terça-feira, 4 de agosto de 2015

No país que me viu nascer

(onde apetece ser apenas aquilo que efectivamente sou… estrangeira)


 

Para ser sincera, depois de todas as aventuras que vivemos em Marrocos, só me apetecia voltar para casa. E “voltar para casa” – percebi eu com algum espanto durante estas férias – significava regressar à Bélgica. Em três anos, as minhas coordenadas mudaram definitivamente. A bússola interior aponta agora para Norte. É aqui que está a minha vida. Os afectos também.

Os três dias que passámos em Portugal, antes de regressarmos a casa, deixaram um travo amargo. Nem sequer posso dizer que tenha sido agridoce, porque soube mesmo a fel. Entre andar a correr desenfreadamente as capelinhas todas para ver a família – literalmente “ver”, porque pouco mais conseguimos fazer – e tratar de burocracias relacionadas com os documentos que me roubaram, não sobrou tempo para respirar. Senti que tínhamos desperdiçado os nossos últimos dias de férias com os rapazes, que vão passar o próximo mês longe de nós. Senti um cansaço imenso. Nem ouso imaginar o que terá sentido o meu Belga, que me seguiu para todo o lado. E secou lágrimas e ouviu desabafos.

Esbarrei com um muro de incompreensão a cada membro da família que tentei visitar. “Não venham tarde!”  “Vêm almoçar?”  “Não ficam para o jantar?”  “Já se vão embora?! Nem comeram!”  “Vejam lá se vêm cedo!”  “Na última vez que cá estiveram, mal pude ver os meninos!”  “Mas já comeram?!”  “Se é para ficar tão pouco tempo, mais valia nem terem vindo!”  “Tinha aqui estes bolinhos que comprei para o lanche… Têm mesmo de ir já?!”

Esbarrei com um muro intransponível a cada documento que tentei recuperar. Já não tenho morada em Portugal. Já não me lembro dos milhentos números disto e daquilo que temos de saber de cor, sabe-se lá porquê. Já não tenho semanas, dias, horas, a perder em cada balcão de atendimento onde exigem que vá. Principalmente, já não tenho paciência. Tudo me parece kafkiano. “Pois… sem morada em Portugal não lhe posso enviar isto! Nós não fazemos envios para o estrangeiro, é muito caro, sabe?”  “Olhe, peça com jeitinho ali ao segurança para ver se ele a deixa passar, sim?”  “Sem número de contribuinte, não posso mesmo avançar. O sistema não deixa.”  “Deram-lhe essa senha, minha senhora?! Não sabia que é a amarela?! Agora tem de ir tirar outra senha… Quer dizer, agora já não dá, porque vamos fechar. Volte amanhã.”  “Pronto, paga 15 euros pelo impresso para pedir a sua certidão. Depois, quando vier levantar, tem de pagar mais 30 euros.”  “Multibanco não temos, minha senhora. Está fora de serviço. Não sabia que tinha de trazer dinheiro para pagar?! Vá ali num instantinho ao lado…”  “Agora até já temos um impresso próprio para quem vive no estrangeiro. Vai em português com os números todos por extenso para não haver cá confusões.”

O que me apetecia mesmo fazer em Portugal era ir até ao Gerês, ver os cavalos selvagens. Fazer a travessia do Tejo. Conhecer finalmente os Passadiços do Paiva. Comer um travesseiro em Sintra. Reencontrar amigos de longa data, que nunca consigo visitar porque moram longe. Ou familiares mais distantes que nunca exigem tempo. O que me apetecia mesmo fazer em Portugal era ser apenas mais uma estrangeira de férias, sem obrigações, nem horários apertados. Incógnita.


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6 comentários:

  1. É um sinal de que já saíste de Portugal o tempo suficiente para já não conseguires lidar com a nossa realidade quotidiana... que infelizmente é como descreves!

    Eu que também cá estou gostava de ir até ao Gerês rever os cavalos selvagens e ir conhecer os Passadiços do Paiva, e ir até à Quinta da Regaleira, e ir até Aveiro e... e...

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    1. Imagino que nesta altura do ano ainda desejes mais ir até ao Gêres, Naná... :)

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  2. Ja leio o seu Blog a algum tempo (e que Blog bom que é, gosto mesmo muito), mas estou a comentar pela primeira vez.
    Identifiquei-me tanto com o que escreveu. Sai de Portugal ha quase 15 anos. Nos primeiros anos era assim, sempre a correr de um lado para o outro, sempre a tentar agradar a todos, sempre a ouvir que o tempo que tinha para dar era pouco, sempre a deixar por fazer aquilo que realmente queria fazer. Quando regressava vinha cansada, triste, fui perdendo Portugal ao longo do tempo, porque mesmo estando em Portugal nao tinha tempo para realmente estar, para sentir.
    As visitas continuam a ser stressantes, mas ja nao sao tao más, talvez porque sejam menos frequentes, talvez porque com criancas pequenas as correrias sao limitadas, talvez porque familia e amigos ja se resignaram com o pouco tempo que ai vamos, talvez por fazer mais aquilo que quero e menos o que esperam de mim, talvez porque a minha casa seja agora aqui (e eu gosto muito de viver aqui).
    Compreendo-a tao bem.

    Ana, dum pais ao lado (Alemanha)

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    1. Obrigada pelas suas palavras, Ana. O facto de sabermos que há mais quem tenha o mesmo sentimento, ajuda um bocadinho a não nos sentirmos tão culpados.

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  3. E para não variar vinha dizer que poderia ter sido escrito por mim, se tivesse a capacidade de expressar tão claramente a situação. É tal e qual, sem tirar nem pôr.

    Só ainda não sei se é porque as nossas expectativas (e ansiedade, talvez) são demasiado altas, se a cultura do país de acolhimento que também nos transforma, se é alguma falta de sensibilidade por parte de quem lá ficou numa vida que não terá sofrido grandes alterações (soa mal,mas não o digo com sentido depreciativo). Mas também me sinto assim; é estranho e nada agradável.

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  4. Acho que deve ser uma mistura de todos esses motivos que apontas, Paula... E tens toda a razão, é estranho e desagradável. Fica uma sensação de desconforto. :(

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