uma ajudinha a carregar os sacos). Apesar de tudo, fui rápida. Juro que me despachei em menos de duas horas. Tendo em conta que ele ainda teve de ir à livraria e voltar, deve ter ficado à minha espera no estacionamento cerca de uma hora e pouco.

Ora, afinal, o que tem esta história de extraordinário? Pois que o meu amor veio o caminho todo até casa a debitar o meu livro. 45 minutos de um excelente resumo de 250 páginas. Muito melhor do que os resumos da Europa-América. Ou das sebentas amarelas. Ou de uma fantástica colecção de resumos de uma editora francesa que me permitiu apenas ler o primeiro e o último volume de À la Recherche du Temps Perdu, quando já estava na faculdade (e, se bem me lembro, até tive 14 valores nessa cadeira). Não faço ideia como é que o homem (o meu, não o Proust) conseguiu tal proeza. Mas fiz bem em esperar tanto tempo. E em fazê-lo sentir-se muito ligeiramente culpado por isso. Estou desconfiada que já nem sequer preciso de ler alguns capítulos. Principalmente, tendo em conta que não percebo nada do assunto (ele também não percebia…). Às tantas, deixei de o ouvir e comecei a ver o meu amor pequenino, sobredotado e ostracizado a saltar de ano sem qualquer esforço. E amei-o ainda mais um bocadinho. Ninguém se torna sociopata por acaso. E ontem percebi a razão. É que no meio de um ímpeto de amor, tive vontade de lhe atirar com o livro à cabeça ao ver que não só tinha conseguido ler aquilo tudo a correr, como conseguia reproduzir fielmente o texto, capítulo por capítulo. Parecendo que não, uma pessoa fica a sentir-se um bocadinho estúpida com tanta inteligência.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Na última semana, quando tudo mudou

(porque se vivem tempos insólitos por aqui)



- Corri todos os dias (e ontem consegui finalmente arrastar o meu amor)
- Decidi voltar à escola (mas descobri que continuo a gostar de demasiadas coisas diferentes)
- Não comi açúcar (excepto um nadinha no café)
- Fui até Eindhoven visitar o bebé mais loirinho que conheço (de permeio vi a avódrasta e o mano… e trouxe farinheiras)
- Encerrei uma página da minha existência (sem verter uma lágrima)
- Não telefonei uma única vez aos rapazes (mas recebi um SMS que dizia: “Podemos falar hoje, mãe querida?”)
- Adoptei um novo regime alimentar, devagarinho e sem fundamentalismos (excepção feita para as farinheiras)
- Fui ao cinema várias vezes (um dos filmes, fez-nos mudar radicalmente de ideias)
- Soltei os passarinhos todos (primeiro, aprenderam a voar na estufa)
- Conversei com muitos amigos e família (e às vezes faltavam-me as palavras em português)
- Decidi arriscar, perdi o medo, dei o salto (com borboletas na barriga, claro)
- Andei a ver terrenos (e a sonhar com cavalos)
- Percebi que nos podemos apaixonar vezes sem conta pelo mesmo homem (porque nos reinventamos ambos)
- Vivi feliz (cheia de projectos)
- Mudei de vida (sem olhar para trás)

domingo, 9 de abril de 2017

O novo vizinho

(onde os preconceitos são postos à prova)


Acordo uma manhã com a voz do senhorio da casa ao lado. Ainda não deviam ser oito horas. De um Sábado. Espreito pela janela e vejo-o a mostrar o jardim a um potencial interessado. Um homem, meia-idade já passada, com um bebé ao colo. Estranho a hora matutina. E o facto de não ver mais ninguém.

À tarde, batem à porta. Vou abrir e deparo-me com o “visitante”, acompanhado por um jovem mal-amanhado. Nem bom-dia, nem boa-tarde. Muito menos uma apresentação formal. De chofre, perguntam-me se o carro que está estacionado à porta é meu. Respondo que não e olham-me com ar desconfiado. Que precisam de espaço para estacionar o camião das mudanças. Explico que o meu carro está na garagem e indico a casa do dono do carro em questão. Sem demoras, viram-me costas e vão bater à porta do vizinho. Sem um obrigado, nem adeusinho.

A mudança é feita. E, dentro de casa ao lado, muita gente. Não dá para perceber quantos são. Uma coisa é certa, há um bebé. Ouvimo-lo chorar. Nós começamos a ver a vida mal parada. Até mesmo porque tínhamos um acordo com a antiga vizinha que funcionava na perfeição. Uma pequena parte do quintal pertence à casa ao lado e não está murado. Como aquela terra não interessa a ninguém, nós tratamos dela. Cortamos a relva, aparamos a sebe, impedimos que o matagal de silvas se propague. Em contrapartida, o intrépido D. Fuas Roupinho é rei e senhor da totalidade do espaço. E nós apanhamos quilos de amoras, no Verão. A vizinha só usava o seu espaço para estender a roupa e apanhar banhos de sol, sem ter o incómodo de tratar do terreno. E assim se passaram dois anos, de boa vizinhança.

No Domingo de manhã, debatemos o assunto à mesa do pequeno-almoço. Decidimos que temos de ir falar com os novos vizinhos para discutir a questão da divisão do terreno. O tempo urge. Se por acaso houver um cão, vai haver guerra. D. Fuas não admitirá a co-propriedade. Se houver um gato, ainda pior. É morte certa. Nisto, coisa pequena começa a chorar. Grossas lágrimas caem-lhe pela cara abaixo. Depois de muito puxarmos por ele, lá começa a contar a sua história. No dia anterior, tinha ido para o quintal brincar com a carabina. Como sempre, o campo inimigo mantinha o fogo cerrado. Um problema. E ele disparava em todas as direcções para se proteger. Inclusivamente contra a janela dos novos vizinhos. Até que o tal senhor de meia-idade abriu a janela e se pôs a gritar com ele. Que não o queria voltar a ver com brincar com armas no quintal ou ia chamar a Polícia. E, para rematar, mimou uma pistola com a mão e deu-lhe um tiro. Coisa pequena ficou aterrorizada.

