quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Modernices

(onde se vê um filho pequeno a léguas da sua zona de conforto)


Coisa pequena anda dividida. A professora de ballet está de baixa prolongada e foi substituída por um professor de outra academia. O facto de, pela primeira vez, ter aulas com um homem foi muitíssimo bem acolhida. Há quatro anos que o Vasco anda imerso num universo exclusivamente feminino sem direito a contraditório. O problema é que este professor é um apaixonado por dança contemporânea. E a nossa coisa pequena detesta dança moderna. No 4.º ano era suposto complementar a formação clássica com aulas de dança jazz obrigatórias, mas conseguiu escapar com a desculpa de que mora longe e está no último ano de solfejo e tem as aulas de violino e o conjunto de cordas… Não sei bem como, lá arranjou maneira de dar a volta à professora. Ela ainda tentou convencê-lo a ir para o sapateado que tem uns horários mais flexíveis, mas o Vasco fez um ar de vómito tão realista que a senhora não insistiu. E assim andava coisa pequena, feliz da vida com o seu estatuto de excepção de apenas 2 horas de dança clássica semanais.

Até que apareceu o Monsieur Dumont a estragar literalmente o esquema todo. Acabou-se a música clássica. As coreografias, agora, são modernas. Filho pequeno tem aguentado estoicamente, pois anda encantado com o professor. E porque deixou de fazer o treino intenso no solo, que o deixava estafado. Parece que estas aulas têm a vantagem de serem um pouco mais ligeiras. Mas o drama deu-se quando o professor se lembrou de fazer uma pequenina demonstração para os pais, no final do 1.º período. Só para mostrar o que andaram a fazer, em Dezembro. Avisou que os últimos passos só tinham sido ensaiados no início daquela aula e que o objectivo não era apresentar uma coreografia perfeita. Mas nós, que estamos proibidos de assistir e apenas vemos o espectáculo bienal, ficámos contentíssimos. Dez minutos antes do fim da aula, já estávamos todos à porta. Para piorar as coisas, diz que fiquei demasiado perto e que me pus a filmar. Coisa pequena estava zangada comigo. E muito pouco à-vontade. Mas eu ia lá perder uma oportunidade destas…


(... e ainda bem, porque o Vasco está farto de me pedir para ver o vídeo. Não é para defender a coisa pequena - apesar de adorar este meu filho, não sou cega ao ponto de achar que é o próximo Nureyev - mas ele é dos poucos que estava a seguir o tempo. O irmão fartou-se de gozar e diz que não consegue ouvir o professor a dizer repetidamente "lentement"... Eu estava lá e ouvi. No entanto, para quem conhece bem o Vasco, a piada deste vídeo é precisamente a vergonha que é tãoooooo rara nele!)

sábado, 23 de dezembro de 2017

Natal de pessoas

(onde aguardamos com a ansiedade infantil a véspera de Natal)


Finalmente, um Natal banalíssimo. Ou talvez não, porque esperámos muito por ele. A vida dá tantas, tantas voltas. E, no final, tudo fica no sítio certo. Ou, então, somos nós que já aprendemos a encaixar. A dar um jeitinho. A dançar ao som da música. As coisas não têm sido simples, nos últimos tempos. O que nos salva são sempre as pessoas. Acredito mesmo nisso. Na força e no poder transcendente dos afectos.

Amanhã, vamos dar um pulinho à Holanda. A ceia de Natal terá bacalhau vindo de Portugal. E bolo-rei que fui comprar ao Luxemburgo. Cervejas e macarrons da Bélgica. Tantos países e, no fundo, sempre o mesmo. As pessoas. Nós. Os meus rapazes. A avódrasta. O meu maninho. O bebé-tóxico mais fofo do mundo. Não preciso de mais nada. Exagerei nas prendas, como sempre. Mas é porque estou feliz. Porque lhes quero mostrar o quanto os amo. O quanto enriquecem a minha vida.

No dia de Natal, recebemos os pais do meu amor. E a palavra de ordem é mesmo essa: receber. Acolher. Abrir as portas da nossa casa e do nosso coração. Agradecer tudo o que têm feito por nós. A sorte que tivemos por o nosso caminho se cruzar. Não posso recuperar o tempo perdido a fugir de um afecto que julgava imposto. Mas posso mostrar que este bem-querer é sincero. E a gratidão que sinto também. O Vasco ganhou os dois avós de que precisava. E o Diogo soube ter a generosidade e a maturidade de ceder o palco ao irmão (mas só porque é o menino da sua avódrasta). Coincidência ou não, é a avódrasta que vai trazer de Portugal a prenda para a minha sogra. Como se diz por aqui, la boucle se boucle. O ciclo fecha-se.


Neste Natal desejo-vos paz. E que tenham por perto quem vos ame e cuide. Agradeço-vos do fundo do coração por continuarem por aí, apesar da minha ausência. Um dia destes prometo falar sobre isso, assim o filho crescido permita. Tenho umas saudades imensas de escrever livremente, acreditem. Beijos.

(Eles, claro. O meu Natal.) 

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Extensão materna

(onde percebemos que somos literalmente unos com a força filhos)


Ontem foi a estreia do novo filme do Star Wars. Para não variar, em plena época de exames do Diogo. Depois de um dia gelado, em que a neve não deu tréguas. À tardinha, os miúdos estudavam. Eu estava enredada numa tradução (e numa mantinha). Confesso que fiquei feliz da vida quando, já mesmo em cima da hora, percebemos que os bilhetes de cinema tinha desaparecido para parte incerta. Foi a prenda de anos que o Diogo ofereceu ao irmão. Comprou-os há muitos meses atrás e foram connosco para Dublim, juntamente com as outras prendas todas. E cheira-me que devem ter ficado por lá, perdidos no meio dos papéis de embrulho que equilibrei com mestria no diminuto cesto do lixo do quarto de hotel. Infelizmente, filho crescido lembrou-se a tempo que podíamos mostrar os bilhetes digitais no iCoiso. E lá fomos nós para Liège. Eles numa excitação parva. E eu com espírito de sacrifício monumental.

Assim que se sentou na sala de cinema lotada, coisa pequena pôs os óculos 3D, atascou-se ao saco gigante de pipocas, chegou-se bem à frente e nunca mais ninguém a ouviu. Quer dizer, eu ouvi-o chorar imensas vezes ao longo daquelas longaaas horas. Filho crescido estava demasiado nervoso para comer e só conseguiu sorver litros de Coca-Cola que sabe estar proibido de beber. Mas, desta vez, não me pediu autorização, nem dinheiro. Atascou-se a mim, com agradecimentos melosos e uma cumplicidade emocionada que eu mostrei claramente que estava longe de sentir. Nada o demoveu. Nem mesmo o facto de lhe ter suplicado que se afastasse, porque o cheiro das hormonas adolescentes nervosas começou a dar-me cabo do sistema olfativo. O Diogo estava num daqueles seus momentos de mãezice aguda, misturados com uma alegria parva.

