terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Um caminho a percorrer

(“enquanto houver estrada para andar, a gente vai continuar”)

 

Já te dei tantas prendas. Eu gosto muito de dar prendas. Gosto de te dar prendas. Nos dias certos, nos dias especiais, nos dias inesperados. Já te dei prendas despudoradamente úteis. Umas calças de ganga. Lenços de pano. Luvas de lã. Prendas inusitadas. Uma fotografia a sépia de uma biblioteca destruída na segunda Guerra Mundial. Prendas inventadas por mim. Um candeeiro feito com um ramo perfeito que encontrei num dos nossos passeios pelos bosques de Malempré. Prendas estranhas. Uma espécie de tupperware em forma de pintainho para fazer ovos cozidos no micro-ondas, que serviu de bibelot enquanto estiveste em Itália porque não percebeste para que servia. Prendas que te deixaram comovido. Quando te fiz um bolo de anos pelos teus 40 anos. Prendas que te arrancaram uma gargalhada. A série completa de V. Prendas que demorei muito, muito tempo a encontrar. Uma tradução bilingue de O Marinheiro, do Pessoa.

Hoje calçaste as botas que te dei. Como tens feito todos os dias, desde que as recebeste, espantado. Olhavas para mim e para a caixa. E para mim. Perguntaste: “Compraste-me umas botas?” Respondi apenas que estava a nevar. E hoje, pelo canto do olho, vi-te sorrir ao calçá-las. Percebi que estavas a pensar em mim. E corei. Levantaste os olhos e apanhaste-me. Disseste: “Nunca me tinham oferecido umas botas. Tu cuidas de mim. Sei que as escolheste especialmente para mim. São tão confortáveis! E sempre que as calço penso que vamos fazer muitos quilómetros juntos, tu e eu. Temos um caminho a percorrer.”


2 comentários:

  1. Que texto tão bonito. Percebo-te bem, tenho sido a destinatária de presentes estranhos, especiais, a pensar em mim; tenho-os oferecido também ao longo dos anos.

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  2. Ahhh... um dia também tenho de escrever um post sobre as prendas especiais que tenho recebido! ;)

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