sexta-feira, 10 de abril de 2015

Apneia

(onde se sente o cansaço de um longo ano)



Eu trabalho. Dois empregos, duas profissões completamente diferentes. À porta de casa e a 50 quilómetros de distância. Mais as traduções que vou fazendo sempre que posso, porque me faz falta o dinheiro. Mais vezes do que aquelas que devia, mas é a minha verdadeira profissão. A que sei e gosto de fazer. No silêncio da noite. Na confusão dos fins-de-semana. O resto são disfarces de super-herói para alimentar a família. Visto a capa de coordenadora e de professora, sempre à espera que um dia alguém perceba que usurpei uma identidade que não é a minha. No centro de documentação, trabalho o dobro para compensar a ausência da minha colega, de licença de maternidade há quase um ano. O tempo é o mesmo, o salário também. Ninguém me agradeceu o esforço, mas fiquei efectiva. Na escola, a inspecção não perdoou o nível demasiado elevado dos meus alunos. Devíamos estar a treinar frases simples sobre a família e as profissões, não a fazer debates acesos sobre a actualidade política e a eutanásia. Ainda bem que naquele dia ninguém se lembrou de trazer o licor e os doces habituais. E rimos muito menos, foi uma pena. Não tenho muitas ocasiões para me rir, despreocupada.

Eu sou mãe. Sou mãe a tempo inteiro, 24 horas por dia, 7 dias por semana, 365 dias por ano. Menos nas férias, que é o período de descanso. E eu não sou uma mãe que descanse. Eu sou a mãe que está lá quando eles estão doentes. Que leva ao médico e compra os medicamentos. Que acorda para dar os medicamentos. Que leva às consultas de rotina, que parecem inúteis porque existem para prevenir. Eu sou a mãe-previdente. Mas também a de todos os dias. Sou a mãe-a-dias. Que acorda e obriga a despachar. Que trata de almoços e lanches. Que prepara roupa. Lava roupa, estende roupa, apanha roupa, dobra roupa, arruma roupa. Que cose e remenda. Que é um ás a pôr joelheiras. E a desencantar roupa nova e gira a bons preços. Às vezes, nem a roupa é nova nem os preços são assim tão bons, mas é gira na mesma. E aparece à velocidade a que desaparece. Ou que deixa de servir, no caso do grande. Sou a mãe que leva à escola. A mãe-motorista. Que não se esquece que é preciso a mochila da ginástica às terças e a da piscina às sextas. Sou a mãe que vai buscar. Que corre atrasada para todas as actividades. Que volta atrás porque falta um livro de solfejo, o tompete, o violino ou as sapatilhas. Ou o segundo lanche, que isto é gente de alimento. Que nos intervalos faz as compras e limpa a casa. Programa refeições. Sou a mãe que revê trabalhos de casa, obriga a estudar e assina os testes. A que compra o material que insiste em desaparecer. Ou partir-se. Ou estragar-se. A que desencanta o livro que tem de estar lido no dia seguinte. A mãe-mágica. Sou a mãe que cozinha. Bem, ao que parece. Menos mal, eles agradecem sempre o jantar. Mas, depois, também sou a mãe que lava a loiça e limpa a cozinha. Que manda tomar banho. Que manda sair do banho. Mãe-que-grita. Que ralha porque é tarde e ainda não estão deitados. Sou a mãe que aos fins-de-semana deixa deitar e levantar mais tarde. Que leva a passear, a ver, a conhecer, a experimentar. Sou a mãe que ouve tudo. O que quer e o que não quer. Mãe-ouvidos. Que depois fica a remoer, preocupada. A mãe que fala, que se esforça por dar educação. Por vezes, também formação. Sou a mãe que dá beijos. Que diz que ama vezes sem conta. Mas às vezes é um amor cansado. Mãe-estafada.

Acho que menosprezei o esforço imenso que este último ano me exigiu. Um ano em que fiz tudo, o trabalho e a maternidade. Em que batalhei para andar com esta nossa vida para a frente, como se nada fosse. Em que lutei como uma leoa para ninguém destruir esta família que tanto me custou a reconstruir. Bati-me pelos nossos direitos, sem sequer pôr a hipótese que pudesse ser de outra maneira. Mudámos para a casa dos meus sonhos, que finalmente começa a tomar forma. O meu amor veio viver connosco, obrigando-nos a mudar toda a dinâmica a que estávamos habituados. Aconteceu tudo no espaço de um ano. Em Abril, desmoronei. Em Abril, renasci. Um ano em apneia. Sinto-me cansada. Muito cansada. Aos poucos, obrigo-me a vir à tona. A respirar em pequenas golfadas. Digo a mim mesma que o pior já passou. “Parva, agora é que te sentes cansada?!”. É... agora é que o peso de tudo o que atravessei me submergiu.

8 comentários:

  1. A mim cai-me o cansaço em cima precisamente a partir da altura em que sinto "agora já posso respirar", ou seja, depois das grandes mudanças,depois das crises e depois da parte mais difícil da travessia já ser história. Será isto que sentes?

    (Não comentei os teus últimos posts porque os li fora de casa e não pude responder, mas isto para dizer que gostei de ler, como sempre:)

    Um beijinho - e permite-te o cansaço,ninguém é de ferro!

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  2. "Permitir-me o cansaço..." Gostei, Paula! Acho que é isso mesmo. Obrigada. :)

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  3. Beijinhos, inspira, expira. Bom ano novo :)

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    1. Beijinhos também pelo teu ano novinho em folha, Gralha! ;)

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  4. Conheço a sensação! Aquele cansaço que advém do aliviar das dificuldades, quando sentes que há coisas encarriladas, é que que finalmente o cansaço vem ao de cima. Porque antes não tinhas tempo nem margem para isso, apenas combater, lutar e seguir em frente.

    Mas esse cansaço também vai passar!

    Mãe-faz-tudo!

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    1. Pois é, Naná... mas o que sabia mesmo bem era poder sentir-me descansada mal a tempestade passa! Suponho que a mãe-faz-tudo é uma mãe-real, não uma super-mãe...

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  5. É que uma pessoa habitua-se a viver em apneia e depois é difícil reaprender a respirar à tona! Beijinhos "prima". :)

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