Quando os anúncios começaram, com dois ursos pardos muito apaixonados a velejar rumo ao infinito para vender não sei que produto, comentou logo que eram tal e qual o meu amor e eu. E repetiu pela enésima vez que eramos tãooo felizes. Grunhi que não. Que falasse por ele. Filho grande, imbuído da certeza do amor materno a toda a prova, respondeu-me a rir que sabia perfeitamente que eu estava a dizer aquilo “só para o estilo”, para me fazer de difícil. Insisti que não. Ele abraçou-me e suspirou: “Ó mãe, sei perfeitamente que estás feliz por estar aqui comigo a viver ISTO.” Pronto, tive de desistir. Percebi que o Diogo estava mesmo convencido que a emoção era partilhada. Aos 11 anos, é impossível pensar que a mãe pode não gostar de Star Wars. Aos 16, é impossível pensar que a mãe pode não ficar feliz por partilhar a felicidade filial em relação ao Star Wars. É evidente que a pedagogia infantil reviu a coisa em baixa. Não são só os bebés que pensam que são uma extensão da mãe. Segundo consta, os adolescentes também pensam que eles e a mãe são um ser uno, no que à felicidade diz respeito.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Paisagem extraterrestre

(onde se vem falar sobre as férias nos Açores 

e as memórias nos submergem)



Primeiro, quis ser astrónoma. Não sei bem que idade teria, mas ainda devia andar na Primária. Desisti quando apareceram os números negativos e percebi que a Matemática era demasiado abstracta. Ou que eu era demasiado concreta. [o senhor do banco ficou muito admirado quando lhe disse há uns tempos que não precisava de uma conta corrente que pudesse ir a negativos, porque o meu número limite era o zero… deve ter pensado que estava a falar em sentido figurado, mas eu estava a ser o mais literal e honesta possível]

Nessa mesma época, 2500 km a Norte, o meu amor também queria ser astrónomo. Mas enquanto ele comprou um telescópio para ver as estrelas, eu comprei um livro. Já nesse tempo a minha via láctea era feita de letras. Era um livro técnico da Europa-América e eu não percebi grande coisa. Não percebi nada, para ser mais exacta. A oferta de literatura infantil no Portugal dos anos 80 era limitada. De qualquer modo, os meus pais abominavam a adjectivação ‘infantil’ por princípio. Como era teimosa – eu achava que era apenas uma astrónoma em potência muito persistente – decidi ler tudo até ao fim. Salvou-me o meu avô, que um dia veio almoçar a casa e me trouxe um álbum lindíssimo sobre astronomia, repleto de fotografias. O meu avô António trabalhava na Editorial Notícias e conseguia sempre desencantar livros que não se viam em mais lado nenhum. Apesar de ser um homem de números e andar sempre muito aprumado de fato e gravata. [passados uns dias, o meu tio João achou aquele conhecimento todo demasiado livresco e levou-me à Faculdade de Ciências. A minha avó Clarisse ia morrendo de susto, quando leu o papel que lhe deixámos a dizer: “Fomos conhecer cientistas a sério. Não lanchamos.” Não me lembro do lanche, nem dos cientistas. Muito menos dos laboratórios. Lembro-me de pensar que a Faculdade de Ciências era muito feia comparada com a de Letras]

Um dia, o meu pai foi ao Brasil a trabalho. Pouco depois de os meus pais se separarem, combinámos que ele me traria sempre um presente das suas viagens. Nunca falhou. Tive uma enorme colecção de ursos de peluche do mundo inteiro até um dálmata com mau feitio decidir vingar-se de uma tarde de estudo no café. Quando ia para a faculdade (a mais bonita, a de Letras), nunca se zangava… quando ia estudar para a esplanada sem o levar, tinha sempre uma pequena vingança à minha espera. Nunca percebi como é que ele sabia para onde eu ia, levava os mesmíssimos livros debaixo do braço. Nessa tarde, foram dezenas de cabeças e patas de ursos espalhadas pela casa. Mas – estava eu a dizer – um dia, o meu pai foi ao Brasil. E mandou-me um postal do Pão de Açúcar, que dizia: “Filha, é uma parvoíce querer ir à Lua, sem antes ter conhecido o mundo. O Brasil é lindíssimo.” Ora eu nunca tinha recebido um postal destas suas viagens de trabalho. E ainda por cima fui a única que recebeu um postal lá em casa. Fiquei a pensar que o Brasil devia ter mesmo paisagens muito bonitas e que tinha de ir lá o quanto antes. Também me lembro de pensar que os adultos às vezes são um bocado ignorantes. Ser astronauta não é o mesmo que ser astrónoma. [nessa viagem, não recebi um urso de peluche. Recebi uma enorme tablete de chocolate. Nunca tinha visto uma tablete tão grande na minha vida. Na manhã seguinte, acordei o meu pai para lhe perguntar se me ia levar de carro à escola e fui escorraçada. Voltei ao ataque mais duas vezes. Na última vez, o meu pai avisou-me que me matava se acordasse o meu irmão mais novo. Resignei-me a ir a pé. Eu, a mochila pesada, o cesto com o termos e a minha tablete gigante de chocolate para dividir com os amigos. Pedi à empregada que fosse buscar a tablete ao quarto com muito cuidado para não acordar o bebé. Depois de muito remexer na minha secretária, apareceu na sala com um esquadro. E eu gritei que aquilo não era uma tablete. E o meu irmão Pedro acordou a chorar. E o pai apareceu para me dar umas valentes palmadas. Valeu-me a empregada que não sabia distinguir uma tablete de um esquadro, mas que avisou que eu já estava bastante atrasada. Fui de rabo dorido a correr para escola. Eu, a mochila pesada, o cesto com o termos… e a minha tablete gigante de chocolate. O que só prova que os princípios educativos naquela casa eram muito pouco consistentes. Há uns tempos contei esta história aos rapazes e o Diogo disse que, se fizesse o mesmo, o chocolate teria voado logo pela janela. Os meus filhos conhecem-me bem]


No Verão de 2017, a tribo passou duas semanas de sonho nos Açores. E eu lembrei-me do postal do meu pai. E do livro do meu avó António. E do meu sonho de ser astrónoma. Aquela ilha encantou-me pela sua paisagem extraterrestre. Senti que estava dentro de um daqueles livros de ficção científica que aprendi a devorar com esta estranha família. [uma das coisas que recordo com mais carinho, no velório do meu avó António, no mês passado, foi ter ido novamente lanchar com o meu tio cientista]





sábado, 25 de novembro de 2017

Onze anos cheios de vida

(porque ver o Vasco ganhar mundo

 tem sido das melhores coisas desta nossa aventura)





Já vimos golfinhos a nadar mesmo ao nosso lado em São Miguel.
Já comemos um gelado no cimo da Torre Eiffel.
Já nos perdemos à noite na confusão da Jemaa el-Fna.
Já calçámos uns sapatos de bronze em Malmo.
Já nos enterrámos na lama do Mar de Jade.
Já atravessámos os Pirenéus a dormir profundamente.
Já nos arruinámos numa marisqueira na cidade do Luxemburgo.
Já nos assustámos com as múmias no British Museum.
Já nos deliciámos com uma gauffre com morangos na Grand-Place.
Já percorremos os canais de Amesterdão num barco a motor.
Já comprámos Legos em Copenhaga.
Já nos refugiámos do calor a ver o Bosch no Prado.
Já molhámos os pés em Dezembro na Praia Grande.


Hoje, no dia dos seus onze alegres anos, quem sabe o que nos espera em Phoenix Park.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

A emissão volta dentro de momentos

(onde se vai sem data de regresso)


Este ano lectivo foi muito difícil por diversos motivos. O final do ano foi especialmente dantesco. Estou bastante contente com o desempenho dos rapazes. Na escola e nas suas mil e uma actividades. Mas não estou satisfeita comigo própria. Algo falhou, sinto que andei meses a tentar acompanhar o ritmo sem conseguir. Impõe-se um período de reflexão.

