quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Nós e o Ikea

(onde se tenta transformar um erro em dois, com enorme sucesso)



Tive durante muitos anos uma casa Ikea. Demasiados anos. Anos demasiado tristes. Não por amor à marca, mas porque não havia mesmo dinheiro para mais. Infelizmente, em Portugal, o mercado dos móveis em segunda mão é uma utopia. Já para não falar da completa inexistência da doação de móveis usados… estou em crer que por ofensa à vaidade do tuga, não por suposta falta de generosidade. “Pobrezinhos, mas honrados” é uma instituição nacional. Mais vale comprar novo do que recuperar o antigo. Mesmo que o novo seja standartizado, feio, de qualidade duvidosa. E que se lixe a ecologia.

Quando mudei de vida, decidi que nunca mais voltaria a ter uma casa Ikea. É que quando mudei de vida, mudei também de paradigma. Mudei de pele. Definitivamente. E sem olhar para trás. Porém, a realidade obrigou-me a fazer ligeiros ajustes nesta minha decisão. Na pequenina casa de Malempré, onde a nossa aventura começou e fomos tão felizes, o quarto dos miúdos ficava no sótão. As escadas estreitas e o pé-direito reduzido impediam a passagem de móveis. Ainda assim, acho que consegui desencantar muito mobiliário usado, que aos poucos fui recuperando. Excepto as secretárias dos rapazes, que tive mesmo de comprar desmontadas no Ikea. E as cadeiras que faziam pendant. Até mudarmos para Vielsalm.

A nova casa parecia um palacete, quando nos mudámos. Passámos de duas divisões para sete. De dois andares para quatro. Mais uma garagem, uma cave fantasmagórica e um quintal com várias casinhas de jardim. Mais importante, passámos de três para quatro habitantes. Mudou tudo. Mudámos nós, também. A nossa casa demorou muito tempo a ficar pronta. Demorou um ano, para ser mais exacta. Bom… ainda falta o último projecto do meu amor, que tem andado afincadamente a recuperar a velha estufa do quintal. Diz que é para fazer uma horta e um abrigo para as galinhas. E voltou a falar na necessidade de termos uma cabra que, segundo parece, é o corta-relva mais natural que existe à face da Terra. Como se os doze animais que habitam esta casa não fossem suficientes…

Claro que a ocupação de todo este espaço implicou várias idas ao Ikea. Não para comprar móveis, mas para comprar “coisas”: coisas para arrumar, coisas para pendurar, coisas para organizar, coisas para limpar, coisas para fazer outras coisas. Toda a gente sabe que as “coisas” do Ikea são extremamente úteis e baratas. Individualmente, como é óbvio. Porque quando passamos à caixa, euro a euro, chega-se rapidamente às centenas. É uma desgraça. Mas o meu amor descobriu tardiamente que é um fã das “coisas” do Ikea. Até nos conhecer, o Ikea era apenas um quadrado azul no horizonte que balizava a aproximação à pista do aeroporto de Bierset, em Liège. Quando o levámos lá pela primeira vez, andou a espreitar tudo como um miúdo na fábrica do pai Natal. Felizmente também não ficou encantado com os móveis. Excepção feita para aqueles pequenos móveis de pinho baratinhos, por serem facilmente personalizáveis: as mesinhas de cabeceiras ou as cómodas que eu gosto de pintar. Mas, lá está… apaixonou-se pela utilidade das “coisas” do Ikea.

Este Verão, celebrámos o primeiro ano na nossa nova casa. Com mais ou menos obras, com mais ou menos móveis recuperados ou feitos de raiz, com mais ou menos “coisas” do Ikea, demos finalmente os trabalhos de remodelação por concluídos. Remodelação de interiores, bem entendido, que já percebi que o quintal será eternamente um work in progress. Mas – há sempre um “mas”, como diria o Sérgio Godinho – o meu amor desencantou uma última coisa a fazer. A enésima última coisa.

Durante as férias dos rapazes em Portugal, em Agosto, aproveitamos sempre para fazer algumas mudanças nos quartos. A iniciativa é do meu amor, que o meu coração fica ainda mais pequenino de saudades quando vejo aqueles quartos vazios. Depois, passa… à medida que vou desesperando ao tentar ajudá-lo a pôr ordem no caos reinante. Desta vez, não foi diferente. Quando por fim terminámos o quarto da coisa pequena, sentámo-nos ambos em cima da cama a admirar o resultado. A cama abaulou um bocadinho. Um bocado, vá… E o meu amor decretou que aquela cama tinha de ser substituída impreterivelmente. Não pude deixar de concordar. O Vasco é o único que ainda tem a velha cama que comprei para desenrascar nos primeiros tempos, há três anos atrás, numa pousada que ia fechar. Prometi que ia dar uma vista de olhos pelas lojas de móveis em segunda mão da região. Que não, senhor. Que nem pensar. Que o menino tinha de ter uma cama nova. Uma cama é como um par de sapatos, tinha de ser nova. Argumentei que a nossa cama e a do Diogo também são usadas. Respondeu muito depressa que o Diogo ia na terceira cama usada e que nós já tínhamos sido alvo dos comentários jocosos da vizinha por causa do barulho que a nossa cama faz. Certo, mas o Vasco é pequenino… Que estava fora de questão. É pequenino mas vai crescer. E precisa de uma cama nova. Agora. Ainda tentei ver se ele não quereria construir uma nova, especialmente para o Vasco. Nem pensar! Tínhamos menos de uma semana. Perguntei onde raio íamos desencantar uma cama nova? No Ikea, pois claro. De certeza que eu podia abrir uma pequena excepção à regra. E, já agora, aproveitávamos para comprar mais umas “coisas”…

