sexta-feira, 15 de maio de 2015

Petits noms

(onde uma simples fotografia nos leva a recantos perdidos da memória)

 


Passei a minha primeira gravidez indecisa quanto ao nome do bebé. Para simplificar, decidi chamar-lhe Pinguim. Quando a obstetra ia começar a cesariana de urgência, anunciaram na rádio que Gustavo Kuerten, mais conhecido por Guga, ia iniciar naquele momento a sua primeira final de Roland Garros. Lembro-me de ter pensado: “Ora aqui está mais um que também deve estar em sofrimento!” Não tenho outras memórias daqueles longos minutos. Recordo que o meu filho nasceu ao som de 125 Azul dos Trovante, grupo que marcou a minha adolescência que findava naquele instante. E que não chorou, começando de imediato a respirar com aqueles seus olhos imensos postos no mundo. Eu chorei. A minha obstetra também. Quando a cesariana estava mesmo a terminar, anunciaram na rádio que o Guga tinha acabado de ganhar o torneio. Eu ri-me e disse: “Que coincidência tão engraçada… Vou chamar-lhe Guga!” A minha obstetra, que tinha passado nove meses assustada com os nomes que eu ia inventando, respondeu aflita: “Mas o menino não se ia chamar Diogo?!” Ficou Diogo, claro. Mas para mim, até hoje, é o Guga.

Na gravidez seguinte, a indecisão quanto ao novo nome manteve-se. Portanto, voltei ao Pinguim. Infelizmente, a segunda cesariana de urgência conseguiu ser ainda mais urgente do que a primeira. Só me lembro do rio de sangue que caía, dos gritos do obstetra e de uma mancha arroxeada silenciosa que passou rapidamente por mim. Não houve música, não houve lágrimas de emoção, não houve coincidências. Pensei sinceramente que fosse morrer ali. Uma hora depois, encontrámo-nos. Ambos ainda despidos, combalidos, numa maca. O Vasco, com toda a naturalidade, começou a mamar mal o encostaram a mim. Entretive-me a namorar aquele ser estranho, minúsculo, coberto por um espesso manto de pêlos que lhe descia pelas costas abaixo. Quando a minha obstetra finalmente chegou, foi ver-nos. “Estão os dois bem, que susto! Deixa cá ver o Pinguim...”. Ri-me e disse-lhe que afinal era um lobo, já vinha protegido para o Inverno. Ficou Lobito. Entretanto, começou a falar. E até muito tarde, quando lhe perguntavam como se chamava, respondia sempre muito compenetrado: “Bebé Bá”. Bá de Basco, pois claro. E, assim, passou também a ser o Bá. Até que o meu amor entrou nas nossas vidas e o Vasco ganhou mais um petit nom... coisa pequena.
 
 
O tempo está a passar demasiado depressa...
O Guga agora é um adolescente sério e o Bá deixou de ser o meu bebé.

6 comentários:

  1. Bom, nós também temos um Guga e um Diogo lá em casa, mas são duas pessoas diferentes ;)

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  2. São de certeza duas pessoas diferentes igualmente maravilhosas... com esses nomes, só pode! ;)

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  3. Ó Paula, quando é que regressas lá ao teu boteco que a malta já está com saudades?

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  4. Bem... nós devemos ser almas gémeas de "parto" se isso existe... com pequenas variações, os meus partos foram semelhantes aos teus.

    Por cá também há petit noms... o mais velho é "caluxo" e o mais novo é "cachucho", se bem que eu por vezes dá-me para lhe chamar "Babouche"... vá-se lá saber!

    Só espero que isto nunca venha a ficar-lhes agarrado e vire alcunha... é que tive um amigo na infância que ainda hoje todos tratam por Cocas, porque era o petit nom que a mãe lhe dava. Quando a malta da vizinhança soube, pimbas, colou!

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  5. Caluxo e Cachucho, Naná?! E eu que achava que os petits noms dos meus já eram estranhos... Viva a imaginação das mães! ;)

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