quarta-feira, 27 de julho de 2016

Chama o António


(ou onde se depara com outro tipo de emigração)


 


No Sábado, enfiei-me com os miúdos no carro a caminho da cidade do Luxemburgo. Estava tudo em alvoroço para ir buscar a avódrasta ao aeroporto. Quer dizer, a alegria deles prendia-se com a chegada da avó, a minha com a chegada das farinheiras. Vai tudo dar ao mesmo, certo?

Desde que descobri que o caminho pela autoestrada tem mais 50 quilómetros, vou pelas estradas nacionais. Demoro o mesmo tempo, mas sinto-me mais ecológica. Estávamos quase a chegar, a passar por uns túneis que odeio porque parece que estamos a ser sugados por um buraco negro, quando toca o telemóvel. Estiquei o braço para o agarrar e passar ao Diogo, convencida de que era a avó a avisar que já tinha aterrado. E vai de bater com o pneu traseiro no lancil. Nada de especial, até porque não ia depressa. No Luxemburgo é impossível, os limites de velocidade estão sempre a mudar e dão com uma pessoa em doida. Seguimos caminho, túnel afora, mas ouvia-se um “tac-tac-tac” plástico insistente. Quando pude, abrandei e parei na berma da estrada, para ver o que se passava. Era o tampão partido que estava a bater no chassis. Tiro o tampão, verifico toda contente que o carro não tinha uma única beliscadura e preparo-me para arrancar. Nada. A caixa de velocidades tinha bloqueado. A única mudança que dava para pôr era a 5ª. Comecei a ver a vida a andar para trás. Estava parada na berma de uma via rápida, atrás do sol-posto, sem assistência em viagem. A malta habitua-se a saltar de país em país e esquece-se de que são efectivamente outros países. Já lá vai o tempo em que os rapazes batiam palmas sempre que passávamos uma fronteira. A suar em bica, decido que tínhamos de sair dali em 5ª. E saímos, não me perguntem como.

O Diogo procurou na Net a morada da garagem mais perto do aeroporto do Luxemburgo e pô-la no GPS. Faltavam uns bons quilómetros para lá chegar, mas decidi arriscar. É de referir que este aeroporto é tipo a Casal Ribeiro, mas em grande. Não muito grande. E fica no meio de uma zona industrial que, aos fins-de-semana, está quase deserta. Deixei-os perto do aeroporto, no cimo de uma longa descida, com indicações para esperarem pela avó e irem sentar-se no café a comer até novas instruções. É o tipo de ordem que os meus filhos mais gostam: Avó+comida+mãe à distância. E lá voltei a arrancar em 5ª, na descida.

Chegada à garagem, estava fechada. Andei às voltas até encontrar outra descida, onde pudesse parar o carro. Assegurei-me que os rapazes já estavam com a avó a enfardar. Liguei ao meu amor para procurar contactos de garagens nas redondezas. Tentei os vários números que ele me foi enviando, sem sucesso. Até que lá acabei por apanhar alguém que me explicou que fechava tudo ao meio-dia, que antes de segunda-feira seria impossível resolver o problema do carro. Decidi que o melhor seria tentar voltar ao aeroporto, estacionar na estação de serviço mais próxima e voltarmos todos de comboio para casa. Não sei bem como, consegui. Tive a sorte de apanhar uma sincronização de sinais verdes e estradas vazias.

Quando estava a caminho do aeroporto a pé, num descampado, ouço falar português. Eram dois homens que tinha acabado de largar a obra onde estavam a trabalhar. Entrei no estaleiro e meti conversa. Expliquei o que se tinha passado com o carro e perguntei se conheciam alguma garagem por ali que ainda pudesse estar aberta. Não queriam acreditar que tivesse vindo a conduzir em 5ª desde os túneis, à entrada da cidade do Luxemburgo. E que ainda tivesse conseguido largar os miúdos de permeio no aeroporto. Agarram-se de imediato os dois ao telemóvel, a tentar encontrar uma alma que me ajudasse. A bem ou a mal. Foi o pobre Miguel, mecânico do patrão, que teve o azar de atender o telefone. Pela conversa que se seguiu, percebi que o mecânico-salvador já devia ter programa para sábado…

“Estás aonde, pá?! Estamos aqui com uma senhora… uma menina!”  “É menina ou senhora? É menina, prontos!”  “Olha, tens de vir cá agora! Podes, não podes? Naquela obra ao pé do aeroporto. O carro da menina ficou com a caixa de velocidades bloqueada. Deve ter sido alguma cena que saltou, eu não percebo nada de mecânica! Podes vir cá ver o que se passa? Traz material, que podes precisar. A ver que consegues desenrascar a menina, que tem os filhos com a avó no aeroporto à espera. Pois, não é uma menina é uma senhora. Quando?! Agora, c******! Depressa que estamos à espera e está aqui um calor do c******!”

