terça-feira, 9 de maio de 2017

O gestor de carreira idealista

(onde a tenacidade juvenil salva a situação,

contra todas as expectativas)



Foi no início de Setembro que entrou na minha vida o impulsionador da mudança que iria ocorrer. Ou seja, era uma mudança anunciada e eu nem me apercebi. A bem dizer da verdade, a única coisa que compreendi de imediato foi que aquele jovem ia ser uma pedra no meu sapato nos tempos mais próximos. Sendo mãe solteira e tendo direito a algumas ajudas sociais, porque trabalhava apenas a meio-tempo, foi-me atribuído uma espécie de gestor de carreira. Tratava-se de uma mera formalidade burocrática. Tínhamos uma primeira reunião e era suposto ele passar a pasta ao centro de emprego que me ajudaria a encontrar outro meio-tempo, de forma a aumentar os meus rendimentos. Numa manhã, mostrava-me rapidamente uns sites com ofertas de emprego, ajudava-me a fazer um novo CV, mais umas cartas de apresentação pró-forma. E, pronto, a coisa ficava por ali. O problema foi que o aplicado funcionário se deu ao trabalho de estudar o meu processo e depressa percebeu que o centro de emprego pouco poderia fazer por mim. Qualquer outra pessoa teria desistido, eu era um caso perdido. Mas este novato idealista ainda não se tinha vergado ao sistema. Durante meses a fio, bateu as todas as portas. E ouviu as mesmíssimas respostas que eu já tinha ouvido. Não, os meus diplomas nunca seriam reconhecidos na Bélgica. Não, o juri central não poderia homologar a minha experiência profissional. Não, o Ministério da Educação não poderia abrir uma excepção para eu poder continuar a dar aulas. Não, o director da escola onde trabalhei dois anos nada mais poderia fazer por mim. O secretariado também não. Não, a Universidade de Liège não tinha horário pós-laboral, embora me aceitasse como doutoranda. Não, não há bolsas para estudantes de 40 anos. Não, o sonho europeu não se sobrepõe às leis proteccionistas belgas. Etc., etc., etc…

A única solução viável implicava aceitar um trabalho sub-qualificado. Ou pago abaixo das minhas qualificações. Ou tentar arranjar trabalho no Luxemburgo… embora, provavelmente, tivesse de deixar a segurança do meio-tempo que tinha encontrado por milagre, sabe-se lá como. Qualquer uma destas soluções seria inevitável mal o meu processo desse entrada no centro de emprego. E eu acabei por achá-las aceitáveis. Mas o persistente funcionário não se dava por vencido, impedindo que o meu dossier seguisse o curso que lhe estava predestinado. As reuniões sucediam-se. Falávamos de tudo, explorávamos todas as ideias possíveis. O jovem tinha de justificar a anomalia do processo e mostrar trabalho aos superiores. Habituei-me a receber as convocatórias na minha caixa do correio. Quando lhe perguntei se não seria mais simples enviar-me um e-mail, lá me confessou que era mesmo só para mostrar serviço. Às tantas, percebi que me tinha transformado numa obsessão. Era como se, desistindo de mim, ele estivesse a renunciar aos sonhos de todos os estrangeiros que diariamente entram neste país. No final de cada encontro, eu é que acabava a consolá-lo por não conseguir fazer nada pelo meu caso.

O Verão deu lugar ao Outono. Depois, ao Inverno. E, por fim, à Primavera. Até que comecei sinceramente a temer pelo futuro profissional do jovem funcionário e o confrontei com a realidade da situação. Tínhamos mesmo de acabar com aqueles encontros que não davam em nada. O Cédric – nesta altura do campeonato, já tínhamos deixado cair o tratamento mais formal – pediu-me só mais oportunidade. Havia uma última coisa que ainda não tínhamos tentado. Talvez ele pudesse marcar-me um encontro com o Créajob, um serviço de apoio à criação de empresas. Expliquei-lhe que não tinha qualquer interesse em criar uma empresa. Dado que não era empresária. E que os meus conhecimentos de gestão eram completamente nulos. Que, aliás, tinha aberto uma livraria/salão de chá há muitos anos atrás e que a coisa não tinha funcionado. Mas que dessa experiência tinha resultado a firme decisão de nunca mais me meter noutra. E, de qualquer forma, não tinha dinheiro para investir. Se ele bem se lembrava o meu problema era falta de dinheiro, não excesso. De qualquer modo, não tinha nenhuma ideia de negócio. Nada. Zero. O Cédric contra-argumentou cada uma das minhas objecções. Percebi que devia ter reflectido longamente no assunto. Para tudo, tinha uma solução pronta. Por fim, pediu-me: “Faz isto por mim, por favor”. Não fui capaz de recusar. Não depois de tudo o que ele tinha tentado fazer nos últimos meses. Quando saí do escritório, naquele dia quente de Março, tinha uma reunião marcada para Maio. Entretanto, o frio voltou em força. O tempo passou. E eu esqueci por completo a reunião.

