domingo, 11 de junho de 2017

Dezasseis anos de filho grande

(porque se não fossem aqueles olhos escuros iguaizinhos aos meus 

e o amor infinito que lhe tenho,

duvidaria que é mesmo meu filho)




Defende ideias de direita. Mesmo muito à direita. Tanto, tanto, tanto, que chega a tocar ligeiramente à esquerda sem se aperceber.

Tem valores morais inalcançáveis. Conservadores, como se pode calcular.

A língua afiada é de crítica fácil. O decote daquela é demasiado pronunciado. Aquele vem das barracas. O comportamento do outro é deplorável. Acolá está um bando de bêbados.

Adora a escola. Sabe-lhe sempre a pouco. Por ele, encurtava as férias todas pela metade. Ainda assim, seria imenso. Defende a rigidez do regulamento interno com a vida. A autoridade docente também é inquestionável. Relembra as datas dos testes e nunca deixa passar os trabalhos de casa em branco. É o terror dos colegas, excessivamente imaturos e palermas.

Abomina a adolescência tresloucada. A que é passada em noitadas de bebedeira, deboche e drogas. A adolescência perdida, desinteressante e ridícula. Mal-amanhada. Mal vestida. Ignorante. Que só sabe escrever textos encriptados, numa espécie de linguajar infantil sintetizado que aboliu as vogais.

A música moderna devia ser erradicada do mundo. Tal como a televisão, que nos tenta manipular sub-repticiamente. E a superficialidade da comunicação social.

Aguarda ansiosamente o regresso dos serial killers que lhe irão garantir um emprego no futuro. Enquanto isso vai devorando livros de crimes. Reais ou ficcionais, tanto faz. As profundezas da maldade humana atraem-no.

Quando adora uma pessoa, os seus defeitos são “queridos”. Mas se alguém cai em desgraça é incapaz de perdoar. A traição é o pior defeito do ser humano.

Tem uma sensibilidade exacerbada ao erro ortográfico, que corrige compulsivamente. Nada escapa ao crivo do seu lápis azul: SMS da namorada, comentários dos amigos no Facebook, cartas de amor da namorada do irmão, artigos de jornais…

É sobranceiro e altivo. Elitista. Arrogante. Superior.

Detesta mudanças, transformações, reviravoltas. O mundo devia ser imutável. A ordem dos objectos fixa. A mínima modificação consegue deixá-lo fisicamente maldisposto. Seja uma cadeira fora do lugar, um quadro ligeiramente torto ou um bloco de folhas desordenadas.

Ostenta com orgulho uma certa forma de pudor. O corpo não deve ser demasiado exposto (muito menos tocado). As manifestações de afecto querem-se discretas. As emoções exacerbadas e demonstrativas são sintoma de fraqueza humana.

Tem um sentido estético apuradíssimo. A indumentária é sinal de distinção. As marcas não são importantes, a originalidade também não. A excentricidade assusta-o. Há que ser discreto.

Gosta muito de viajar e de conhecer novos mundos. Novas culturas. Tem imensa curiosidade perante a diferença. Apesar disso, o melhor de tudo é voltar a casa. Ao refúgio imutável e seguro.

4 comentários:

  1. Parabens ao filho e à mae! Que descricao tao engracada

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    1. Obrigada, Daniela! Eles nem sempre são como gostaríamos que fossem... ;)

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  2. Parabéns ao teu rapaz-homem!

    E a ti, que também celebras a maternidade :)

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    1. Obrigada, Naná! Mas chamar-lhe "Rapaz-homem" faz com que pareça muito mais crescido do que na realidade é (ou, pelo menos, na minha realidade!).

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