Este ano decidimos ir de férias ainda antes do final das aulas. Ambas as escolas deram a sua autorização. Suponho que a minha cara de morta-viva deve ter ajudado. O meu amor organizou tudo, dentro do espírito que tinha ficado acordado no Verão passado: dar a conhecer o nosso país aos rapazes, antes de continuarmos a mostrar-lhes mais terras longínquas. E, pela primeira vez, partir juntos à descoberta de uma nova paisagem. A escolha foi fácil, dado que o meu amor ainda não conhecia os Açores. Nós também não.

As férias, este ano, querem-se "férias" no verdadeiro sentido da palavra. Ou seja, muito tempo no mesmo sítio. Tempo para ler. Para estarmos juntos. E sozinhos também. Tempo para descansar. Não quero visitar um sítio novo, tirar meia dúzia de fotografias e partir a correr para o próximo. Quero estar. Mais do que ver, quero observar. Com calma, tempo e paz. Sem a obrigação de limpar a casa e cozinhar. Enfim, férias.

Depois de uma paragem em Lisboa para matar saudades da família e dos amigos, eis-nos, então, em São Miguel. A emissão volta dentro de momentos.

Na minha Commune

(onde a vida floresce e se cuida da natureza)


Digo muitas vezes que me volto a apaixonar por este país todos os Outonos, quando a natureza nos oferece um espectáculo de cores lindíssimo. Mas também poderia perfeitamente dizer que me volto a apaixonar pela minha commune todos os Verões. Quando o calor aparece ainda meio tímido, Vielsalm renasce. As entradas e os parapeitos das casas enchem-se de flores. A câmara instala canteiros nas ruas e no cimo dos candeeiros. E hotéis para insectos. Os monumentos dedicados às duas Grandes Guerras são limpos e engalanados. Como todas as vilas e aldeolas perdidas das Ardenas, Vielsalm também sofreu muito com a guerra e a memória quer-se bem presente nas novas gerações. Os miúdos voltam a andar em grupos pelas ruas, vinte ou mais em fila, com um só professor à cabeça. É normal a escola vir para a rua, quando o tempo assim o permite. Vão ver exposições, buscar livros à biblioteca, fazer ginástica em frente ao lago ou simplesmente passear. No outro dia, a directora da escola do Vasco invadiu a esplanada em frente à nossa casa com os pequeninos da creche para comer um gelado. Os pais nunca são avisados destas saídas e é sempre engraçado deparar-me com o Vasco a meio do dia, sem estar à espera.

Este ano, houve novas alterações que me agradaram especialmente. Todo o caminho à volta do lago foi arranjado. Construíram espaços de piquenique, bancos de madeira com canteiros e instalaram maquinetas para fazer exercício. Apesar de correr por ali quase diariamente, ainda não tive coragem de os experimentar… contrariamente aos velhotes todos da commune! Na zona do lago dedicada à pesca, construíram um espaço específico para as cadeiras de rodas, abrindo a actividade a um novo leque de utilizadores normalmente afastados destas lides. Além disso, ao longo das ruas, foram criadas hortas públicas com ervas aromáticas e pequenos legumes biológicos, onde a população se pode servir. Segundo me explicou um trabalhador da câmara oriundo de um centro de refugiados, há um cuidado especial em manter os insectos e abelhas da commune durante a época de polonização, pelo que não são utilizados quaisquer pesticidas. E eu que pensava que as flores que nos invadem nesta época eram apenas uma questão estética!










terça-feira, 20 de junho de 2017

Uma acusação parva, quatro respostas idiotas possíveis

(porque acabei de receber por SMS uma fotografia 

e uma queixa da mãe de um colega do Vasco, 

a dizer que tenho mesmoooo de falar com o meu filho selvagem)



a) Não te passou pela cabeça perguntar ao teu filho como raio é que o Vasco conseguiu mordê-lo na axila?! É que quando se aperta a cabeça de alguém com força debaixo do braço arriscamo-nos a que a pessoa se defenda com a única parte do corpo que tem livre… os dentes!

b) É uma pena a mordidela não ter sido mais forte. Gostava de mandar essa fotografia à ortodontista do Vasco para lhe dar os parabéns pela magnífica mandíbula superior. Afinal valeu bem o investimento dos quatro aparelhos dentários, caraças!

c) Estás cheia de sorte que o Vasco não sabe andar à bulha e defende-se como um miúdo pequeno. Estou cá desconfiada que outro Tuga qualquer de 10 anos lhe teria mandado dois belos sopapos nas trombas só para início de conversa.

d) É que dá insistirem em meter o miúdo na bola! Ele já te disse várias vezes que quer ir para o ballet com o Vasco, mas vocês acham que o futebol é que é um desporto de homens… Mal por mal, ponham-no nas artes marciais. É másculo e ainda aprende imobilizar por completo uma pessoa dos pés aos dentes à cabeça!

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Quando as palavras não chegam

(porque há momentos em que só a música nos salva)



Apetece-me escrever o que me vai na alma, mas as palavras têm dificuldade em sair. Em articular-se. Estou farta de ver a floresta em Portugal a ser dizimada por incêndios no Verão. Tal como estou cansada dos atentados que propagam o medo tão perto de nós, nos últimos tempos. Tantas vidas ceifadas. Aos poucos, aprendemos a ser indiferentes. A seguir com a nossa vida, como se nada fosse. Deixamos de pedir notícias à família espalhada por essa Europa fora quando algo acontece, convictos de que nunca serão os nossos. E suspiramos de alívio porque, apesar de tudo, nos sentimos seguros nesta terriola nos confins das Ardenas. Não sei o que será pior: a calamidade ou a nossa própria indiferença e tranquilidade por nos sabermos a salvo… Até quando?

Não tenho por hábito mostrar os meus filhos a tocar, porque acho que as crianças não são macaquinhos de circo. Mas hoje abro uma pequena excepção. O Diogo foi dispensado do exame de órgão em Abril, por estar numa visita de estudo em Oxford. No final deste segundo ano, teve por isso de apresentar quatro músicas na audição. É o único instrumento que o filho crescido consegue tocar sozinho em público. Não está em palco a dar espectáculo, está numa igreja a falar com ele próprio. Não está a exibir-se virado para a assistência, está face a face com o mais belo instrumento. No final, o director da Académie deu os parabéns aos dois jovens músicos, o Noé e o Diogo. Pela excelente prestação mas, principalmente, por serem uma pequeníssima minoria (por coincidências da vida são ambos portugueses e têm um percurso de vida muito semelhante). O órgão de igreja não é um instrumento popular entre os adolescentes. É preciso ter coragem para ser diferente e lutar contra o mainstream. E força de vontade para ter aulas numa igreja fria, em pleno Inverno. Para além da humildade de se não se poder mostrar a ninguém o que se faz no recolhimento daquele espaço sagrado.

