segunda-feira, 23 de maio de 2016

Os filhos que nunca tivemos I


(porque há momentos e pessoas do passado que mudam o presente)



Há pouco tempo, ligou-me o meu primeiro amor. Precisava de falar comigo. Estranhei a urgência, pouco habitual. Não nos víamos há bastante tempo, ele está sempre a viajar. E, da última vez que nos encontrámos, discutimos. O habitual. Quando entrei no café, estava a ler, numa mesinha do fundo. Não tem tablets, nem smartphones. Não tem nada de moderno, a bem dizer da verdade. Nem sequer a roupa. Parece uma pessoa antiga. Anda sempre com muitos livros. Perguntou de chofre: “De que abdicaste por mim, Rita?” Ele diz sempre o meu nome. Não percebi a pergunta. “Já temos 40 anos. Não tive filhos. Os teus filhos são os filhos que eu nunca tive. E tu, de que abdicaste por mim?” Escapou-me uma gargalhada. Ao fim de tantos anos ainda me espanta a sincronia de pensamento. Esta questão tem-me assombrado, nos últimos tempos. Porque ele foi o começo de tudo o que se seguiu. Porque demorei muito a compreender, mas finalmente percebi. Ele foi o ponto de viragem. O momento exacto em que o meu caminho se desviou inexoravelmente para um lado, e não para outro. E daí advém uma vida. Três vidas, para ser honesta. Demorei muito a encontrar a solução do meu enigma. “Aos 16 anos, convenci-me de que nunca mais iria amar ninguém na vida. Que só temos uma alma gémea e que eu tinha perdido a minha. Por isso, comecei a namorar com o meu melhor amigo, por quem sentia um carinho imenso. Percebo agora que nunca o amei verdadeiramente. Nunca o desejei. Mas achei que era uma maneira segura de ter os filhos que nós nunca teríamos.” 

Aos 15 anos conheci a minha alma gémea. A primeira imagem mantém-se nítida até hoje. Ia começar uma escola nova, num país novo. Não percebia uma palavra do que me diziam, sentia uma dor de cabeça constante. E depois vi-o. Alheado do mundo, sentado na relva. Estava a ouvir música num walkman. Um livro de poesia aberto sobre os joelhos. O cabelo despenteado, demasiado comprido, caía-lhe sobre os olhos. Apaixonei-me perdidamente naquele preciso instante. Até hoje. É das raras pessoas que conheço que se manteve fiel à si mesma, sem quaisquer concessões. A única a quem estou ligada por uma linha invisível, que nem o tempo, nem a distância, conseguiu apagar. A este homem devo muito. Por isso, é importante falar nele, agora que me aproximo a passos largos dos 40 anos e estou a acabar de arrumar as minhas gavetas mentais.

O meu ano de intercâmbio na Bélgica foi complicado. Cresci muito. Nunca teria conseguido aguentar sem ele. Quis o destino que calhasse na minha turma. Outsider como eu, num grupo que estava junto desde a primária, num colégio de meninos ricos. Formámos uma simbiose perfeita, completamente à margem daquele cenário idílico que nos rodeava. Uma simbiose feita de espelhos onde se reflectia o melhor e o pior de cada um de nós. Discutíamos muito de forma extremamente violenta. Mas também conseguíamos comunicar sem que fossem precisas palavras. Depressa começámos a explorar os recantos do palacete que nos servia de escola, bem como os bosques que o rodeavam. Descobrimos todos os pontos de fuga possíveis. Escondíamo-nos no cimo das traves do velho pavilhão de Educação Física, a muitos metros do chão. E líamos. O bibliotecário do colégio depressa desistiu de nos fazer fichas de requisição. Devorávamos prateleiras de livros à velocidade da luz. Escrevíamos muito, principalmente peças de teatro e poesia. Os professores começaram a tratar-nos como uma só pessoa. Todos os trabalhos que fazíamos era em conjunto. Os castigos que recebíamos também eram em conjunto. Até que o Prefeito deixou de nos castigar, quando percebeu gostávamos de ficar retidos na escola, às quartas-feiras à tarde.

Aos poucos, começámos a encontrar-nos fora da escola. Ele levou-me a conhecer Liège. Os cafés, os teatros, as salas de espectáculo. Passávamos horas na Fnac, a ler e a ouvir música. Em casa dele, um verdadeiro refúgio para onde me escapava sempre que podia. O essencial era passar o mínimo de tempo possível com a minha primeira família de acolhimento, completamente disfuncional. Um dia, fugimos da escola para irmos à procura da pessoa do programa de intercâmbio encarregue da zona de Liège. Descobrimos onde morava, numa época pré-internet e telemóveis. A senhora ia morrendo de susto, quando aparecemos à sua porta, já noite cerrada. Os contactos dos voluntários eram confidenciais. Mas não havia nada a fazer, eu teria mesmo de aguentar até ao final do ano naquela família. Ele começou a azucrinar a mãe, para me deixar ficar com eles. Mas a senhora, apesar de preocupada e amorosa, recusava-se terminantemente. Dizia que ainda acabávamos na mesma cama e desgraçávamos as nossas vidas. Parecia-nos uma heresia. Nós éramos amigos de sangue, com juras feitas.

Até que a família para quem eu fazia babysitting todas as semanas percebeu que as coisas não estavam bem. E decidiram acolher-me, nos sete meses que faltavam para acabar o ano lectivo. Ainda hoje são a minha “família belga”, a quem devo o mundo. Na manhã seguinte, cheguei atrasada à escola. Sentei-me discretamente na fila de trás e rabisquei a novidade numa folha de papel, que lhe atirei à cabeça mal a professora voltou costas. Nunca vi uma felicidade alheia tão honesta. Levantou-se e atravessou a sala ruidosamente por cima das mesas corridas até chegar a mim. Caímos nos braços um do outro à gargalhada. E, em seguida, fomos falsamente cabisbaixos até ao escritório do Prefeito, para mais um castigo por indisciplina. Daquela vez, escapámos. A escola estava a par da minha situação e ficaram sinceramente aliviados. Começou, então, uma das épocas mais felizes da minha vida.

2 comentários:

  1. Mais uma das "vidas" da Rita...E explica muito as que vieram a seguir! Beijinhos e uma boa semana

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    1. É verdade, são muitas vidas mesmo... :)Beijinho!

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