quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Esgrimir argumentos... em alto e bom som!

(onde se percebe que não ter qualquer vergonha 
é conditio sine qua non para se lidar eficazmente com um adolescente)


Ando sempre à procura de novos métodos. É um questionamento permanente. A pedagogia estática é coisa que não me assiste. O mundo está em constante mudança. Os rapazes crescem, tenho de me adaptar. O que resultava há alguns meses deixou de dar resultado. É sempre assim. E já se sabe que o que resultou com o grande não resulta com o pequeno. Às vezes, penso que não sou mãe de dois filhos, sou duas mães. Mas o Diogo abre caminho.

O filho crescido voltou a crescer mais um bocadinho, nos últimos tempos. Estamos em plena adolescência. Com tudo o que isso tem de bom e de mau. Principalmente, de mau. Sou constantemente posta em causa. Não que isso me assuste. Assumo a minha inconstância, apesar de saber que a mente quadrada do adolescente tem muita dificuldade em gerir as alterações de rota. De hábitos. De regras. De rotinas. De formas de pensar e de agir. Sou frequentemente confrontada com uma recusa categórica. Que aceito na maioria das vezes. Não sei se faço bem. Se a argumentação for suficientemente sustentada, a verdade é que me deixo convencer. Até mesmo porque isso lhe permite depois arcar com as consequências das suas decisões… nem sempre boas. Se o argumento for fraco, mal defendido ou simplesmente casmurro, há espaço para novo debate. Mas se a argumentação for apenas estúpida, a discussão fica automaticamente encerrada. Aos 15 anos, já é muito raro apresentar-me justificações idiotas. São muitos anos a discutir. E o filho grande conhece-me bem.

Felizmente, a minha própria adolescência está ali ao virar da esquina. É a grande vantagem de ser sido mãe cedo. Lembro-me perfeitamente de que era insuportável. E resmungona. Mandona. Com a mania que já sabia tudo. Muito pouco permeável a opiniões contrárias à minha vontade. Mais do que uma criança mimada, acho que fui uma adolescente mimada. O meu pai desesperava muitas vezes com o facto de tudo ser passível de discussão. Hoje sei que é esgotante, porque não mudei. Haja alguma constância. Enquanto mãe, continuo a discutir tudo com os meus filhos. Raramente há nãos categóricos nesta casa. Estarei certamente a cometer muitos erros, mas tenho a certeza absoluta de que não estou a criar dois homens amorfos e parcos de opiniões.

No outro dia, tivemos um confronto de titãs. Ganhei, com larga margem. Filho crescido ainda tem de aprender a escolher o melhor terreno de batalha. Literalmente falando. Idealmente, deve discutir-se com um adolescente em público. Ele fará tudo para acabar o mais depressa possível com o espectáculo. Mesmo que isso implique uma derrota.

Estou farta das calças de ganga que o Diogo usa. O número maior, na secção de criança, já fica demasiado apertado. O número mais pequeno, na secção de adulto, ainda fica muito grande. Na opinião dele, claro. Porque eu prefiro zelar pelos meus futuros netos à estética. A juntar a isso, as calças da H&M e da Primark depressa se fazem feias. E a braguilha está sempre a abrir. Para ver se o fazia mudar de ideias, comprei-lhe um par de calças de ganga diferente… que ele nunca vestiu. Outra coisa não seria de esperar. Decidi mudar de estratégia e ir com ele às compras. Como já tínhamos aflorado este tema diversas vezes e eu sabia que ia ser difícil convencê-lo a experimentar outras marcas, disse-lhe que íamos só comprar uns sapatos novos. Quando o apanhei no centro comercial no Sábado à tarde, obriguei-o a entrar em duas lojas. O Diogo depressa percebeu o meu estratagema e fingiu cooperar, espreitando as calças de ganga disponíveis. Obviamente, nada lhe agradava. Era tudo enorme, demasiado largo e com preços exorbitantes. Rebati a questão do dinheiro, dizendo que lhe queria comprar umas calças melhores e que estava disposta a experimentar marcas mais caras. Filho crescido fincou pé. Eu também. Excepto que fi-lo em alto e bom som. Num centro comercial apinhado, no Luxemburgo, onde toda a gente nos compreende. Não fosse dar-se o caso de não haver muitos emigrantes portugueses, gritei também em francês. E esbracejei bastante, porque já se sabe que a linguagem gestual é universal. A capitulação foi quase imediata. O facto de ter visto uma colega com os pais ao longe pode ter ajudado, não sei. Eu ia bem lançada, mas decidi dar a estocada final. Comecei a falar uma mistura de português e francês, que eu sei que o Diogo não suporta. Virou os calcanhares, grunhiu qualquer coisa e entrou a correr na Esprit. Saímos de lá com umas lindas calças de ganga cinzentas que o deixam respirar normalmente, sentar-se normalmente, comer normalmente. Tendo ainda a vantagem de não deixar entrar correntes de ar em locais menos próprios. Fiquei mesmo feliz. Excepto pelo preço, que me doeu um bocado. Mas, pronto, a vitória tem o seu custo… certo? Filho crescido quis ter a última palavra e argumentou que, àquele preço, não ia conseguir renovar-lhe o guarda-roupa tão depressa. Respondi que tinha toda a razão, teríamos de esperar pelos saldos, em Janeiro. Hum… ou no final de Dezembro, se for até Maastricht. Nem me dei ao trabalho de tentar decifrar o grunhido juvenil que se seguiu. O triunfo sabe tãoooo bem!

4 comentários:

  1. Gostava tanto de ser assim quando era mais jovem e tinha esses dramas nas compras para a minha filha...cheguei a pedir a uma amiga minha que a levasse ela a esse "calvário"! A última cena que me pôs de rastos foi a escolha do fato oficial para a defesa do doutoramento! Ainda hoje não voltei à dita cuja...Parabéns pelo papel de "emigra" no seu melhor!Beijinhos, Rita!

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    1. Há que ter coragem de fazer figuras tristes, Mariana! :p

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  2. Pois... Tu dizes: «Felizmente, a minha própria adolescência está ali ao virar da esquina. É a grande vantagem de ser sido mãe cedo. (??? Não vejo essa vantagem, mas o que segue é verdade:) Lembro-me perfeitamente de que era insuportável. E resmungona. Mandona. Com a mania que já sabia tudo. Muito pouco permeável a opiniões contrárias à minha vontade. Mais do que uma criança mimada, acho que fui uma adolescente mimada (Pois aí lembras-te mal; isso não começou na adolescência; acho que começou ainda nem falavas e já resmungavas... Como não sei, mas era isso...) O meu pai desesperava muitas vezes (desde que eu tinha 3 anos e precisava de uma - nova - explicação para comer a sopa] com o facto de tudo ser passível de discussão. Hoje sei que é esgotante, porque não mudei.»
    Concordo que eras assim, e que não mudaste. Mas olha que talvez fosse tempo... Não tarda nada és velha, e continuas a discutir com o teu pai da mesma forma. Que infeliz que o sujeito deve ter sido na tua infância gira, na tua adolescência maluca, no teu casamento idiota, e mesmo agora deve continuar a ser...

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    1. Se eu chegar a velha a discutir com o meu pai é muitooo bom sinal... Quer dizer que ainda ele ainda vai andar por cá muitos e bons anos! Vais ver que ainda vamos ser como os velhos dos Marretas! :p

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