Poder-me-ão perguntar qual a relação entre as catástrofes que nos assolam e o órgão de igreja (para além do facto de acreditar que a música é salvadora, nestes momentos). A resposta, para mim, está na educação. De uma maneira ou de outra, estou convencida de que só conseguiremos mudar de paradigma educando as novas gerações para pensarem “fora da caixa”. Sozinha não consigo fazer nada para travar o aquecimento global. Ou para combater o terrorismo. Provavelmente, a única coisa que poderei fazer é educar os meus dois rapazes para serem anticonformistas, para não terem medo da diferença. Para pensarem pela sua própria cabeça. Para serem conscientes e defenderem o planeta que os alberga com todas as suas forças. Para serem empáticos, para se tentarem sempre pôr no lugar do outro. Para serem altruístas e porem o bem maior acima das suas próprias necessidades comezinhas. Para criarem pontes entre povos, culturas, línguas, países. Para terem uma mente aberta, sã, liberta, evoluída. Sobretudo, para serem imaginativos. Acho que estamos desesperadamente a precisar de pessoas com imaginação. O mundo tal como o conhecemos está a deixar de fazer sentido, mas nós continuamos todos cegamente agarrados a uma forma antiga de fazer. De ser e de estar. Não sou nada defensora do “na minha época é que era”. A minha geração está a chegar ao poder. Já detém inúmeros cargos de chefia e posições importantes. E, salvo raras excepções, é uma desilusão. Possamos, pelo menos, ser bons educadores para que as coisas mudem daqui por uns anos.


quinta-feira, 15 de junho de 2017

A ler com atenção

(quando um profissional que muito respeitamos chama a atenção

 para os perigos da “moda” da alienação parental)



Roubado a Clara Sottomayor.
Isto é muito preocupante e repito o que já disse aqui e no O Amor é...: claro que há mulheres - e homens! - que manipulam crianças na sua luta contra o outro progenitor, todos os envolvidos no processo devem ter a preparação e o empenhamento necessários para avaliar as situações. Mas quando se começa a decidir baseados em diagnósticos e rótulos, ainda por cima discutíveis e discutidos, a injustiça espreita em cada esquina . E os números referidos no artigo são impressionantes...
By Marisa Endicott, Common Sense News When Jaclyn moved to Ohio with her two young children, she thought she could begin a new life. She and her hu...
HUFFINGTONPOST.COM

Eis um cheirinho do artigo…

“One three-year study is looking at thousands of cases involving abuse, custody and alienation. A preliminary examination of 238 cases indicates that fathers accused of abuse (adult or child), who in turn accused the mother of alienation, won their cases 72 percent of the time. They won 69 percent of the time when child abuse was alleged and 81 percent of the time when child sexual abuse was alleged. In the seven cases where judges credited both abuse and alienation in the ruling, the father won every time. When the court credited abuse but not alienation, fathers only won 16 percent. The researchers defined winning as any time the litigants received some or all of what they requested, ranging from more visits to full custody.”

domingo, 11 de junho de 2017

Dezasseis anos de filho grande

(porque se não fossem aqueles olhos escuros iguaizinhos aos meus 

e o amor infinito que lhe tenho,

duvidaria que é mesmo meu filho)




Defende ideias de direita. Mesmo muito à direita. Tanto, tanto, tanto, que chega a tocar ligeiramente à esquerda sem se aperceber.

Tem valores morais inalcançáveis. Conservadores, como se pode calcular.

A língua afiada é de crítica fácil. O decote daquela é demasiado pronunciado. Aquele vem das barracas. O comportamento do outro é deplorável. Acolá está um bando de bêbados.

Adora a escola. Sabe-lhe sempre a pouco. Por ele, encurtava as férias todas pela metade. Ainda assim, seria imenso. Defende a rigidez do regulamento interno com a vida. A autoridade docente também é inquestionável. Relembra as datas dos testes e nunca deixa passar os trabalhos de casa em branco. É o terror dos colegas, excessivamente imaturos e palermas.

Abomina a adolescência tresloucada. A que é passada em noitadas de bebedeira, deboche e drogas. A adolescência perdida, desinteressante e ridícula. Mal-amanhada. Mal vestida. Ignorante. Que só sabe escrever textos encriptados, numa espécie de linguajar infantil sintetizado que aboliu as vogais.

A música moderna devia ser erradicada do mundo. Tal como a televisão, que nos tenta manipular sub-repticiamente. E a superficialidade da comunicação social.

Aguarda ansiosamente o regresso dos serial killers que lhe irão garantir um emprego no futuro. Enquanto isso vai devorando livros de crimes. Reais ou ficcionais, tanto faz. As profundezas da maldade humana atraem-no.

Quando adora uma pessoa, os seus defeitos são “queridos”. Mas se alguém cai em desgraça é incapaz de perdoar. A traição é o pior defeito do ser humano.

Tem uma sensibilidade exacerbada ao erro ortográfico, que corrige compulsivamente. Nada escapa ao crivo do seu lápis azul: SMS da namorada, comentários dos amigos no Facebook, cartas de amor da namorada do irmão, artigos de jornais…

É sobranceiro e altivo. Elitista. Arrogante. Superior.

Detesta mudanças, transformações, reviravoltas. O mundo devia ser imutável. A ordem dos objectos fixa. A mínima modificação consegue deixá-lo fisicamente maldisposto. Seja uma cadeira fora do lugar, um quadro ligeiramente torto ou um bloco de folhas desordenadas.

Ostenta com orgulho uma certa forma de pudor. O corpo não deve ser demasiado exposto (muito menos tocado). As manifestações de afecto querem-se discretas. As emoções exacerbadas e demonstrativas são sintoma de fraqueza humana.

Tem um sentido estético apuradíssimo. A indumentária é sinal de distinção. As marcas não são importantes, a originalidade também não. A excentricidade assusta-o. Há que ser discreto.

Gosta muito de viajar e de conhecer novos mundos. Novas culturas. Tem imensa curiosidade perante a diferença. Apesar disso, o melhor de tudo é voltar a casa. Ao refúgio imutável e seguro.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Ninguém me encomendou este fado

(onde se passa momentaneamente para o lado de lá)



Nestes últimos cinco anos, tenho ouvido todo o tipo de pergunta. A nossa vida parece suscitar curiosidade. A temática da emigração é recorrente. Questionam-me sobre a Bélgica, as diferenças entre os dois países, a problemática do bilinguismo, a distância da família, as saudades que sinto dos amigos, o isolamento… Às vezes, perguntam-me como é educar dois rapazes sozinha. O meu amor também é alvo de atenção. A nossa relação a quatro, que está a anos-luz da típica família recomposta. Muito raramente me questionam sobre a relação do Diogo e do Vasco com o outro lado. E eu agradeço o respeito pela privacidade dos meus filhos. No entanto, penso que seria interessante inverter esta questão. Ou seja: que tipo de mãe seria eu se estivesse do outro lado? Esse assunto atormentou-me largos meses, durante a disputa pela guarda do Diogo, em 2014. Estranhamente, nunca ninguém me fez essa pergunta. Talvez preferíssemos todos manter a esperança de que ambos os rapazes ficariam comigo na Bélgica e ninguém quisesse imaginar cenários derrotistas. Excepto eu e a minha mente atormentada. Passei muitas noites acordada a pensar no que faria, caso o Diogo fosse viver para Portugal. Felizmente, tal não aconteceu e já esquecemos esses tempos negros. Amanhã, o filho crescido faz 16 anos. Pela primeira vez, pediu expressamente para não receber a visita do outro lado. A sua vontade foi respeitada. Mas hoje, ao espreitar pela terceira vez a caixa do correio vazia, fiquei com a sensação de que a sua vontade foi também castigada. E voltei a pensar no que eu faria, se fosse o progenitor que está longe.