Eis-nos, então, na caixa do Ikea com um mamarracho dividido por três caixas gigantes, mais as tais “coisas”. Pela primeira vez, o preço surpreendeu pela positiva. Parece que a cama estava com 20% de promoção. Mais trinta euros de desconto do cartão Ikea Family. Aquilo pareceu-me demasiado, mas o meu amor sacou logo do cartão todo satisfeito. Chegados a casa, alancámos com o mamarracho até ao terceiro andar e atacámos de imediato a construção do puzzle. Martela daqui, aparafusa dali. Mais as discussões do costume. “Estás a ver a imagem ao contrário”  “É deste lado, não é desse”  “Puseste o parafuso errado. Não é o 025873 é o 025877.”  Apesar de tudo, os trabalhos avançavam a bom ritmo… quando algo me saltou à vista. Estávamos há horas a construir uma cama de casal. Uma rápida pesquisa no site do Ikea explicou o equívoco do preço. De facto, as camas de casal do mesmo modelo da que tínhamos escolhido para o Vasco estavam com uma super promoção. O que não resolvia o nosso problema. “Desmonta-se a cama toda e vai-se lá trocar?”  “Porra, nem pensar!”  “Ficamos nós com esta cama, o Diogo fica com a nossa e o Vasco com a do Diogo?”  “Estás doida?! Tens a certeza de que queres dar ideias a um adolescente de 14 anos?!”  “Não, não… esquece!”  “E se o Vasco ficasse com esta cama?!”  “Tínhamos de comprar um colchão de casal, roupa de cama e mais um édredon.”  “Bolas, fica mais barato comprar uma cama nova… Vamos comprar outra e espetamos com esta no lixo!"  “Mas já gastámos o dinheiro nesta...”  “E se transformássemos a cama de casal em duas camas de solteiro? Uma para o Vasco, outra para o Diogo.”  “Ok, vamos a isso! Vou buscar a serra…”

E, pronto, a modos que é isto. A cama de casal foi cortada ao meio. Dois gavetões para um lado, dois gavetões para outro. Fartámo-nos de fazer desenhos para ver o que se podia improvisar. Comprámos o material que faltava. Andamos há três dias à volta da construção das malfadadas invenções, a rogar pragas ao Ikea que tinha a porcaria da cama de casal arrumada no sítio das de solteiro. A rogar pragas a nós, que não verificámos o código de barras e que não demos logo pelo erro. Os trabalhos avançam lentamente. Deixámos de discutir, estamos demasiado cansados. Já tivemos de voltar ao Ikea porque, entretanto, percebemos que os colchões de solteiro que tínhamos não cabiam nestas novas camas. Não faz mal, andávamos há séculos para os trocar. Ainda eram da leva de coisas compradas na pousada que ia fechar. Escusado será dizer que o meu amor aproveitou para trazer mais umas “coisas”…

6 comentários:

  1. Se as férias são salpicadas de momentos de "loucura", o regresso das mesmas não lhe fica atrás...Se o senhor Ikea os visse a cortar camas ao meio, depois de tudo estudado e explicado ao pormenor...Mas gosto tanto de vos ver assim! Bom trabalho!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Bom... os estudos e os pormenores suecos por vezes deixam muito a desejar! Nem sempre as instruções de montagem batem certo. O que vale é que há uns malucos que acham piada dar a volta ao texto. :)

      Eliminar
  2. Também estou muito feliz por ter finalmente deixado de ter uma casa IKEA. Excepto as "coisas" que ainda ontem de lá trouxe. E temos de voltar para a semana. Faltam sempre "coisas".

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Lol, Gralha! E as promoções fantásticas que eles fazem sobre essas "coisas" nesta altura do ano?! ;)

      Eliminar
  3. Gostei tanto de ler este post, a sério. Quanto à loja sueca, também eu já tinha material para um livro :)

    ResponderEliminar
  4. Acho que a popularidade da loja sueca entre os pais é comparável à da loja do palhaço entre os filhos! :D

    ResponderEliminar