Fomos esperar o bem-aventurado Miguel para a estação de serviço. Os dois homens andaram à volta do carro, a ver se descobriam o que se tinha passado. O primeiro ia olhando para o relógio, com uma certa apreensão. Estavam à espera dele em França, ainda tinha muito caminho pela frente. Mas, como era o único que percebia qualquer coisa de mecânica, deixou-se ir ficando para ver se conseguia ajudar. Fez o primeiro diagnóstico: “Sabe que isto não é bom… Não foi nenhum grampo que saltou, é mesmo da caixa. Mas olhe que tem a parte de baixo do carro toda enferrujada, c******! Onde é que andou metida com o carro?!” Lá lhes expliquei que vivia nas Ardenas belgas, que este Inverno tinha ficado presa numa tempestade de neve e que o gelo tinha demorado uma semana a descongelar, na parte de baixo do carro.

E pronto. Palavra puxa palavra, cada um de nós contou a sua história. O dito Miguel não havia meio de chegar. Ainda lhe ligaram mais umas duas vezes, a ralhar pela demora. Em menos de um nada, estavam a tratar-me por tu e as línguas soltaram-se. Ou seja, a linguagem tornou-se mais brejeira. Bastante mais brejeira. Ao nível do Mercado da Ribeira. Ficaram estarrecidos por ter emigrado sozinha com duas crianças. “Mas és viúva?!” Lá lhes expliquei a maioria das mulheres sozinhas, em pleno século XXI, era divorciada e não viúva. Tive de repetir várias vezes que não, não tinha os meus pais comigo, nem os meus irmãos, nem os meus primos, nem os meus amigos. “F***-**! Estás mesmo completamente sozinha!” Dito assim, até eu estava capaz de começar a chorar, com pena da minha própria situação.

O primeiro teve mesmo de se ir embora, mal chegou o desgraçado do Miguel. Depois de justificar o atraso, o mecânico meteu de imediato mãos à obra. Assentou o macaco na gravilha e perdeu-se debaixo do meu carro com um martelo improvisado. Fiquei só eu e o António. Emigrado há 30 anos no Luxemburgo, mas com o pensamento em Portugal. E o coração. E a alma. A minha história, tão díspar da sua, impressionou-o. Não dependo de nenhum homem. Não tenho filhos com problemas na escola, nem em situação de exclusão social. Não ganho rios de dinheiro, apesar do bom emprego. Não tenho um carro imponente. Não conto os anos para a reforma, para poder regressar “ao país”. Não faço parte de nenhum grupo de portugueses emigrados. Não digo mal do país onde vivo, nem sinto que sou mal recebida. Não vou de férias em Agosto para Portugal. Não vivo em contagem decrescente. Não tenciono regressar à pátria-mãe. “Nunca mais?”  “Não.”  “E nas férias, não voltas?”  “Às vezes. Mas prefiro ir conhecer o mundo. Há muito mundo, lá fora.”

Uma hora depois, o Miguel deu o seu veredicto: a caixa de velocidades estava morta. O carro tinha mesmo de ser levado para uma garagem. Agradeci efusivamente a ajuda. Percebi que os teria ofendido que me oferecesse para pagar. A ajuda era de coração. “Farias o mesmo por nós.” É verdade que faria, sem hesitar. Iniciei as despedidas para me pôr novamente a caminho do aeroporto a pé. O António não deixou. Estava fora de questão ir com os meninos e a avó de transportes públicos para casa. Ele levava-nos de carro. Só podia levar três, mas de certeza que o Miguel também nos podia dar boleia. O desgraçado do Miguel ficou atrapalhado, mas não recusou. Lá lhes expliquei que tinha comboio directo até à porta de casa. Ficou decidido que nos levariam só até à estação do Luxemburgo.