Acredito que é possível contrariar o paradoxo de nos mantermos presentes na vida de um filho que está longe. A distância pode ser colmatada de diversas formas. Não será o ideal, mas é exequível. Assim haja vontade de ambas as partes e – o mais importante – assim o progenitor em questão tenha capacidade para se apagar e pôr os filhos em primeiro lugar. Não vale a pena seguir cegamente a lei e obrigar toda a gente a viver no medo. Não vale a pena obrigar os filhos a falar todos os dias a determinada hora, só porque é o que está estipulado legalmente. Principalmente, se esse tempo for usado para falar do trabalho do progenitor, dos resultados da bola, do tempo que faz em Portugal e da vida de outras crianças que entretanto apareceram. A longo prazo, o que vai acontecer é que os miúdos vão associar esses telefonemas a uma obrigação isenta de prazer. E, quando perceberem que o tal medo instituído era meramente fictício, deixarão de atender o telefone. Nesse momento, já não haverá lei nem presença física que valha para reconstruir a relação filial. O telefone é um excelente meio de comunicação, mas a partir de certa idade deve ser deixado a cargo dos filhos. Quando um filho tiver algo importante para dizer, liga. Até lá cabe ao progenitor distante fomentar a vontade de falar. Se pensarmos bem, não é assim tão difícil… Mandar uma mensagem a dizer que se está em tal sítio e se lembrou de uma história divertida passada. Partilhar um post qualquer interessante no Facebook, o trailer de lançamento da série preferida, o cover de uma música que o filho gosta especialmente, um artigo que possam posteriormente discutir, etc. Hoje em dia, há tantas redes sociais que se torna fácil manter em aberto diversos canais de comunicação. Por que não manter um blog fechado para trocarem impressões e fotografias? Verba volant scripta manent. Além do mais, a escrita tem a vantagem de colmatar lacunas na língua materna dos filhos que estão a crescer num país estrangeiro.

Cada vez mais, as pessoas parecem centrar-se unicamente no imediatismo do contacto humano. Mas o Skype ou o Facetime diários nunca poderão substituir um postal ou uma carta mais longa (a escrita… novamente, a escrita!). Mostrar o crescimento de alguém através do iCoiso não substitui fotografias actualizadas que poderão ser revistas e, inclusivamente, mostradas aos amigos na escola. Tal como, mais importante do que dizer que se comeu este ou aquele prato num novo restaurante (ou em casa de familiares), é enviar por correio um produto português qualquer que os miúdos apreciem. Quem está longe sabe a alegria que é receber um chapelinho de chocolate da Regina, uma farinheira ou uma caixa de "Chocoflakes". Ou outra coisa qualquer. Não é só pela comida, como é evidente. É também pelo facto de sabermos que somos importantes, que alguém pensou em nós, que nos conhece os gostos e os anseios. No ano em que estive na Bélgica, recebia frequentemente cassetes, livros e jornais. Por vezes, uma peça de roupa. E cartas… recebi centenas de cartas, que guardei anos a fio com imenso carinho. Não percebo por que diabo não se pode continuar a enviar estas coisas por correio. A Fnac, por exemplo, permite fazer entregas em países diferentes por um custo ridículo. Os jornais e os livros ainda não se tornaram obsoletos! Obviamente, convém que os periódicos confirmem a versão cor-de-rosa do que dizemos passar-se no jardim à beira-mar plantado…

Por outro lado, uma das vantagens da sociedade actual é a democratização dos preços das viagens de avião. Que tal apanhar um avião em cima da hora para fazer uma surpresa aos filhos? Basta activar um alerta nos principais sites de voos low cost para receber notificações automáticas, quando houver bilhetes a preços convidativos. No ano em que o meu amor esteve em Itália, raramente gastava mais de 70 euros nos voos ida e volta. Normalmente, comprava-os com bastantes meses de antecedência, mas também aconteceu aproveitar lugares de última hora. Dir-me-ão que os hóteis são caros… Mas pode-se sempre alugar um airbnb, que também permite poupar nas refeições. De qualquer modo, o que interessa mesmo é o tempo passado juntos a construir memórias. Não me parece que os miúdos se importem de andar de transportes públicos ou de dormir em casa de alguém. Faz tudo parte da “aventura”, assim o progenitor que está longe esteja disposto a deixar cair a imagem de pessoa abastada e séria. A vantagem de se viver no centro da Europa é que depressa se está noutro país vizinho. Talvez inclusivamente se possa aproveitar a viagem para dar a conhecer novos mundos aos filhos. O tempo em família é essencial para se criarem novas dinâmicas, mas o tempo passado em exclusivo com os filhos é a base de toda a relação filial futura. Acredito que esta dedicação dará os seus frutos um dia mais tarde (ou a falta dela).

A verdade é que os miúdos crescem demasiado depressa. Num abrir e fechar de olhos, a divisão das férias deixa de lhes convir. Acredito que as concessões serão sempre mais benéficas do que as obrigações. Quando as imposições legais desaparecerem, vamos basear-nos em quê? Nas hipotéticas obrigações morais? Na simples chantagem emocional? Mais tarde ou mais cedo, os verdadeiros sentimentos virão à tona. Em vez de obrigar os filhos a passar quinze dias na Páscoa fechados em casa (ou, pior, a saltar por diferentes casas de familiares), por que não aceitar que venham apenas metade do tempo, desde que venham felizes? Há que deixar que, a dada altura, a vida deles seja o centro de tudo. Que tal compensar com visitas mais frequentes? É normal que os miúdos queiram mostrar a vida deles, os amigos deles, as namoradas deles, as actividades deles, a escola deles. O país deles, porque é ali que vivem e se estão a construir como pessoas. Os filhos não têm culpa se um dos progenitores foi viver para longe. Ignorar essa parte das suas vidas é ignorá-los a eles. E ignorar a sua identidade, que será sempre dúbia. Mais importante do que férias forçadas é assistir a concertos de música, estar presente naquele exame mais difícil, levá-los àquela estreia tão aguardada. Se o sonho de um filho é visitar um museu que fica apenas a 4 horas de distância do local onde vivem, custa assim tanto ao pai ausente levá-lo lá? Fará algum sentido oferecer uma entrada à pessoa que está com ele todos os dias para o levar? Até que ponto a guerra que movemos contra o outro progenitor nos impede de vermos o quão importantes são os nossos filhos? Quando há amor, “não há longe nem distância”.

