segunda-feira, 11 de agosto de 2014

A pessoa que hoje sou

(e os meus três pilares)


Faz este mês dois anos que cheguei à Bélgica disposta a reconstruir a minha vida. Começámos por uma casinha pequenina, numa aldeola perdida no meio das Ardenas. O único sítio onde consegui que me alugassem casa, a bem dizer da verdade. Os rapazes quiseram pintar as paredes de azul-turquesa. Eu preguei um mapa-mundo enorme na sala para dar asas à imaginação. E comíamos no chão, em loiça de plástico. Há dois anos atrás.

A escola começou, eu arranjei um trabalho. E uma mesa. Eles aprenderam a falar francês. Eu apaixonei-me perdidamente. A casa foi-se compondo. Passou-se um ano.

A escola recomeçou, o Diogo entrou para o secundário. Eu arranjei outro trabalho. Comprei um carro. Viajámos. Mudámos de casa. Plantámos uma árvore. Passou-se mais um ano.

Esta nova vida que inventámos tem-se feito aos bocadinhos. Um dia depois do outro. Umas vezes mais depressa, outras mais devagar. Dois passos à frente e um atrás. Nem sempre é fácil. Mas tem sido uma aventura que eu não trocava por nada deste mundo. Sinto que, pela primeira vez na vida, sou mais eu. Esta sou eu, finalmente. E, quando páro para pensar, vejo que essa foi a maior surpresa que me estava reservada. Porque uma coisa é sabermos que vamos recomeçar a nossa vida do zero, outra é percebermos que também nós nos vamos reconstruindo ao longo do processo. Que crescemos. Que nos transformamos. Dois anos depois, não é só a minha vida que é completamente diferente. Eu própria sou hoje uma pessoa diferente. Ninguém muda da noite para o dia, a meio do percurso. O que muda é a nossa forma de encarar a vida. A forma como nos relacionamos com as pessoas. O modo como enfrentamos os desafios, os problemas. À medida que ia estabelecendo as bases de uma outra existência, fui também mudando conscientemente a minha forma de estar na vida. Consolidei-me. Pacifiquei-me. Amadureci. Ganhei outra segurança e dimensão. Uma espécie de força interior, uma bússola que me vai mostrando o caminho. É como se as coisas à minha volta estivessem finalmente no lugar certo.

Por estranho que possa parecer, estou hoje muito mais perto da pessoa que eu era no final da minha adolescência, antes de ter tropeçado na criatura errada. O tempo que decorreu desde então até agora, foi apenas um hiato. Aos poucos, aquilo que é verdadeiramente importante para mim tem vindo à superfície. Aquela parte cristalizada da minha personalidade que esteve tanto tempo adormecida, subjugada, latente, tem ganho cada vez mais importância. Aquela que eu sou. Sem grandes certezas, sem grandes espertezas. Simplesmente eu. A educação que recebi, os valores que me foram transmitidos, a ética de vida que sempre me norteou, estão hoje mais nítidos do que nunca. Pedra basilar da pessoa que sou. O passado onde me revejo. Nunca estive tão longe da minha família e nunca me senti tão perto. A minha estrela polar.

E, depois, há a pessoa que tenho ao meu lado. Não à frente, não atrás. Exactamente ao lado. Em pé de igualdade. Descobri que há pessoas que têm a capacidade de nos iluminar. Literalmente de nos fazer brilhar, resplandecer. Porque conseguem potenciar o que temos de melhor. Porque temos vontade de nos tornarmos melhores, só para estarmos à altura do amor que sentem por nós. Não se trata de sermos muito parecidos ou de termos muitas coisas em comum. Trata-se apenas de partilharmos uma certa forma de ser e de estar na vida, regida pelos mesmos princípios. De cuidarmos um do outro. De estarmos lá um para o outro, aconteça o que acontecer. A concha e o âmago, numa espécie de simbiose em que um consegue ler na alma do outro e sentir o que o outro sente. Unidos por um amor, por uma amizade, por um respeito imensos. Pontuados de admiração. E de risos. Sem promessas vãs de amor eterno, sinais exteriores ou papéis. Um amor conjugado no presente. Tapeçaria de Penélope, que se faz e desfaz incessantemente e, assim, se vai prolongando dia após dia.

Por fim, o mais importante. O que não tem palavras e é pura poesia. O que apenas se sente. O amor imenso, infinito, incondicional. Visceral. O primeiro e último pensamento do dia. A razão de tudo o resto. Força motriz. Um filho grande que entrou na fase mais engraçada e complexa da sua existência. Um filho pequeno que ainda vive deliciosamente ancorado num mundo mágico. Filhos que não são meus filhos, são um empréstimo da vida. O futuro. Tela branca pintada de possibilidades infinitas. Reflexo daquilo que fui, daquilo que sou. Do que ainda me falta viver. Janela aberta para o mundo.

A pessoa que hoje sou depende destes três pilares que me sustêm: o meu passado, o meu presente e o meu futuro. Esta é a minha força que me deixa vacilar, mas nunca me deixará cair.

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