O António ficou surpreendido quando viu “os meninos e a avó”, à porta do aeroporto. Devia ter imaginado duas crianças pequenas e uma velhota de luto com um lenço na cabeça. Saiu-lhe um rapagão maior do que ele, uma pequena criatura muito educada e uma mulher ainda para as curvas. Metemo-nos todos a correr nos carros, que estavam a entupir a saída do estacionamento. Felizmente a estação dos comboios não era longe. Num carro e noutro, a conversa foi exactamente a mesma… os dias que faltavam para as férias no saudoso Portugal. A família. O Verão. A praia. O calor. Segundo o Miguel, o Luxemburgo só tem duas estações: o Inverno e a estação de comboios. Quando chegámos, voltámos a agradecer. Trocámos números de telefone e beijinhos. “Se precisares de alguma coisa, não hesites!”

A viagem foi caótica. A linha estava cortada, tivemos de apanhar uma camioneta a meio. E esperar imenso tempo, num apeadeiro perdido do Luxemburgo, pelo comboio seguinte. Valeu-nos os croquetes, as chamuças e os travesseiros que a avó trazia para nós na mala. Acho que nunca me senti tão emigrante na vida. Quando regressámos a casa, voltamos a cair no belgicismo habitual. O meu amor já tinha a mesa posta com vários pratos. E velas perfumadas. Com o seu tom calmo, informou que já tinha ido a casa dos pais buscar um carro, para poder levar o Diogo ao trabalho no dia seguinte. Que não era preciso preocupar-me com nada.

No Domingo de manhã, recebo uma mensagem do António a dizer que não tinha conseguido encontrar nenhuma garagem onde pudessem desenrascar o arranjo do carro. Os portugueses estão todos na recta final para voltarem a casa nas férias. Estou desconfiada que 35% do Luxemburgo deve parar em Agosto. Nessa madrugada, o meu amor e eu decidimos arriscar a trazer o Twingo para a Bélgica. Levámos os cabos para o rebocar, caso corresse mal. Fiz quase 150 quilómetros sempre em 5ª, da estação de serviço do aeroporto até ao meu mecânico. Abrandei o mínimo possível e nunca me arrisquei a parar. Entrei e saí da autoestrada pela faixa de emergência. Atravessei a rotunda em forma de amendoim da Baraque Fraiture a direito. Tive mesmo de queimar um sinal vermelho, já quase a chegar a Vielsalm. Cruzei-me com uma raposa. Quando estacionei o carro à porta do mecânico, suspirei de alívio. Estava a tremer. Eram 3h30 da manhã. Vim o caminho todo a falar com o Twingo. A recordar as aventuras dos últimos três anos. Já vivemos umas quantas e nunca me deixou ficar mal. Deve ter sido o mais perto que estive de ser crente, em 40 anos de existência ateia. Funcionou.

Adormecemos a rir, aninhados como sempre. A recordar no escuro as peripécias da fuga do Luxemburgo. Desde o início do Verão, não têm parado de chover despesas inesperadas. Problemas vários. A 2500 quilómetros a Sul, alguém decidiu deixar de pagar a pensão de alimentos. A máquina de lavar morreu definitivamente. O carro está a ser ressuscitado. Acho que se pode dizer que ando em maré de azar. Maré de azar financeira, entenda-se. Tenho saúde. Trabalho. Amor à minha  volta. Uma casa que devagarinho se transformou num lar. O companheiro de aventuras perfeito. E filhos felizes. Tenho uma maneira descontraída de encarar as adversidades. Encontro sempre personagens adjuvantes pelo caminho. Sempre. O exercício da gratidão repete-se, todas as noites. Sou uma pessoa de sorte.


Guardo com carinho a última mensagem do António: “Es fiche”.

6 comentários:

  1. Respostas
    1. Gostava tanto que a minha vida fosse um mar calmo, Gralha!

      Eliminar
  2. Sempre a achei muito fixe, não sei se é a mesma definição da usada na outra mensagem...Como este ano faltaram na viagem à Dinamarca as peripécias da viagem do ano passado a Marrocos, tiveram que "apimentar" um percurso normal para nos alegrar como espectadores à distância! Bom fim de semana, grande Rita!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Sim, a nossa pequena aventura anual desta vez foi com o pequeno Twingo, que ainda anda a pagar a factura da aventura que sofremos este inverno na neve! É o que dá encadear aventuras... :)

      Um beijinho, Mariana.

      Eliminar