[ Ninguém me encomendou este fado, é certo. Mas o Diogo faz 16 anos amanhã e, se eu fosse o progenitor que está longe, insistiria numa visita noutra data, no final dos exames. Ou antes, era indiferente. Insistiria em levá-lo a passear. Pelo menos, teria enviado uma carta bonita. E teria encomendado o iPod que ele tanto quer, para entregar em casa dele. Independentemente do sítio onde ele estivesse. ]

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Agente imobiliário em potência

(onde se percebe que o Vasco é um bocadinho mórbido)



Estávamos no cemitério com o meu “pai belga”, o homem mais crente que conheço. Pareceu-me um local feiinho e sem graça, mas abstive-me de fazer comentários. O facto de ficar colado à igreja de Santo António basta-lhe. Diga-se em abono da verdade que a igreja também deixa muito a desejar. É demasiado moderna. Paredes brancas, caiadas. Deslavadas. Vitrais de cores primárias, que retratam cenas seculares de forma contemporânea. Quase abstracta. Até o órgão é electrónico. Tudo aquilo me enoja. É claustrofóbico. O cheiro deixa-me maldisposta. Esforço-me por encontrar algo simpático para dizer. Sei o quanto adora aquele lugar, onde se recolhe diariamente para rezar. E onde insiste em levar-me com frequência. Sabe-se lá porquê, Santo António divide alegremente o altar com Santa Rita. O que, aos seus olhos, parece ser motivo suficiente para me fazer gostar daquela pequena igreja. Precisamente aquela. Embora eu seja ateia. Mas esse sempre foi o nosso ponto de discórdia. Passamos horas incontáveis a discutir assuntos celestes. Ou terrestre, depende da perspectiva. Honra me seja feita, sou bastante diplomata nos meus argumentos. Infelizmente, o mesmo não se pode dizer do meu filho pequeno, que desta vez nos acompanhava. Estacámos em frente a um espaço relvado.

Papi: Reservei esta sepultura. Quero ser enterrado exactamente aqui.
Vasco: E já o experimentaste?
Papi: Como?!
Vasco: Sim, já te deitaste aqui para ver se o lugar é mesmo bom? Se é confortável, se te sentes bem...
Papi: Ehhh... não.
Vasco: Compraste um lugar para seres enterrado para todo o sempre sem experimentares primeiro?
Mãe (a tentar mudar rapidamente de assunto): Acho que escolheste muito bem, este lugar é melhor do que aqueles ali ao fundo.
Vasco: Lá isso é verdade, papi! Aqui, a vista é melhor! E é mais espaçoso!
Papi: Pois, ali ficam as sepulturas das crianças.
Vasco: Boa, vou já lá deitar-me para experimentar o meu lugar!

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Sempre foste andar de balão, Rita?

(onde o mundo desaba em cima das nossas cabeças)



Sábado amanheceu quente e ensolarado. Muito quente e muito ensolarado. Aliás, esta semana as temperaturas mantiveram-se excepcionalmente elevadas para a época e para o país em questão (e, se quisermos ser mesmo rigorosos, para a região das Ardenas onde nós vivemos). Daí o nosso espanto quando o meu amor recebeu um SMS da Montgolfiere.be a dizer que o voo do dia seguinte tinha sido anulado, porque havia risco de trovoada. O meu belga andava a acompanhar o estado do tempo há uns dias num site para malta especializada que percebe destas coisas (já vos disse que, para além de marinheiro, o meu amor também é piloto privado?). De facto, anunciavam tempestade para o final da tarde… mas o nosso voo era ao nascer do dia. Ficámos desolados. Quer dizer, eu fiquei desolada. O meu amor ficou possesso. Parece que o voo incluía champanhe, entre outras pequenas surpresas.

Durante todo o dia, o tempo manteve-se bom. Um céu azul e limpo como é raro ver por aqui. O sol brilhava. E estava mesmo calor! À noite, o Diogo deu o seu primeiro concerto com a Filarmónica e voltámos para casa de madrugada, sem precisarmos de vestir os casacos. Feito completamente inédito, por aqui. Olhei espantada para o céu estrelado… parecia impossível que aquela gente anulasse o meu voo por causa de uma hipotética tempestade!

Mas, depois, domingo amanheceu meio cinzento. Um calor abafado. E, passado pouco tempo, deu-se o dilúvio. Ainda bem que eu estava com os pés bem firmes em terra!


segunda-feira, 22 de maio de 2017

Desmancha-prazeres

(onde se estraga a surpresa ao primeiro indício)



O meu amor andava há semanas muito misterioso, a dizer que tinha uma surpresa preparada para os meus anos. Por mais que eu repetisse que este ano não queria festejos, percebi que o homem estava decidido a fazer algo em grande. Não acho nada de especial fazer 41 anos… parece uma coisa meia deslavada. Fartei-me de lhe explicar que queria passar directamente dos 40 para os 42, que já me parece um número mais jeitoso. Uma idade gira. Tipo, mais madura. Mas, não. Tanto tenho pregado a ideia das “prendas-experiência”, que o meu amor decidiu aderir ao conceito contra a minha vontade.

Ontem, lembrou-se finalmente de dar as primeiras informações para o bom desenrolar da surpresa, no próximo fim-de-semana. A ideia era apenas organizarmo-nos, uma vez que o Diogo vai tocar com a filarmónica na noite anterior. “No domingo, temos de sair de casa às 5h30 da manhã...”, começou o meu amor. E eu gritei de imediato: “Vamos andar num balão de ar quente!!!”. Fez-se silêncio à mesa. Os rapazes ainda olharam para o meu amor à espera que ele negasse. Mas o Belga ficou calado. Decididamente, estou a ficar mesmo boa nisto!

Coisa pequena ficou absolutamente incrédula. Assim, um misto de espanto e de medo. A raiar o transcendente. Cheira-me que vou conseguir manter a minha reputação de mãe-adivinha por mais uns tempos. É de dizer que, no outro dia, logo após a primeira jogada do Cluedo, eu atirei: “Foi o Coronel Mostarda, na sala de estar, com o candelabro”. E não é que acertei?!

quinta-feira, 18 de maio de 2017

A interminável saga das aventuras capilares

(onde se tenta fazer uma boa acção e se fica irreconhecível)



Como já aqui disse, decidi aproveitar a reviravolta que aconteceu na minha vida para realizar sonhos e desvarios. Ora há muito tempo que acalentava o desvario de doar o meu cabelo à Think Pink, uma espécie de liga contra o cancro aqui do burgo. O mínimo era 20 centímetros. Depois de muito pensar, achei que com um bocadinho de esforço conseguiria chegar aos 30 centímetros. É certo que o meu cabelo cresce depressa, mas tenho a sensação de que demorou séculos. Nos últimos seis meses comecei a ficar mesmo farta, confesso. Já não aguentava ter o cabelo tão comprido, que exigia imensos cuidados para o manter o mais saudável possível. De modo que aproveitei a onda de mudança e fui ao cabeleireiro. Descobri na Net um salão aderente não muito longe de Vielsalm. O corte era gratuito e o envio ficava por conta deles.

Sábado de manhã, lá fomos. O meu amor quis estar presente para dar apoio moral e a coisa pequena veio atrás, sempre pronta para novas aventuras. O filho crescido ficou amuado em casa, pois desde o início manifestou-se veementemente contra (e acreditem que isto é um eufemismo). Demorámos bastante tempo a encontrar o cabeleireiro. O GPS bem repetia que tínhamos chegado, mas nós não víamos nada. Excepto campos e vacas a perder de vista. Até que decidimos estacionar em frente a um curral e explorar a zona. O estranho cabeleireiro ficava num anexo da quinta. Entre o curral e a casa, para ser mais precisa. A cabeleireira veio a correr abrir a porta, à hora marcada. Trazia uma criança adormecida nos braços e queixou-se que era a mulher dos sete ofícios. Olhando para trás, percebo que era a minha deixa para fugir. Infelizmente, pensei que ser cabeleireira (e proprietária de um cabeleireiro-anexo) seria um desses ofícios.

