sábado, 31 de janeiro de 2015

Verdade ou Consequência

(onde se percebe que esta que vos escreve não tem perfil de blogger)


 
Gosto muito de dar aulas à noite. Tenho praticamente o mesmo grupo do ano passado. Gente mais velha, numa fase engraçada da vida… filhos crescidos, tempo livre para viajar, namorar, estudar, divertirem-se. É bonito de se ver. Dar aulas a esta malta é muito mais do que um trabalho. É o meu momento de descompressão da semana. Farto-me de rir. Até porque, aos poucos, fomos criando laços que extravasam a sala de aula. Debatemos ideias e problemas. Idealizamos viagens. Trocamos livros, filmes e CDs. Enviamos mensagens uns ao outros. Acho que já nos conhecemos todos bastante bem. Mas, depois, há sempre um lado lunar, secreto, que nos apanha completamente desprevenidos…

Na última aula, jogámos a uma versão aldrabada do “Verdade ou Consequência”, que eu inventei para eles treinarem os tempos verbais. Neste caso, o pretérito perfeito. Claro que a consequência é conjugar um verbo irregular, cantar uma canção em espanhol, dizer cinco advérbios de lugar, etc.

Fiquei, então, a saber que:

O machão da turma passou um ano a escrever poemas de amor para conquistar a amada. Estão juntos há 25 anos.
A dona de casa típica dança o tango aos fins-de-semana. E diz que aquilo reavivou o casamento.
A colega do lado, diz que foi a viagem que fez no Verão passado com o marido pela América do Sul.
A stressada crónica já fez um périplo pela selva, na Tailândia. E gostou.
O nosso holandês de serviço decidiu aprender espanhol para conseguir ler a “Hola”, que compra religiosamente todas as semanas.
A mãe de cinco tem aulas de rock n’roll aos domingos à tarde. Com o cunhado.
A nossa testemunha de jeová admitiu que ia sacar material para os nossos debates mensais num site dos jeovás que está traduzido em várias línguas. E garantiu que aquilo é melhor do que a wikipedia.
A misteriosa da turma vai aos Açores na Páscoa. Mas teve de dizer ao marido que também falam espanhol por lá, para “rentabilizar” o serão semanal que passa na escola.
A outra holandesa confessou que insulta os colegas de trabalho em holandês. Depois de demorada troca de ofensas, chegámos à conclusão que, de facto, o flamengo da Flandres e da Holanda também difere nesse ponto.

Depois, chegou a minha vez de lançar a dúvida: He escrito un blog el año que pasó. Desatou tudo a gritar: “Mentira!”, “Não escreves nada!”, “Consequência, consequência!”, “Vais ter de cantar!”... Sinceramente, não percebo. Eles contaram as coisas mais estapafúrdias e a maioria era mesmo verdade, mas acharam impossível que eu escrevesse um blog…

 

4 comentários:

  1. Ahahaha! Pareceu-lhes que um blog era uma coisa demasiado à frente? :D
    Engraçado,como as aparências podem mesmo iludir. Ou de como todos temos um lado que poucos conhecem.
    Bom fim de semana

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  2. Agora que perguntas, fiquei a pensar... Não sei se o blog é uma coisa muito à frente, mas a verdade é que não conheço muitos blogs belgas. Talvez haja, mas não me parece que esta gente seja tão dada a botar discurso como nós! ;)

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  3. Acreditas que quando contei a duas amigas minhas, amigas daquelas do peito, desde tenra infância, que mantinha um blog, a cara foi de espanto total?!

    E quando lhes disse que também tinha um blog de crafts?!

    De repente parece que nos olham como se fôssemos ET's... não percebo!

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  4. Ó pá... pelo menos, não sou a única, Naná! ;)

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