quinta-feira, 6 de agosto de 2015

A caminho do trabalho

(onde, por vezes, o insólito acontece)


 

Demoro cerca de 45 minutos a chegar ao trabalho. Tempo médio, claro. Se for o meu amor a conduzir, demoramos quase uma hora. Já eu, quando vou mais atrasada, consigo pôr-me lá em 35 minutos. Hoje foi um desses dias. Saí de casa em cima da hora, porque me pus a fazer uma série de coisas absolutamente inadiáveis… como limpar o aquário das tartarugas e separar a roupa para lavar logo à noite.

O trajecto divide-se em três etapas: atravesso várias aldeolas, embrenho-me por umas estradas manhosas em plenas Ardenas e, por fim, faço 10 minutos de auto-estrada. Escusado será dizer que o caminho onde perco mais tempo é pelo meio da floresta, entre curvas e contra-curvas. Muitas vezes, atrás de camiões impossíveis de ultrapassar.

A vantagem de trabalhar em Agosto é que parecemos ser os únicos seres humanos à face da Terra. Não há trânsito, as estradas estão sempre desimpedidas. E, portanto, conseguimos não apenas andar mais depressa, como desfrutar da viagem. Hoje foi um desses dias. Seguia depressa a ouvir música bem alta, de janelas abertas. Com o cabelo ao vento. Está tão comprido, o meu cabelo!

De repente, ao sair de uma curva mais apertada, ouço o barulho de uma travagem forçada. Instintivamente, ponho também o pé ao travão. Mesmo a tempo… Uma corça assustada passa aos saltos à frente do meu carro e embrenha-se na floresta. Em sentido contrário, uma autocaravana de matrícula holandesa. Os dois velhotes tinham um ar tão assarapantado como o animal. Ia a meter a primeira, quando reparo que olhavam estupefactos para a berma. Com as patas já no alcatrão, estava um bambi pequenino. Completamente paralisado de medo, a tremer. Olhei para o outro lado da estrada, nem sombra da mãe corça.

Decidimos ao mesmo tempo sair dos carros e aproximarmo-nos do bicho. A velhota gesticulava, aflita. Percebi que tentava alertar-nos para o facto de aquele local não ser o mais seguro para estarmos os dois ali parados. O bambi nem se mexeu quando lhe tocámos. Também não se mexeu quando começámos a empurrá-lo para atravessar a estrada. Parecia pequenino, mas com as patas bem fincadas no chão, foi o cabo dos trabalhos obrigá-lo a passar para o outro lado. O Holandês, já refeito e bastante mais expedito do que eu, levantou-o pelas patas traseiras. Quando finalmente lá chegámos, a mãe corça continuava sem dar sinal de vida. E o bambi continuava sem se mexer. Dei-lhe festinhas e incentivei-o com voz doce, mas o velhote levantou a mão para me deter e abanou a cabeça a dizer que não. Alçou da mão e deu-lhe uma palmada com toda a força na traseira. Aí, sim, o bicho largou a correr para o meio do mato. Não sei se encontrou a mãe, suponho que sim.

O Holandês disse-me adeus com um grande sorriso e meteu-se a correr na autocaravana, para alívio da velhota. E eu segui caminho, como se nada fosse. Às vezes, é estranho morar, aqui, para estes lados…

2 comentários:

  1. Ehehe, imagino! Por estas bandas também é assim. Não há cães nem gatos vadios a atravessar a estrada, mas há "bambis", raposas, esquilos, porcos espinhos :)

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  2. Exacto, é toda uma bicharada muito especial! Também tens a berma das estradas pejada de aves de rapina à coca de animais apanhados pelos carros? A desgraça de uns, a felicidade de outros! ;)

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