Três rabos-de-cavalo de 30 centímetros foram diligentemente medidos e cortados. O restante cabelo ficou ligeiramente acima dos ombros. Perfeito! Era exactamente o que eu queria. Estranhei a cabeleireira não lavar o cabelo e começar às tesouradas por ali afora. Ainda tentei dizer que gostaria de pagar o corte, apesar de saber que fazia parte da campanha “Coup d’éclat” da Think Pink. A senhora contrapôs e continuou a cortar. Zás, zás, zás! Quando dei por mim, tinha o cabelo cortado a viés. À esquerda, acima do ombro… à direita, pelo queixo. A medo, perguntei: “Mas não está tudo torto?”. Respondeu-me que era propositado. Era um corte “destruturado”. Olhando para trás, percebo que era a minha segunda deixa para fugir. Mas limitei-me a engolir em seco e explicar que gostava de estrutura na minha vida, a começar pelo cabelo. A cabeleireira cortou o lado mais comprido, como é óbvio. E, de uma assentada só, conseguiu igualar o horror. Saí de lá com menos 40 centímetros de cabelo. Tristíssima. O Belga dizia que adorava. O filho pequeno também. Só tive uma opinião honesta quando o Diogo me viu entrar em casa: estava horrorosa.

Passei o resto do fim-de-semana a perguntar ao homem se não achava que o corte estava todo torto, mas ele garantia que não. Estava linda. Ficava-me a matar. Muito mais jovem. Dava-me um ar traquina. Enfim… Acabei por desistir. Na segunda-feira, decidi-me finalmente a pintar o cabelo. Estava a precisar, mas preferi esperar pelo corte para ter menos trabalho. A embalagem de sempre, a cor de sempre. Se houve coisa que acabei por aprender com o cabeleireiro-vidente foi a manter-me fiel a estes dois parâmetros. Fiz a aplicação como sempre. O fim de 15 minutos, passei por um espelho. Estranhei a cor estar tão escura. Corri para o espelho da casa de banho para confirmar. E, a seguir, corri para o caixote do lixo: “Garnier Nutrisse Castanho médio”. Corri para o duche… o mal já estava feito. Não sei o que raio se passou, tendo em conta que a embalagem tinha sido comprada há pouco tempo e estava fechada. Uma vez seco o cabelo, deparei-me com a Beatriz Costa. Excepto a franja. E o corte certinho.

Terça-feira de manhã, mal deixei o Vasco na escola, entrei no primeiro cabeleireiro que encontrei aberto. O meu aspecto era tão desolador que a cabeleireira aceitou receber-me naquela tarde, no meio dos outros clientes. Aqui, normalmente, só com 15 dias de antecedência. Avisou que ia tentar (frisou bem T-E-N-T-A-R) salvar a situação. Decidi confiar. O meu desespero era tão grande, que teria confiado no diabo. Apesar de tudo, fartei-me de repetir que não era uma fútil, nem nada que se parecesse. Mas que pura e simplesmente não me reconhecia. É estranho passarmos por um espelho/montra/vidro e vermos uma pessoa que não reconhecemos. Eu estava nesse estado. Para ser sincera, já tinha amaldiçoado um cento de vezes a ideia da doação de cabelo. Nem nunca vivi de perto uma situação dessas, não sei o que me terá passado pela cabeça (literalmente). Como dizia o meu filho mais velho, as senhoras com cancro ficam muito bem de lenço na cabeça. Em certas zonas neste país, grande parte da população feminina anda de cabeça coberta. Raios partam o meu espírito voluntarioso e empático.

Entrei no cabeleireiro às 14h30 certinhas. Saí de lá, já passavam das 17h. Duas cabeleireiras andaram à minha volta a tentar perceber o que se poderia fazer. Chegaram à conclusão de que tinha de me livrar daquele cabelo preto e acertar o corte. “Acertar o corte, não! Fazer um corte como deve ser…”, explicou uma delas. Tive muita dificuldade em fazê-las acreditar que não tinha sido eu a cortar os 30 centímetros de cabelo com a tesoura da cozinha. Não tenho a certeza absoluta de que tenham acreditado. No entanto, confirmaram o mistério da cor trocada. Parece que já não era a primeira vez que lhes entrava uma alma de cabelo escuro pelo salão adentro com as mesmíssimas queixas.

Começaram por me descolorir o cabelo. De permeio, queimaram-me os neurónios e o couro cabeludo. E serviram-me um café. Fiquei com a cabeça amarela. Amarela cor-de-pintainho. Depois, estive séculos com uma máscara que era suposto reparar os efeitos nefastos da descoloração. Mas continuava amarela, embora me doessem menos os neurónios e o couro cabeludo. Bebi mais um café. Entre elas, decidiram a cor que me iria “iluminar”. Aparentemente, é preciso estarmos “iluminadas” depois dos 40. Apesar de garantirem que eu estava muito longe de parecer ter 40 anos. Seja como for, parece que o facto de “iluminar” o rosto me faria esquecer o corte de cabelo. Ou a ausência de cabelo. Era ponto assente que aquilo teria de levar um jeito valente (as cabeleireiras usavam muitos “petit” para aligeirar a coisa, à falta dos nossos “inhos”). Fiquei, então, loira. Acho que estou loira. Filho crescido acha que estou loira. Os belgas (incluindo o filho pequeno, que se diz meio-belga) acham que louro é outra coisa qualquer mais clara. Para a generalidade do mundo (belga), tenho o cabelo castanho clarinho. Seja.

A seguir, veio o corte. Estava a ver que as cabeleireiras me iam tirar uma fotografia com o cabelo ensopado e penteado. Definitivamente mais curto de um lado do que do outro. Com as pontas assimétricas. E em escadinha atrás. Foram chamar outra cabeleireira para apreciar o trabalho. Até a esteticista veio lá das catacumbas ver aquele espectáculo. Para além de todas as clientes presentes. Findo o demorado conciliábulo, decidiram que a única coisa a fazer era cortar tudo por igual, exactamente do mesmo comprimento da mecha mais curta. Ou seja, por cima do queixo. Ao verem-me de lágrimas nos olhos, nem ousaram propor escadeados, degradés, franjas, nem merdas do estilo. Para pior, já basta assim, como diz a canção. Fiquei com o cabelo curto, mas direitinho. Fiquei loira e “iluminada”. Decididamente, não gosto do resultado final. Mas sei que passei uma tarde com várias pessoas à minha volta a tentar desfazer o erro da “talhante”, como apelidaram a primeira colega. Não ousei dizer que o salão-anexo ficava situado entre o curral e a casa. No final, propuseram-me um chá. E sei que aligeiraram bastante a factura, porque afinal eu “tinha apenas tentado fazer uma boa acção”.

Passaram-se uns dias. Filho crescido continua a ser defensor do uso do lenço, nos casos de cancro. Detesta ver-me assim e é de uma honestidade desarmante. Mas olha para mim com um ternurento ar de condescendência. Filho pequeno anda encantado. Já me pediu para ficar assim “para sempre”. O Belga não poupa os elogios, mas acho que é só para evitar que corte os pulsos ou parta os poucos espelhos que há nesta casa. Quanto a mim, continuo sem me reconhecer, quando me cruzo com a loira de cabelo curto. Eu sei que o cabelo cresce (e o meu cresce depressa). E sei que isto é tão fútil e desprezível, face ao que certas pessoas sofrem. Mas, pronto, estou zangada comigo mesma. Aproveitei para informar o pessoal da casa que, na próxima vez que me apetecer fazer um disparate destes, têm a obrigação de me impedir.


