sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Querida mãezinha, é só para lembrar...

(onde se dão algumas dicas muitíssimo discretas)

 
 
Querida mãezinha, agora que tens uma filha emigrante, vê lá se não te esqueces do essencial. E o essencial não é vires para aí carregada de malas a abarrotar de roupa quente, que isso ocupa imenso espaço. Os belgas não mudam de roupa todos os dias e não cheiram mal. Pelo menos, o que eu tenho lá por casa não tem um odor desagradável. Duas mudas de roupa chegam perfeitamente para uma semana. A que trazes vestida e uma de reserva. Na pior das hipóteses, podes trazer muitaaaa roupa vestida no próprio dia para teres mais escolha e libertares espaço nas bagagens (sendo que esta última questão é um mero detalhe sem importância, claro). E esquece lá o casaco de pêlo, que a malta aqui desenrasca-te um kispo porreiro. Chapéus de chuva também cá temos muitos, embora na Bélgica ninguém os use.
 
O essencial também não é vires com a mala atafulhada de livros ou com os suplementos todos do Público do fim-de-semana que ainda não tiveste tempo para ler. De qualquer modo, a nossa casa de banho não tem fechadura. E quem se senta refastelado no sofá, arrisca-se a apanhar com o D. Fuas em cima. Embora tenha de admitir que ele aquece uma pessoa, a verdade é que anda com umas pulgas manhosas. A mana é capaz de não achar muita piada se eu te mandar de volta pejada de pulgas. Isto é só um conselho, obviamente farás o que achares melhor.
 
Quanto ao nécessaire de viagem, não sei se sabes, é coisa que passou de moda com o 11 de Setembro. Portanto, não precisas de viajar com os produtos todos de higiene atrás. Primeiro, porque ocupam imenso espaço (não sei se já percebeste que esta é uma questão que me preocupa) e, segundo, porque temos aqui tudo o que precisas. Acho que as tartarugas não se vão importar de te ceder por uns dias a escova de dentes com que lhes coçamos a carapaça. E eu até agradeço que termines a embalagem de gel de banho 3 em 1 "Axe Odor a Trolha" que o teu neto mais velho adorava antes de entrar na fase porca da sua existência.
 
Mas, afinal, o que é essencial trazeres na bagagem? É coisa pouca, não te preocupes. Nada de especial. Eu passo a explicar...
 
Farinheira (em quantidade e qualidade, que somos grandes apreciadores)
Leite condensado cozido da Nestlé
Bolachas Torradas (pode ser de marca branca)
Cérelac de frutas para fazer com água (embalagem azul)
Chocolate culinário Pantagruel (em pó e em barra)
Farinheira (em quantidade e qualidade, que somos grandes apreciadores)
Chouriço (nada de “chouriço corrente”, que isso encontro eu no Luxemburgo)
Pastéis de nata tostadinhos (preferencialmente do próprio dia)
Massa de pimentão (frasco grande)
Travesseios de Sintra (caso fique fora de mão, num cafézinho do Colombo há uns bastante aceitáveis)
Farinheira (em quantidade e qualidade, que somos grandes apreciadores)
Pastilhas Gorila sem açucar (para os netos basta isso, que eles não são esquisitos)
Chapéuzinho de chocolate da Regina (a dar-me discretamente em segredo porque faz mal aos dentes dos meninos e do Pascal também)
Nestum Mel
Bolachas Maria (sim, sim... aqui também se arranja, mas a 2€ o pacote)
Farinheira (em quantidade e qualidade, que somos grandes apreciadores)
Pão com chouriço (fresco, hein?)
Pudins Mandarim ou Royal de laranja (ou os dois)
Postas de bacalhau salgado (se embrulhares em jornal, não empesta a mala)
Colorau em pó
Tremoços
Farinheira (em quantidade e qualidade, que somos grandes apreciadores)
 
E, pronto, acho que é tudo. Pelo sim, pelo não, mantenham os telemóveis ligados até embarcares no avião, porque posso lembrar-me de mais alguma coisa entretanto. Não te preocupes com o vinho do Porto para o belga, que eu compro aqui uma garrafa e dizemos que vem daí. Se a mana tiver comprado o último livro da Isabel Allende e já tiver acabado, traz. Se não tiver acabado, traz na mesma que eu não digo que foste tu. Se o Sérgio Godinho ou o Jorge Palma tiverem lançado mais algum álbum, traz porque eu tenho a certeza de que vais gostar de ouvir enquanto aqui estiveres. Por amor de Deus, não tragas mais nenhuma colectânea da Mariza para ver se não avivamos a paixão do Vasco. Ah... já que estamos a falar de música, faças o que fizeres, não peças ao Diogo para te mostrar o que anda a ouvir. A sério, mãe, não peças. Há coisas sobre o teu neto mais velho que é melhor não saberes.
 
Não te preocupes, vai correr tudo bem. O aeroporto do Luxemburgo é muito pequenino, não há qualquer hipótese de não te ver. Excepto se te esqueceres da lista supra citada. Nesse caso, posso correr o risco de não dar por ti mesmo que esbracejes como uma doida à minha frente. Como já não nos vemos há vários meses, é melhor combinarmos uma palavra-passe. É que pode dar-se o caso de tu ires atrás de outra filha e de eu trazer para casa outra mãe. E de só darmos por isso dias depois, o que era uma maçada. Portanto, o código é: “trouxe tudo o que pediste, filhinha querida do meu coração”. Não te esqueças, hein?





 


6 comentários:

  1. Nunca mais compro uma farinheira sem me lembrar de ti.
    Boa estadia :)

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  2. Mais uma garrafa de azeite e seria a descrição perfeita da minha mala de viagem no regresso de Portgal :D

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  3. Bolacha maria a 2€???!!! Bolas...

    Já podias ter dito que gostavas de farinheira, a malta fazia uma vaquinha e mandava-te pelos CTT express ;)

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  4. Bom, vamos lá ver se nos entendemos... Já repararam bem no tamanho de uma farinheira?! Já viram quanto é que dá dividida por quatro?! É coisa para dar azo a discussões enormes à mesa!

    Acho que só a Paula_2700 milhas é que me entende, que isto é conversa típica de emigrante! Quanto ao azeite, uma antiga vizinha de Malempré tem acesso a uns carregamentos ocasionais de Marrocos de um produto muito aceitável... :)

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  5. Caraças, que até eu estou tentada a pedir a tua morada para te enviar uma carrada de farinheiras!

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  6. Gabzia, as farinheiras nunca são de mais! :)

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