Entretanto, o meu mundo desabou. Ia ficar desempregada a médio prazo. Cruzei-me por acaso com o Cédric nessa semana, quando fui entregar a factura do mazout (por cada 500 litros que encomendo, a Commune participa com cerca de 70 euros). Gozei por ter deixado crescer a barba imberbe. Dava seriedade, confessou envergonhado. Hesitei, mas acabei por lhe contar a novidade. Surpreendeu-me com um sorriso. “Tens até dia 5 de Maio para desencantar um projecto de empresa”, disse-me. O meu amor andava há dias a dizer-me praticamente o mesmo. Excepto que ele já me tinha ouvido falar de uma ideia mirabolante, nos tempos de Malempré. Na altura, pouco me ligou. Era de facto uma ideia estapafúrdia. Sempre defendi que, se é para sonhar, que seja em grande. Gosto muito de sonhar. Os estudos literários chamam-lhe “teoria dos mundos possíveis”, o que lhe dá outra beleza. Aos poucos, o meu sonho começou a ganhar consistência. E decidi avançar. No dia 11 de Abril foi o meu último dia de trabalho.

Passámos as férias da Páscoa a delinear o projecto. O meu amor deu ideias novas, obrigou-me a reformular outras e convenceu-me a abandonar umas quantas. Todos os dias, aparecia com mais um artigo, um estudo, um livro. Vários case studies. Aprendeu para me poder ensinar. O tempo não era muito. Entretanto, chegaram os rapazes. Tínhamos combinado não lhes dizer nada até ao dia da reunião, para não os deixar preocupados. Nessa mesma noite, contei-lhes tudo. Sempre joguei a carta da honestidade com os meus rapazes. Onde vai um, vão os três. Tenho a sorte de ter bons filhos, que apoiam as ideias mais loucas com um entusiasmo transbordante. Na véspera da reunião, tinha os meus três homens a torcer por mim. Mais o Cédric. Embora o meu amor estivesse bastante zangado. Fingi que não percebi. Como bom cientista que é, queria um projecto escrito, com muitos números e gráficos e datas e esquemas. Mas eu sou diferente. Sou pela teoria dos mundos possíveis. Entrei naquele escritório de mãos a abanar. De ténis e calças de ganga e mochila, porque é assim que eu sou. Falei do meu mundo possível. Não falei de factos, mas de sonhos. Do meu sonho. E convenci. Apanhei uma daquelas pessoas fantásticas que estava eu a descrever a colina, já ela estava a visualizar os contornos do Everest. Saí de lá com novas pistas para explorar e diversos contactos. Para além de um lugar garantido no próximo curso que criação de empresas, que vai começar em Agosto. Depois, tenho três meses para edificar o meu mundo no papel… aí, sim, com números concretos. Só os melhores terão acesso à incubadora de empresas, que abre portas e desbloqueia subsídios. Tenho muito trabalho de luta interior pela frente, para me vergar aos imperativos do mundo real. Mas, como tão bem percebi pela luta que o Cédric travou por mim, não tenho muito mais hipóteses de me safar neste país. Daqui por um ano, filho pequeno estará no secundário. Um ano depois, filho grande estará na universidade. São dois excelentes motivos para tudo dar certo. Se eu conseguir isso e, de permeio, realizar o meu sonho, acho que terei efectivamente construído um mundo possível.

7 comentários:

  1. Toda a sorte do mundo!!!! Um xi-coração!

    ResponderEliminar
  2. Há tempo que aqui não escrevo...Mas venho ler e encontro a sua força em manter ideais vivos, em descobrir e vencer novos desafios enquanto é sempre uma MÃE e COMPANHEIRA com um tamanho inverso à sua altura...A minha vida tem sido muito "vidinha", com outras vidas às minhas costas e eu sem vontade de passar impressões pelas pontas dos meus dedos! Só quero parabenizar este salto pró futuro, o novo arregaçar as mangas porque ficar à espera que a oportunidade pare à sua porta não é o seu lema...beijinhos e muitas felicidades!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Querida Mariana, já tinha saudades das suas "visitas"! :) Beijinho.

      Eliminar
    2. E eu tinha saudades de mostrar que sou vossa visita, que continuo a gostar desta "mãe menina" e dos seus rapazes e do seu príncipe que veio do Norte!

      Eliminar
    3. E eu tinha saudades de mostrar que sou vossa visita, que continuo a gostar desta "mãe menina" e dos seus rapazes e do seu príncipe que veio do Norte!

      Eliminar