Disclosure: Entretanto, desafiei-os para o seguinte desvario. Infelizmente, nenhum deles pôs um travão a tempo. Tornámo-nos todos voluntários num refúgio para animais abandonados. E já passámos umas horas a passear cães. Ah… e apadrinhamos a Jasmine.


segunda-feira, 15 de maio de 2017

A mãe é deus

(porque ontem foi dia da mãe na Bélgica)



A mãe sabe que tempo vai fazer amanhã. E no fim-de-semana seguinte. A mãe é meteorologista.

A mãe consegue levar ambos os filhos a duas actividades diferentes à mesma hora. A mãe detém o segredo da teletransportação. Ou da ubiquidade.

A mãe sabe o título do livro que era preciso comprar ontem, sem que a lista de leituras tenha saído da mochila. E, como é evidente, a mãe tem esse livro na estante da sala. A mãe é previdente.

A mãe tem ingredientes e disponibilidade para fazer 35 bolinhas de frutos secos para celebrar a despedida do professor estagiário, desde que seja avisada até às dez da noite. A mãe é cozinheira num quartel.

A mãe sabe o número de telefone do colega do filho e, idealmente, da mãe dele também. A mãe engoliu a lista telefónica.

A mãe sabe sempre onde estão os ténis. A caixa do lanche. A mochila da piscina. A t-shirt preferida. As chaves. O telemóvel. E, se preciso for, sabe tudo isto ao mesmo tempo. A mãe tem uma excelente memória visual.

A mãe está a fazer o jantar que o olfato dos filhos detectou no andar de cima. Exactamente aquele jantar. A mãe é adivinha.

A mãe tem os 25 euros para pagar a actividade da escola, na manhã seguinte. De preferência trocado. A mãe é o multibanco.

A mãe sabe se as gavetas estão mal arrumadas só de olhar fixamente para o armário fechado. A mãe tem visão raio-X.

A mãe é a rainha da private joke. Faz parte das suas funções conhecer todos os diálogos dos sete filmes do Star Wars. I am one with the force and the force is with me. A mãe é fã.

A mãe pode coser o casaco preto com linha preta à noite. Antes de se ir deitar. A mãe não precisa de dormir. E, como já se percebeu, tem uma excelente visão.

A mãe tem uma farinheira e consegue multiplicá-la quando faz feijoada, de modo a que todos repitam várias vezes e haja sempre uma rodela (grande) no prato. Mesmo nos restos do dia seguinte. A mãe tem o dom da multiplicação.

A mãe sabe o que fazer quando dói a garganta ainda antes do filho se queixar. Porque a mãe prevê as dores. A mãe é médica. E enfermeira. E curandeira.

A mãe começa logo a gritar (ainda que esteja apenas a rosnar baixinho). Porque uma mãe zangada ouve-se sempre muito bem. A mãe tem voz de tenor.

A mãe não pode cortar o cabelo ou mudar de visual. A mãe é imutável.

A mãe recorda na perfeição a história sobre o amigo do colega da outra turma que lhe foi contada na Primavera de 2015, quando estava a tirar as compras do carro. A mãe tem memória de elefante.

A mãe tem a solução para todos os problemas do mundo. A mãe é sábia.

A mãe sabe sempre onde perdemos o casaco. A mãe é omnipresente.

A mãe consegue responder a uma pergunta urgente enquanto lava os dentes/faz chichi/toma banho/fala ao telefone com outra pessoa. A mãe é ventríloqua.

A mãe faz sempre a sobremesa preferida do outro filho. Dá sempre mais atenção ao outro filho. Deixa sempre o outro filho falar mais. Defende sempre o outro filho. A mãe é profundamente injusta.

A mãe é a mulher dos sete instrumentos. Domina na perfeição orgão de igreja, violino, piano e trompete. Só assim se explica que estejam sempre a perguntar-lhe: "Toquei bem?"  A mãe é chefe de orquestra.

A mãe, quando descasca uma manga, consegue sempre dar dois caroços a roer aos filhos. Já se sabe que a mãe tem o dom da multiplicação.

A mãe sabe a que horas e em que canal passa determinado programa. A mãe é a TV Guia.

A mãe consegue responder a perguntas não formuladas. A mãe tem o dom da telepatia.

A mãe adivinha o mal de que padece a tartaruga moribunda e consegue curá-la. A mãe é veterinária. E milagreira.

A mãe ostenta com orgulho os brincos horrorosos que o filho fez na escola com massinhas. A mãe é um expositor ambulante da arte da progenitura.

A mãe lê pensamentos secretos e adivinha as parvoíces que estão para acontecer. A mãe é omnisciente.

A mãe vai levá-los a visitar a muralha da China. A mãe é rica.

A mãe tem um colo que cura todas as dores. Os beijinhos e abraços também fazem milagres. A mãe é mágica.

A mãe sabe exactamente o que se passa na cabeça do senhor que está a discutir com a mulher no outro lado da estrada, na terça-feira à tardinha. Por isso lhe perguntam: "O que se está ali a passar?" A mãe sabe sempre tudo.

A mãe tem uma ideia fantástica para o trabalho da escola que deve ser entregue no dia seguinte. A mãe é uma iluminada.

A mãe fala sempre baixinho. Quando pede ao filho para arrumar o quarto, por exemplo. Ou aspirar a casa. Ir chamar o irmão. Lavar as mãos para vir para a mesa. A mãe murmura.

A mãe tem de ceder o seu pacote de pipocas, no cinema. A mãe é abnegada. Ou está de dieta.

A mãe ouve música dos anos 90. A mãe tem mau-gosto. Para além de ser velha.

A mãe é imediatamente informada quando o cão vomita às 7h30 da manhã. A mãe é a empregada doméstica de plantão.

A mãe diz mil vezes as mesmas coisas. Principalmente advertências e ralhetes. A mãe é chata. E bastante repetitiva.

A mãe sabe como se diz paralelepípedo em romeno. A mãe é tradutora.

A mãe está sempre ao lado do telemóvel e responde de imediato. A mãe é reactiva.

A mãe tem resposta pronta. Sabe sempre o porquê de tudo. Em que ano nasceu fulano. Que descoberta fez sicrano. De que nacionalidade é beltrano. E, de permeio, os horários dos comboios. A programação do cinema. A mãe é o Google.

A mãe tem sempre pilhas. Das AAA e das AA+. Quatro pilhas, obviamente. E um compasso, na véspera do teste de matemática. A mãe tem sempre mais um litro de leite algures escondido. Para além da caneta florescente azul clara. A mãe é o supermercado.

Aconteça o que acontecer, a mãe é sempre culpada. Porque devia saber. Devia ter calculado. Devia ter feito de outra forma. Devia ter avisado. Devia ter chegado mais cedo. Ou mais tarde. Porque devia ter corrigido o erro a tempo. A mãe tem as costas largas.

A mãe consegue sempre reparar qualquer objecto partido. A mãe é genial.

A mãe tem todos os defeitos do mundo. E mais alguns. Só assim se explica as falhas dos filhos. E os traumas infligidos. A mãe veio com defeito.

A mãe sabe ao minuto os pormenores da última desgraça que aconteceu algures no mundo (e quiçá mesmo no espaço). A mãe é a CNN. Ou deus. É isso... a mãe é deus.