Lá me apresso a ir falar com o homem. Um bocado irritada, confesso. Nem deixei o Belga levantar-se. Metem-se com os meus filhos e viro leoa. Bato à porta do lado e apresento-me. O vizinho convida-me a entrar. De imediato, conta-me a mesma história que o Vasco tinha acabado de nos contar. Palavra por palavra. Explica que ficou assustado, quando viu uma criança sozinha a brincar com uma arma no quintal. E quando ele apontou a espingarda à janela, entrou em pânico. Digo que compreendo, que é certo que se trata de uma carabina verdadeira que impõe respeito. Mas que, na realidade, é uma velharia do início do século XX, que o Vasco comprou num antiquário por tuta e meia. Que obviamente não funciona. Os únicos chumbos que dispara são fruto da imaginação infantil mirabolante. O homem ri-se. E eu aproveito para lhe dizer que, na próxima vez, antes de ameaçar o meu filho, talvez seja melhor começar por vir falar connosco. Que há assuntos que se resolvem entre adultos, sem intimidar as crianças. O homem dá-me prontamente razão e desculpa-se. Tinha a filha ao colo, assustou-se. Que anda uma pilha de nervos, ultimamente. E, nisto, começa a contar-me a sua história.

É inválido e vivia na República dos Camarões, com a mulher. Entretanto, tiveram uma filha. E tudo mudou. A sua visão das coisas mudou. A casa onde viviam sem água quente, nem electricidade a todas as horas, começou a parecer-lhe uma barraca. Aquele país sem eira, nem beira, começou a parecer-lhe perigoso. Os cuidados médicos inexistentes, insuportáveis. E a família da mulher, unida como um clã de mafiosos, demasiado intrometida. Decidiu voltar para a Bélgica. A pensão por invalidez era reduzida, mas haveria outras ajudas. A mulher não conseguiu obter o visto e ele teve de vir sozinho com a filha de meses. Registou a menina, arranjou casa. Carro, não tinha. E o visto foi novamente negado. Por três vezes. Ele já está a desesperar. A mulher pede-lhe que não volte, que a menina pode ter uma vida incomparavelmente melhor na Bélgica. Que é muito bonita, a menina. Um doce de criança. De vez em quando chora, claro. Principalmente, porque teve de apanhar as vacinas todas quase de enfiada. E eles chegaram no pino do Inverno. Ele, às vezes, passa-se. Grita. Está cansado. Já não é novo. É doente. E está completamente sozinho. Só tem os padrinhos da menina, que tinham ajudado na mudança precipitada. Porque as coisas se passaram muito mal, no anterior apartamento. Os vizinhos de cima faziam muito barulho, acordavam o bebé. Gente jovem, de pouco respeito. E ele reclamou. Como retaliação, fizeram queixa dele à Polícia por maus tratos. “A senhora sabe o que dói ser acusado de mal tratar um filho? Ter de ir à Polícia prestar declarações?” Sei, por acaso sei muito bem. Pensei, mas não disse. Só disse que sabia o que era estar sozinha num país com duas crianças. Que se precisasse de qualquer coisa, podia contar connosco. Bastava gritar à janela. Se quisesse que eu ficasse com a menina para ir arejar as ideias, bastava pedir. Agradeceu, mas recusou categoricamente. A menina só ficava com ele. O clã da mulher não estava contente com a situação. Nunca tal se tinha visto, um homem já velho a cuidar sozinho de um bebé. E ele tinha medo, porque havia muitos emigrantes dos Camarões nesta região. Ele via-os pela janela. Mas ele cuidava bem da menina. Era o seu tesouro. Mas, às vezes, gritava. Era o cansaço a falar.

Passaram-se três semanas. Já o tenho ouvido ralhar aos gritos. E o bebé chora um bocadinho depois. De resto, não os ouço. Nem os vejo no quintal. É pena, a menina devia aproveitar o sol radioso deste início de Primavera. De vez em quando, vejo-o a passear com carrinho do bebé na rua. Depois da carrinha da Cruz Vermelha passar, no final do dia, para recolher os refugiados. No outro dia, a vizinha do outro lado quis saber como se passavam as coisas. Já sabia a história toda do homem, inclusivamente a queixa por maus tratos. Disse que a vizinhança estava de pré-aviso. Que não era normal um homem já velho cuidar sozinho de um bebé. Se calhar, a menina não era bem tratada. Admiti que já o tinha ouvido gritar com o bebé. Mas que ela quase não chorava. Parecia feliz e sorridente. De facto, é lindíssima. E nós não sabemos tudo o que aquele homem está a sofrer. Afinal, o preconceito num país nórdico não parece assim tão distante do preconceito africano. Talvez seja por isso que aquele homem vive quase recluso com a filha. Sinto nojo. Nojo desta Europa que não deixa que um casal se reúna, só porque a mulher teve o azar de nascer no país errado. Nojo deste mundo que prefere criticar a ajudar um pai sozinho. Nojo do preconceito, da crítica fácil, do apontar de dedo.


Aquele homem precisa de ajuda, é evidente. A única vez que nos bateu à porta foi para perguntar as horas. A hora tinha mudado e ele estava meio perdido. Também deve estar perdido em diversos outros sentidos, mas não sei como poderei ajudá-lo. Tenho-me limitado aos sorrisos e acenos amistosos. Na esperança de que a simpatia quebre algumas barreiras. Mas sinto que é pouco para o muito que ele deve estar a precisar.